Cartas para Timóteo
2 A Balada da Contra-Mão
Algo em minha mente precisara de certezas de que minha alma estava alí. Algo em minha mente me suplicara o afago de sentir meu coração pulsar novamente. Algo em minha mente implorava para ter uma emoção.
Eu não conseguia.
Eu não conseguia sentir dor, sentir prazer ou qualquer outra sensação ou sentimento comum à maioria das pessoas. Eu não conseguia sentir sequer meu próprio corpo, sequer minhas próprias mãos cambaleosas que rabiscavam agora um poema viés à uma folha em branca qualquer.
Eu não conseguia sentir e, por um momento, eu não conseguia me sentir: eu estava no chão, jogado à masmorra de meus desejos mais ocultamente e detalhadamente planejados, mas nunca concluídos, nunca iniciados e nunca sentidos. Eu perdia minha forma humana e agora estava livre para voar, mas não. Eu perdia minha forma humana e me tornava um preso, escravo de meu próprio ardor, como um pássaro com as asas cortadas que não consegue desempenhar sua maior idiossincrasia, por intermédio de um miserável infausto que o mutilou. Eu era meu ominoso, eu havia cortado minhas próprias asas.
Minha mãe – por quê sou este? Por que não me sinto? Por que não sinto dor em meu corpo? Por que não me alivío? Por que não grito? Por que não peço socorro? Por que não existo? Por que cortei minhas próprias asas, se delas dependendo? Por que não posso amar? Por que?
Eu só possuía interrogações, mas nenhuma resposta ou sinal. As nuvens branquíssimas agora entravam em comunhão ao vento doce e úndo, ele acariciara meu rosto e me trazia memórias de infância, das memórias de almas puras, de mentes simplórias e geniais – sem medos, sem preocupações ou prazeres negáveis: a minha alma pura alimentara minha gentileza de amor – minha carência de afago – minha vontade de viver e me doar: a minha vontade de amar.
Meu cansaço era evidente e pesava em meus olhos – o meu cansaço não era apenas ausência de sono por uma noite mal dormida, eu tinha cansaço da vida, das mesmas pessoas, das mesmas histórias e das mesmas poesias, eu só queria poder viver e existir, eu só queria tomar meu corpo da súbita angustia que me afligia e me domava, eu só queria me conhecer: eu empeçava uma luta injusta entre meu corpo e minha mente, iludido à gravidade de domá-la, firmado ao desejo de conhece-la.
Com os olhos pesados deixei meu corpo se auto conduzir, virei com a barriga para baixo e fechei os olhos, as primeiras gotas finíssimas de chuva já tocavam meu corpo e adentravam meu cabelo agora com folhas grudadas sobre eles. Eu sentia as gotas tocando meu corpo e aquele era meu único sinal de existência nas últimas décadas, as gotas finas me arrepiavam a espinha e aquilo me renascia, me acolhia em profunda gratidão a sua existência, me desejava e principalmente me fazia saber meu nome, pedindo a coisa mais perigosa e proibida: eu estava obrigando a Deus a resposta à uma pergunta que poucos dispõe a resposta, mas dispõe.
Permaneci deitado até que a chuva engrossasse o suficiente para produzir um pequeno lago ao pátio e eu me sentisse afogado por uma patética existência, uma patética criação e ilusão, que me definhavam e me obrigavam a sair, me obrigavam a sentir medo, angústia e receio, que me obrigavam a ser fraco. Adentrei minha casa com o corpo molhado e segui para debaixo do chuveiro, o caminho era comum aos meus vinte anos, mas só hoje notei os detalhes que lhe pertenciam e que me mantinham sequestrado.
Sentei ao box e liguei o chuveiro em sua velocidade máxima, o seu barulho produzido me angustiava e arrebatava meus pensamentos, a água era veemente tratada e inconsumível a qualquer ser vivo, a água já não era mais a mesma, já não era mais pura como as águas da chuva, elas não produziam o mesmo som, o mesmo efeito e a mesma temperatura, a água não me fazia bem, ela limpava de meu corpo os últimos resquícios de pureza, os últimos resquícios de naturalidade.
Enquanto cada gota tocava meu corpo, minha mente viajara para um lugar diferente – tão indeterminados quanto indescritíveis, eu não sabia onde estava, apenas absorvia todas as características de onde vivia, de onde transgredia e reprimia, de onde podia brincar de casinha e ser a mãe, de onde podia ser o que meu coração pedia.
A água limpava meu corpo e ao mesmo tempo o poluía, tirava impurezas e trazia respostas, trazia experiências e vivência, trazia todos os sentimentos possíveis a maioria dos seres, e eu queria um único específico, mas a água me impedia, me tirava o pouco que já tinha conquistado com a força de um leão em sua presa.
Eu não podia mais ter aquilo.
Enxuguei-me e voltei para o exterior de minha casa: o frio despedido e o ranger de meu corpo comprovavam que aquilo não era apenas uma alucinação, eu estava sentindo. Eu sentia a chuva, sentia a água, sentia o frio, sentia tudo o que me era real e alcançável, mas eu estava desafiando Deus.
A chuva continuava fortíssima e seu doce som produzido cessava como música ao meu ouvido, já atordoado. Deus sabia o que eu queria, mas não ousava me dar, não podia me dar pois eu não era capaz, eu era fraco e saliente, sem capacidade para administrar tamanha responsabilidade arbitrária, tamanho remédio ao meu ser e à minha existência. Deus abria meus olhos e aquilo me fazia enxergar onde estava, sem saber onde estava.
Eu não sabia o que estava acontecendo: tudo parecia novo para mim – pela primeira vez eu sentia a sensação doce em meu corpo e a sensação de sentir algo. Eu estava nascendo naquele momento, eu estava tendo meu primeiro contato com o mundo. Deus havia tocado meu coração e eu finalmente podia sentir, podia ver, podia sofrer e viver, e eu queria sentir tudo ao mesmo tempo, no mesmo instante, como um orgasmo puramente feito de sentimentos, tratado unicamente em sensações cotidianas que elevam o prazer de sentir ao seu nível máximo.
Eu queria tudo, mas não tinha nada.
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