Cartas para mim mesma

2 Alguma Coisa e Nº 3


Outras pessoas podem colocar em palavras o que sentem. Pessoas feitas de coisas substanciais. Pessoas feitas de carne, sangue, ossos, palavras, papeis, roupas. Outras pessoas sabem como. O quê, eu não sei, mas elas sabem.

Eu nasci feita de sentimentos. Coisas que não têm matéria. Feita de sons sem palavras, sensações que não se põem em papel nem em filme nem em nada. Cheiros, lágrimas; se bem que as lágrimas são substanciais. Feita do som de um violino, de um piano. Feita não do quadro, mas da sensação que se tem ao olhar para ele. Não da água, mas o que se sente ao bebê-la. Não da palavra, mas do que se sente ao escutá-la.

Como alguém feito dessas coisas pode viver em um mundo feito de matéria?

Como alguém feito dessas coisas pôde acabar preso num corpo como os demais, limitado, com uma mente limitada, uma língua cheia de palavras limitadoras. Um mundo de limites. É impossível voar. É impossível, pois a gravidade nos puxa para baixo.

São sentimentos demais para um corpo limitado.

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Um dia talvez eu me iluda

E diga que é assim que a vida deve ser

Talvez eu não me importe mais em fingir me importar

Talvez eu diga que a vida é curta demais pra se importar

E aí eu serei adulta

Aquele tipo que eu olhava

E sentia a tristeza da sua alma

E sentia o peso dos anos e das saudades

Mesmo sem conhecer

Mesmo sem ter dito uma palavra

E um dia essa tristeza não vai mais importar

Pois eu terei outra vida, outros sonhos

E meus antigos serão esquecidos

Guardados, acumulando poeira junto com as memórias

Junto com as saudades

E eu não serei mais eu

Eu serei quem eu não queria ser

E não vou me importar.

Tenho medo de não me importar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.