Cartas
5 V: Monstro do julgamento
Notas iniciais
CARTAS
Escrita por Coffee
Capítulo V: Monstro do julgamento
27 de dezembro de 2005
Sasuke,
As coisas estão um pouco estranhas por aqui. Não se preocupe, a vila está ótima, nenhuma ameaça, nenhum problema. O recente exame chunnin foi um sucesso, e Naruto está radiante, afinal, organizar esse evento foi sua última prova antes de se tornar Hokage. Se tudo der certo, o posto será passado para ele logo nos primeiros meses desse novo ano. Mas (rasura). Sei que você não compareceu ao casamento dele, e nós entendemos, mas acho que seria muito importante para ele se você pudesse vir na cerimônia de passagem de posto. Eu também ficaria muito feliz em te ver... Então caso esteja por perto... Se puder aparecer...
Enfim, como os dias desse ano estão acabando, já quero te desejar um feliz ano novo. Espero que esses anos estejam sendo momentos de paz e descobertas para você. Espero que você esteja bem... Que esteja feliz. Sei que felicidade ainda é uma palavra muito forte, depois de tudo que passou, mas... Espero que você esteja ao menos próximo de ser feliz, independente de onde esteja. Sinto sua falta.
Com saudades, Sakura.
Tsunade estava organizando sua equipe e recebendo os novos internos. Não era fácil administrar o hospital sem a ajuda de Sakura. Nos últimos anos tinha sido ela quem ficara responsável pelo gerenciamento da equipe, era ela quem sempre recebia os novos internos e residentes, com o seu sorriso característico e sua paciência infinita.
Paciência essa que também era muito útil para resolver papeladas burocráticas do hospital. Agora, ela e Shizune estavam atoladas de atendimento e gerenciamento, com um membro a menos na equipe, e um membro de grande importância, estava sendo difícil dar conta de tudo. Mesmo que Hinata estivesse se oferecido para ajudar nas papeladas, ainda sim sobrava serviço e cansaço.
A verdade era que, por mais que Tsunade estivesse grata com a ajuda da Hyuuga, dos residentes e dos internos que dobraram suas cargas horárias para ajudá-las, nenhum deles era ela. Nenhum deles era Sakura.
Com o sorriso gentil, a bondade, a humanidade. Com aquele amor em tratar, em ajudar. Nenhum deles entrava na sua sala no fim do expediente, com olheiras, cansado, mais ainda com um sorriso, e dizia “shishou, acho que a senhora precisa desesperadamente de um copo de sakê” e o colocava bem na sua frente como se tivesse adivinhado seus pensamentos.
Embora tentasse manter a postura firme, por dentro, Tsunade estava despedaçada. Ver dia após dia Sakura piorando independente do tratamento que fizesse a partia. Observar uma vida tão jovem, tão alegre se despedindo de um corpo que não podia mais suportá-la... Já tinha passado isso com inúmeros pacientes... E com todos tinha sido doloroso, difícil..., mas... Sakura era a sua pupila. Ela tinha a acompanhado crescer, evoluir... Se tornar uma mulher. Tinha visto as fases mais gloriosas e mais degradantes da menina.
Lidar com a probabilidade de morte não era fácil. E ela sabia que mesmo que tivesse 10, 30, 50, 70 anos de medicina, em nenhum momento ficaria mais simples. Estava acostumada a curar, a ver os pacientes chegarem com alguma enfermidade, e saírem agradecendo-a por tê-los ajudado e curado. Mas justo a pessoa que ela mais queria ajudar... Não conseguia. Nada fazia efeito, nada trazia o resultado esperado.
Ela olhou no relógio.
Era exatamente seis e cinquenta e nove, quando o Uchiha passou pelas portas amplas do hospital. Estava com os cabelos úmidos e tinha feito a barba, reparou. Não vestia mais a calça curta do dia anterior, mas sim uma calça do seu tamanho e uma camiseta de cor sóbria. Não tinha dormido, percebeu também. Tinha olheiras roxas visíveis até mesmo de longe, onde ela estava.
A moça da recepção corou quando ele se aproximou, observou que ela gaguejou algumas palavras, e depois encontrou o seu olhar.
Seis e cinquenta e nove. Um minuto para o horário de visitas.
Acenou positivamente para a funcionária, que estendeu o livro de visitas para o Uchiha. Um minuto, estava um minuto adiantado, ainda sim Tsunade o deixou entrar. Ele ao menos tinha tentado seguir o que ela o pedira no dia anterior.
O que era um minuto, afinal?
Na situação que estava todo tempo parecia insuficiente.
✉
Dessa vez, quando ele entrou no quarto, Ino estava acordada. Sakura também. Elas estavam cochichando algo, e ele quase sai ao sentir que está incomodando, mas a médica o vê.
— Bom dia — Ela sorri para ele.
Ele nota que a carta não está mais no criado-mudo em que ele tinha deixado na noite anterior. E ela não diz nada sobre, afinal, ela é Sakura. E sabe que comentar algo como aquilo, principalmente na frente de Ino o deixaria sem jeito.
Era mais fácil escrever uma carta do que falar cara a cara, ele notou, após escrevê-la, levado pelo impulso, pelo arrependimento e pela dor. Ainda sim... Deixar para que ela lesse... Demorou vinte minutos e outro impulso de coragem, onde ele não pensou muito, apenas entrou no quarto sorrateiro, tentando não acordar a Yamanaka, e deixou a carta para ela. Depois saiu correndo, com medo que alguém acordasse e o pegasse fazendo aquilo, ou então antes que sua coragem se esvaísse e ele voltasse correndo recolher a carta.
Ele nem pensou na situação degradante que seria caso Ino acordasse primeiro e abrisse a carta.
Degradante...
Não que se sentisse assim ao escrever uma carta. Escrevera com toda a sua sinceridade (e o seu desespero). Mas demonstrar o que se passava em seu interior nunca havia sido uma tarefa fácil. Pelo contrário. Ele tinha uma enorme dificuldade em por para fora aquilo que sentia. Era como se, ao fazê-lo ele ficasse exposto, quase nu. Como se todos pudessem ver através dele, coisa que só uma pessoa parecia ser capaz de fazer, e ainda sim, continuar gostando dele. Sakura.
— Bom, então eu vou indo, Tsunade já deve estar passando o plantão e vai ficar brava se eu me atrasar muito.
A loira disse, o tirando dos seus pensamentos. Ela deu um beijo na bochecha da amiga, passou as mãos pelos seus cabelos, desejou que ela ficasse bem, antes de estranhamente se virar para ele, piscar com um olho só, e deixá-los a sós.
Ele não fazia ideia do que uma piscada significava.
— Acordou cedo.
Sakura comentou, ele quis responder “eu nem ao menos dormi”, mas se manteve em silêncio.
No dia anterior, após deixar a carta e sair correndo como se o próprio demônio estivesse o perseguindo, ele foi para apartamento dela. Abriu três cartas não enviadas, que o deixaram totalmente desfigurado, e depois, tentou, inutilmente dormir. O que não deu certo. Então ele leu mais um pouco do livro jardinagem para iniciantes, tentou melhorar a aparência das plantas – o que também não deu certo – e então, tomou coragem e abriu a porta que havia ficado fechada até então.
O quarto dela.
Ele não tinha tido a audácia de entrar ali ainda. Quartos sempre o pareceram íntimos demais, para que ele entrasse assim, principalmente sem permissão, mas tomara por algum instinto, ele o fez.
Não tinha nada demais.
Uma cama de casal de ferro, com desenhos de flores na cabeceira, um criado-mudo com um abajur e um vasinho de plantas (é claro), um guarda-roupas branco com um único espelho, e uma cômoda no lado oposto.
Sobre a cômoda havia seis porta-retratos. A primeira foto que o time sete tirou juntos, gêmeas das que Naruto, ele e Kakashi também tinham, embora a sua tenha se perdido logo quando saiu de Konoha. A outra foto era do time sete sem ele, com Sai e Yamato. A próxima era dela com Ino, e havia outra dela com Tsunade, envoltas em roupas brancas e um diploma nas mãos. Também encontrou ali uma foto do casamento de Naruto, dela e Sai sorrindo, abraçando os noivos, e por fim, havia também uma dela pequena, com seus pais, sorrindo, sem dois dentes e com um vestido laranja tão berrante quanto as roupas de Naruto.
Essa foto em particular o fez lembrar da primeira das cartas que tinha acabado de ler.
Carta não enviada
03 de outubro de 2004
Sasuke,
Estou quebrada.
Perdi os meus pais.
Sei que eu não deveria estar conversando sobre isso com você. Mas...
Estava tudo bem. Eles estavam ficando idosos, mas estava tudo bem. Mas... Papai ficou doente. Eu nunca havia o visto daquele jeito. Aquele homem tão forte, tão grande, tão animado... Ficou tão frágil... Respirando com dificuldade, tossindo constantemente e com os pulmões cada vez mais fracos. Ele demorou muito para nos contar. Eu estava tão atolada de trabalho, de coisas para fazer, que demorei umas duas semanas para ir visitá-los e perceber que ele não estava bem. Estava tossindo sangue. Muito.
É claro, eu o levei para o hospital, Tsunade o examinou, Shizune o examinou, Ino e eu o examinamos... Tentamos de tudo. Mas nada surtiu efeito. A cada dia que o analisávamos, ele estava pior. Os resultados dos exames laboratoriais chegaram, e era uma doença contagiosa. Contamos para a minha mãe, que era perigoso que ela ficasse ali, junto dele, o dia todo, sem proteção, sem o equipamento necessário, mas ainda assim, ela se recusou a sair. Se recusou a deixá-lo. “Eu não vou deixar o meu marido nesse quarto inóspito, sozinho.” Ela repetia. “Vou ficar com ele até o fim”. Era uma bactéria invasiva. Não havia o que fazer, somente tratar os sintomas e rezar.
Eu rezei, Sasuke-kun, eu rezei tanto, por um milagre, por uma ajuda, por uma cura. Mas nada. Menos de uma semana depois, ele partiu. Eu e minha mãe estávamos com ele no quarto, quando o coração parou de bater.
Eu ainda tentei, inutilmente, reanimá-lo.
Nada.
Eu nunca me senti uma médica tão fracassada.
Duas semanas depois do velório, minha mãe começou a ter os mesmos sintomas. Recusou-se a ir para o hospital, não havia nada que pudéssemos fazer, ela dizia. Tsunade me deu duas semanas de folga, para que eu ficasse em casa com ela, cuidando dela, mas não foi necessário.
Foram apenas três dias antes de eu ouvir um barulho enquanto arrumava o jantar, e encontrá-la no chão.
E de novo, eu nunca me senti tão inútil.
Eu que já curara tanta gente, não fui capaz de ajudar meus próprios pais.
Sasuke... Eu não estou bem.
Além de tudo isso ainda tenho minha própria doença para lidar. E agora, sinto como se não tivesse mais por que lutar contra ela. Embora eu lute dia a dia com ela, a morte sempre vence, no final. E eu não sei mais por quanto tempo vou ser capaz de lutar com ela pela minha própria vida.
Gostaria que você estivesse aqui.
Sakura.
Por que ela não havia enviado? No lugar daquela dolorosa carta, tinha mandando uma de cinco linhas, contando que embora houvesse algumas dificuldades, estava tudo bem. Tinha contado de Naruto, e da promoção que Ino recebera, mas sobre ela e seus pais, nada.
Aquilo o incomodou.
Ela... O achava tão frio, tão distante assim? Achou que ele não se importaria com a morte de seus pais? Mas... Ela havia escrito, tinha desabafado, escrito para ele, entretanto, não havia enviado.
E isso o corroía.
Se ela tivesse enviado aquela carta, ele teria voltado? Teria voltado até Konoha para ajudá-la a passar por esse luto?
Ele não sabia.
E isso também o corroía.
Depois de rememorar aquelas palavras com o porta-retratos na mão, ele o colocou no lugar e saiu do quarto fechando a porta com uma batida mais forte que o necessário. Havia tantas coisas na sua mente... E mais uma vez ele se deitou no sofá, mas não conseguiu nem ao menos fechar os olhos. Havia tantas possibilidades, tantas coisas que poderiam ter sido diferentes... E uma em especial ficara martelando na sua mente a noite inteira, e ele estava pronto para colocá-la para fora agora.
Sakura olhava para ele como se soubesse que ele estava perdido em pensamentos e lembranças.
— Está tudo bem?
Ela perguntou, quando ele finalmente parou de divagar e olhou para ela.
— Ser ninja, ser médica, lutar... Não exigiu ainda mais do seu coração?
Ele finalmente pôs para fora aquilo que ficara entalado na sua garganta durante toda a madrugada.
Sakura olhou para ele com os olhos arregalados, e depois assentiu.
— Por que continuou com isso? Naruto disse que você descobriu quando ainda era pequena, por que continuou?
Uma mordida no lábio inferior.
— Aconteceria tudo exatamente igual.
Ele sabia, embora não fosse médico, que não era verdade. O chakra, a luta, a cura, exigiam muito do corpo. Se ela tivesse continuado como uma civil, aquilo não teria acontecido de modo tão abrupto, tão rápido.
— Quando eu descobri — ela continuou, após notar que ele estava esperando uma resposta melhor — eu já estava muito envolvida com o mundo ninja, eu já frequentava a academia, e... Eu já tinha amigos, eu já tinha vocês, e... Eu não queria renunciar a tudo isso e...
Ele sabia a verdade, embora ele não quisesse admitir e ela não quisesse falar em voz alta.
Ele.
Ela havia se tornado ninja por uma paixão infantil por ele. É claro que ela levava jeito, que era fantástica naquilo que fazia, que depois começou a amar aquela profissão e a sua escolha, mas o pontapé inicial... Foi ele.
E depois... Depois ele foi embora. E ela e Naruto começaram a treinar feito loucos em uma tentativa de ficarem fortes e resgatá-lo.
Céus...
Inferno.
Mais uma culpa que ele teria que carregar nas costas?
— Eu me sentia constantemente cansada, sem forças, me exauria rápido, porque embora os médicos soubessem que havia algo de errado, nenhum deles sabia me dizer exatamente o que e como lidar com isso. Depois, quando eu comecei a treinar com Tsunade, ela notou, me trouxe para o hospital, fizemos inúmeros exames, e em um dia ela chamou meus pais e eu, e disse que eu teria que fazer uma escolha. Como você mesmo disse, ser ninja, e naquele momento, treinar para ser médica, sobrecarregava meu coração. Havia alguns tratamentos que podíamos fazer para melhorar minha qualidade de vida, melhorar meu cansaço e permitir que eu continuasse treinando e estudando normalmente, mas... Em algum momento aqueles tratamentos ficariam ultrapassados e não haveria mais o que fazer. A escolha era, abandonar totalmente o mundo ninja, a medicina, e levar uma vida como civil, viver constantemente em repouso e viver alguns anos a mais, ou continuar com o treino e os tratamentos e viver alguns anos a menos.
Ela não precisava falar o que escolhera.
— Eu sei o que você está pensando. Que eu escolhi continuar para poder ir atrás de você, resgatá-lo junto com Naruto, e isso é verdade, mas não foi só isso... Eu já tinha uma vida nesse mundo ninja, já estava entrelaçada com essas pessoas, e até mesmo com esse hospital... E mesmo que com outro estilo de vida eu tivesse alguns anos a mais, tenho certeza que esses anos não teriam sido tão bem aproveitados, vividos e felizes como os anos nesse mundo foram. Foi uma escolha. E eu não me arrependo dela.
Imediatamente ele se sentiu um bosta.
O que estava fazendo afinal?
Exigindo coisas dela? Julgando as suas escolhas?
Justo ele? Cujas próprias escolhas sempre foram tão terríveis, dolorosas e irremediáveis?
Ele que sempre esteve tão emaranhado na própria dor e na própria vingança, que nem ao menos foi capaz de perceber que a sua companheira de time, tão pequena, e tão devota a ele tinha uma maldita doença no coração que estava a matando dia após dia? Não fora capaz de perceber que, ao contrário do que achava, não era preguiça e falta de treino que a deixava tão exausta e fraca, mas sim uma doença?
Justo ele, que não havia percebido as entrelinhas nas suas cartas, que nunca respondera, que nunca a visitara?
Quem era ele, afinal?
Que deixou ela e Naruto nos momentos mais difíceis e nos mais felizes das suas vidas? Que não esteve lá para consolá-los, nem para se alegrar com as conquistas deles?
Ele não tinha direito algum de julgar as escolhas delas.
Porque ele não estivera ali. Não estava ali quando ela descobriu sua doença, quando ela fez essa escolha, quando ela ganhou seu diploma, quando ela perdeu os pais...
Ele não estava ali em nenhum maldito momento.
E agora, que realmente estava, parecia tarde demais.
E, por mais que quisesse, por mais que tentasse, não havia carta nenhuma, conversa nenhuma, palavra nenhuma capaz de remediar aquilo, de consertar.
O tempo havia passado. E ele não iria voltar somente porque ele estava arrependido, porque ele fizera escolhas erradas. Porque ele sempre estivera tão cego, olhando para o próprio umbigo.
— Eu... Sinto muito, Sasuke-kun. Eu realmente gostaria que tudo isso fosse diferente. Sei que eu deveria ter contado e que..., mas... Acho que de todo modo tudo acabaria do mesmo jeito. Exatamente igual. Ainda assim, eu acabaria nessa mesma cama, com esses mesmos fios e me sentindo do mesmo jeito.
Ele acenou positivamente como forma de calá-la. Por que diabos ela estava pedindo desculpas?
— Você não tem que pedir de desculpas, Sakura.
Foi tudo o que ele conseguiu falar. Eles passaram alguns minutos em silêncio, ela olhando para as próprias mãos e ele olhando pela janela, e mais uma vez, ele se sentiu ridículo por tê-la deixado naquela situação, por ter falado daquele jeito com ela e ainda ter feito ela se sentir culpada.
— Eu... Naruto me disse — Uma mentira, ainda sim, ele não queria contar para ela que lera as cartas e deixá-la ainda pior — Sobre seus pais. Eu sinto muito.
Ela olhou para ele, magra, pálida e fraca, e ainda sim, deu um sorriso triste.
— Obrigada. Eu... Eu tentei escrever mais... Não parecia justo, enviar uma carta com esse assunto para você, eu não quis que você sofresse ao reviver memórias difíceis e...
Se preocupando com ele, é claro.
Mesmo em um momento como aquele, ela ainda se preocupou em como os outros iriam se sentir. Não cabia e ele julgá-la nem dizer que não deveria ter feito aquilo, que deveria tê-lo avisado.
— Eu sinto muito mesmo, Sakura.
Outro sorriso triste, e então, ela olhou para o lado.
Para o seu desespero, ele notou uma lágrima.
Duas.
Três.
Quatro.
Ela levou a mão até o rosto, limpando a água que escorria em silêncio.
— Eu me sinto tão fracassada, Sasuke-kun. Tão, tão fracassada.
Ela disse entre lágrimas e durante alguns minutos ele ficou sem reação. Com o coração disparado e sem a mínima ideia de como ele deveria agir, do que deveria fazer.
A primeira reação que ele conseguiu ter foi balançar negativamente a cabeça.
— Eu... Eu até mesmo proibi que os internos e os residentes façam ronda no quarto, porque eu não quero que eles me vejam assim, somente Tsunade, Shizune, Ino e meia dúzia de enfermeiras estão autorizadas a entrar aqui, porque... Porque eu não quero os outros vejam o meu fracasso.
— Sakura, você não fracassou, você não—
— Então por que diabos eu estou aqui? Eu... Eu sempre curei todo mundo Sasuke, eu li todos os livros da biblioteca, e li todos os livros da casa de Tsunade, eu estudei tanto Sasuke... Tanto... E eu não fui capaz, eu não fui capaz de salvar meus pais, e nem ao menos fui capaz de manter a minha saúde e—
— As coisas não funcionam assim Sakura, você sabe que não. Está falando isso porque está inconformada, e assustada, mas... Nem tudo está sob o seu controle. Você não é capaz de curar tudo.
— Se os meus pacientes soubessem... Eles não iriam mais acreditar em uma médica que não consegue nem manter a sua própria saúde.
Mais lágrimas. Ele saiu de perto da janela e deu passos incertos em direção a cama. Ele queria abraçá-la, confortá-la, mas ele nem ao menos sabia como fazer isso.
Há quanto anos ele não se aproximava de alguém? Não tocava?
Há última pessoa que ele tinha abraçado tinha sido ela própria quando fora embora da vila em busca de redenção há quatro anos.
E ele olhou desesperadamente para a porta, rezando para que alguém – qualquer um – passasse por ali, porque qualquer um seria mais capaz de consolá-la do que ele. Mas, para a sua descrença, a porta continuou fechada.
— Desculpe, Sasuke-kun — ela disse entre soluços — eu sei que você odeia emotividade, mas é que... Ninguém... Naruto... Ino... Eles só dizem que vai ficar tudo bem e que eu vou sair dessa e... Mas eu sei que não, eu sinto que não, e ninguém entende o que estou sentindo e—
Mais uma vez ele estava sendo um idiota.
Após uma respiração profunda ele acabou se se aproximar da cama e se sentou na beirada dessa. Sakura olhou para ele, parecendo surpresa. Ele não conseguiu dar o próximo passo. Não conseguiu puxá-la e abraçá-la como tinha planejado.
— Eu estou aqui.
Foi o que conseguiu falar. E ela, entendeu.
Como sempre.
Devagar, como se tivesse medo de que ele se dissolvesse ou saísse correndo, ela se aproximou, aproximando o corpo sentado e magro do seu, até finalmente envolvê-lo nos braços finos.
— Eu estou aqui.
Ele repetiu, enquanto sentia as costas da sua camiseta molharem pelas lágrimas.
— Eu estou aqui.
Uma terceira vez, quando ele finalmente tomou coragem e passou seus braços ao redor do corpo dela.
27 de maio de 2003
Sasuke,
Konoha está indo bem, recuperando-se aos poucos da guerra, mas ainda há muita dor. Ontem o memorável para aqueles que morreram na batalha acabou de ser construído, e praticamente toda vila esteve lá. Muitos falaram sobre seus familiares e amigos perdidos, houve muito choro e muita dor. Mas como sempre, nós seguimos em frente, a vida segue em frente. O tempo não para que nós nos recuperemos. O trabalho no hospital continua grande e sobrecarregado, mas me sinto bem por poder fazer minha parte. Por estar ajudando tantos sobreviventes a se recuperarem. Espero que você também esteja se recuperando, que esteja bem, se alimentando direito e aproveitando esse seu tempo sozinho. Por favor, por favor, se cuide. Se puder, mande notícias.
Já com saudades, Sakura.
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