Carta de um Suicida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Querida mãe, pai, irmãos e “amigos”...
Estou escrevendo essa carta avisando-lhes que já devo estar morta.
Por favor, não chorem, não sorriam, não fiquem bravos comigo, por favor...
Eu sei que não devia.
Fiz o que vocês disseram que era errado.
Arrependi-me.
Por favor...
Lembra-se na minha primeira menstruação aos nove anos?
Mãe reagistes como se houvesse perdido sua garotinha.
Pai ficastes muito surpreso e bravo ao mesmo tempo.
Irmãos não entendiam na hora.
Lembram-se do meu aniversário de onze anos?
Vocês divertiram-se tanto que me forcei a sorrir.
Amigos lembram-se de quando me ofenderam?
Lembra-se que um de vocês disse: “Se fosse eu não deixava.” ?
Fiquei quieta, pois sempre deixei.
Agora, antes de completar dezesseis anos, estou aqui lhes escrevendo isso.
Sei que é algo inútil.
Sempre tentei ajuda-los.
Lembram-se quando tirei um B no terceiro ano?
Pai, você me bateu até eu ficar roxa.
Vocês me chamaram de inútil, estúpida, entre muitas outras coisas que não devo citar aqui.
Lembro-me também da primeira vez em que me automutilei.
No sétimo ano do ensino fundamental foi aquela vez que o bullyng começou...
Mãe, você sempre quis saber o que acontecia comigo.
Sim, eu tentava te falar.
Você nunca ouvia.
Nunca.
Comecei a gesticular menos, falar menos, comer menos.
Uma aluna A, baixou-se para uma aluna que tirava D todo trimestre.
Sim mãe, você cansou.
Tirou-me do colégio e me colocou no primeiro que viu.
Tentou me colocar a fazer terapia.
Tentei te pedir amor e carinho.
Tudo isso é falta de amor.
Você me chamava de filha desnaturada...
Sim, posso ser isso, mas não sou você...
Enquanto gritava comigo na sala, os pequenos choravam no quarto.
Aquela vez que o pai começou a brigar com você...
Eles também choraram...
Eles sempre choravam...
Pode-se dizer que só eu não chorava.
Então por favor, não repita o que vocês fizeram comigo com os pequeninos.
Eles merecem amor, educação, carinho...
Mantenha-os longe de qualquer tipo de problema.
Caso tiverem agindo como eu, e pedindo socorro, ajude-os.
Ajude-os.
Sei que deveria ser forte do jeito que demonstrava.
Meu sorriso desapareceu no mesmo momento em que chorava.
Todos achavam que eu era feliz.
Achavam...
Eu já havia lhe dito, mãe, que eu não era louca.
Talvez eu tenha errado...
Com carinho,
De sua filha mais velha,
DESCONHECIDO.
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