Cartas
12 XII: Monstro da recuperação
Notas iniciais
CARTAS
Escrita por Coffee
Capítulo XII: Monstro da recuperação
Carta não enviada
01 de outubro de 2005
Sasuke, mesmo que me recuse a admitir para Tsunade ou Ino, sinto que estou sem saída. Já tentamos de tudo — tudo mesmo —, eu até tomei um banho de efusão de ervas que uma curandeira do País dos Ursos me recomendou. Não ria — mas eu fiquei seis horas dentro de uma banheira de cobre, sussurrando palavras em uma língua antiga que não faço ideia do que significam. Talvez isso realmente cure gripe, resfriado, mal-estar ou coração partido. Bom, para o meu problema, não valeu. Sem falar que meu cabelo ficou uma semana inteirinha cheiras ervas duvidosas...
Deixando as brincadeiras de lado, eu realmente estou com medo. A cada dia sinto que meu tempo está acabando e a única coisa que consigo pensar é que eu gostaria de poder te ver uma última vez. Sem esperanças,
Sakura.
Sasuke passa seus dias em pé em frente a UTI. Sakura está constantemente dormindo e ele fica ali, velando seu sono até que alguém o peça para sair. Seu coração parece se acalmar aos poucos com o passar dos dias, ao escutar os médicos dizendo que sua recuperação vai bem, que o corpo começa a responder.
Raramente ele a vê de olhos abertos, devido aos medicamentos fortes — é o que dizem —, e ele a observa trocar duas ou três palavras com os médicos e enfermeiros antes de ser tomada pelo sono novamente.
Exatos cinco dias após a cirurgia, Ino o encontra do lado de fora da UTI. Ela tem um sorriso no rosto e uma série de exames nas mãos.
— Sakura vai ser transferida para o quarto hoje no final da manhã.
Ele respira aliviado, porque ao menos no quarto ele vai poder vê-la, e ela vai poder vê-lo.
Céus.
Ele vai poder tocá-la.
Há quantos anos ele não tinha o desejo de tocar alguém?
— Vá para casa e descanse um pouco. Logo as enfermeiras virão para fazer a mudança. No meio da tarde ela já receberá visitas.
Ele quer dizer que não, quer dizer que quer ficar ali, ao lado dela, mas ele sabe que todos estão abrindo exceções demais para ele e não quer causar mais problemas para Ino. Então apenas acena positivamente com a cabeça, dá uma última olhada em Sakura e sai do hospital.
Volta para o apartamento de Sakura, sem ter para onde ir ou o que fazer e deita-se no sofá, entregando-se ao sono pela primeira vez em muito tempo. Quando acorda, desesperado, vê no relógio que já passaram das quatro da tarde e corre para o banheiro, toma um banho rápido e come uma maçã que comprara no dia anterior, antes de ir para o hospital.
Sakura está no mesmo quarto que ficara antes e ele abre a porta devagar com medo de acordá-la. Seu coração está novamente batendo feito um imbecil com a simples ideia de vê-la de perto.
Naruto está ali dentro, assim como Kakashi e ela está acordada.
Tem os olhos sonolentos, os cabelos levemente bagunçados e ainda está cheia de fios para todos os lados, mas ele nunca a achou tão linda, pelo simples fato dela estar ali, respirando, de olhos abertos e com um sorriso nos lábios pálidos.
— Sasuke-kun.
É ela quem o cumprimenta, antes que ele possa dizer qualquer coisa. A voz dela é rouca, fraca e levemente quebrantada, provavelmente devido aos dias que passou sem usá-la.
— Sakura.
Ele diz, degustando o nome dela.
Kakashi olha dele para ela, coloca a mão no queixo e depois se volta para o pupilo loiro.
— Naruto, temos uma reunião agora.
Diz, já se preparando para sair do quarto.
— Não temos não, Shikamaru disse qu—
— Temos sim.
O tom de Kakashi é incisivo e ele dá uma cotovelada no aluno ao seu lado.
Naruto olha para o mais velho com uma sobrancelha arqueada, coça a cabeça, olha para ele e para Sakura e depois dá um sorriso sem-graça.
— Ah, você tá certo, Kakashi-sensei. Temos mesmo. Eu... Eu volto te ver mais tarde, Sakura-chan. Juízo em.
O loiro deixa um beijo na testa da amiga, tá um tapa no seu ombro ao passar por ele e deixa a sala junto com o Hatake.
— Como você está?
Não deveria ser ele a perguntar isso?
Ele se aproxima da cama a passos lentos, sem saber ao certo como agir. Coloca-se ao lado da cabeceira dela, observando os olhos verdes de perto, a pele pálida marcada, o sorriso fraco.
— Você me assustou.
É tudo que ele consegue dizer e ela dá um sorriso.
— Desculpe?
Ela meio pede, meio pergunta e ele somente dá os ombros.
— Como está se sentindo?
— Estou bem, Sasuke-kun.
— Dor?
— Um pouco no corte cirúrgico, um pouco no corpo pela posição e falta de movimento. Nada mais. Estou bem, de verdade. Embora sinta muito sono.
Ele acena positivamente, finalmente tomando coragem para tirar a mão de dentro do bolso. Sem graça e sem saber o que ou como fazer, ele aproxima a mão do braço direito dela e o toca levemente com as pontas dos dedos.
Sakura observa em silêncio, e ele vê a pele dela se arrepiar e a máquina de batimentos cardíacos apitar mais rápido.
Em dúvida, ele escorre os dedos pelo braço fino, subindo em direção ao ombro, até chegar no rosto. O toque também o causa arrepios e uma sensação diferente no seu peito. Ele toca o queixo suave e sobe para as bochechas, circula o símbolo em forma de losango no centro da testa dela, desce para o nariz e depois contorna os lábios lentamente.
As bochechas dela ganham uma coloração vermelha e ele imagina que as dele não devem estar tão diferentes, pela ardência que sente.
Sakura fecha os olhos com a carícia que ele volta para a sua bochecha, e, tão rápido quanto começou, ele volta a mão — que agora formiga — para o bolso da calça.
Sua mente é inundada pela lembrando do beijo de dias atrás. Da sensação do toque da boca dela na sua e ele mexe as cabeça de um lado para o outro na vã tentativa de esquecer aquela recordação.
Eles ficam assim, em silêncio, ela de olhos fechados por alguns segundos, até que os abre. Parecem injetados de alguma emoção, mas ele não consegue identificar qual.
— É bom te ver de novo, Sasuke-kun.
A voz dela sai em um sussurro e ela faz um gesto para que ele se aproxime. Lentamente, ela ergue a mão e ele abaixa a cabeça em direção a ela, quando entende o que ela quer, e, do mesmo modo que ele fez — embora o fio do soro a atrapalhe um pouco — ela o toca lentamente, primeiro no pescoço, depois no queixo e depois na bochecha.
A mão dela está gelada e tremendo, mas ela continua a carícia, passando a ponta dos dedos pela sua testa, nariz e em torno dos lábios. Ele fecha os olhos, por alguns segundos, quando ela acaricia sua bochecha e os abre novamente quando sente que ela se afasta.
Agora, o corpo dele inteiro parece formigar.
— É bom te ver de novo, Sakura.
Ele devolve a fala dela, se afastando, ao notar que ela ficou cansada com aquela simples interação, porque a respiração dela está pesada e os olhos ainda mais sonolentos.
— Desculpe não responder sua última carta, eu ia, mas... Fiquei te devendo.
— Você não me deve nada, Sakura.
Eu sou quem devo.
— Estou feliz que esteja aqui.
Ele acena com cabeça em concordância, esperando que ela entendesse.
— Eu... Eu estou com tanto sono..., Mas... Você veio me visitar e—
— Durma, Sakura. Eu ainda estarei aqui quando acordar.
Os olhos verdes se abrem em surpresa, as bochechas se colorem, e, por fim, ela sorri assentindo com a cabeça.
— É uma promessa?
— É uma certeza.
Sem dizer mais nada, ela se ajeita melhor na cama, o pouco que os movimentos limitados a permitem e aos poucos, ainda com um sorriso nos lábios, ele a vê se entregar ao sono.
Durante o início da noite, Shizune vem verificar a paciente, conversa um pouco com ele sobre como está a recuperação dela, e depois o deixa com um estranho afagar nos ombros. Mais tarde, uma enfermeira vem verificar a medicação e depois Ino.
— Já está acabando o horário de visitas.
— Eu vou passar a noite.
A loira o olha com dúvida nos olhos, se oferece para ficar, mas ele dispensa com um acenar e ela vai embora.
Já passa das nove da noite quando Sakura se remexe e passa das dez quando a porta do quarto é aberta silenciosamente.
Somente com a luz do banheiro acessa, sentado na poltrona, Sasuke vê Naruto entrar com as ponta dos pés. Já passara muito do horário de visitas, mas ser Hokage deveria dar alguns privilégios, afinal.
Naruto anda até Sakura, a observa, dá um toque na sua bochecha, acaricia seus cabelos e depois se senta na ponta da cama.
— Como ela está?
— Dormiu praticamente o tempo inteiro. Mas Shizune e Ino disseram que ela está bem.
O loiro acena positivamente, observando a amiga.
— Estou tão aliviado que esse transplante finalmente deu certo, você nem imagina.
Sim, ele imagina, mas não diz nada.
— Fiquei com... Tanto medo de perdê-la, tanto medo de não a ver mais...
Eu também.
Ele quer dizer alguma coisa, mas não consegue. Os sentimentos de Naruto são os seus, mas ele definitivamente não é bom em declarações.
— Estou feliz que você esteja aqui. Sabe, estou orgulhoso.
Olha para o Uzumaki em dúvida, sem entender exatamente onde aquela conversa vai chegar.
— Você... Você se importa. Tenho visto isso todos esses dias, desde que você chegou. Você realmente se importa conosco, com ela.
É claro que ele se importava, eles tinham crescido juntos, tinham permanecido ao seu lado em meio a toda sua loucura, nunca desistiram dele.
Eram sua família, afinal.
— Sim, eu me importo.
É o que ele se dispõe a dizer.
Naruto abre a boca para falar mais alguma coisa, mas Sakura solta um muxoxo baixo, se mexe, e, aos poucos, abre os olhos.
Ela pisca várias vezes, até conseguir manter os olhos abertos, e tenta — inutilmente — mudar de posição. Por fim, percebe a figura sentada aos pés da sua cama e sorri.
— Naruto.
— Ei, como você tá?
O loiro se levanta e vai até a cabeceira da cama, passando as mãos nos fios róseos e fazendo uma carícia suave.
— Estou bem.
Ela olha para o lado, os olhos verdes verificando o quarto, até parar nele. E ela sorri novamente.
— Você ficou.
Maneia com a cabeça em afirmação, mas não sai do lugar. Com Naruto ali ele ficava ainda mais sem saber como agir.
Por que para ele era tão difícil lidar com sentimentos? Tão difícil se aproximar?
Para todos, como exemplo Naruto, parecia tudo tão natural, tão simples... Já para ele exigia muito esforço, tentativa e coragem.
— Bom, eu só passei para te dar um beijo, já vou para casa, fiquei resolvendo algumas coisas no escritório até agora... Hinata deve estar me esperando.
— Obrigada.
Sakura agradece a visita, Naruto se despede dela com um beijo e dele com um aceno, e sai pela janela, ignorando a porta por onde entrara.
Quando ficam sozinhos, eles conversam um pouco, Sakura pede que ele conte mais sobre as suas viagens como forma de distraí-la. Vez ou outra eles são interrompidos por alguma enfermeira, que troca a medicação e traz uma sopa para que ela coma. Por fim, Sakura dorme novamente e ele permanece ali, sentado na poltrona, perdido em pensamentos e vendo-a dormir.
✉
03 de maio de 2004
Sasuke,
Naruto descobriu seus sentimentos por Hinata. Imagino que isso tenha acontecido porque ele se viu na possibilidade de perdê-la para outro. Então, ele finalmente percebeu o que sente. Ele me disse que para ele ainda é tudo muito novo e confuso, e aparentemente ele ainda não faz ideia de como lidar com a família dela. Anteontem ele foi até a casa dela, e na tentativa de não ter que dar satisfações para Hiashi, tentou entrar pela janela. É claro que fazer isso na casa de um clã ninja não foi uma boa ideia. Atacaram-no para defender a residência desse “ladrão” (mal sabem eles que ele não queria nada material, mas sim a princesa do Byakugan — o que é ainda pior) e por fim, ele caiu no jardim, bem em cima das roseiras. É claro que sobrou para mim. Ele veio parar no hospital, todo vermelho, inchado e reclamando mais do que nunca. No final do dia, meus pulsos estavam doendo de tanto tirar espinhos com a pinça. No fim, deu tudo certo, mas Hiashi está furioso querendo saber quem foi o idiota que acabou com as suas roseiras.
Só mesmo as trapalhadas de Naruto para me fazerem rir e me distraírem um pouco da sua ausência. Sinto muito a sua falta. Espero que logo você possa voltar para nós, ou, pelo menos responder alguma carta, preciso desesperadamente de notícias suas. Com saudades,
Sakura.
No outro dia, Ino estava ajudando-a a tomar banho. Estavam dentro do pequeno banheiro, ela sentada em uma cadeira de banho, e a amiga fazia uma massagem — maravilhosa — com shampoo nos seus cabelos.
— Céus, como é bom finalmente tomar um banho no chuveiro. Não aguentava mais banho no leito.
— É bom você melhorar logo, eu não sou sua empregadinha para ficar te dando banho.
A voz de Ino saiu aguda, mas ela sabia que era uma brincadeira, a amiga estava lá para tudo que ela precisava, desde que a outra descobriu sua doença.
— Esfregue as minhas costas e cale a boca.
— Será que você vai mandar assim no Sasuke também?
Confusa, ela se virou, o pouco que conseguia, e olhou para a Yamanaka.
— Do que está falando?
— Oh, Tsunade ainda não te contou?
— Contou o quê?
— Ele se ofereceu para cuidar de você, sabe, quando você receber alta.
— Aham.
Ela riu somente ao pensar na ideia.
— Estou falando sério, você ainda estava na UTI e Tsunade disse que você precisaria de alguém que a ajudasse quando fosse para casa e ele se ofereceu. Eu juro que eu me segurei para não fazer um sinal de liberação de genjutsu.
Sua sobrancelha se moveu sem sua permissão e seu cenho se franziu.
— Está falando sério mesmo?
— Seríssimo, ficamos todos chocados, mas ninguém conseguiu dizer mais nada, porque bem, era o Sasuke, mas se fosse qualquer outro acho que todos teríamos rolado no chão de tanto rir quando ele se ofereceu. Mas no fim, percebemos que ele falava sério e isso foi ainda mais assustador.
— Eu... Eu tenho certeza de que ele vai mudar de ideia. E eu não preciso de nenhuma babá.
— Duvido muito. E mesmo que esteja se sentindo bem vai precisar de ajuda sim, não pode andar sem apoio, tem muitos remédios para tomar, vai precisar de ajuda para comer e para tomar banho.
— Eu sou médica.
— Exatamente, não é o que dizem? Os médicos são sempre os piores pacientes.
Ino acabou de ensaboá-la e usou o pequeno chuveirinho para tirar a espuma, começando pelo cabelo. Ela fechou os olhos, ainda sem acreditar naquela conversa.
— Bom, eu me ofereci para te ajudar no banho, mas se você for esperta, vai falar para ele que eu tenho um compromisso e pedir que ele te ajude todo dia.
— Ino!
— Ora, não seja puritana, eu adoraria que ele me ajudasse a tomar banho. Já pensou ter aquelas mãos esfregando o seu corpo inteir—
— Cala a boca!
Suas bochechas deviam estar escarlates, de tanto que ardiam. Ela fechou os olhos com ainda mais força, tentando espantar aqueles pensamentos nada sutis da sua cabeça. A loira riu, tirando a espuma do resto do seu corpo.
— Estou brincando. Ou não. Eu aproveitaria a oportunidade.
— Não tenho dúvidas disso, Ino.
Elas permaneceram uns minutos em silêncio e quando Ino a ajudava a se enxugar, ela a olhou nos olhos, séria, dessa vez.
— Mas mudando de assunto, como você está se sentindo com a cirurgia? De verdade?
— Estou respondendo para minha amiga ou para uma das minhas médicas?
— Para quem você se sentir melhor.
— Para minha médica, estou bem, sinto um pouco de dores no corte, cansaço aos mínimos esforços, um pouco de falta de ar e embora sinta fome, sempre que como meu estômago parece um pouco nauseado. Para minha amiga...
Sua garganta pareceu fechar, e ela respirou fundo algumas vezes antes de continuar.
— Para minha amiga... Estou aliviada, mas ainda assim com muito medo.
— Por quê?
— Sabe, eu estava tão sem esperanças... Já tinha me conformado com o meu destino, mas agora... Agora parece que há uma saída.
— Você já passou da saída.
— E isso me assusta!
— Mas... Por quê?
— Eu tenho medo, medo de criar esperanças, medo de fazer planos, medo de achar que tudo vai ficar bem e... E as coisas piorarem de novo, ou meu corpo rejeitar esse transplante, ou...
— Sakura! — A loira subiu dois tons de voz quando ela perdeu o controle das palavras — Você não pode pensar assim, você não pode ficar com esse medo de... de viver. Nós não sabemos o que vai acontecer com nenhum de nós amanhã. Nem daqui dois segundos. Todos corremos o risco de... de partir a qualquer momento, se ficarmos pensando nisso, não viveremos.
— Sim, eu sei, você tem razão, é que... Eu tenho medo de me iludir sabe?
Ino colocou a camisola do hospital nela e penteou seus cabelos enquanto elas ainda conversavam.
— Se iludir é a parte mais legal da vida.
— Não depois que você cai na real e quebra a cara.
— Meu amor, eu nunca quebro a cara, eu sou bonita demais para isso.
Ela riu, enquanto Ino passava um hidratante nos seus braços.
— Prontíssima, está uma gata. Não mais do que eu, é claro. E o máximo que essa camisola ridícula permite, mas se você se esforçar, ainda dá pra seduzir o Uchiha.
Revirou os olhos, tentando disfarçar o rubor das bochechas. Agradecia mentalmente por Sasuke ter ido para casa — o seu apartamento — enquanto Ino a ajudava no banho, ela não sabia como iria o encará-lo depois de Ino colocar tantas coisas (indecentes) na sua cabeça, ela precisaria de um tempo para digerir tudo aquilo antes de conseguir olhar para ele sem que suas bochechas pegassem fogo.
Voltando para o quarto, Ino religou os aparelhos de monitoramento no seu peito, ajustou alguns medicamentos e depois, a deixou com um beijo na bochecha.
— Bom, vou falar para virem fazer seu curativo, já eu vou para minha última consulta e depois, passar na casa do Sai. Você me preocupou tanto nessas últimas semanas que eu não tinha vontade de nada, nada mesmo, e agora que você melhorou eu preciso desesperadamente de uma boa fod—
— Ino!
A Yamanaka deixou seu quarto rindo alto.
✉
Quando Ino entrou no quarto, dizendo que Sakura precisaria de ajuda para o banho, e perguntou se seria ele a ajudá-la, ele correu do hospital do mesmo modo que Naruto corria da pilha de papéis do seu escritório.
É claro que em caso de necessidade ele seria capaz de ajudá-la, mas não com a loira ali, os olhando com aqueles olhos curiosos e zombeteiros. Sem chance.
Voltando ao pequeno apartamento, ele achou que seria bom arrumar as coisas, pois, segundo Tsunade tinha o dito mais cedo, provavelmente mais um ou dois dias e Sakura estaria liberada para terminar sua recuperação em casa.
Ele então tirou a poeira dos móveis e do chão, aguou as plantinhas, arrumou alguns livros que tinha tirado da estante, e, o mais importante: abriu uma das gavetas da escrivaninha e jogou todas as cartas não enviadas lá dentro.
Não era um bom lugar para esconder, mas só de não ficar a vista era o suficiente. Naruto tinha dito que Sakura o tinha mandado queimar aquelas cartas, e ele não sabia como ela reagiria ao entrar ali e ver que todas elas continuavam no mesmo lugar, e que, pior: ele tinha lido a grande maioria.
Já seria estranho o suficiente conviverem no mesmo espaço.
Não tinha se arrependido de se oferecer, estava mais do que disposto a ajudá-la, mas a cada minuto que passava ele pensava o quão novo seria tudo aquilo. Justo ele, que estava acostumado a viver sozinho por tantos anos.
Quando voltou para o hospital, com o sol já se escondendo atrás do Monte dos Kages, ele encontrou Sakura com o rosto retorcido em uma careta e a mão na barriga.
— Está tudo bem?
— Um pouco nauseada, vomitei todo o café da tarde e imagino que o almoço também.
A testa dela tinha gotículas de suor e ela parecia... Febril?
— Estou bem, foi somente um mal-estar. É normal na recuperação.
Ele acenou, acreditando na palavra dela — ela era médica, afinal, a melhor — e sentou-se na poltrona. Permaneceram alguns minutos em silêncio, até que ela tirou as mãos da barriga e tocou a ponta do curativo que subia por todo o esterno quase até o seu pescoço.
— É muito estranho pensar que tem o coração de outra pessoa batendo aqui dentro.
As mãos pequenas desceram até o peito, tocando o lugar onde o novo coração batia.
— Isso salvou sua vida.
— Sim, eu sei... Apenas... É estranho. Quando pensava na possibilidade do transplante eu sempre me peguei pensando se me sentiria... Diferente depois dele, sabe?
— E se sente?
— Não, quer dizer, ainda sou eu. Eu acho. Mas... Ao mesmo tempo... É uma parte de outra pessoa, e o coração de outra pessoa.
— É o seu coração agora, Sakura.
Sim, era o coração dela, e ele não podia estar mais grato por ele estar batendo e mantendo-a viva.
Ela sorriu, ainda tocando a pele por cima do curativo e da camisola.
— Será que eu deveria me sentir diferente? Sei lá, sentir o que essa pessoa sentiu?
Ele não fazia ideia da resposta.
Então apenas deu os ombros, e para ela, foi o suficiente.
Dois dias depois, ele abriu a porta para que Kakashi passasse com a cadeira de rodas de Sakura pela porta do apartamento. Era de noite, porque ela tinha preferido esse horário como forma de desviar um pouco dos olhares que todos a dariam. Ainda assim, as poucas pessoas que andavam pelas ruas de Konoha naquele horário, viraram a cabeça para observar a famosa médica sendo conduzida por um traidor taciturno e por um ex-Hokage despreocupado.
Ninguém teve coragem de vir até eles perguntar o que tinha acontecido, mas os sussurros os perseguiram até passarem pela porta do prédio.
Naruto tinha os encontrado no hospital, e até tinha se oferecido para ir junto com eles e a esposa, mas Sakura disse que não havia necessidade, já chamariam atenção o suficiente. E então, ela mandou um Naruto com olheiras profundas em volta dos olhos azuis e uma Hinata exausta para casa.
— Levarei seu almoço amanhã.
A Hyuuga ofereceu, e não houve protestos o suficiente de Sakura que a fizesse mudar sua decisão.
— E eu passo te ver antes do trabalho.
Os dois os deixaram com um aceno, indo para sua casa e os outros três seguiram na caminhada.
Indo na frente, Sasuke abriu a porta do quarto e Kakashi segurou a pupila pelos joelhos e costas, para colocá-la na cama.
— Kakashi-sensei! Eu posso fazer isso sozinha, não sou mais uma garotinha.
Ignorando os protestos dela, o mais velho arrumou os lençóis sobre ela e os travesseiros nas suas costas, e, por fim, bagunçou o cabelo dela deixando-a ainda mais furiosa e vermelha.
— Kakashi-sensei!
— Eu não sou mais seu sensei.
— Você sempre será meu sensei, Kakashi-sensei.
Ele acabou de ajeitar o corpo dela na cama e sorriu.
— E você será sempre minha garotinha, tampinha.
Sakura desistiu de protestar e aceitou a carícia que o professor fez no seu ombro antes de se afastar.
— Eu vou para casa, se precisarem de alguma coisa, me chamem. Passo aqui amanhã para ver como você está.
— Eu estou bem, Kakashi-sensei.
— É claro que está. É isso que me incomoda, eu deveria pedir para uma dama-de-companhia ficar com vocês?
— Sensei!
Sasuke saiu do cômodo feito um raio para tentar disfarçar o rubor que cobriu suas bochechas. Sim, ele ainda não estava nada arrependido da oferta de ficar com ela, mas com certeza, aquilo seria um desafio. Principalmente com um Kakashi sem noção e a Yamanaka língua-solta perto deles.
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