Cartas

6 VI: Monstro da insegurança


Notas iniciais
24 de março de 2021 Querido leitores, Dedico esse capítulo a incrível Acydya que deixou uma recomendação maravilhosa para a história. Muito obrigada pela escolha de palavras, pelo recado e pelo carinho. Também agradeço imensamente a todos que tiram uns minutinhos do seu tempo para comentar! Para quem ainda não viu, atualizei algumas histórias e postei novas, espero ver vocês por lá também! Agora, vamos de Cartas, boa leitura! Com carinho, Coffee.

CARTAS

Escrita por Coffee

Capítulo VI: Monstro da insegurança

Carta não enviada

08 de março de 2006

Sasuke,

O que devemos fazer quando não nos resta mais nada? Quando parece que tudo que fizemos até aqui não adiantou de nada? O que fazer quando nos esforçamos, quando damos o nosso máximo, mas não [palavras ilegíveis]

Não falo da nossa relação. É algo mais [borrão] e sério que isso.

Não tenho mais vontade de levantar-me da cama. Não tenho mais vontade de ver ninguém. Não tenho mais vontade de trabalhar. Sim, você leu certo.

Sasuke, estou vazia. Estou com medo. Estou [palavra ilegível]. Estou apavorada.

Não quero ver ninguém porque tenho medo de que seja a última vez. Não quero ver ninguém para não ter que me explicar. Por que emagreci tanto? Por que estou [borrão]? Por que estou fazendo as coisas com tanta dificuldade?

Não quero responder [borrão]

[palavras ilegíveis]

Está difícil até mesmo escrever. E não sei ainda se devo continuar a fazê-lo.

Sasuke, por favor, me diga o que devo [palavras ilegíveis]

[palavras ilegíveis] muita falta.

Com saudades, Sakura.

Ino nota que há algo errado quando bate na porta do consultório de Tsunade cinco vezes e não obtém nenhuma resposta. O chakra está forte, um sinal de que a médica está ali dentro, e então ela tenta mais uma vez.

Nada.

Tsunade sempre respondia um “entre” no primeiro toque, às vezes antes mesmo que ela batesse à porta, mas agora, tudo o que há do outro lado é silêncio. Fica em dúvida do que deve fazer, ir embora? Voltar depois? Não... Ela realmente precisa da opinião de Tsunade sobre um caso. Está em dúvida de qual tratamento seguir, se deve operá-lo, se deve aguardar, se deve pedir outros exames...

Ino é uma boa médica. Dedicada, atenciosa, inteligente. Mas não é tão boa quanto Sakura ou Tsunade. Ela gosta muito da profissão, gosta da cura, do poder, mas não tanto de trabalhar no hospital. Ela gosta do trabalho de campo, da adrenalina, de curar os companheiros rapidamente para que a luta continue, gosta das missões. Ela não é como Sakura, que ama aquele hospital, ama gastar horas dentro do centro cirúrgico com sua paciente infinita, seu gosto pelos detalhes e sua sede insaciável por conhecimento.

Então, quando não estava em missões e pegava plantões ali no hospital, em casos de dúvidas ela sempre procurava a amiga. Essa não é uma opção agora. É claro que Sakura ainda está lúcida, ainda tem a mesma inteligência, e seria sim, capaz de auxiliá-la a tomar uma decisão, mas ela não quer incomodar a amiga. No começo até tinha tentado inclui-la nos assuntos do hospital, para que não se sentisse excluída, para que pudesse ocupar sua mente com outras coisas, mas a Haruno não tinha gostado da ideia, andava despedaçada demais para tomar decisões pelas vidas dos outros agora. Então ela parou de tentar, e sempre procurava a tutora mais velha em busca de direcionamento quando precisava.

Não bate novamente, apenas abre uma frecha da porta, depois um espaço maior, até passar por ela e entrar na sala. Seu pé imediatamente pisa em um objeto estranho, e só então ela nota os milhares de pequenos casos de vidro no chão. Copos? Objetos de decoração? Ela não sabe dizer.

Tsunade está sentada atrás da grande mesa de mogno. A mesa está uma bagunça interminável de papéis, mais cacos, e garrafas — incrivelmente não abertas — de saquê. A Senju está vermelha, com os cabelos despenteados, como se tivesse passado as mãos por eles diversas vezes, e tem olheiras embaixo dos olhos amendoados tão pronunciadas que Ino podia jurar que ela esteve chorando.

Tenta ser silenciosa e discreta, e anda a passos lentos, desviando dos casos do chão e se aproxima da mesa como se estivesse se aproximando de um animal selvagem. Embora seja uma ninja excepcional, Tsunade parece ainda não ter notado a sua presença, e mais uma vez ela se pergunta se devia simplesmente sair correndo dali.

É somente quando ela pisa em mais um caco de vidro, o som do seu sapato o esmagando no chão e o barulho ecoando pela sala, que a médica tira os olhos dos papéis de cima da mesa e olha para ela.

— Ah Ino, é você. Entre, por favor.

É tudo que diz, embora ela já tenha entrado.

— Desculpe a bagunça.

Tsunade não é uma mulher de pedir desculpas. Isso apenas prova o quão ruim está naquele momento. Imediatamente ela sente empatia, quer perguntar o que está acontecendo, oferecer algum consolo, mas não sabe exatamente o que fazer. Elas nem têm tanta intimidade assim.

Contudo, a ex-Hokage é mais rápida, e começa a falar antes mesmo que ela responda as duas falas anteriores.

— São os exames da Sakura — Aponta para os papéis sobre a mesa — Está cada vez pior, não sei mais o que fazer, sinto que... Nada que eu faça é o suficiente. A vida dela está escapando pelos meus dedos, e não há nada que eu possa fazer para retardar isso.

Ino fecha os olhos por alguns instantes, absorvendo as palavras.

Ela sabe que a situação da amiga não é boa, mas ouvir aquilo da boca de Tsunade, a melhor médica do País do Fogo parece tornar tudo ainda mais real e desesperador.

Seu coração está quebrado. Lembra-se de tudo que ela e Sakura viveram desde pequenas, e às vezes até se culpa por não ter estado tão presente quando gostaria, por não ter dado o devido valor para aquela amizade, por terem passado tanto tempo brigadas por bobeiras, quando poderiam ter aprendido e crescido tanto juntas.

Agora, parece tarde demais.

Recorda-se com clareza de quando viu Sakura em uma cama de hospital pela primeira vez, um ano e meio atrás. Tinha passado dois meses em uma missão humanitária com Shikamaru e Temari, a ninja de Suna, em uma pequena vila do outro lado do continente, e quando voltou soube que sua amiga mais antiga estava internada ali. Ao entrar na sala ela se deparou com uma Sakura totalmente diferente do que se lembrava, pálida, magra, com toda a vitalidade aparentemente esvaída.

Ainda assim, a rosada estava muito melhor do que agora.

Ela não sabe se alguma coisa poderia ter sido diferente. Se tinha deixado algo passar, se aquilo era punição por alguma coisa, se os deuses realmente existiam ou se era apenas o universo cruel, rindo das suas desgraças.

Quando Sakura perdeu os pais, esteve ao lado dela. Ajudou a amiga a passar pelo luto, escutou os seus choros a noite, acolheu a sua dor, e a carregou diversas vezes quando a encontrava destruída em um canto da casa, sem comer, sem dormir, sem trabalhar.

Mas aos poucos, Sakura se reergueu, como fizera sua vida inteira, e ela achou que as coisas fossem ficar bem, partiu para a sua missão tranquila, mas quando voltou a tempestade desmoronou sem piedade sobre ela.

Sobre elas.

Sakura já sabia. Sabia há anos. Mas não tinha contado a ninguém. Nem a Naruto, nem a Kakashi, nem a ela.

E secretamente, uma parte egoísta de Ino agradecia a decisão da amiga. Ela não sabia como iria lidar se soubesse de aquilo há mais tempo. Se iria aguentar. Tinha olheiras constantes abaixo dos olhos, por dormir no hospital todas as noites, e mesmo quando alguém se oferecia para passar a noite no lugar dela, ela ia para casa e ainda assim era assombrada por pesadelos contínuos.

Nada que fizessem parecia o suficiente. Por mais que Tsunade estudasse, por mais que ela auxiliasse, por mais que tentassem... Nada. Não havia nenhuma melhora, nenhuma esperança, nenhum consolo para o coração delas.

Todos pareciam cientes do risco. Desesperados, cansados, exaustos. Até mesmo o cabeça-oca do Naruto. Alguns meses atrás ela o encontrara no quarto de Sakura tarde da noite, após ir buscar água. Sakura dormia sob os efeitos de medicamentos, e Naruto confidenciou a ela que tinha mandado uma carta para Sasuke.

Ela achou uma tolice. Não tinham notícias dele há tempos, e todas as cartas que a amiga mandava permaneciam sem resposta. Ele não se importava, era simples. E suas suspeitas foram confirmadas quando os dias passaram, e ele não apareceu.

Algum tempo depois, foi Kakashi quem contou que tinham enviado uma segunda e uma terceira carta. Mais claras, objetivas... Mais verdadeiras. E mais uma vez, Ino duvidou.

Não sabia o que esperar de Sasuke, sempre tão calado, tão frio, tão taciturno. Sempre tão fechado com os próprios sentimentos. Ela desistira facilmente daquela paixão, mas Sakura não, Sakura não desistia nunca. A amiga parecia ter um ímpeto que não a deixava desistir.

Foi um choque, então, quando ela o viu passando pela porta do quarto da amiga no começo da semana. Sakura estava desacordada, todos eles envolta dela após Tsunade passar mais uma notícia desanimadora, e imediatamente Ino sentiu algo no ar, embora não pudesse distinguir exatamente o quê.

Sabia como ele era importante para a amiga, de um modo que nunca fora para ela. Para ela, nunca passara de uma paixão infantil, de um menino bonito, de um desafio. Mas... Para Sakura sempre fora algo há mais. Ela sentia-se até envergonhada por ter tentado, uma vez, se interpor entre eles, quando não passavam de adolescentes, porque havia uma coisa ali... Embora não soubesse nomear, nem identificar..., mas ela sentiu.

No exato momento que ele entrou no quarto, e os olhos negros caíram sobre a ninja na cama.

Ele realmente estava ali.

Por Sakura.

Agora ela via. Havia um laço entre eles. Um laço que apesar da distância, da dor, de tudo que passaram, não podia ser rompido.

E o olhar dele, naquele momento, foi uma das coisas mais tristes que ela já presenciara. O foque e desfoque rápido do cristalino, a tentativa desesperada de não acreditar naquilo que os olhos viam...

E o momento em que ele finalmente aceitou o que o cérebro o mostrava, partiu seu coração.

O desespero. A incredulidade. O medo.

Pela primeira vez na vida Ino o viu com medo. Embora não tenha convivido muito com ele, ela se lembrava do olhar impetuoso, inabalável, que nunca vacilava. Nem na guerra, nem nos tempos de gennin, nem no julgamento. Nunca.

Mas naquele momento, naquele quarto, ao ver a ex-companheira de time, e talvez algo mais naquela situação... O olhar vacilou.

Ele, de algum modo torto, se importava.

Ino abriu os olhos, saindo do transe de lembranças e memórias, e olhou para Tsunade a sua frente, já sem saber o que responder ou perguntar.

— Com o resultado desses exames provavelmente Sakura subirá na lista de transplantes.

— Isso é bom.

Foi tudo o que conseguiu dizer.

— Eu nem sei se é possível realizar essa cirurgia. Não tenho experiência com esse tipo de técnica e não é uma boa ideia testar isso em Sakura.

— A senhora é a melhor médica do mundo shinobi.

— Até mesmo grandes médicos tem limitações, Ino. Principalmente quando há um lado emocional envolvido.

Elas permaneceram ali, olhando uma para outra, sem dizer nada.

Sasuke ainda sentia o toque do corpo dela no seu. Um toque fantasma que tinha o perseguido desde ontem a noite quando saíra do hospital, prosseguiu por toda a noite, e agora, quando ele retornava ao hospital novamente, ainda podia sentir os pequenos braços ao redor de si.

Ele ficou com ela até que dormisse. Depois, andou até a recepção, e pediu um papel e caneta para a secretária embasbacada, e voltou para o quarto feito um foragido. Escreveu. Dobrou. E deixou sobre a mesa de cabeceira, do mesmo modo como tinha feito dias atrás.

Não sabia se ela tinha lido, mas imaginava que sim, pois assim que entrou no quarto novamente, percebeu que o papel não estava mais em vista e Sakura sorriu para como se houvesse alguma cumplicidade silenciosa entre eles.

De certo modo, havia.

Ele não sabe o que pensar. Não sabe ao certo o que está sentido. Há anos ele tenta fugir de sentimentos, fugir de pensamentos, evitando ao máximo olhar para o seu interior. Agora, sem opção, ele olha, mas está tudo uma bagunça, uma confusão de tristeza, angústia e dor.

Não importa se ele vá pra casa — a casa dela — seus pensamentos permanecem fixados naquele pequeno quarto de hospital. Ele tenta dormir, meditar, cozinhar, cuidar das plantas, fazer qualquer coisa para esquecer aquilo, pelo menos por alguns minutos, mas não consegue. Naquela manhã tinha acordado de madrugada e ido para um campo de treinamento, na esperança de conseguir fazer algum exercício que mantivesse sua mente ocupada, mas foi em vão.

Seu arremesso de kunais foi pior do que quando era gennin.

E no fim, ele voltou para o hospital em derrota. Tinha medo de entrar ali, medo de entrar no quarto e ela não estar, medo de entrar e ela estar pior no que no dia anterior. Mas o pior de tudo era partir, era ir embora quando a lua assumia o seu posto e passar a noite inteira com medo de ser acordado com Naruto batendo na porta com uma notícia terrível nos lábios.

Era uma inquietação sem fim. Seu coração parecia constantemente acelerado.

Não havia paz.

— Como você está?

É a própria Sakura quem o tira dos seus pensamentos. Só então ele percebe que já faz alguns minutos que está parado ali, na entrada do quarto feito o idiota que é.

— Bem.

Responde. Deveria perguntar por ela? Ou seria insensível perguntar como ela estava em uma situação como aquela?

Ele não sabia.

— E você?

— Um pouco de dor. Mas estou bem.

Só então ele nota o suor acumulado nos cantos da testa e a posição encolhida que ela está.

— Quer que eu chame Tsunade?

Ela balança negativamente a cabeça e faz sinal para que ele se aproxime mais.

— Sasuke-kun. Obrigada pela carta. De verdade. Sei que você provavelmente não quer falar sobre isso mais... — Ela para recuperar o fôlego — Sasuke-kun, estou muito, muito feliz de te ter aqui.

Não sabe o que responder. Ela tosse duas vezes, e ele olha em dúvida para porta. Deveria chamar alguém? Tsunade já tinha passado por ali?

Os apitos constantes das máquinas conectadas a ela parecem regulares, mas a aparência dela não está bem.

— Sasuke-kun?

Ela chama, e ele olha para ela. Os grandes olhos verdes são os mesmos de sempre. Acolhedores, verdadeiros, confiáveis.

Aguarda que ela continue, e ela respira fundo duas ou três vezes antes de falar.

— Me beija?

Ele olha para ela. Está lúcida? Talvez estivesse com febre ou—

— Por favor.

Não consegue responder. Continua parado, agora a dois passos da cama.

— Sei que minha aparência não é muito convidativa, mas—

— Não diga besteiras.

Uma mordida no lábio inferior branco e fino feito papel.

A pele pálida ganha uma coloração, como se estivesse feito aquele pedido em um ímpeto e agora se arrependesse.

O que ela estaria pensando?

— Esqueça, eu, eu não sei o que estava pensando e, desculpe, Sasuke-kun.

Ela começa a falar desesperada, fazendo alguns gestos estranhos com as mãos com mobilidade limitada devido aos fios.

Ele respira fundo, e acaba com os últimos dois passos que faltavam. Senta-se na beirada da cama do mesmo modo que no dia anterior, e segura a mão dela antes que ela arrancasse aqueles fios de tanto mexê-las de nervoso.

Não sabe como fazer aquilo. Não sabe se deve fazer aquilo.

Estão em um hospital. Alguém poderia entrar a qualquer minuto e expulsá-lo dali.

Mas o que mais pesa é a sua insegurança.

Ele nunca tocou em uma mulher.

Parecia uma troca íntima demais, nua demais, que sempre o assustou.

O que deveria fazer?

A máquina conectada a Sakura começa a fazer barulhos diferentes. Ele tenta se afastar para analisá-la, mas Sakura faz um sinal com a cabeça.

— Está tudo bem. É... Apenas meu coração...

Acelerado.

Ela não completa.

Ele respira fundo, e aos poucos se aproxima mais. Lento.

Ele tinha medo. Medo de fazer algo errado e piorar a situação dela. Medo dela se desfazer em seus braços, de sumir, de...

O significado do pedido era o pior.

Ela sabia que o seu tempo estava chegando ao fim.

Se ele não a beijasse, ela se esforçaria para melhorar? Se esforçaria para ficar um pouco mais?

É um pensamento ridículo.

E cortando tudo aquilo, ele cola suas testas.

O cabelo dela está úmido e cheia a ervas frescas, Ino quase sempre a ajudava a tomar banho antes de ir embora, ele sabia.

Eles ficam algum tempo assim, as testas coladas, as respirações se misturando, e a máquina apitando freneticamente.

E então, ele finalmente toma coragem. E aproxima os seus lábios.

É suave. Lento.

Nos primeiros segundos eles apenas ficam com os lábios colados um ao outro. Nenhum dos dois com muita certeza do que fazer. É Sakura quem toma a iniciativa, e move os dela sob os dele.

Os lábios dela estão levemente rachados.

Não é um problema para ele.

Ele segue o movimento dela, aprendendo juntos, testando juntos, e dura alguns segundos até que ela se afasta para respirar.

Permanecem com a testa colada e tentam de novo. É suave. Como uma canção.

Tentam mais uma, duas, três vezes. Até que ele sente um chakra se aproximando, e se afasta em velocidade ninja até a parede aposta.

Sakura está ofegante, os lábios pálidos agora têm um pouco de cor, e os cabelos estão bagunçados pelas mãos dele, embora ele não se lembre de tê-los tocado.

Tsunade abre a porta. Olha primeiro para ele. Depois para Sakura. Para o monitor apitando desesperadamente, e depois para ele novamente.

— Não quero saber.

Ela diz, antes que qualquer um dos dois pudessem abrir a boca para vomitar alguma explicação sem sentido.

A Senju examinou Sakura em silêncio por dez ou quinze minutos.

— Eu vou ter que mudar sua medicação novamente.

— Tsunade-sama, por favor.

— Você claramente não está bem. Os sinais vitais estão alterados, e os seus exames também mostram a necessidade de uma medicação mais forte.

— Não quero ficar dopada.

— De 0 a 10, qual a sua dor?

— Cinco.

— Mentirosa.

— A dor é minha.

— Pelo que os sintomas indicam sua dor está no mínimo oito. Não vou deixar você desse jeito.

— Tsunade-sama, eu não—

— Sasuke, por que você não vai tomar um café?

A loira dirige a palavra a ele pela primeira vez desde que entrou na sala. Ele entende imediatamente que ela precisa ficar a sós com Sakura e acena positivamente antes de se desencostar da parede e andar até a porta.

— Sasuke-kun?

Sakura chama, assim que ele coloca a mão na maçaneta. Ele olha para trás em dúvida. A ex-Hokage olha para a pupila com uma expressão que ele não sabe identificar o significado.

— Obrigada. Eu queria que fosse com você.

O beijo.

Ele entende. Há tanto que ele quer falar, há tanto que ele fazer... Ainda sente os lábios frágeis dela sob os seus, mas mais uma vez o monitor faz um barulho estranho, e Tsunade olha para ele para que se apresse.

Então, apenas acena com cabeça, e sai do quarto.

As palavras não ditas martelando em sua mente.

Eu também Sakura, eu também.

Por favor, fique bem.

01 de março de 2007

Sakura,

Você disse que se sentia fracassada. Que proibiu que os internos e residentes visitassem o seu quarto para que eles não a vissem assim, fragilizada. Disse que tem vergonha que os seus pacientes a vejam doente, porque eles não acreditariam em uma médica com a saúde debilitada. Mas você está errada. Se eles soubessem, se eles sequer imaginassem, todos eles admirariam sua força, sua vontade, sua luta. Eles ficariam honradas por saber que, mesmo colocando a própria saúde em risco, você sempre os ajudou. Sempre esteve ali para eles. Acho que eles gostariam de estar ali para você também. Assim como os seus internos e residentes, a quem você tanto ensinou.

Durante a minha vida inteira tentei fugir das minhas próprias fraquezas. Ou daquilo que eu considerava uma fraqueza. E eu tenho muitas. Mas você, você nunca fugiu das suas. Você sempre as encarou de igual para igual, e conseguiu superá-las. Sakura, fracassados somos nós, nós que não conseguimos nos entregar aos sentimentos, que não conseguimos nos entregar a vida. Não você. Você nunca fracassou, e não vai fracassar agora.

Sasuke.

Notas finais
Alguns leitores têm me mandado mensagens e comentários dizendo que não recebem notificações quando as histórias são atualizadas, por isso criei um perfil no instagram para avisar quando posto capítulos ou histórias novas, caso tenha interesse passe lá: @historiasdacoffee . Novas histórias postadas: https://fanfiction.com.br/historia/800164/Estrelas_Mortas/ https://fanfiction.com.br/historia/800141/Pontos_Cardeais/ . História finalizada essa semana: https://fanfiction.com.br/historia/697427/Entre_Sombras/ . Em breve, voltou com mais Cartas. Obrigada por ler!