Cartas - Uma Fanfic Sai De Baixo
2 Carta para Caco
Notas iniciais
Meu querido príncipe dinamarquês, Caco Antibes,
Palavras me faltam sobre como começar esta carta, talvez deva esclarecer o motivo para decidir escrevê-la, primeiramente. Eu o vi escrevendo certa noite. Acho que você deve ter pensado que eu dormia profundamente, para não notar a sua ausência na cama. Acontece, meu amor, que apesar de estar cansada, ser mãe tornou meu sono leve. Eu o vi levantar, sair do quarto e retornar com um copo de whisky e folhas de papel, sentar-se na minha penteadeira e começar a escrever. Estranhei o que você estava fazendo, mas não me mexi. Não até você terminar, pegar Caquinho, quando começou a resmungar, e sair do quarto com nosso filho.
Me levantei e sem conter minha curiosidade, fui saber o que escrevia. Temia que fosse algo ruim, talvez até separação… Não, meu amor, eu não li sua carta. Só o primeiro parágrafo e algumas linhas do segundo. Não era certo continuar, quando aquilo, apesar de ser para mim, é algo íntimo para você. Guardei de volta os papéis antes de ir atrás de vocês.
Mas achei a ideia interessante, colocar meus pensamentos numa folha de papel para não ter que verbalizá-los. Assim como você, não posso deixá-lo ler esta carta. Não posso deixar você lê-la, nem ninguém.
Se bem que ninguém acreditaria… Mas, vamos fingir que eu, realmente, estou escrevendo para ti.
Caco, meu amor, quando li as poucas palavras de sua carta, meu coração quase parou e fui abatida de grande tristeza. Sentimentos. Você fala de sentimentos na carta. Seriam esses sentimentos para mim? Ou você teria descoberto sentimentos por outra mulher? Eu não sei e nunca vou saber. Mas pergunto-me: Se é outra mulher, por que não me deixa? Existem tantas outras mais bonitas, mais ricas e mais jovens que eu, então porque continuar junto a mim? Apenas pelo filho que te dei? Logicamente, não é mais pelo dinheiro que eu te proporcionava.
Caco, você me ama? Eu não consigo chegar a uma conclusão lógica para essa pergunta. Quanto a uma resposta emocional, eu talvez eu tenha tido, mas vou chegar lá. Mesmo assim, Caco, eu queria muito que me dissesse, olhando no fundo dos meus olhos, que me ama. Pode parecer clichê, coisa de mulher, frescura, mas, mesmo assim, eu queria que você verbalizasse o que sente, se é que sente algo, por mim.
Na noite em que escreveu a carta, por um momento achei que você fosse dizer que me amava. Após sair com Caquinho, te encontrei na sala com nosso filho aninhado em seu colo mamando. Por breves segundos pude te observar em silêncio, até você perceber que eu te encarava. Nosso apartamento estava um silêncio, todos os outros residentes dormiam, e a pouca luz tornava a sala um lugar aconchegante. Sentei ao seu lado e você depositou um beijo na minha cabeça, no momento que eu, também deixava um beijo no topo da cabeça de Caquinho.
Tem noção que nós dois fizemos um ser tão perfeito? Eu não consigo parar de olhar para nosso bebê. Sei que todos temem que eu possa ser uma péssima mãe e isso é culpa minha, a anos que vivo em um papel. Mas naquele breve momento, eu pude ser realmente eu.
Deitei minha cabeça em seu ombro, enquanto você falou que não queria me acordar. Eu não respondi, queria guardar aquela cena na minha memória para sempre. Foi ali que eu consegui enxergar o verdadeiro Caco Antibes. Por esse motivo, decidi me afastar um pouco para te ver e guardar você.
Logo que percebeu que te encarava, você virou-se para mim perguntando se tinha algo errado, apenas neguei com a cabeça e passei a acariciar seu rosto. Você se ajeitou no sofá e o bebê no braço e me puxou para um beijo delicado. Pode ter sido apenas a emoção do momento, mas quando terminamos de nos beijar e você encostou sua testa na minha e acariciava minha bochecha, eu vi um sorriso amoroso e seus olhos brilharem para mim, naquele momento eu achei que você, finalmente, ia falar que me amava. Talvez tenha sido só impressão que uma mulher apaixonada e uma mãe cansada imagina.
Então, novamente, te pergunto: Por que ainda está comigo? Eu não sou mais rica e, por causa disso, estamos sempre em apuros. Apuros esses que você nos coloca. Enfim… Sei que se casou comigo por interesse, eu e mamãe éramos milionárias, mas e agora? Por que se submeter a tanta humilhação para continuar comigo? Com certeza encontraria alguma viúva rica que te bancaria.
Ai, Caco! Eu é que deveria ter me separado de você, quando você acabou com minha herança e faliu as empresas de meu pai. Porém fui abatida pela a arma mais mortal de todas, a flecha de Eros.
Não sei o que você sente por mim e não vou falar por você. Eu sei que eu te amo. Amo você com todos os seus defeitos e suas qualidades. Amo você por ter me dado um filho. Amo você, talvez sem motivos. Amo do fundo do meu coração e como jamais pensei que fosse amar alguém, mesmo que você me mande calar a boca e me chame de burra. Mas isso é culpa minha. Você entenderá o porquê.
Acho que no momento está se perguntando como posso estar escrevendo tão bem assim, quando sou burra. Esse é meu segredo. Eu não sou burra. Não fique mal, por favor, ninguém sabe o quão inteligente eu sou. Nem mesmo mamãe se dá e deu conta que sua filha é uma gênio. Sim, Caco, eu sou superdotada, mas prefiro agir assim.
Não troco palavras porque eu não sei sobre elas, troco palavras porque minha mente trabalha rápido demais. Eu sou fluente em cinco línguas (português, do Brasil e de Portugal, inglês, russo, italiano e mandarim) e é por isso que quando falo rápido demais, embaralho as palavras. Pode parecer estranho, talvez até absurdo, como se eu tivesse me condenando a uma vida miserável, mas pelo contrário, meu amor, eu sou feliz. Eu sou feliz.
Papai tinha um livro com a seguinte dedicatória: “Triste são os que se mostram inteligentes, pois são amaldiçoados pela própria mente e pelos outros. Felizes são aqueles que se fingem de burros, porque deles nada se esperam.” E, Caco, é a mais pura verdade. Completo com outra frase, dessa vez de Miguelito, que perguntava por que coube a nós o estupido papel de sermos animais superiores.
Mamãe nunca foi uma mãe presente, o que me permitiu testar essa teoria. Na escola eu era Magda, a inteligente, e ninguém gostava disso, sofria o famoso “bullying”. Mas, quando eu era Magda, a burra, eu podia ser livre sem julgamento e feliz. Às vezes me pergunto qual Magda eu realmente sou… Mesmo assim, há momentos com vocês que não consigo me conter e deixo escapar minha inteligência, mas vocês nem percebem. E está tudo bem. Eu me sinto feliz e realizada assim.
Caco, você nem imagina o quanto me divirto vendo vocês se desesperando com minhas atitudes.
Confesso que tenho um bom dinheiro guardado, como disse sou inteligente e não daria toda a minha fortuna a um homem só porque ele é bonito. Mas, vai permanecer em segredo e guardado justamente para tirar a nossa família de suas enrascadas. E agora, também, para o futuro de nosso filho. Se bem que, você sempre dá um jeito de ficar no azul. Admiro sua capacidade de nos colocar em problemas, o mesmo tanto que admiro como você, no fim de tudo, tira a gente.
E eu amo entrar em problemas com você, Caco. Qualquer mulher sã jamais concordaria com isso, e por isso, perdem de viver uma vida cheia de aventuras. Que histórias as famílias “normais” vão ter para contar quando envelhecerem?
Caco, meu amor, espero que me perdoe caso venha a descobrir esses dois segredos. E peço encarecidamente que não me deixe.
Mesmo que o correto seja eu te largar, por causa do jeito que você trata, me mandando calar a boca e me chamando de burra.
No fundo, sinto que não faz por mal. Você nunca me contou muito do seu pai, mas também, pelo pouco que eu sei, você não teve grandes e saudáveis exemplos de amor, e, por isso, talvez não saiba expressar da forma correta. Mas, como eu quero continuar sendo feliz, terei que aguentar isso dos outros de qualquer forma. Na verdade eu nunca liguei. Pelo menos, com você, posso viver na ilusão que a cada vez que diz "Cala a boca, Magda!", no fundo queira dizer que me ama.
Talvez eu comece a me impor um pouco mais...
Meu loiro puro sangue azul, eu posso viver sem você, sem suas aventuras, sem seus bordões, mas não quero. Não quero ficar sem meu príncipe dinarmaques e sem nosso canguru perneta, óbvio! E, principalmente, não quero que o Caquinho cresça sem nos ver unidos.
Caco, eu te amo! E nos meus mais doces sonhos, você também me ama.
Da sua esposa, que te ama,
Magda Antibes.
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