Cartas de suicidas
1 Não somos anjos
Notas iniciais
Aqui estou eu diante do parapeito do prédio, apenas o vazio lá embaixo, as pequenas luzes da cidade, o vento frio atingindo meu rosto. Talvez se atirar de um prédio seja clichê demais. Mas eu não queria sentir algo me devorando por dentro, por beber algum veneno, ou ferrar com dia de alguém, me atirando na frente de seu carro. Por isso aqui estou, no único lugar que me fez sentir bem, e eu sei que não ira atrapalhar a vida de muitas pessoas.
Eu queria poder dizer que não tenho motivos suficientes para fazer isso. Que eu tinha uma vida feliz, cheia de amigos e que vivi um grande amor, mas eu odeio mentiras, e minha vida sempre passou apenas disso.
Eu queria poder dizer que eu sorria todos os dias, que minha saúde era boa, e que eu tinha uma família amorosa. Mas não quero mentir, pelo menos não nesses últimos momentos da minha vida.
Meus dedos estão formigando, o suor escorre pela minha testa, meus lábios tremem e meu coração, ah meu pobre coração, destruído em milhares de pedaços, está batendo tão forte, que posso senti-lo sobre minha camiseta favorita.
Uma vez, eu conheci um garoto, ele era tão incrível, tão perfeito, e estava tão perto de juntar os meus pedaços. Mas nenhuma das minhas histórias de amor deu certo, ou pelo menos chegou a ter um meio feliz. As pessoas me usaram, mesmo que não pareça, roubavam o meu melhor e partiam, apenas me deixando em pequenos pedaços. Sobre esse garoto? Seus olhos eram os mais lindos que eu já vi. Seu sorriso era algo incrivelmente belo, tão cheio de vida. Quero partir com a lembrança desse sorriso e do gosto de seus lábios. Espero que você não me odeie ao ler essa pagina, do meu diário, que devem encontrar no bolso da minha calça. Saiba que eu amo você. Amo muito mais do que a mim mesmo.
Ah deus, por quê? Mal consigo segurar essa maldita caneta. As lagrimas pingando sobre essas ultimas paginas do meu velho diário.
Eu queria ter tido tempo, queria que os psicólogos, o 141 tivessem me ajudado. Mas a escuridão é algo tão aconchegante, o fundo do oceano da depressão é algo tão bom. Queria que as mãos tivessem me puxado para cima, de volta a superfície, mas eu as vi me abandonando na metade do caminho.
As estrelas estão tão bonitas hoje, o céu parece feliz por me receber, apesar de eu não passar de um bosta que nunca soube lidar consigo mesmo, e não merecer um lugar entre as estrelas. Na verdade, eu nunca mereci pertencer a lugar nenhum no mundo. Nem sei por que ainda me mantive vivo por longos dezoitos anos.
Mas acho que já chegou minha hora. Acho que esse é o adeus.
Eu amo você. Por favor, me perdoe. Siga em frente, porque você sim merece um lugar aqui, com todas essas pessoas que te amam, com todos esses motivos para sorrir. Perdoe-me por ter sido apenas um incomodo na sua vida e ter ocupado o lugar de alguém que realmente merecia ter ficado ao seu lado. Mas obrigado por ter feito um pedaço desse mundo preto e branco ficar colorido, nem que tenha sido por pouco tempo. Se um dia você sentir saudade, eu estarei na sua praia favorita, nos campos floridos, naquela brisa de vento que bagunça seu cabelo, em algum dia nublado, ou no céu estrelado. Se você for chorar, chore por alguém que mereça suas lagrimas e por um dia feliz, não por mim, porque eu não fui digno de merecê-las. Construa uma família, tenha filhos.
E para meus poucos amigos, eu amei vocês da maneira mais pura que eu podia, desculpem por isso. Eu sei que será foda para vocês, mas me desculpem. Eu estarei em algum lugar sorrindo por vocês, vendo cada um seguir sua vida, e construindo memórias espetaculares.
Eu sou horrível com essas coisas.
E para aqueles que tiverem o azar de conhecer minha história, saibam que você são “Infinitos “. Irei guardar isso no bolso.
Adeus.
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