Cartas Anônimas para Bruxos Solitários - Dramione
3 Des - encontro
O final de semana passou em um piscar de olhos. Quando Hermione acordou, já era segunda-feira.
Seis horas da manhã.
Mais um dia.
Ela respirou fundo antes de se obrigar a levantar e tomar seu café. Havia passado o domingo todo assistindo séries de qualidade duvidosa e trocando cartas com seu correspondente anônimo, indo dormir quase quatro horas da madrugada.
Esse era o dia em que ela o conheceria, e ela mal podia ver a hora.
Lembrar disso deu um sopro de fôlego em Hermione, e então ela aparatou para o hospital.
Naquela segunda feira, os residentes a acompanhariam no posto de pediatria, localizado no terceiro andar.
— Bom dia a todos. — Hermione bocejou enquanto entrava na sala de reuniões, carregando uma pasta repleta dos prontuários que recebeu quando chegou. — Como foi seu primeiro final de semana na residência? Conseguiram se revezar?
— Muito bom. — Greg se prontificou a responder. — Fiquei sozinho no posto ontem no final da tarde.
— Excelente. — Hermione soltou um leve sorriso enquanto passeava com seus olhos em cada aluno, se certificando de que todos estavam ali.
Inclusive Draco, com as mãos nos bolsos do jaleco, escorado na parede com grandes olheiras ao redor de seus olhos fechados.
— Muito trabalho no plantão de sábado, senhor Malfoy? — Hermione perguntou com escárnio.
— Hum? Desculpe, o que foi? — Draco respondeu enquanto ajeitava sua postura e abria seus olhos cinzentos.
Estava cochilando em pé.
— Perguntei como foi seu plantão, Malfoy. Mas acho que pelo seu sono, já podemos imaginar. — Hermione desdenhou, tirando risos de todos os outros.
Draco sorriu de canto.
— Na verdade, foi tranquilo. Tive um contratempo com um dos pacientes que recebemos na sexta, mas consegui controlar sozinho.
— Ficou até tarde na farra, então? — Daniel perguntou em tom fanfarrão.
— Hã? — Draco perguntou esfregando os olhos. — Não, não. Só fui dormir muito tarde.
Os residentes entraram em uma breve conversa sobre o que fizeram no final de semana enquanto não estavam trabalhando, e Hermione esperou que concluíssem.
— E então, vamos lá? — Hermione perguntou, distribuindo os prontuários enquanto começava suas explicações.
A pediatria era um posto um pouco maior do que a ala de queimados, e sua função e clima era totalmente diferente. Enquanto a ala de queimados tinha as paredes brancas e luzes azuladas por todos os cantos, o setor infantil tinha paredes coloridas em tons do arco íris e jogos de amarelinha pintados no chão. Os médicos andavam com estetoscópios decorados com animais de silicone, e todo o restante dos materiais também era menor e mais colorido.
Hermione repassou todas as regras, pontuando o cuidado em dar diagnósticos na frente das crianças, a preocupação em explicar detalhadamente e de forma lúdica tudo que elas perguntassem, e a forma como deveriam se reportar aos pais.
Todos acenavam compulsivamente com sua cabeça enquanto Hermione falava.
Menos Draco, que parecia focado em contar os rejuntes do chão.
Aquilo a incomodava. A forma como ele desdenhava do seu trabalho.
— Estamos entendidos? — Perguntou no final.
— Sim. — Responderam em uníssono. — Bom, sabem onde me encontrar. Tenho uma cirurgia daqui uma hora, e depois disso estarei no escritório.
Todos se espalharam pelos postos, e Hermione seguiu em direção à enfermaria trezentos e sete, onde encontraria seu pequeno paciente.
— Bom dia Lara.
— Bom dia tia Mone. — Hermione sorriu e deu uma breve piscadela para ela. — Alguém já vem te atender, tudo bem?
— Certo. — Lara respondeu, se jogando para trás e soprando a franja que cobria sua testa.
— Bom dia Oliver! — Hermione o saudou, virando-se para o garoto — Preparado pra se tornar um super herói?
Oliver riu. Era um pequeno garoto de seis anos, os cabelos castanhos claros esparramados em uma bagunça até a altura de suas orelhas.
— Preparado, capitã. — Respondeu enquanto posicionava sua mão saudável em uma teatral continência. A outra estava enfaixada sobre seu peito.
— Bom dia. Me falaram que é aqui que está abrigada a princesa Lara, é verdade? — Hermione ouviu a voz de Draco passando atrás dela, e então ele andou até a garota da maca ao lado.
Seu sorriso quase se fechou. De tantos leitos para Draco estar responsável, precisava mesmo ser o a lado do que ela atenderia?
— Aqui, eu mesma. — Lara se empertigou, erguendo o dedinho indicador.
— Uau. É ainda mais graciosa do que imaginei. — Draco colocou as mãos sobre o peito de forma encenada e a garotinha riu.
Hermione balançou a cabeça e se voltou para Oliver, tentando ignorar a voz e a presença de Malfoy a poucos metros.
— Vamos ouvir seus batimentos, super Oliver? — Perguntou, e então o garotinho de imediato ergueu seu pijama hospitalar. — Seus papais já estão chegando, sabia? — Perguntou enquanto tocava o objeto gelado em seu peito.
— Sim, eles disseram que chegariam antes da cirurgia. — Oliver concordou. — Eu vou ficar super forte, doutora? — Perguntou em tom mais sóbrio.
Hermione sacudiu a cabeça positivamente enquanto o avaliava. Oliver havia quebrado o braço na semana anterior, e após alguns dias usando o gesso como tentativa de realocar o osso, o procedimento havia falhado. Nesse caso, Hermione precisava colocar uma haste de metal entre seu Rádio e sua Ulna.
— Vai sim, você vai ficar super forte. — Brincou. — Mas nem pense em se jogar do balanço assim tão rápido de novo, tudo bem?
Oliver sacudiu a cabeça com firmeza.
— Bom, então vejo você depois da cirurgia. Por que não aproveita pra dar tchau pra sua nova amiga? — Perguntou enquanto estava prestes a sair.
— Eu não sou amiga dele, eu sou namorada. — Lara respondeu na maca ao lado, amplamente irritada.
— Oh, não sabia disso senhorita Lara. — Hermione se desculpou. — Desde quando vocês são namorados?
— Desde o dia que o Oliver me pediu. Eu estava com muita, muita dor. E aí ele pegou na minha mão e disse que seríamos namorados.
Draco soltou um breve riso.
— Bom, então se despeça da sua namorada, Oliver. — Hermione falou.
— Tia, você não tem namorado? — Oliver perguntou de prontidão.
— É claro que ela tem, o médico bonitão aqui é o namorado dela. — Lara prontamente respondeu.
Hermione corou enquanto evitava o olhar de Draco. Pelo canto do olho, ela podia vê-lo segurando o riso.
— Olha, ela ficou toda vermelha! São namorados, são namorados. — Oliver cantarolou batendo com sua mão saudável contra o tecido da maca.
— Não, a tia Mone tem muitas outras coisas e não tem tempo pra namorar, e aposto que o médico bonitão também é muito ocupado. — Hermione se apressou pra sair antes de qualquer outra pergunta indiscreta. — Até depois, Oliver.
A cirurgia correu como esperado. Hermione fez o possível para fixar a barra de metal enquanto utilizava alguns feitiços escondidos de recuperação mais rápida. Se tudo saísse como planejado, em menos de dois meses ele já poderia retirar a haste.
Quando terminou, Hermione foi para seu consultório aguardar pela atualização dos prontuários para então evoluí-los e buscar novos procedimentos necessários. Ouviu a maioria dos residentes saindo de seus turnos e passando por sua sala para avisá-la. Menos Draco.
Se ele continuasse assim, agindo de forma quase escondida, Hermione poderia até mesmo fingir que sua presença não a incomodava tanto assim.
Quando terminou a vigésima quarta pasta, ela a dobrou e olhou para seu relógio de pulso.
Cinco e trinta e dois.
Estava atrasada.
Hermione bateu seu ponto e então vestiu rapidamente o vestido laranja e o salto que havia planejado. Fez um breve aceno com a varinha para organizar seu cabelo em um rabo de cavalo alto e ondulado que escorria até o meio de suas costas, e então se organizou para sair.
— Tem um encontro hoje, doutora? — O segurança perguntou com simpatia.
— É, algo assim. — Hermione sorriu em resposta, e então se apressou para aparatar em um local escondido.
Quando ela chegou no café, eram cinco e quarenta e cinco.
"Que ele não tenha desistido do encontro por culpa do meu atraso", torceu Hermione.
E então ela cruzou a porta, ajeitando o vestido.
O café estava um pouco vazio, assim como ela desejava. Havia um grupo de amigas conversando em uma mesa maior, e um jovem trabalhando em documentos em uma mesa pequena.
— Boa noite. — Hermione disse quando passou pela recepção, e então subiu as escadas até a parte da cafeteria que ela conhecia tão bem e gostava.
Quando chegou no deck, Hermione sentiu o perfume das flores alcançando-a. Era um jardim repleto de flores silvestres e pequenas árvores frutíferas. Tudo isso escondido em uma pequena rua de Londres. Da sacada, era possível ter a vista de parte da cidade ao entardecer. As linhas cor de rosa e fúcsia no horizonte anunciavam que logo anoiteceria.
Mas seu correspondente não estava ali.
Hermione se sentou em uma mesa redonda de ferro e aguardou. E aguardou ainda mais.
Quando já haviam passado dez minutos, ela achou que ele estava ainda mais atrasado do que ela.
Quando se passaram quinze, ela achou que ele já esteve ali, mas acabou desistindo devido a sua demora.
Hermione estava prestes a levantar quando ouviu passos subindo a escada. Ela sentiu seu estômago se revirar e sua pele se tornar rosa quando imaginou como seria seu correspondente.
Mas quem apareceu não era seu correspondente.
Era só Draco.
—Ah, fala sério. — Hermione resmungou enquanto procurava qualquer lugar onde poderia se esconder antes dele vê-la.
Não conseguia imaginar quão grande poderia ser seu azar para marcar um encontro com alguém no exato mesmo lugar em que Draco Malfoy estaria.
Ela o ouviu ofegar enquanto se apoiava na enorme porta de madeira de cerejeira. Draco olhou para seu relógio, e então procurou entre as mesas.
O mais escondida possível, estava Hermione, fingindo observar com muito interesse o material que compunha a sacada.
Draco pareceu compartilhar do desgosto em vê-la. Ele revirou os olhos e bufou, e só então cumprimentou.
— Doutora Granger.
— Malfoy.
Ele passou reto por sua mesa, caminhando em direção a mesa que ocupava o espaço ao lado de uma árvore repleta de flores, e só então Hermione percebeu o quanto ele parecia bem arrumado.
Seus olhos já não possuíam o aspecto cansado e arroxeado, e suas bochechas aparentavam um rubor que parecia saudável comparado com sua comum pele pálida e translúcida. Seu cabelo claro estava devidamente organizado de forma rebelde, e usava um blazer por cima de uma camisa azul escura.
Ele estava muito, muito bonito.
Em sua mão esquerda carregava um mínimo ramalhete de flores brancas.
Provavelmente o mesmo braço em que carregava a marca negra, pensou Hermione.
Era um encontro.
Ela ficou imediatamente desconsertada, imaginando como poderia pedir para seu correspondente trocar de estabelecimento assim que ele chegasse, isso se chegasse. Poderiam ir até outro café, ou dar uma volta no parque, quem sabe.
Tudo, menos ficar ali.
Hermione imaginou como poderia ser a mulher que logo chegaria para encontrar Draco. Imaginou se ela seria magra, alta e atlética. Imaginou se quem sabe, seria parecida com Pansy Parkinson na época da escola, recordando brevemente da forma como desconfiava que eles eram um casal.
Mas ninguém chegou.
A garçonete subiu as escadas e perguntou se Hermione gostaria de fazer um pedido.
— Obrigada, já estou de saída. — Respondeu enquanto se levantava, e então a garçonete se dirigiu para Draco.
— E o senhor, gostaria de pedir algo.
— Ainda não. Estou esperando alguém.
Hermione correu do café antes de descobrir quem seria a mulher que teria coragem de sair com um comensal da morte.
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