“Era primavera de 1975 e o dia estava com uma temperatura bastante agradável. Na escola os alunos já se mostravam bastante animados com o fim do inverno, planejando festas na beira da praia, com muita música e bebidas.

Naquele dia eu estava bastante animada porque minha melhor amiga, Érica, tinha planejado uma festa do pijama na minha casa. Não seria bem uma festa, pois só estariam presentes nós duas, mas essa era a melhor parte. Ela me entendia e eu aceitava o jeito extravagante dela de ser então, não precisávamos de mais ninguém.

A primeira aula era Literatura, a minha favorita. A professora Carmen entrou com seu habitual sorriso. Ela era sempre assim. Não me lembro de alguma vez tê-la visto entrar na sala de aula com outra expressão em seu rosto.

— Bom dia classe! — disse, alegre — Hoje eu tenho uma surpresa para vocês. A direção me autorizou a realizar um projeto que eu queria muito. Como vocês estão no segundo ano do ensino médio, é importante que já tenham em mente o que querem fazer depois que o terceiro ano acabar, por exemplo, qual curso vão querer fazer na faculdade. E para ajuda-los nessa decisão, nós professores entramos em contato com várias universidades do país, os reitores conversaram com alguns alunos, mais especificamente dez de cada área, e os que concordaram nos deram seu endereço completo que está nessa lista aqui na minha mão.

A professora falava rápido e ninguém entendeu nada. Então ela parou, respirou e explicou:

— Vocês vão pensar em um curso que mais combina com sua personalidade e irão escolher uma das pessoas que estudam nesse curso para se corresponder. Vocês terão dois meses para conversar por cartas e conhecer mais sobre a área que escolheram. Os alunos das universidades irão explicar tudo o que desejam saber sobre aquele curso em específico. Entenderam? — alguns não ficaram muito animados com a ideia então ela continuou — E só para deixar bem claro, no final desses dois meses vocês deverão apresentar, em forma de seminário, o que aprenderam sobre a área que escolheram. E essa apresentação deverá ser muito bem feita, pois valerá sessenta por cento da nota.

Houve resmungos imediatos na sala, mas ninguém ousou debater com ela. A lista de nomes e endereços foi pregada no mural, e um por um dos alunos, em ordem de chamada, se levantou, escolheu e sentou, em silêncio.

Eu havia escolhido o curso de Letras. Queria estudar as obras literárias dos grandes autores. Quando chegou a minha vez de ir até o mural, como as outras salas haviam escolhido antes de nós, para o curso de Letras havia somente uma pessoa disponível, alguém com o nome de Fernando Voltolini. Anotei seu endereço e fui para o meu lugar começar a escrever.

— Lembrem-se crianças — a professora Carmen dizia, de modo descontraído, enquanto caminhava pela sala — Como é a primeira carta, vocês terão o tempo dessa aula para escrever, as próximas escrevam em casa. E depois que acabarem esses dois meses, deverão encerrar as correspondências. Esse contato é apenas para o trabalho escolar.

Eu não sabia como começar aquela carta. Na verdade, era a primeira vez que escrevia para alguém. Os textos e estórias que eu diariamente criava eram apenas o meu passatempo, ninguém nunca leu. Nem mesmo Érica. Então respirei fundo e decidi escrever apenas o básico.

‘Olá Fernando. Eu me chamo Isabel, tenho dezessete anos e, como já deve saber, estou nesse projeto sobre a carreira que pretendemos seguir.

Eu escolhi Letras por ser o que mais me identifico. Tenho uma coleção pequena, porém impecável, com os meus livros preferidos.

Você escolheu Letras por qual motivo? Qual o seu livro preferido? Quais as coisas mais legais que já aprendeu na faculdade?

Aguardo suas respostas.

Isabel Alves’

A carta foi enviada e na semana seguinte eu recebi a resposta dele. Era uma letra bonita, como se a carta tivesse sido escrita com todo o cuidado possível. E foi uma resposta bem diferente do que eu esperava. Foi algo mais descontraído, mais alegre. Dizia assim:

‘Prazer te conhecer Isabel Alves e, antes que eu me esqueça, bonito nome.

Eu sou Fernando Voltolini, tenho vinte anos e, sinto lhe informar, mas houve um engano. Eu não estou cursando Letras e sim Psicologia.

Os professores devem ter errado quando pegaram os nossos dados. Mas não seja por isso, posso mesmo assim responder suas perguntas.

Não escolhi Letras, porém escolhi Psicologia pelo desafio de tentar compreender o comportamento das pessoas. Para ajuda-las quando não conseguirem mais compreender a si mesmas.

Eu não tenho um livro preferido, mas posso citar frases que eu mais gostei nos livros que já li.

Gosto especificamente de filosofia e poesia.

As coisas mais legais que aprendi na faculdade, por incrível que pareça, não foi o que os professores ensinaram, mas sim no convívio com as pessoas de outros cursos. Elas têm tanto a ensinar. Crenças, sentimentos, lutas, coisas que fazem delas o que elas são, e conforme vão mudando as opiniões, nós nos transformamos e esse é um processo maravilhoso.

Desculpe por falar demais. Aposto que fiquei parecendo um louco agora.

Se não estiver muito assustada, espero por uma resposta sua.

Até mais, Isabel.’

Quando terminei de ler, eu sorria feito uma boba. O jeito dele, a forma e a alegria de falar sobre o que gostava era contagiante mesmo através do papel. Mas tinha um problema, ele não fazia o curso que eu havia escolhido. Eu deveria deixar de conversar com ele e falar com a professora sobre o ocorrido. Porém, algo em mim dizia para continuar, para responder pelo menos àquela carta escrita de forma tão apaixonante. E foi o que eu fiz.

‘Fernando, em primeiro lugar, gostei do jeito como descreve as coisas. Não fiquei assustada, fiquei admirada. Dá para perceber que é realmente apaixonado pela área que escolheu. Dá uma sensação boa te ver falando assim. Fico com vontade de começar logo a fazer o curso que escolhi e ver se sinto em mim essa mesma paixão que vejo em você.

Sobre o erro, o certo seria eu comunicar a minha professora sobre o que aconteceu pra eu poder fazer o trabalho. Ele vale sessenta por cento da nota do bimestre e se eu não apresentar provavelmente ela irá me reprovar.

Eu também tenho frases favoritas de meus livros preferidos. No meu quarto, tenho um mural com centenas dessas frases. Quer ver uma?

“Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais pressentimentos e desejos do que de raciocínios e forças vitais. E, então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e, sonhando, penetro ainda mais neste mundo…”

Os Sofrimentos do Jovem Werther – Goethe

Este é um ótimo livro, se ainda não o leu, eu recomendo.

Falo com a professora depois de sua resposta.

Até mais.’

Eu não sabia o porquê, mas eu não queria que a professora Carmen me mandasse conversar com outra pessoa. Eu queria que houvesse uma solução para o problema. Eu poderia não falar nada para ela, mas como conseguiria todas as informações necessárias para colocar na minha apresentação?

Foi então que, na semana seguinte, chegou mais uma carta que ele havia escrito. E ele me propôs uma solução.

‘Querida Isabel, se me permite chamá-la dessa maneira, acho que tenho a solução para o nosso problema.

Eu quero que você se saia muito bem nesse trabalho e não seja reprovada, porém quando li a frase que me mandou percebi que não quero deixar de conversar com uma pessoa que leu e gostou de Os Sofrimentos do Jovem Werther.

Portanto, faremos o seguinte: Eu vou conseguir, com as pessoas que conheço e que fazem o curso de Letras, todas as informações necessárias, e mando para que você possa fazer o seu trabalho. Você aceita?

Espero muito que aceite.

Tenho que ir terminar um trabalho da faculdade, mas deixo com você uma das minhas frases favoritas.

Um abraço.

Espero sua resposta.

"Eu descobri em mim mesmo desejos, dos quais nada nesta Terra pode satisfazer. A única explicação lógica é que fui feito pra outro mundo."

C.S.Lewis'

Naquela noite eu fui dormir sorrindo, como você está agora. Um sorriso bobo, inocente, junto com um sentimento acolhedor no peito.”

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo. Até o próximo.