Cartas para Derek

20 A gente precisa é nunca parar de escolher


Notas iniciais
Eu já deixei a Interpol de sobreaviso logo ao postar o capítulo... Só pra avisar... =D

Eu sei o que estou fazendo?

Provavelmente não.

Ou, provavelmente sim.

Provavelmente isso pode ser o maior erro da minha vida.

Provavelmente pode ser a chance de eu conseguir uma coisa que eu quero.

Provavelmente.

Eu não sei exatamente o que eu estou pensando, não sei onde está a minha cabeça, não sei em que lugar estão meus pensamentos. Parece que tudo se descontrolou, vertiginosamente, depois que aquilo aconteceu na minha vida.

Depois que ele aconteceu.

Sabe, a gente passa nossa vida de criança sempre sonhando em romances perfeitos, em ser felizes para sempre. A gente fica imaginando o dia que o nosso príncipe vai chegar em um cavalo branco, tomar a gente nos braços dele e fazer da gente uma pessoa mais feliz.

Alguém completo, alguém amado.

É estranho quando você se sente assim sem a parte do príncipe e você nos braços dele.

Não que eu me sinta amado ou não. Na verdade eu nem sei o que sentir, não sei se eu sou amado, se sou pelo menos lembrado. Não sei se ele sabe que eu ainda existo, assim como eu não sei se ele faz ideia de que ele ainda se perpetua em meus pensamentos.

Muitas vezes por dia.

Todo dia.

Sempre.

Parece um momento de autoafirmação da cultura adolescente de que nós nos apaixonamos por qualquer pessoa, sem mais nem menos, sem se importar com o que elas pensam, sem se importar com a sociedade e o que nós pensamos sobre eles. E o que eles cochicham pelas nossas costas.

Somos ensinados a achar a pessoa perfeita, a esperar pelo amor perfeito. Ou somos ensinados a desacreditar no amor como um todo, a pensar que ele, nada mais é, do que um modo de alienar as pessoas.

E no momento em que nós paramos de pensar no amor por nós mesmos e começamos a pensar no que os outros querem nos dizer sobre o amor, nós, então, nos alienamos.

Nós fazemos parte do movimento que nunca teve uma voz, mas sempre teve um lema.

Nós ouvimos, nós sabemos, nós queremos fazer alguma coisa, nós queremos mudar, mas as sombras dos nossos erros, a sombra dos erros das pessoas que vieram antes de nós e das que virão depois, ainda nos desabilitam da nossa perspicácia sobre o que é certo e errado.

Essas ideias nos fazer alienados.

E é por isso, que eu atravesso esse discurso filosófico dentro da minha cabeça, para ver se eu consigo trazer forças de dentro de mim mesmo, e me certificar de que aquilo que eu estou fazendo é a escolha que eu devo fazer, seguindo as leis ditadas por mim mesmo e que dizem respeito a mim.

Eu quero ter certeza de que a escolha que eu fiz é a escolha certa pra mim e pra mais ninguém.

Claro que eu não estou sozinho nessa escolha. Existem outras pessoas que fazem parte dessa escolha. Existem pessoas diretamente relacionadas a essa escolha e pessoas que vão ser afetadas por ela.

Mas assim são todas as coisas na vida, não é?

Eu acho que sim.

Eu gosto da ideia de saber que cada escolha que a gente faz vai ter uma direta influência em alguém, além da gente. A gente precisa escolher mais, escolher e escolher, deixar apenas de ser escolhido — ou pior, de não ser escolhido.

E é por isso mesmo que eu estou aqui.

Eu decidi não ser um dos não escolhidos…

Sabe, será que é possível que a gente possa encontrar o amor da nossa vida assim tão cedo? Será que o amor da nossa vida faz sentido nessa idade?

Tipo, eu ainda nem tenho dezoito anos — mesmo que eles estejam quase aí — e eu não tenho certeza se eu tenho idade o bastante pra dizer que eu estou apaixonado, pra dizer que eu encontrei a pessoa certa, ou que, pelo menos, eu estou sonhando com a pessoa certa.

E, será que tem uma idade pra isso?

Eu fico só me perguntando. Sei lá. Eu não sei se a gente recebe um certificado dizendo que a gente tá pronto pra amar alguém ou pra ter o seu amor da vida, em uma certa idade, e a partir daquele momento você vai estar qualificado para escolher seu amor e viver a vida com ele.

Se tiver essa coisa aí, eu ainda não estou pronto.

Mas, e tem essa coisa de estar pronto?

Tipo, eu tenho quase certeza que eu quero vomitar tudo que eu comi hoje, ou que eu quero dar meia volta com meu jipe e voltar pra casa. Ou que eu quero ligar pro meu pai pra ele me dar a força pra continuar dirigindo. Ou só pra gritar com ele por ele ter me autorizado a sair de casa.

Eu ainda não consigo acreditar que ele praticamente me fez entrar no meu carro e começar a dirigir. Eu nem acredito que ele puxou seus contatos em outras delegacias e fez um monte de coisas fora do seu trabalho pra me dar um destino nessas minhas férias, pra me dar um norte pra seguir.

Eu…

Pensando agora em tudo que meu pai fez por mim, eu sinto medo. Não medo de meter a minha cara em tudo isso e ir em frente, mas eu sinto medo da importância do gesto dele.

Sabe, muitas vezes as pessoas falam que quem ama, deixa a outra pessoa voar e seguir seu caminho, que se ela voltar, é sinal de que era pra valer.

E é isso que meu pai tá fazendo comigo. Pela primeira vez na vida.

Ele tá me deixando ir, me deixando sozinho…

Eu não sei se eu sinto orgulho do meu pai por demonstrar o amor dele sem nem saber ou se eu sinto mais medo de estar fazendo isso sozinho.

Eu vou chegar lá e fazer o que?

Eu vou… Eu vou dizer quem eu sou? Vou dizer o que vou fazer?

O que supostamente você tem a dizer quando você gosta de alguém mas, ao mesmo tempo que você sabe que gosta muito daquela pessoa, você na sabe se gosta o bastante para estar fazendo exatamente o que você está fazendo?

Ou melhor, exatamente o que eu estou fazendo…

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Stiles estacionou o carro em uma vaga num dos estacionamentos oblíquos da Lombard Street. Ele apertou as mãos suadas, fechando os punhos. O sol brilhava por cima da cabeça dele, os ouvidos escutavam os carros pelas ruas de São Francisco. Os pés iam marcando as pedras que faziam a calçada, desviando das folhas que o vento carregava, lentamente, e guiavam Stiles para seu destino.

Ele tinha medo.

Apenas isso.

Não havia exatamente um motivo para ter medo, mas ele o sentia do mesmo jeito. Ele tremia sob a pressão que a própria cabeça dele fazia, o coração batia mais rápido e a respiração era mais superficial por aqueles segundos.

Quando ele chegou em frente à porta e tocou o interfone, o tempo parecia ter parado.

E quando a voz de uma mulher se ouviu pelo alto-falante, ele nem sabia se conseguiria responder.

Mas ele tentou mesmo assim.

“Laura Hale?” Ele perguntou, quase sussurrando.

A voz parou por um instante, só se ouvia o leve som de ruídos ao fundo. Alguns segundos de inércia vieram antes da resposta, que foi quase como um sussurro também.

“Sim.”