Notas iniciais
Esse capítulo não é a maravilha que eu queria que fosse - e é bem mais pessoal do que eu esperava, mas minha vida deu uma guinada um pouco infeliz nos últimos dias, e só agora eu consegui me organizar emocionalmente pra escrever. E eu só escrevi pois eu senti falta e queria colocar algumas coisas no papel. Por isso, um capítulo bastante sentimental.

1 de junho de 2011

Derek

Sabe, hoje eu senti a vontade de falar sobre minha família. Eu sei que eu disse que não ia falar muito porque a gente não gosta disso, eu e meu pai — assim como você. Mas eu quero falar.

Essa semana aqui em Becon Hills, uma senhora morreu — ela foi uma das minhas babás quando criança. Eu não sei como falar sobre isso exatamente, mas a morte dela não foi passiva — se tu compreende o que eu quero dizer, mas eu simplesmente não quero escrever aquela palavra.

Bom, vendo como a vida é estranha, afinal, eu não via ela há muito tempo, mas eu senti um aperto no coração de saber que as coisas aconteceram assim, e acabei sentindo essa vontade de visitar um pouco do passado — e eu acabei indo ver os álbuns de fotos antigos, vendo as recordações que eu tenho com a minha mãe, e os momentos de quando eu era apenas uma criança.

Sabe, eu vi essa foto de mim e dos meus pais no Grand Canyon, a única viagem para fora da Califórnia que nós fizemos. Foi quando eu tinha seis anos, e a gente só fez essa viagem depois de muito tempo de insistência da minha mãe. Eu sequer me lembro de muito do que nós vimos por lá, mas as lembranças que eu tenho são algumas das mais felizes que ainda vagam pela minha memória. Principalmente a história por trás da foto.

Nela estamos nós três à beira do rio Colorado, pois eu era uma criança bastante ativa, e minha mãe também, o que fez com que nós conseguíssemos arrastar o meu pai junto para fazer a trilha descendente ao rio. A foto é muito bonita, com nós todos sorrindo, meu pai com um braço em volta da minha mãe e eu no meio — com um enorme buraco no meio dos dentes pois eu havia perdido dois deles.

Naquela foto eu vi tudo que nós três éramos naquela época. Como nós éramos uma família tão perfeita, como tinha tanto amor entre nós e como nós éramos felizes. Eu olhei para os olhos dela, que são iguais aos meus e vi ela perto de mim. Do meu lado, uma força, uma presença.

Eu preciso lhe dizer que eu chorei. E eu não me sinto menos homem por dizer isso, e nem um pouco estranho. Eu só…

Eu sinto muito falta dela, sabe?

Tem tantas coisas que eu queria que ela visse, tantos momentos da minha vida que eu queria que ela compartilhasse comigo e com meu pai, tantas coisas que eu queria que nós três fizéssemos juntos. Eu queria ter contado para ela como eu me senti no primeiro dia em que meu professor disse que eu escrevia bem, ou no dia em que eu marquei meu primeiro ponto no lacrosse. Eu queria ela lá na arquibancada gritando meu nome.

Mas eu nunca tive isso.

Meu pai me deu o máximo de carinho que ele podia. E eu amo ele por isso. Mas sabe, um não substitui o outro. E ás vezes é…

Difícil.

Essa carta parece bastante mais triste do que o normal, mas eu só senti a necessidade de contar essa história e mais nada.

Bom trabalho,

do seu companheiro de cartas — e garoto que não tem vergonha de chorar,

Stiles

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“O que foi Derek?” A voz de Laura ecoava pelo telefone, mesmo que os sons que saíam dela as vezes não eram mais altos do que um suspiro.

“Nada demais.” Ele mal conseguiu controlar a frase — respiração descontrolada, coração batendo forte, uma ou outra lágrima escorrendo pelo seu rosto. “Eu só queria ligar pra… ouvir a tua voz.”

Ela riu, bem baixinho. “Eu também sinto a sua falta, Derek. Mas eu estou bem. Pelo menos o máximo de bem que eu vou estar. Não se preocupe comigo. Nossa vida já passou pelo pior momento. Daqui pra frente, é sempre eu e você. Juntos.”

“Mesmo que tenha um oceano inteiro entre nós.” A voz dele saiu embargada. O choro era silencioso, mas estava ali.

“Eu sei. Mas esse é o seu trabalho. E é o que você ama fazer. E o que eu quero que você continue fazendo. Quando essa missão terminar, você volta pra cá e eu vou estar te esperando de braços abertos.”

Derek apenas conseguiu grunhir a resposta afirmativa, enquanto fungava o choro de volta pra dentro.

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10 de junho de 2011

Stiles

Eu sinto muito que tenha acontecido isso por aí. Mesmo. Eu sei como as pessoas que cuidam da gente são importantes pra nós e eu sei como eu gostaria de poder cuidar de muitas delas agora.

Mas eu também sei que muitas vezes nós não teremos a chance de ser para elas o que elas foram para nós. Por isso eu sei o que você está passando. Bom, não exatamente, mas eu acho que você entende do que eu estou falando.

Eu não me sinto pressionado em te responder nada, Stiles, mas como você se abriu um pouquinho, eu decidi que eu poderia também.

Eu ainda não consigo falar muito da minha família como um todo — eu eu acho que você deve imaginar o porquê. Mas eu vou falar da minha irmã, a única parte da minha família que eu tenho.

Ela é a coisa mais importante pra mim. Ela é a pessoa pra quem eu sempre pedi conselhos, pra quem eu sempre contei segredos e que sempre me disse coisas muito importantes, coisas que eu guardo no meu coração até hoje. Ela é a pessoa mais forte que eu já vi na minha vida — e isso vindo de um soldado que desde os dezoito anos têm visto coisas horríveis, têm visto pessoas morrerem. Têm visto o mal dentro de algumas delas aparecer e o bem sumir.

E ela? Ela foi minha rocha. E ainda é. Por isso que quando ela caiu em depressão eu não sabia o que seria de mim.

Sabe, você vê aquela pessoa que sempre foi tudo pra você de repente não conseguindo ser mais nada pra si mesma. Aquilo foi horrível pra mim.

Nós lutamos, juntos. Muitas vezes eu aqui e ela lá, um longe do outro — e por muitas vezes eu queria desistir de tudo isso e simplesmente voltar pra casa. Mas ela não deixou. Às vezes eu acho que ela conseguia forças para si quando ela via que eu seguia com minha vida, quando ela ouvia as histórias que eu contava pra ela sobre tudo que nós fizemos aqui no exército. E nós superamos.

Juntos.

Por isso eu te digo que às vezes tudo parece perdido — e às vezes tem coisas que nós nunca mais saberemos como seriam. Mas nós temos que seguir, olhar pra frente.

Talvez as coisas não fiquem perfeitas amanhã ou depois. Mas um dia, devagar, elas vão começar a fazer sentido e se resolver.

Elas vão sim.

Um abraço.

Derek