Cartas para Derek
41 O fim
O que é um sonho?
Imagens sortidas, imaginativas, que a nossa cabeça coloca uma depois da outra e nos diz que nada faz sentido. Enquanto a gente dorme.
Imagens escolhidas por nós para representarem alguma coisa que nós queremos, mais do que tudo, que vire realidade.
Em ambos os casos, nada, necessariamente, precisa ser verdade. Ou mentira.
Nada significa alguma coisa ou coisa alguma — bom, depende do quanto você acredita nessas coisas.
Às vezes eu gosto de imaginar que essas coisas — que eu sonho durante o dia ou à noite, involuntariamente ou não — podem vir a ser verdade, logo ou em muito tempo, alguma parte delas ou o completo do que elas representam. Gosto de pensar que isso vai acontecer, que esse mundo imaginário vai colidir com o real e tudo vai ser verdade em frente aos meus olhos.
Ou pelo menos, alguma parte vai ser verdade e eu vou gostar do que vai acontecer.
Não que eu não goste da minha realidade ou meus sonhos sejam assim tão perfeitos que não existe nada melhor que eles — mas na maior parte do tempo, nós sonhamos coisas que queremos que seja verdade.
Pelo menos nos sonhos que são voluntariamente sonhados.
Não temos muito controle sobre aqueles que aparecem sem nós pedirmos e se esvanecem sem nós querermos.
Eu, no entanto, não posso reclamar da minha vida. Eu poderia, na verdade, mas não quero. Ela está longe de ser perfeita, mas está mais próxima disso do que do outro lado da linha. As coisas são boas pra mim e pra quem eu amo, e, na maior parte do tempo, eu sinto que a realidade é melhor que os sonhos.
Pelo menos é o que eu digo pro Derek, sempre.
As coisas podem ser ruins, ou ficar ruins, mas é muito melhor viver alguma coisa do que apenas sonhar com ela. Ou tentar viver ela é melhor do que nunca ter tido a chance.
Toda vez que eu fecho os olhos e as imagens aparecem na minha cabeça, sem eu querer, eu aproveito elas, aproveito aquele momento de loucura instantânea que se instala na minha mente, e eu vivo aqueles segundos bons ou ruins. Eu vivo aquelas imagens, eu me banho nelas e transpiro de tudo que elas têm.
Quando acordo, eu tento lembrar o que elas foram, em que mundo eu caí dessa vez, que coisas aconteceram.
Mas logo, essas coisas se perdem — ou, pelo menos, a maior parte delas.
E assim que é. Assim continua, todos os dias.
Eu tenho a chance de viver alguns segundos de um mundo diferente, melhor, pior, bom e ruim ao mesmo tempo. E eu aproveito desse mundo, eu sinto esse mundo.
Mas então ele se acaba e eu acordo pra viver o meu mundo real, aquele que não tem como eu viver o mesmo dia duas vezes ou como eu esquecer as coisas ruins daquela forma tão fácil. Eu abro os olhos e tem alguma coisa que me espera, e que não é feita de sonhos.
–-----------------------------------------------------------------------------------------
Stiles e Derek respiravam ofegantes, abraçados, entre os lençóis da cama de Derek.
“Isso foi bom.” Stiles disse, arfando, sorriso aparecendo no rosto.
“Uhum.” Derek respondeu, roçando seu nariz pelo pescoço do garoto, sem força, nem vontade, para falar.
Eles tinham acabado de ter mais uma daquelas sessões quentes de sexo. Dessa vez Stiles deitou na cama e disse para Derek tomar conta dele, provocando o homem. E foi o que ele fez. Stiles se divertiu com as caras que Derek criou enquanto ele ia despindo Stiles e se apropriando de cada centímetro da pele do menino — eles estavam conversando sobre animais logo antes de ir pra cama e o homem decidiu que imitar um lobo durante o sexo seria divertido.
Stiles achou graça, mas não tão secretamente, ele amou tudo aquilo. Aquele momento em que ele poderia sentir que estava sendo dominado por uma fera, sentir que havia alguém tomando conta dele, com força para proteger Stiles ao mesmo tempo em que poderia destruir ele.
Mas essa fera não era assim tão perigosa, afinal, Derek estava se esfregando em Stiles, sonolento, nesse momento.
“Vai dormir?” Stiles perguntou para o homem que estava escondendo a cabeça perto do pescoço dele, enquanto os dedos do garoto caminhavam ao redor da orelha do homem.
“Uhum.” Derek respondeu. Stiles sorriu. Ele sabia que Derek adorava ficar junto dele depois que eles se entregavam um ao outro. E Stiles gostava também, afinal, ficar colado com o corpo nu de Derek era melhor do que qualquer outra coisa.“Conta uma história pra mim.” Disse o homem, fazendo Stiles sorriu ainda mais.
“Vai querer uma historinha pra dormir?” Stiles pediu, imitando uma voz de criança.
“Pode ser.” Derek falou, bocejando. “Só fala alguma coisa, eu gosto de ouvir a tua voz. Eu gosto de dormir ouvindo a tua voz.” Stiles sorriu de novo.
“Okay.” Ele respondeu.
Ele respirou fundo, tentando imaginar alguma coisa para falar. Nada aparecia na cabeça de Stiles, no entanto. Ele sempre dizia que ficava meio perdido depois de alguma atividade física que envolvesse o Derek junto, principalmente se os dois estivessem nus — ou em algum estágio de nudez, pelo menos, o que fazia com que Stiles não soubesse exatamente o que dizer.
Derek deu uma pequena mordida pra despertar Stiles do seus pensamentos.
“Ai.” Stiles reclamou, mas sorriu mesmo assim.
“Fala alguma coisa.” Derek pediu, voz sussurrante.
“Okay, okay.” Stiles bufou. “Eu te contei meu sonho?”
“Sonho?” Derek perguntou.
“Noite passada eu tive um sonho bem maluco.” Stiles explicou. Derek murmurou uma resposta afirmativa, esperando Stiles continuar contando. “Bom, eu sonhei um monte de coisa até meu pai me acordar e não lembro muito bem o que que era direito, mas eu vou contar as coisas que eu lembro.” Derek murmurou de novo uma afirmação.
Stiles respirou fundo, tentando acessar as próprias memórias
“O sonho começava com a gente mais ou menos por essa idade? Eu acho, não lembro direito. Não consigo lembrar se tinha alguma data importante pra dizer exatamente quando a gente estava. E eu sei que a gente se escrevia cartas um pro outro.”
“Hum?” O homem murmurou interrogativamente.
“É. A gente se conheceu por cartas, alguma coisa assim. Eu não sei direito, não lembro do sonho. Eu só sei que era comprido pra caramba, tinha um monte de coisa com eu e tu, mas não lembro exatamente o que era.” Stiles falava ao mesmo tempo em que ia acariciando os cabelos de Derek. Ele bocejou.
“Foi um sonho bom?” O homem perguntou.
“Foi. Eu acho? Sabe que a gente nunca lembra direito dos sonhos, mas foi legal. Foi uma viagem legal.” Stiles ficou em silêncio até novas imagens do sonho pintarem a cabeça dele. “Tu morava em São Francisco, com a Laura.”
“Hum.”
“Mas o apartamento era diferente, pelo que eu consigo lembrar. Eu acho que ela morava perto da Lombard St. pois eu lembro de ter passado pela parte do zigue-zague.” Stiles coçou a cabeça. “A gente foi ver os fogos do Ano Novo lá, no sonho.”
“A gente foi ver eles na realidade também.” Derek disse.
“Eu sei.”
“Eu te beijei na virada do ano?”
“No sonho ou na realidade?”
“No sonho.” Derek levantou pra olhar na cara do garoto. “Na vida real eu sei que a gente se beijou.” Ele sorriu.
“É.” Stiles riu. “Eu não sei? Acho que acordei antes.” Ele ficou um momento em silêncio, tentando lembrar de mais detalhes. “Ah, tu era um soldado em algum lugar do mundo. Por isso a gente se comunicava por cartas.”
“Hum. Soldado. Interessante.” Derek comentou, pensativo.
“Eu não sei de onde surgiu aquilo, afinal, tu tem toda essa aura de lobo mau, mas eu não consigo te ver segurando uma arma e gritando alguma coisa imperativa, atirando balas em sei lá o que.” Stiles falou, contemplativo.
“Eu também não me vejo como um soldado.” Derek completou. “O que a gente falava nelas, nas cartas?” Ele perguntou antes de se conectar ao pescoço de Stiles, de novo.
“Faço a mínima ideia? Sei lá, coisas normais? A gente não consegue ler em sonhos mesmo, ou pelo menos não consegue lembrar do que leu. Eu sei que, no sonho, eu li todas elas e escrevi elas também, mas não consigo lembrar. É como se eu soubesse as coisas que aconteceram, mas eu não sei contar como aconteceu? É estranho.”
“Hum.” Derek murmurou.
“Mas tu era um soldado bem sexy.”
“Deu pra lembrar disso?” Derek perguntou.
“Bom, tu é sexy de qualquer jeito.” Stiles disse. Derek levantou a cabeça dele de novo e sorriu. Os lábios deles se encostaram por um segundo.
“Bom, se eu era tão sexy no sonho, quem sabe a gente possa brincar de soldado algum dia, hein? Eu sei que tenho uma calça camuflada em algum lugar do meu guarda-roupa.” Derek sugeriu.
“Eu iria adorar.” Stiles sorriu e Derek sorriu de volta antes de beijar os lábios do garoto.
Assim que eles se desconectaram e Derek voltou a se entocar entre o pescoço e o ombro de Stiles, eles ficaram um tempo em silêncio, apenas ouvindo a respiração um do outro, as batidas do coração.
“Sabe, às vezes eu fico pensando na gente…” Stiles começou. “Eu fico pensando em como a gente teve a chance de se conhecer assim logo, sabe? Como a gente teve um caminho quase livre pra ficar junto, sem muitos problemas, sem dificuldades muito grandes, pois eu tenho a impressão de que a gente tomou um longo tempo, no sonho, pra ficar juuntos.” Stiles falou.
“A gente se conheceu desde quando eu era uma criança e tu era um bebê. Acho que é meio normal que as coisas tenham sido mais fáceis. Nossas famílias sabiam que a gente sentia alguma coisa um pelo outro.” Derek disse, bufando ar quente no pescoço de Stiles.
“Eu sei, mas mesmo assim eu fico feliz de saber que foi relativamente fácil.”
“Pra ti. Eu tive que esperar uns bons anos antes de poder dizer qualquer sentimento que eu tinha por você.” Derek falou, se levantando para olhar Stiles de novo. O garoto olhou para os olhos do homem.
“Quando que tu descobriu que tu gostava de mim? Tipo, sei lá, o primeiro momento que tu sentiu alguma coisa.” Stiles perguntou. Derek fechou os olhos, acessando suas memórias por um segundo, antes de sorrir. “O que? Fala, Derek.” Stles perguntou de novo, ansioso.
“Acho que foi no dia que tu dividiu um pote de iogurte de morango comigo.”
“Sério?” Stiles começou a falar. “Isso faz uns…”
“10 anos.” Derek completou.
“Wow.” Stiles suspirou.
“Tu tinha seis anos e eu já tinha treze. Eu tinha quebrado minha perna, nós tivemos um jantar na cidade e nossas famílias sentaram perto. A tua mãe tinha uma sobremesa pra ti, e eu tava sentado perto. Eu nem sei o que tu pensou na hora, tu só ofereceu pra mim, sorrindo e ainda segurando a colher. Eu acho que naquele momento eu meio que…” Derek bufou. “Sei lá.”
“Sério? Eu acho que nunca tinha te perguntado isso ou parado pra pensar sobre isso. E eu nem me lembro muito desse dia.” Stiles disse olhando para os olhos de Derek. “Eu sequer sabia do que eu gostava naquela época, Derek.”
“Eu já gostava do teu sorriso. Ou passei a gostar depois daquele momento.” Derek beijou o pescoço de Stiles. “Do jeito que tu olhou pra mim, me ofereceu um pouquinho do que tu tinha. E tu era tão novo, tão pequeno e… Sei lá, aquilo me marcou. Eu sei que crianças são menos afetadas pelo mundo até uma certa idade, mas aquilo deixou alguma coisa em mim. E depois, bom…” Derek suspirou. “Eu fui descobrindo aos poucos o que eu realmente queria.”
“Que era?” Stiles perguntou, um tanto desatento à direção que Derek tomava em seu discurso.
“Você.” Ele respondeu. Stiles ficou um pouco paralisado antes de sorrir.
“Eu…” Stiles suspirou. “Eu nem sei o que dizer.” O menino disse, cor aparecendo no rosto.
“Não precisa dizer nada.” Derek falou. “Eu te amo. Há muito tempo eu te amo. E agora que eu tenho você, eu tô feliz.”
“Eu também te amo, Derek.” Stiles disse, enrolando um dos dedos nos cabelos do homem. “Eu te amo muito.”
“Eu sei.” Derek disse e encostou seus lábios dos de Stiles, outra vez. “Definitivamente melhor do que qualquer sonho.” O homem sussurrou, antes de fechar os olhos.
–-------------------------------------------------------------------------------------------------
7 anos depois
Era uma vez um soldado solitário.
Ele lutava em uma terra distante, num lugar desconhecido, longe de qualquer coisa boa que ele teve na vida — se é que ele teve alguma.
Ele era triste.
O soldado acordava todos os dias com o coração apertado e o corpo frio por estar mais uma vez sem alguém a quem segurar. Ele ia dormir se abraçando — a única coisa que ele tinha para isso, além do travesseiro. Passava o dia com a cabeça nas nuvens, ou nas armas, ou nas guerras. Na falta de sentimentos, nos olhos dos outros — os inimigos.
Ele vivia em constante estado de perda de si mesmo.
Ele era um soldado triste. E não havia nada para colocar um pouco de alegria no coração dele.
Ele era chamado de Lobo Solitário.
Ele andava sempre só — ou pelo menos, só pelo lado de dentro.
Ele era forte, voraz, mas seus olhos transbordavam a falta de alguma coisa boa.
E muitos juravam que ele chorava em noites de lua. Chorava por alguma coisa.
Mas um dia tudo mudou.
Tudo mudou no dia em que ele conheceu a parte da vida dele que faltava. Tudo mudou no dia em que ele teve a chance de saber quem era o amor da vida dele.
E junto com isso, ele finalmente descobriu o que era o amor.
O sentimento de calor se espalhando pelo estômago, os membros se enformigando aos poucos, se desprendendo uns dos outros. Os olhos brilhando sozinhos, luzindo o infinito, tremores correndo pela pele, solitários, em bandos, malucos. O coração batendo alucinado, a mente trabalhando sem parar.
Tudo abrindo caminho para uma coisa nova.
Lobo Solitário conheceu aquela coisa nova, aquilo que iria mudar tudo.
Ele conheceu o mensageiro da lua.
Se o soldado era um animal, forte e duro, o mensageiro da lua era um astro, brilhante, claríssimo, imponente mas suave.
O soldado tinha pele grossa, olhos cansados e boca entortada pela tristeza. O mensageiro tinha a sensibilidade de um pêssego abraçando o corpo dele, olhos acesos e lábios abertos em um sorriso.
Foi como uma colisão de dois mundos diferentes.
Nem um nem outro sabia exatamente o motivo de estarem um com o outro, de estarem frente a frente, de estarem juntos. Mas eles sabiam que já não poderiam se separar, não poderiam estar longe um do outro, não poderiam.
O mensageiro e o lobo se conectaram como pedaços de rocha líquida dentro de um vulcão — num momento eles eram carcaças separadas e no outro eram um só.
Ninguém sabe exatamente como eles se conheceram, nem como eles chegaram um perto do outro, não sabem o que os trouxe para o mesmo destino, nem se eles eram feitos de verdade ou de mentira.
Eles só sabem que eles são um só.
A guerra não mais importava ao homem. Os olhos gelados e sem expressão se encheram de vida, ele não via mais o desespero no espelho e nem nos olhos dos inimigos. Ele não via mais inimigos. Ele não via a dor nem a perda.
Assim que tudo fez sentido, ele fez sentido também.
Depois de tanto tempo chorando pela lua, ela mandou a salvação para ele.
E o Lobo Solitário nunca mais viveu sozinho, pois ele não precisava — ele tinha um pedaço da lua com ele.
“Fim.” Stiles disse, bocejando. “Boa noite, meu anjo.” Ele sussurrou a despedida e beijou a cabeça do pequeno menino deitado na cama.
Stiles sorriu.
Desde que Derek e ele se viram pela primeira vez, e quando eles interagiram pela primeira vez — a história do iogurte — Stiles nunca imaginou que ele fosse chegar a esse momento. Ele nunca achou que por ter oferecido uma colher do extrato de morango para o outro garoto ele iria acabar tendo um filho com ele, sendo feliz, tendo uma família, um futuro. Juntos.
E isso já fazia muito tempo.
Stiles lembra de como ele foi se apaixonando aos poucos por Derek, como ele descobriu o jeito doce que Derek tratava ele, ao contrário de como ele era com as outras pessoas, a pessoa perfeita que sempre sabia de tudo na hora certa e que sempre tinha um sorriso reservado pra Stiles, o garoto que não namorou com nenhuma pessoa durante os seus anos de escola, mesmo em volta de tantos possíveis amores, pois queria esperar por Stiles.
Stiles nunca poderia ter imaginado isso.
Hoje, olhando para a figura que dormia silenciosamente na pequena cama, Stiles sentia uma pontada no coração. Não de tristeza, mas felicidade.
O sentimento de que tudo estava perfeito demais.
“Hunter dormiu?” Assim que ele entrou de volta ao quarto deles, que era coladinho no do filho, Derek perguntou.
“Sim.” Stiles disse, subindo na cama, lentamente.
“O dia foi longo hoje, não?”
“Terrivelmente. Eu não aguentava mais ficar na delegacia. Meu pai só me enche o saco quando eu não saio de lá pra correr e pegar alguém. Ou quando eu fico lá sem nada pra fazer além dos meus papeis. Ou se eu escolho a comida que ele pode comer.” Stiles disse, caindo direto com a cabeça no travesseiro.
“Mas tu sabe que ele te ama.” Derek disse, calmamente, se aproximando de Stiles e plantando um curto beijo nos cabelos dele.
“Eu sei, mas às vezes ele me cansa.” Ele suspirou.
“Okay, então vamos dormir.” Derek beijou a cabeça de Stiles mais uma vez. O homem grunhiu.
“Até ontem a gente vivia um dentro das calças do outro, e agora parece que a gente nem quer mais ver o outro nu.” Stiles disse, se virando para Derek, que sorria pra ele.
“A gente não precisa ficar um em cima do outro, todo tempo. Não vou dizer que eu não sinto falta de todo sexo que rolava por aqui, mas agora eu tenho você comigo, sempre, e a gente tem um filho lindo.” Derek disse.
“Um filho lindo e maravilhoso. Que demanda mais tempo do que eu imaginava.” Stiles bufou, cansado.
“Eu sei, mas a gente ama ele, não é?” Derek perguntou.
“Sim. Mais do que tudo.” Stiles assentiu. Derek sorriu.
Stiles estava cansado, como sempre. O trabalho de policial era o que ele sempre quis fazer, e quando ele finalmente conseguiu virar um, ele se sentiu realizado. O pai dele também, mas isso não significava que ele iria tratar o filho especialmente — se significou alguma coisa, foi para ele ser tratado mais severamente do que qualquer outro policial.
Mas Stiles amava tudo aquilo.
Ainda bem que Derek era um escritor e trabalhava de casa, o que deixava ele com tempo de tomar conta do bebê de um ano e meio que eles adotaram meses atrás.
O Xerife disse que ele achava que Stiles era meio novo demais pra isso, mas Derek e Stiles eram um item há muito tempo e, depois do casamento, eles queriam dar o próximo passo.
Isso não significava que eles estavam preparados pra isso. Mas eles iriam aprendendo com o tempo.
“Vai dormir.” Disse Derek, dando um beijo na nuca de Stiles. “Amanhã eu te acordo com um boquete, pode ser?” Ele sussurrou para Stiles, que estremeceu.
“Ai, o que seria de mim sem meu marido perfeito?” Stiles perguntou para o travesseiro, voz embargada pelo sono..
“Um homem de 23 anos vivendo como um de adolescente. Fazendo sexo toda noite, e bebendo mais do que só aos domingos.” Derek falou, abrindo um pequeno sorriso.
“Hum, minha vida seria tão mais excitante.” Stiles falou, voz pensativa e fingindo arrependimento.
“Quer dizer que um homem de 30 anos, nu, do teu lado na cama toda noite é broxante? Eu tô muito velho pra ti?” Derek perguntou, provocante. Stiles deu um tapinha no braço dele.
“Não.” Ele levantou a cabeça para conseguir olhar nos olhos de Derek. “Absolutamente não. Eu só gostaria de conseguir ficar de pé pra fazer todo o sexo que esse homem, nu, do meu lado na cama pode me oferecer.” Stiles completou, grunhindo de novo e enterrando a cabeça no travesseiro.
“Relaxa, amanhã a gente conversa.” Derek falou, mas Stiles quase nem ouviu as palavras quando o sono abraçou ele.
–-----------------------------------------------------------------------------------
Naquela manhã, Stiles realmente acordou com Derek brincando com o membro dele.
E foi bom.
Ele sentiu uma coisa quente mexendo com ele, uma coisa puxando ele para o mundo dos vivos, envelopando uma parte dele. Era uma coisa estranha e diferente dos sonhos que ele estava tendo naquele momento, e quando ele ouviu os sons da boca de Derek em volta dele, ele abriu os olhos para o homem da vida dele sorrindo e roçando os lábios dele lentamente por Stiles.
E num instante, ele se tornou em uma fera e engoliu Stiles, ferozmente, o que fez ele recordar os velhos tempos em que os dois eram mais jovens. Não que eles fossem velhos agora, mas eles não faziam coisas tão animalescas como antes.
Stiles gozou com um grunhido, agarrando os cabelos de Derek, um pouco antes de Derek gozar na própria mão e depois levantar a cabeça sorrindo para Stiles e dizendo bom-dia.
E foi bom mesmo.
Tão bom, que, incrivelmente, Hunter só acordou depois que eles já tinham tomado banho e se agarrado um pouco mais no chuveiro. O que era uma pequena vitória e deixou Stiles com um humor melhor do que no dia anterior.
Assim que eles saíram do banho, Derek foi para a cozinha e Stiles para o quarto do filho deles. Ele beijou o pequeno menino nos cabelos, sorriu ao ver ele abrindo os olhos e sorrindo de volta para Stiles. O pequeno garoto mexia as mãos no ar, esperando que seu pai levasse ele ao colo.
Ele colocou Hunter junto ao coração dele e murmurou palavras ininteligíveis a qualquer um, e que só a criança poderia entender.
Depois de todos conseguirem acordar direito, eles tomaram café da manhã, com panquecas feitas na hora por Derek, e uma papinha feita por Stiles, e se arrumaram para ir á casa do Xerife, que sempre fazia um almoço nos domingos para toda a família.
Toda família significava o Xerife, Stiles, Derek e Hunter. E Laura, quando ela conseguia vir para Beacon Hills.
Não era uma grande família, mas era um família feliz.
Depois de anos tentando convencer o pai a se casar com alguém — incluindo Melissa, que Stiles jura que apareceu como mãe dele em um sonho — o homem nunca quis achar uma nova mulher e sempre dizia que estava feliz assim. E que honraria a memória de Cláudia para sempre.
Stiles não insistia mais, ele sabia que o homem estava feliz. Principalmente agora que era um avô.
Assim que eles chegaram lá, o Xerife mandou Stiles ir cuidar do grill, enquanto ele iria tomar um tempo com o neto, o que acontecia sempre. Stiles iria trablhar, Xerife iria aproveitar um tempo com Hunter.
Mas ele não culpava o pai, há muito tempo ele não via o homem assim feliz com alguma coisa e o garotinho tinha se aproximado do Xerife de uma forma bem inesperada. Os dois eram inseparáveis quando estavam na mesma casa.
Se Stiles poderia dar alegria para o pai e para o filho, e além disso ganhar a chance de tomar conta do churrasco gorduroso que o pai dele insistia em comer, ele não ia reclamar.
Stiles estava distraído, olhando para os pedaços de carne se assando aos poucos e ouvindo os barulhos que eles iam fazendo ao se cozinhar, que nem percebeu Derek se aproximando dele e colocando os braços em volta de Stiles.
Mas ele não se assustou, apenas sorriu.
“Feliz?” Derek perguntou.
Feliz?
Aquilo poderia significar tanto, poderia significar uma vida de coisas diferentes. Poderia significar Stiles não sentindo mais tanta falta da mãe, que partira quando ele era apenas uma criança, poderia significar ele encontrando um rumo na vida, fazendo aquilo que gostava de fazer, poderia significar ele e Derek, sendo uma coisa só, uma família com Hunter.
Poderia significar todas essas coisas boas. Todos os momentos da vida dele fazendo sentido, conectados por um motivo.
Ou, poderia apenas significar um dia melhor do que o anterior.
Mas todas elas eram respostas certas.
“Uhum, por quê?” Stiles falou, se virando um pouco para ver Derek.
“Não sei, ontem tu tava bastante cansado e um pouco estressado com tudo.” Derek disse, sacudindo a cabeça, levemente.
“Hoje eu tô melhor. Só tava cansado mesmo. E hoje de manhã eu recebi um bom bom-dia, então, não tenho do que reclamar.” Stiles falou, e mexeu um pouco o corpo para poder se encapsular em Derek melhor. O homem mais velho sorriu.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. Stiles fechou os olhos e sentiu o calor de Derek em volta dele. Ele suspirou. Derek beijou a nuca de Stiles.
“Eu sei que tudo é um pouco complicado agora, mas algum dia a gente pega o jeito. Devagar a aprende como tem que fazer as coisas, como resolver a nossa própria vida e tudo vai dar certo. Algum dia ele cresce e a gente vai sentir falta desses dias.” Derek falou, beijando a orelha de Stiles.
“Eu sei. E isso é super verdade. Eu sei que vale à pena, que é cansativo, e que algum dia eu vou não vou ter me arrependido de ter feito isso.” Stiles disse, suspirando.
“Tu se arrepende de alguma coisa, agora?” Derek perguntou.
“Não. Não me arrependo de nada.” Stiles falou, sacudindo a cabeça, enfaticamente. “Só disse que eu não vou querer me arrepender de nada no futuro. Me arrepender de não ter feito alguma coisa, sabe?” Stiles falou e respirou fundo antes de continuar. “Me arrepender de ter não feito essas escolhas que eu fiz agora.”
“Mas sabe, tu não vai ter como saber se vai ou não se arrepender de não ter feito essas escolhas que tu já fez.” Derek disse. “Ninguém tem certeza de nada. A nossa vida acontece e a gente vai lidando com as coisas que tem, com as escolhas e chances que tem. Cada um de nós vai vivendo um dia por vez, e tem que fazer o melhor do que tem, afinal…”
“A realidade é sempre melhor que o sonho.” Stiles completou.
“A realidade é sempre melhor que o sonho.” Derek repetiu.
Eles ficaram em silêncio por um momento.
“Eu lembro do dia em que minha mãe disse isso pra mim, sabe? Da primeira vez que ela me olhou nos olhos e sorriu antes de dizer essa frase.” Stiles falou, pensativo.
“E foi?” Derek perguntou.
“Foi no dia em que eu disse pra ela que eu queria viver com ela pra sempre. Que eu iria fazer uma casa de rosas pra ela morar com o pai, depois que eu ficasse maior e tentasse uma vida por mim. Eu disse que meu sonho era construir uma casa de rosas pra que ela pudesse ter sempre o cheiro delas em volta, o dia todo.” Stiles suspirou. “Rosas eram a flor favorita dela.”
Derek não disse nada, apenas apertou seus braços em volta de Stiles e beijou o pescoço dele. Stiles soluçou.
“Eu tenho certeza que ela sabia que iria morrer, naquele momento. Eu tenho certeza.” Stiles fechou os olhos, sentindo as lágrimas caírem. “Ela me disse que eu tinha que aproveitar cada minuto da minha vida pois nunca iria saber quanto tempo ela iria durar, e que se eu perdesse muito tempo em meus sonhos, a realidade iria fugir pelos meus dedos e eu iria me arrepender de ter sonhado tanto.” Quando ele terminou de falar, Stiles deixou as lágrimas caírem.
–-------------------------------------------------------------------------------
“Stiles, eu só tenho uma coisa pra te dizer, filho. A realidade é sempre melhor que o sonho.”
“Como, mamãe?”
“Ela é melhor porque nós temos a chance de fazer tudo que nós queremos. Se a gente ficar só sonhando, a realidade escapa pelos nossos dedinhos, e a gente perde um monte de chances de ser feliz.”
Cláudia falou, beijando a pequena mão de Stiles, sorrindo.
–---------------------------------------------------------------------------------
“Ela te amava Stiles, e sabia que tu tinha que continuar, tinha que viver.” Derek disse, calmamente.
“Eu sei. Eu sei.” Ele suspirou, tentando colocar as emoções no lugar de novo. “Eu só descobri o que ela realmente queria dizer bem depois.” Ele suspirou de novo.
“Eu tenho certeza que, em qualquer lugar que ela esteja, ela tá feliz contigo. Ela tá feliz com as escolhas que tu fez, com o homem que tu escolheu se tornar e que tu é, agora. Eu tenho certeza que em nenhum momento ela duvidou que tu encontraria aquilo que procura. Ela só tentou fazer tu entender que ela não estaria aqui pra dividir isso contigo.” Derek falou e depois beijou o pescoço de Stiles de novo, abraçando ele forte.
“Eu sei.” Stiles suspirou. “Eu sei.”
Stiles respirou fundo.
“Papa!” De dentro da casa, vinha o Xerife com Hunter nos braços. Derek apertou a cintura de Stiles mais uma vez e ele respirou fundo antes de se virar, sorrindo.
“Hey, bebê, vovô te tratou bem lá dentro?” Stiles falou, com a voz mais controlada e calma. O Xerife viu que ele tinha chorado antes, mas sorriu mesmo assim, depois que Stiles sorriu pra ele.
“Eu só fui mostrar pra ele as fotos antiga da família. Você sabe que ele adora elas.” O homem falou e sorriu para Stiles.
Ele sabia que o filho amava ver as fotos e que ele tinha paixão por uma em especial. A foto de um mulher bonita, sorridente e segurando uma rosa vermelha na mão. Ele não sabia quem ela era, ainda, mas Stiles, certamente, iria contar para ele todas as histórias sobre a avó dele.
Stiles correu os olhos pela pequena família dele e sorriu.
Ele sabia que tinha feito todas as escolhas certas.
E elas sorriam de volta para ele.
Ele não se deixou levar pelos sonhos, pois a realidade era melhor.
fim.
Fale com o autor