Cartas
1 Cartas
Notas iniciais
“Querida irmãzinha, como está? Espero que bem. Hoje papai e eu iremos mudar de cidade... Mamãe disse que vai ficar para cuidar de você. Vou sentir muita falta dela, mas assim você não ficará sozinha e é isso que importa, não é? Então tudo bem. Serei forte! Tomara que eu faça amigos desta vez. Sinto-me muito sozinho sem você do meu lado, por isso prometo que sempre irei te escrever para que, mesmo longe um do outro, possamos estar ligados.
De seu irmão, Ryou.”
A pequena criança de cabelos claros dobrou cuidadosamente o papel de carta e o pôs em um envelope com adesivos de bichinhos coloridos, afinal era para sua irmãzinha. Quando ele saiu do quarto, procurou pelo pai e pediu a ele que enviasse para o céu. O homem, profundamente emocionado, sorriu para o filho e disse que o faria. O pequenino agradeceu e voltava para brincar no quarto normalmente. Assim que ele desapareceu de seu campo de visão, o pai do menino suspirou e guardou a carta na gaveta de sua mesa de trabalhos. O pedido do filho era inocente, porém impossível... E agora precisava continuar a preencher os papéis do divórcio.
Ryou Bakura era um menino franzino e delicado de sete anos que sempre andava com um artefato curioso no pescoço. Ele dizia que era seu tesouro por ter ganhado do pai, que o trouxera de presente após sua última expedição ao Egito. Embora ele fosse doce e gentil, não tinha amigos. Todos o chamavam de esquisito e o excluíam das brincadeiras. Sua irmã mais nova era a sua única companheira e amiga. Infelizmente, um acidente trágico tirou sua vida precocemente. Ryou, muito novo para entender o conceito de “morte”, não compreendia para onde ela havia ido. A procurava por todos os cantos e perguntava aos pais "Quando a Amane vai voltar? Para onde ela foi?” e ao abalado casal Bakura só restou uma única solução: omitir a verdade. Disseram a ele que Amane estava em um lugar chamado Céu e que era muito longe e difícil de encontrar, mas que ela estava bem e sorrindo para eles.
Desde então Ryou passara a escrever cartas para a irmã. Mesmo que não obtivesse resposta, queria mostrar para Amane que o seu irmão mais velho estava sempre pensando nela e com saudades. Alguns dias depois do funeral da menina, os pais resolveram se separar. A mãe permaneceria na cidade, enquanto que o pai iria com o filho para outro lugar.
Quando isso aconteceu, Ryou Bakura logo ingressara em uma nova escola. No entanto, as outras crianças pareciam repudiá-lo ainda mais. Sem Amane, Ryou brincava sozinho. A solidão era tanta que começou a falar com seu tesouro. De alguma maneira, ele sentia que algo dentro daquela relíquia egípcia o entendia.
“ Amane, eu ainda não tenho nenhum amigo. Todos parecem me odiar e eu não sei por quê. As brincadeiras de mal gosto estão cada vez piores e estou com medo de voltar para a escola... Acho que vamos nos mudar de novo e papai logo terá que voltar ao trabalho. Ele disse que mamãe irá passar um tempo comigo enquanto isso. Eu queria que você pudesse vir também, estou com muitas saudades.
Ryou.”
Com o passar do tempo, o jovenzinho tomou gosto por jogos. Se distraia e se divertia, mesmo que sozinho. Mas o inesperado aconteceu. Alguns garotos queriam jogar com ele.
“Amane! Como você está? Está se divertindo? Comendo direitinho? Espero que sim, hein! Hoje aconteceu algo muito legal. Uns garotos da escola quiseram jogar comigo. Foi divertido e nos damos muito bem. Amanhã irei na casa de um deles para jogar de novo. E você? Já tem algum amigo?
Ryou.”
O pequeno já estava com dez anos a essa altura e em um dia específico passou pela mãe para deixar a carta no correio, já que quem sempre fazia isso era seu pai e este estava fora do país. A mulher o chamou e perguntou aonde ele estava indo. Ao ouvir a resposta, caiu ao chão em lágrimas, pois não sabia que durante todo esse tempo o filho escrevia para a irmã. Com muita dificuldade e cuidado, ela explicou ao menino toda a verdade. Pois não poderia permitir que ele continuasse com esse ato inocente por mais tempo. Ryou já tinha idade para entender o que aconteceu e não queria deixar que outra pessoa explicasse para ele.
O garoto trancou-se no quarto e não saiu de lá até o dia seguinte. Querendo esquecer o que tinha acabado de descobrir, decidiu que apesar dos pesares iria se divertir na casa do colega jogando um RPG. Contudo, no meio do jogo as coisas ficaram estranhas. Ryou não se lembrava do que havia acontecido. Apenas acordou em sua cama e assustou-se. Como chegou até ali? Por acaso caiu no sono e sua mãe o trouxe de volta? Acreditou nisso e voltou a fechar os olhos. Estava muito cansado.
Ao entrar na sala de aula, notou que todos ali estavam indiferentes. Ele soube então que os três meninos que jogaram com ele na noite anterior entraram misteriosamente em coma. A partir daí, todos aqueles que jogassem com Ryou dormiam e nunca mais acordavam. Isso rendeu-lhe a fama de amaldiçoado.
“ Amane, eu sei que você nunca irá me responder, mas eu não tenho mais ninguém a quem recorrer. Você ainda é minha única amiga e não nego que queria trazer você de volta custe o que custar, mas o céu parece ser um lugar melhor do que aqui... E não quero te ver triste ou sofrendo. As pessoas estão dizendo que sou um menino amaldiçoado por que todos que se tornam meus amigos nunca mais acordam... Eu me pergunto, se eu realmente sou assim, então... A sua morte foi culpa minha?...
A carta foi interrompida pelas lágrimas incessantes de Ryou que caíam pesadas no papel. Sem carinho e apoio, o menino chorava a noite inteira, lamentando tudo o que aconteceu. A sua relíquia parecia ser seu único consolo. Mesmo sendo um objeto inanimado, continha uma espécie de energia que o acalentava. Quando Ryou ficava nervoso, ele o apertava. Quando sentia dor, esfregava os dedos no circulo pedindo que ela fosse embora.
Um ano depois, sua mãe veio a falecer. A encontraram deitada no chão da cozinha sem vida e segurando um frasco de pílulas. Por mais que o pai lhe dissesse que ela havia morrido de causas naturais, Ryou já sabia. Sabia que a mãe, tão meiga e carinhosa, tirara a própria vida. Será que isso tudo era mesmo culpa dele?
Mudaram-se para outra cidade, e novamente Ryou não se lembrava de nada do que acontecia. Acordava em outro lugar, sempre. Por vezes, encontrou-se perambulando no meio da noite. E claro, os boatos sobre ele também não cessaram.
Acostumou-se a ser solitário, preferindo a companhia do seu Anel do Milênio. Era esse o nome da relíquia que levava sempre consigo, mesmo na adolescência. Pesquisou mais afundo sobre o artefato na mesma época que estava se interessando pelo Egito e por um jogo de cartas chamado “Duel Monsters”.
Algum tempo depois, ele e seu pai se mudaram para uma cidade chamada Domino. Lá, Ryou ingressou em um novo colégio. Em seu primeiro dia fora recebido muito bem pelas garotas que o acharam bonitinho. De fato, o colegial era bastante diferente do ginásio. Conheceu também um garoto de sua classe, chamado Yugi Mutou, que também tinha um artefato muito parecido com o seu, era uma pirâmide invertida mas o símbolo no centro era o mesmo. Yugi e seus amigos perguntaram se poderiam ir até a casa de Bakura para jogar. O rapaz de cabelos brancos adorou a idéia, mesmo com o receio de algo ruim acontecer. Tentaria manter o otimismo.
No mesmo dia, começou a sentir-se mal. Sua saúde não era muito boa, mas ultimamente tinha piorado e muito. Seu peito doía intensamente e pensou ter visto os espinhos do Anel cravando-se em sua pele. Julgou ser apenas alucinação e foi para casa. Seu pai estava trabalhando fora e como Ryou já tinha idade para se cuidar sozinho não havia mais problemas.
Esquentou sua comida e jantou, trocou de roupa, assistiu um pouco de TV e estudou. Antes de dormir, escreveu para Amane como fazia todas as noites.
“Querida Amane, como é a sua escola? Como você e mamãe estão? Seu irmão começou uma nova escola hoje. Eu só estive lá um pouco, e logo no primeiro dia, fiz novos amigos. Eles perguntaram se poderia vir ao meu apartamento para jogar alguns jogos. Eu estou realmente ansioso...
Quando estava prestes a terminar a carta, ouviu uma risada que gelou seu sangue. Ela vinha do seu artefato e quando abriu a camisa para averiguar, viu novamente os espinhos cravados bem fundo em seu peito. A voz continuou falando e falando e cada vez mais Ryou tinha a bizarra certeza de que nunca esteve sozinho.
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