Cartas para Derek
35 Só existe o passado, e ele nem importa mais tanto assim
Notas iniciais
Stiles
Eu estou te mandando esse e-mail pra te dizer que eu acabei de fechar a minha mala, eu acabei de terminar os últimos papeis e me despedi de todo mundo que eu precisava me despedir. Eu organizei meu quarto, organizei minha vida aqui no Kosovo até agora e meus pensamentos.
Organizei tudo.
Deixei pra trás muitas das coisas que aconteceram comigo, deixei pra trás um pouco das coisas boas — meus sonhos, minha saúde — mas deixei coisas ruins também, mesmo que as memórias continuem comigo por todo o resto do caminho.
Agora, finalmente, eu estou indo pra casa.
Eu vou chegar aí no dia 20 de dezembro, provavelmente à noite, segundo o que diz o horário dos meus voos.
E daí eu não saio mais.
E sei que, talvez, é muito pedir que tu venha me ver, mas mesmo assim que vou pedir — vem me ver. Eu não sei aonde tu vive em Beacon Hills, eu sei que até parece bobo, mas nós nunca trocamos o endereço exato pra saber onde tu mora, e eu tenho certeza que quando eu chegar em casa eu vou querer dormir por dias.
Mas se tu vier me ver eu vou ficar acordado por todas as horas em que tu estiver do meu lado.
Eu quero te ver. E sei que tu quer me ver também.
Sabe, esse último mês que a gente conversou e se conheceu melhor, eu quase senti que tu sempre estava do meu lado, que eu iria ter um tempo de todos os meus dias pra falar contigo. Tu já é parte da minha rotina.
E tudo que nós fizemos vai ficar guardado dentro de mim pra sempre. Tudo que você disse para mim, também.
E eu quero ter a oportunidade de dizer tudo na tua frente, milhões de vezes, se puder.
Eu só não me despedi desse jeito pois eu não sei se eu não consegui falar contigo sobre essas coisas, ou eu simplesmente lembrei delas agora — se bem que, isso nem é uma despedida, é quase como se fosse uma recepção. Ou um pouco do que vai ser a minha vida daqui em diante.
Na hora que tu ler isso eu já vou estar no avião, então eu tô aqui, escrevendo, pra te dizer que a gente vai se ver logo, okay?
Eu te amo e não vejo a hora de te ver frente a frente.
Ou melhor, eu quero, mais do que tudo, ver essa hora. E todas as outras que eu puder passar contigo.
Derek
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“Não, eu não quero nem saber, quem te deu o direito de não aparecer por aqui, Stiles?” Laura, zangada, falava ao telefone com ele. Ao funo era possível se ouvir barulho de pessoas conversando.
Ela estava no aeroporto em São Francisco.
Ele em Beacon Hills.
“Eu não tive o que fazer, meu pai não queria me deixar ir, mas depois ele deixou, quando eu enchi o saco dele o bastante e disse que era o Derek. Quando eu fui sair o Jipe estragou completamente e eu fiquei sem carro e aqui em Beacon Hills, vou ter que ficar aqui até amanhã, pelo menos, pra ver o que vai ser no meu carro e depois decidir o que vou fazer..” Stiles respondeu, voz triste. Ele suspirou.
“Ah, que droga.” Laura falou, ainda irritada. Ela bufou.
“Eu sei, eu sei. Eu queria ver ele. Eu…” Stiles parou de falar e respirou fundo.
“Eu sei, Stiles. Eu só tô irritada por estar mesmo. Eu queria ver o Derek feliz, só isso.” A voz já estava mais controlada ao final da frase, mesmo que ela estivesse bastante insatisfeita com a situação toda.
“Uhum…” Stiles só assentiu.
“Mas quando tu tiver uma chance, tu vem, sem problema, Stiles.”
“Eu sei.”
“E tu vem dormir aqui em casa. Tu sabe que Derek tem um quarto aqui e vocês podem dividir sem problema.” Laura falou.
“É. Eu, hum, só não sei o quanto eu vou poder ficar aí, pois eu tenho que passar o Natal por aqui, e eu quero passar junto com meu pai. Então, se por acaso o conserto demorar, eu vou ficar por aqui mais uns dias, mas no ano novo eu já posso ir aí.” Stiles disse. “Quem sabe eu fico por aqui por mais esses dias, mesmo, e logo no dia 26 eu vou aí e fico até o Ano Novo. Claro, se tu não me expulsar daí antes.”
“Não se preocupe, Stiles, daqui eu não iria te expulsar mesmo. E eu também nem sei se vou deixar o Derek ficar contigo o tempo todo, afinal, eu gosto de você também.” Laura falou, sorriso na voz.
“Eu posso ficar um tempo contigo sim, mas sabe, vai ser a primeira vez que eu vou ver o Derek e…” Ele começou, mas a voz falhou em um pequeno riso.
“O que foi, Stiles?” Ela perguntou.
“Eu…” Ele riu. “Às vezes eu penso em todos nós e vejo que loucura que nós estamos vivendo, sabe?” Ele suspirou e sacudiu a cabeça.
“E tem algum problema?”
“Não exatamente. Só…” Stiles respirou fundo. “Sabe, há quase dois anos atrás eu era esse garoto boboca que morava numa cidade do interior. Ainda moro. Do nada eu conheci o Derek, me apaixonei por ele. Depois, um mundo de coisas diferentes aconteceu, encontros e desencontros, muitas ideias diferentes colidindo na minha cabeça.” Ele suspirou.
“E quem não tem ideias se colidindo na cabeça, Stiles?” Laura perguntou, retoricamente. “Eu sou uma reclusa, praticamente. Eu tô aqui esperando pelo Derek no aeroporto e se eu não estivesse falando contigo eu provavelmente estaria olhando para os lados e checando as pessoas. Você confunde as datas dos aniversários e vai continuar sendo assim até morrer.”
“E menti para o Derek.” Ele interrompeu.
“E mentiu para o Derek — no entanto a mentira nem é mais importante, Stiles. Ele sabe a verdade, ele sabe como a tua cabeça funciona — ou ele tenta melhor que eu.” Laura completou.
“É, ele tenta.” Stiles sorriu.
“Pois é, e o Derek cuidou de mim como se fosse meu pai e depois me largou pra viver a vida dele — eu não culpo ele nem um pouco, pois se fosse eu, eu iria viver a minha vida. Sem falar que agora ele tem um complexo com o fato de que ele manca um pouco e tem as costas cheias de cicatrizes.”
“Uhum.”
“Então Stiles, se não bastasse a mente de cada um ser cheia de conflitos, todos nós temos conflitos fora dela. Nós temos conflitos externos, com o nosso corpo, com nossas atitudes e até com o jeito que os outros nos veem. Nós temos conflitos com tudo. Não sou só eu nem só você.”
“Eu sei, Laura.” Stiles suspirou. “É que, parece que tanta coisa mudou desde que eu conheci o Derek, depois que te conheci. Parece que a minha vida tomou um rumo diferente de qualquer outro que eu tivesse imaginado antes.”
“E tu queria que a tua vida tivesse tomado outro rumo e não esse?”
Stiles ficou em silêncio.
“Era o que eu pensava.” Laura falou.
“O que?”
“Stiles, não importa quantos futuros diferentes a gente imaginar, nenhum deles é o que nos aguarda. E esse que nos aguarda é o único que a gente não sabe, e nunca vai saber. Minha mãe sempre dizia que não existe futuro nem presente. A única coisa que existe é o passado. O milésimo de segundo que tu usou para piscar o olho é passado. A palavra que tu acabou de ler é passado, tu pode ler ela de novo, mas mesmo assim ela vai ser passado. E o futuro a gente não sabe de nada — um segundo você pode estar bem e no outro, um meteoro pode cair na tua cabeça e te matar.”
“Tu tá tomando o teu remédio pra depressão?” Stiles perguntou.
“Sim, seu boboca. O que eu tô querendo dizer é que, se tu não quer esse futuro, começa a fabricar outro. As pessoas e coisa que tu quer no teu futuro, mantém perto de você. Deixa ao alcance da mão. O que tu não quer, afasta. E vive, Stiles, nada é tão importante quanto as coisas que tu faz. O que tu deixa de fazer pode se tornar arrependimento — bom, o que tu faz também, mas é melhor se arrepender de ter feito alguma coisa do que se arrepender de nem ter tentado.”
“Alguém andou lendo bastante Augusto Cury.”
“Stiles!” Laura riu. E Stiles também.
“Eu sei. Eu entendo. Eu só nunca imaginei isso, mas eu tô feliz. Tô feliz comigo, tô feliz com vocês, com minha vida.”
“E com o Derek.”
“E com o Derek.”
Os dois ficaram em silêncio por um momento.
“Eu acho que eu vou ficar o Natal aqui e a gente se vê no dia 26, certo?” Stiles perguntou.
“Okay, Stiles. Eu aviso o Derek — vocês vão falar por Skype também, mas eu aviso ele mesmo assim.”
“Obrigado, Laura.”
“De nada.”
“Volta aí pra checagem das pessoas.” Stiles riu.
“Boboca.”
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