Carta
1 Adeus
Notas iniciais
“Sabe... Escrever uma carta de suicídio não é fácil.
Eu pensei que escreveria simplesmente “Vou me matar. Metade da culpa é minha e metade é de vocês. Adeus.”, mas não é assim.
Quando eu ouvia falar de cartas de suicídio, elas eram grandes e explicativas. Eu nunca achei necessário. Isso é muito irônico.
Eu sinto que, se não escrever algo grande, minha presença nesse mundo nunca realmente existiu. É como se eu nem tivesse nascido, entende? Talvez não.
Bom, devo começar pelo inicio, não?
Seria bom se me lembra-se quando tudo começou, mas eu não consigo achar um tempo definido para o começo disso tudo.
Acho que tudo começou quando eu troquei de cidade há uns quatro anos.
Eu não estava contente e nunca fui muito sociável, mas pelo menos na outra escola eu falava com as pessoas.
Eu não sei se foi meu cabelo, ou minha roupa, ou meu jeito fechado, só sei que ninguém gostou de mim. Essa comprovação não veio de imediato, mas sim três meses depois.
Eu gostaria de ter continuado a passar a minha vida de colegial revoltada sozinha, quieta. Mas os meus colegas resolveram dar uma festa. E como uma boa novata, eu fui. Achei que não tinha problema, era só uma festa de sexta à noite.
Triste erro.
Não me lembro muito daquela noite. São vagas as lembranças, mas ainda sim, horríveis.
Lembro de risos. Flashes. Comida. Sangue. Dores. Muitas pessoas a minha volta, meninas principalmente. Eu não sabia o que estava acontecendo. Eu não entendia o que estava acontecendo.
Não me lembro como, mas sai daquele lugar, as duas da manhã, sem saber para onde ir. Como eu sabia a hora? Não me lembro.
Eu me lembro de becos e ruas vazias e também de caras. Eu fugia deles.
Eu andei tanto que cheguei à escola, de lá fui pra casa. Já conhecia o caminho.
Lembro que cheguei em casa umas seis da manhã, por ai.
A última coisa que me lembro é de trancar a porta e cair na cama.
No outro dia eu acordei tarde. Meus pais tinham ido trabalhar em pleno sábado.
Eu estava toda dolorida, com marcas roxas e alguns arranhões feios.
Umas cinco da tarde, depois de eu ter tomado um banho de duas horas, eu liguei o computador e entrei nas redes sociais.
Mas nós estamos no século vinte e um e claro, em todas elas, haviam fotos minhas e nem haviam passado 24 horas!
Antes da festa, as meninas pediram as minhas redes sociais e me adicionaram como amiga.
Agora eu entendo o porquê.
Mas o meu mundo caiu quando eu entrei no Facebook.
Sabe, poderia ser tudo. Eles podiam ter colocado as fotos e comentado, mas além disso, os meus antigos amigos, os da outra escola também haviam comentado.
“Finalmente ela fez algo engraçado! Quero ver mais dessas”, “Vocês poderiam ter colocado ela no lixo.”. E o pior, da minha “melhor amiga”: “Pessoas como ela só servem para divertir o mundo”.
Eu me lembro de ficar muito confusa e triste. Mas não chorei.
Tentei conversar com os meus velhos “amigos”, mas eles haviam me bloqueado. Eu me lembro de ter ficado o final de semana me perguntando o porquê daquilo.
Agora eu sei que a minha “melhor amiga” era prima de uma das garotas que armaram tudo.
Eu ainda não entendo o porquê de tudo. Mas está feito e eu estou aqui no meu quarto escrevendo e olhando para um vidro de remédio e com bebida alcoólica do lado.
Eu aguentei por quatro anos o que aconteceu naquele dia. Cada vez pior.
Eu pensei em outras maneiras de morrer, mas não me senti no direito de flutuar e cair, ou sujar o chão com o meu sangue. E eu também não consegui veneno ou uma arma.
Vou sentir falta desse quarto. Meu refugio. Meu lugar seguro.
Todos os livros que eu já reli várias vezes. Todos os pôsteres na parede. Todos os CD’s. Todas as pelúcias. Pergunto-me se eles sentiram falta de mim.
Talvez as cortinas não tampem mais a luz do sol e eles finalmente tenham outros donos.
Eu não queria acabar assim, entenda, eu queria ser psicóloga. Mas acho que eu estou precisando ir a um.
Quero me desculpar com todos vocês, colegas, por qualquer coisa que eu tenha feito.
Mãe me desculpe por não aprender Frances e impressionar suas amigas.
Pai me desculpe por não poder assumir a sua empresa, mas acho que esse cargo não era mais meu faz muito tempo.
Denison, meu único e inseparável amigo, eu disse que nós iríamos nos encontrar antes do que você havia previsto.
Se eu puder fazer um único desejo, me enterrem perto dele. Eu prometi isso. Adeus.”
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