Hermione encarou aqueles profundos olhos azuis acinzentados, buscando por qualquer sinal de reconhecimento.
Draco piscou de volta, atordoado.
E tudo pareceu voltar em um rompante. A morte de Dumbledore, os dias sombrios de guerra onde percorreu toda Inglaterra atrás de Horcruxes, o momento em que Draco teve uma escolha — e escolheu errado, atravessando o gramado de Hogwarts em servidão ao Lorde das Trevas.
— Pois bem, senhor Draco Malfoy. — Hermione quase cuspiu seu nome. — Pode desmarcar seu compromisso, então. Precisarei de alguém no plantão noturno.
Draco entreabriu os lábios para protestar enquanto todos os colegas de residência olhavam para ele, o clima ficando cada vez mais difícil de suportar.
E então ele assentiu, forçando um sorriso ácido.
— Agradeço pelo presente de boas vindas, doutora. — ele se curvou ligeiramente, os olhos frios como gelo fixos nos de Hermione.
Ela bufou enquanto sacudia a cabeça em tentativa de apagar todos os pensamentos de ódio que carregou contra seu antigo inimigo, engoliu em seco e então se recompôs.
— Vocês precisam entender a necessidade de pontualidade. — Ela afirmou para todos em um forçado tom educativo. — Se um de vocês chegar atrasado no dia errado, alguém morre. Que essa pequena advertência siga de lição para todos. — Ela passeou com os olhos em todos os rostos, evitando o de Draco. — Estão todos prontos?
Enquanto Hermione caminhava entre as macas e realizava breves apontamentos sobre os estados físicos de seus pacientes, ela afirmava para si mesmo que seu gesto de castigo nada mais havia sido do que uma punição pelo atraso.
Ela precisava acreditar nisso, senão seria antiprofissional.
Hermione circulou pelos corredores, apontando para locais como o lavatório, o centro cirúrgico emergencial, as enfermarias e o posto de descanso. A todo momento, seus olhos quase cruzavam com os de Malfoy.
E ela constantemente o evitava.
—Bom, é só isso. — Hermione disse no final de sua tour, entregando a planilha de prontuários para a garota loira, que o abraçou como se fosse um baú do tesouro. — Vocês estão livres para se dividir e atualizarem todos os prontuários a partir do 412. Quero todos prontos antes das 17h. Caso precisem de qualquer coisa, estarei evoluindo os casos no meu consultório.
Quando Hermione desviou o caminho de Draco, ela sentiu um perfume quase familiar, mas não teve a menor coragem de parar para ver de onde vinha.
E então apressou seu passo até a sala, trancando a porta assim que cruzou seu batente.
—Abaffiato. — Declarou enquanto segurava sua varinha, e assim que teve certeza que ninguém poderia ouvi-la, gritou até seus ouvidos doerem.
Maldito Draco Malfoy.
Maldito.
Traidor.
Desgraçado.
Fuinha nojenta e asquerosa.
Hermione repetia as palavras contra o ar, esperneando e batendo sem nenhum efeito na maca ao lado de sua mesa.
Depois de quinze minutos, ela se sentia pronta para voltar a trabalhar.
Aquilo não fazia o menor sentido.
Por que Draco trabalharia em um hospital trouxa. Primeiramente, por que ele trabalharia em um hospital?
Hermione não ouvia falar seu nome desde o final da guerra. Ela se lembrava perfeitamente de seus traços ossudos e proeminentes no dia em que Voldemort perdeu e toda Hogwarts parecia em ruínas. Lembrava-se dele ao lado de sua mãe enquanto todos os outros se abraçavam e sentiam-se vivos e felizes.
E lembra do ódio que sentiu dele naquele momento, compartilhando da felicidade do fim da guerra como se não fosse um de seus causadores.
Analisando com calma, ele havia mudado muito.
Já não era mais aquele garoto cálido e magro. E se possível, parecia ter crescido um pouco mais. Hermione percebeu como o jaleco havia ficado levemente justo em seus braços fortes, e como seu cabelo loiro já não era ensebado com gel, mas presente em uma planejada desorganização puxada para o lado.
Ele era um homem.
Um médico.
E estava vivo.
E era seu residente.
E Hermione estava decidida a fazer a vida dele um inferno naquele lugar.
Depois de quase uma hora evoluindo casos e estudando novas possibilidades de poções para bolhas de queimaduras, Hermione ouviu algo em sua janela.
Ela deu um pulo quando viu sua coruja cutucando o vidro de forma insaciável.
— Astrid, já disse para não fazer isso no meu trabalho. — Advertiu, mas não deixou de fazer um agrado em seu pescoço. — De onde veio isso?
Astrid pisou levemente na carta, acenando para algo.
E Hermione viu marcas de garras maiores encobrindo o papel.
— Apus levou isso lá pra casa, não foi?
A coruja acenou de forma veemente.
— Obrigada por trazer.
A carta tinha o cheiro de seu admirador, e era feita com o papel que ele usava.
Hermione suspirou.
"Querida anônima.
Sinto em te dizer que vou precisar desmarcar nosso encontro. Eu sinto muito, muito mesmo. Tive um imprevisto e precisarei ficar no trabalho durante a noite. Você não acreditaria, mas consegui me dar mal no meu primeiro dia. Um grande azar. Vou tentar consertar as coisas por aqui, melhoras as impressões e quem sabe, podemos deixar algo marcado para a próxima segunda feira nesse mesmo horário. Aguardo sua resposta.
Minha vontade de provar o seu café preferido segue em pé. Meu longo e carinhoso beijo também."
Hermione bufou.
— Grande dia. — Resmungou para si mesma, e então respondeu a carta com um breve "deixamos para segunda, boa sorte no trabalho!", entregou-a para Astrid e fechou a janela em um soco.
E uma batida irrompeu na porta.
Seguida de duas, três e quatro.
Seguida de fortes pancadas.
Hermione destrancou a porta e se deparou com todo o grupo de residentes desesperados falando ao mesmo tempo. Menos Draco, ele esperava quieto, encostado do outro lado da parede.
— Preciso que falem de uma só vez. — Hermione pediu com calma.
— Emergência chegando. Quatro queimados. — A voz de Draco se sobressaiu às outras.
— Obrigada. — Hermione nem olhou enquanto respondia. Conferiu seus bolsos para ver se encontrava tudo que precisava, contando sua varinha, e então correu pelo corredor em direção a emergência, sentindo toda a adrenalina tomando conta de seu corpo enquanto o grupo de residentes corria em seu encalço, agitados com o primeiro atendimento.
— Preciso que avaliem o grau das queimaduras e priorizem quem vou atender depois desse. — Hermione gritou enquanto se dirigia para o paciente que estava claramente mais queimado. — Não esqueçam de iniciar a reposição de líquidos e eletrólitos via sanguínea. Você — ela apontou para a garota de tranças presas atrás da cabeça. — Me ajude a elevar esse daqui, a respiração dele está falhando.
Hermione andou, andou e andou ao redor das quatro macas durante o período de trinta minutos. Ela não podia fazer nada que fosse suspeito, então a cada vez que os residentes se distraiam conversando sobre os boatos do ocorrido para as queimaduras, ela apontava com sua varinha para algum tecido lesionado e o consertava brevemente, ou enfiava algumas gotas de Ditamno sobre os ferimentos que pareciam mais impossíveis de serem curados.
E ela não pode deixar de perceber que Draco estava fazendo a mesma coisa. Os outros alunos pareciam atordoados com sua praticidade e agilidade em sua primeira emergência.
Isso fez com que Hermione o odiasse ainda mais. Ela daria conta sozinha, ele deveria ter feito apenas o que ela havia pedido.
Hermione seguiu com um paciente para a sala de cirurgia, e dois residentes a acompanharam. Draco e Daniel. Os olhos de Draco acompanharam atentos cada gesto que Hermione fazia, cada equipamento que ela pedia e cada vez que ela tentava mexer em sua varinha por dentro do jaleco. Por sua culpa, ela não pode usar magia nenhuma naquele paciente.
— Podem fechar. — Ela disse enquanto se afastava da mesa de cirurgia e observava a forma de Daniel e Draco trabalharem em grupo.
Ele parecia apático, focado.
E Daniel parecia prestes a desmaiar.
Quando as coisas pareciam um pouco mais calmas, Hermione acrescentou em seus prontuários os medicamentos e cuidados que deveriam ser administrados nas próximas horas, e então sorriu cansada para uma enfermeira que ajudou em todo procedimento.
— A senhorita sabe que faz milagre, não sabe, doutora? — A enfermeira falou em tom carinhoso. — Seu trabalho parece mágica.
Hermione soltou um riso forçado até demais.
—Ah, quem me dera que fosse. — Blefou, tirando o pijama cirúrgico e arremessando-o no cesto ao lado da porta. Sua mira vacilou alguns centímetros, e quando a enfermeira desviou o olhar, ela consertou seu trajeto diretamente para o cesto.
Hermione se apressou até o vestiário, onde via todos os outros residentes — exceto Draco — trocando timidamente suas roupas.
Ela tirou toda a roupa hospitalar, enfiou-a na sua mochila cheia de roupas que não seriam usadas, e então lembrou de buscar seus equipamentos no consultório.
Assim que ela entrou, ouviu uma batida às suas costas.
Draco não esperou que ela atendesse. Apenas abriu a porta e entrou.
— Eu estou de saída, Malf...
— Gostaria de saber até que horas preciso ficar de plantão, doutora. — Draco a interrompeu. Seu tom era calmo e educado, mas ela podia perceber um leve tom ácido por trás.
— Até amanhã as 05h. E então Greg virá te substituir. — Hermione se apressou. — As enfermeiras sabem meu número, caso ocorra uma emergência pode pedir para elas me ligarem. Se eu demorar muito, podem procurar outro médico para ajudar.
Hermione fez a menção de sair, e então Draco a interrompeu.
— Seu trabalho parece mágico, já te falaram isso? — Levantou a sobrancelha.
Ela vacilou, os pés se sobressaindo.
— Posso dizer o mesmo, senhor Malfoy.
— Você é uma bruxa, não é? — Ele insistiu, dessa vez o tom um pouco mais duro.
— Você está brincando com a minha cara, não está? — Hermione perguntou, indignada. — Se estiver, não vejo problema em estender seu plantão até o final de sábado, e então retomá-lo de segunda até terça-feira.
Draco piscou, recalculando a rota.
— Estou falando sério. Vi você usando Ditamno.
— É claro que eu sou Malfoy. Você não precisa fingir que não me conhece. Podemos simplesmente esquecer tudo isso e...
— Eu não te conheço. — Ele a cortou, cético. — Só soube que era bruxa pelas poções, também vi você usando a varinha escondida.
Ele não se lembrava dela.
Havia esquecido seu rosto.
— É uma pena que você tenha tido o azar de ter uma sangue-ruim como chefe, você não acha? — Hermione zombou, e então o encarou de perto. — Me deixe passar, Draco.
— Gr...Granger? — Pela primeira vez, a voz dele não parecia tão convencida. — Você mudou.
— Ah, pode ter certeza que eu mudei sim. — Ela exclamou irritada. — E eu tomaria cuidado com isso. Da próxima vez que você ousar se enfiar no meu caminho, o tapa que lhe dei no rosto quanto éramos crianças vai ser muito, mas muito mais forte. Agora, se você quiser ter o mínimo de paz aqui, eu sugiro que você saia do meu caminho. Seu plantão até as 05h está cancelado. Pode ficar até onze da noite de amanhã.
— Eu tinha um compromisso muito importante hoje a noite. — Draco protestou, os olhos tempestuosos fixos nos de Hermione enquanto ele falava baixo e devagar.— E em nenhum momento reclamei de você ter me dado tantas horas de plantão. Eu atendi perfeitamente todos os pacientes, fui educado e meu único erro foi chegar atrasado, e eu realmente sinto muito por isso. E eu gostaria muito, de verdade, da oportunidade de trabalhar aqui sem ser julgado por qualquer coisa que aconteceu no meu passado. Não foi só você que mudou, Granger.
Algo parecia haver se formado dentro dos olhos de Draco. É como se a tempestade estivesse prestes a eclodir, levando todos consigo.
Ele piscou, e então secura de gelo retornou em seu lugar.
— Pode ficar até as 04h da manhã mesmo. Só dessa vez. — Hermione respondeu contrariada.
Draco engoliu em seco, abrindo espaço para que Hermione passasse.
— Obrigado doutora Granger. Até segunda-feira.
Era quase meia noite quando Hermione ouviu Apus piando em sua janela. Ela se levantou, os olhos já cansados e o corpo levemente fraco, e arrastou o vidro para cima.
Hermione aspirou todo o cheiro que a carta emanava, e então a abriu.
"Querida anônima
Você já se sentiu como se seu passado a perseguisse? Como se apesar de todos os seus traumas e medos, de alguma forma soubessem exatamente onde encontrá-la, lembrando de tudo que já ocorreu? É exatamente o que estou sentindo.
Eu sinto muito, profundamente por não comparecer em nosso encontro hoje. Tive alguns problemas em meu novo trabalho e juro, estou fazendo o possível para que as coisas funcionem e a vida volte a sorrir para mim.
Sei que já devo ter falado algo semelhante nos três meses que nos correspondemos, mas antes de começarmos a nos corresponder, as coisas pareciam mais sombrias. É como se eu estivesse em um buraco escuro e sem saída, e sua mão surgisse para me puxar para cima. A ideia de correspondência anônima por carta é ridícula, admito. Quase vergonhosa. Mas eu jamais trocaria a experiência que tem sido conhecer alguém tão boa quanto você. Eu realmente tenho esperança de que depois de finalmente nos encontrarmos, as peças se encaixem. É como se nos últimos três meses algo realmente começasse a fazer sentido para mim, na minha vida.
Só é uma pena que nosso encontro esteja se demorando tanto.
Tenha uma boa noite, querida. Desejo profundamente que seus sonhos sejam bonitos, e que a guerra não te assombre essa noite, como você diz que costuma acontecer.
Um beijo."
Hermione analisou a carta, observando a caligrafia levemente tremida e a folha um pouco úmida.
Ela se perguntou se seu correspondente estava chorando, e mal conseguiu pensar em quão má uma pessoa deve ser para fazê-lo relembrar de tudo isso.
Ele parecia entendê-la tão bem. É como se de alguma forma, eles compartilhassem do mesmo sentimento. Ela lembrou vagamente da forma como se sentiu olhando nos olhos de Draco e tendo a dimensão de quão cruel ele havia sido durante a guerra, e de quanto aquilo a havia ferido.
Ela sentiu seu braço formigando e olhou brevemente para a cicatriz esboçando "sangue ruim" em seu braço, ignorando-a logo em seguida.
Hermione respirou profundamente sobre o papel, e em um aceno, pegou sua pena para respondê-lo o mais rápido possível.
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