Carta ao sono
1 Capítulo 1
Notas iniciais
E não teve nada mais libertador.
Querido Avô,
Já faz tanto tempo que não nos vemos. Três anos se passaram e o buraco dentro de mim não diminui por nada nesse mundo.
Sinto tanto, tanto a sua falta.
Sinto falta de dormir ao seu lado na casa da praia, do seu cheiro de pasta de dente, de subir da árvore de laranja atrás de casa para o senhor, já que não conseguia mais fazer isso sozinho, de ter você tentando estralar meus dedos apesar das minhas reclamações.
Eu tinha tanta sorte em ter você vovô, e eu não sabia. Não na época. Não o suficiente. Não tanto quanto eu sei hoje.
Eu sei que o senhor está num sono muito profundo, mas queria tanto que estivesse aqui comigo, ver minha formatura do ensino médio, falar sobre a profissão que eu finalmente escolhi, para me abraçar quando eu estivesse triste e me trazer um daqueles pirulitos de mel que só o senhor encontrava, mas que sempre melhoravam meu humor.
Vovô, você partiu tão de repente e eu mal pude chorar a sua ida com tantas coisas ruins acontecendo na minha vida.
É claro que você foi e é o buraco mais fundo que ficou para trás, e nada tira a falta que eu sinto do senhor, por mais que eu me esforce.
Vô, queria que você estivesse aqui para falar sobre o menino que eu gosto. Você sempre brincava que eu nunca ia casar, ia crescer e morar com você na praia, eu ria dizendo que eu e meu marido cuidaríamos de você, mas vovô, eu trocaria qualquer coisa para morarmos só eu e você, lá naquela casa pequena de praia mesmo, que não tem internet e vive cheia de areia. Porque vovô, qualquer coisa com você ia ser melhor que todo esse nada.
Eu ainda durmo com uma camiseta sua toda noite, e sempre que vou na sua casa, mexo na sua caixa de ferramentas, ela está lá, do mesmo jeitinho, ninguém teve coragem de mudar nada. Vovô, os últimos chumbos que eu quebrei para você fazer sua tarrafa ainda estão lá. Por que o senhor nunca pôde termina-la?
Vovô, tenho me sentido tão sozinha e vazia. Estou com medo. Apavorada. Estou perdendo o controle sobre mim mesma, e não tenho com quem mais contar.
Queria que no seu sono tivesse uma forma de se comunicar, que você pudesse saber o quanto sinto sua falta e quanto espero pelo momento em que vamos nos ver de novo vovô, porque eu sei que o senhor também sentiria minha falta. Você era mais meu pai do que qualquer outro, e ninguém preenche o vazio que um pai deixa vovô. Ao mesmo tempo me sinto grata que o senhor não esteja vendo todas as coisas ruins que me aconteceram nos últimos anos, porque não foram poucas.
Me desculpe, não quero preocupar o senhor, apenas saiba que eu estou bem, na medida do possível. Prometo me cuidar.
Amo você até a lua, ida e volta.
Com todo o meu amor.
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