Carrossel e a Desordem de Alabasta
1 O começo do fim de todas as coisas - Parte 1
Notas iniciais
Valéria estava terminando de se vestir quando o telefone começou a tocar. O rosto de Davi surgiu no display do aparelho e isso a fez parar o que estava fazendo para atendê-lo.
– Oi Davizinho! — Falou com uma voz bastante animada.
Do outro lado da linha, Davi enchia a bolsa de salgadinhos e revistas em quadrinhos. Com o telefone preso entre o ombro e a orelha, contava detalhadamente os itens em cima da cama, reparando bem se não estava esquecendo de nada.
– Oi Valéria. Que bom que você ta aí. Escuta, você tem planos pra hoje à tarde?
– Tenho não. Por que? — Perguntou Valéria na esperança de que ele a salvasse do tédio.
– É que o pessoal ta indo se reunir na casa abandonada daqui a pouco. Parece que o Adriano teve uma ideia de como a gente pode aproveitar o nosso último dia de férias. — Davi continuava arrumando a bolsa enquanto falava no telefone.
– Ta legal, então. Eu vou só terminar de me arrumar e te encontro na pracinha pra gente ir junto. Beijo! — Valéria desligou o aparelho e correu para reunir algumas revistas. Por dentro, duvidava que os amigos pudessem fazer alguma coisa para melhorar seu humor, mas não custava nada tentar.
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– Ta bom então, Cirilo. Eu vou só terminar de ajeitar umas coisas com o meu chefe na oficina e logo logo eu chego lá. — Jaime desligou o telefone e saiu apressado em direção ao seu pai.
– Não, não e não! Eu já falei mais de mil vezes que você vai ficar aqui me ajudando com a oficina. Nada de sair pra brincar com aqueles seus amiguinhos hoje! — Bradou Seu Rafael.
– Poxa chefe… Hoje é o meu último dia de férias. Não é justo que eu fique trancando nessa oficina suja o dia inteiro, né! — Jaime fez uma cara triste na tentativa de amolecer o coração de pedra do pai.
Seu Rafael ficou um tempo em silêncio, terminando de limpar um carro de porte elegante que havia sido entregue ainda naquela manhã. Olhou para o rosto do filho e lembrou que, sem a sua ajuda, aquele trabalho não teria sido concluído em tão pouco tempo.
– Ta bom, eu alivio essa pra você. Mas só depois que você me ajudar a organizar toda essa bagunça. — Falou Seu Rafael apontando para a sujeira no chão.
Jaime concordou com a cabeça e começou a colocar as coisas no lugar. Em pouco tempo estaria ao lado dos amigos e isso era tudo que mais queria após um longo dia de trabalho.
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– Mas pai… A Alícia acabou de me ligar. Todo mundo vai. Até o Jorge! — Reclamou Maria Joaquina encarando o pai com uma cara de raiva.
– Não tem essa de "mas pai". Eu disse que você não ia sair de casa enquanto não arrumasse o seu quarto e olha só como ele ta agora. — Miguel estava cada vez mais decidido.
Maria Joaquina olhou para os lados e percebeu que seu quarto realmente estava uma zona. Fez alguns cálculos mentais e viu que jamais daria tempo de arrumar tudo e se encontrar com os amigos.
Nessa hora, Joana interrompeu a discussão anunciando que havia alguém na sala esperando pela menina.
– Desculpa Jorge, mas não vai dar. Eu preciso arrumar umas coisas pra amanhã, afinal, eu tenho que ser a mais bonita de toda a escola no primeiro dia de aula. — A menina se esforçava para não transparecer que havia acabado de discutir com o pai.
– Então ta. Qualquer coisa pode me ligar que eu venho te buscar. — Falou Jorge balançando as chaves do carro.
– Pode deixar que qualquer coisa eu te aviso. — Conduziu Jorge até a porta e deu um longo suspiro olhando para a empregada.
– Nem adianta me olhar com essa cara. São ordens do seu pai. — Falou Joana antes de voltar para a cozinha.
Maria Joaquina não queria passar o último dia, antes das aulas voltarem, presa em casa. A menina nunca foi do tipo que demonstra gostar dos amigos mas, desde que havia começado a estudar na Escola Mundial, começou a perceber o quanto eles eram importantes em sua vida.
Em um breve vislumbre, notou que as chaves da casa estavam encaixadas na porta. Reparou que não tinha ninguém por perto e resolveu fugir. Ao cruzar o jardim, deu uma rápida olhada para trás e contemplou a mansão em que morava.
"Do que adianta uma casa desse tamanho se eu não tiver amigos pra me divertir?"– Pensou um último instante antes de começar a correr em direção à casa abandonada.
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Jaime vinha correndo a toda velocidade quando deu de cara com Maria Joaquina dobrando a esquina. Os dois quase se esbarraram e precisaram de um tempo para se acalmar do susto.
– Vê se olha por onde anda, seu sem educação! — Gritou Maria Joaquina ofegante.
– Olha só quem fala. Você quase me “atoprelou”. — Falou Jaime se escorando na parede para recobrar o fôlego.
– Se diz "atropelou" seu burro! Você não muda mesmo ein. Agora vê se sai da minha frente que eu tô com pressa. — A menina voltou a andar ligeiro, deixando o amigo para trás.
– Escuta. Por acaso você ta indo pra casa abandonada? — Perguntou Jaime seguindo a garota.
– Só falta você me dizer que também ta indo pra lá. — Maria Joaquina virou de costas e, de onde estava, exibiu um sorriso de deboche.
– Todo mundo ta indo né, sua tonta! Agora larga de ser chata e deixa eu te acompanhar. — Jaime apressou o passo e começou a andar lado a lado com Maria Joaquina.
Um pouco mais à frente, a menina parou de repente e começou a olhar estranho para baixo.
– Eu não acredito que você sujou minha perna toda, seu imundo! — Exclamou ao ver que suas pernas estavam cobertas de lama.
– A culpa é toda sua que não olha por onde anda! — Enquanto continha o gênio forte de Maria Joaquina, o garoto percebeu que suas pernas também estavam sujas. Olhou para os lados à procura de algum lugar onde pudessem se lavar e viu que a sorveteria estava aberta.
Os dois se dirigiram até o local e conseguiram autorização para usar o banheiro. Maria Joaquina estava demorando muito para terminar de se lavar e, como já era quase hora do lanche, Jaime aproveitou para tomar um pequeno sorvete de quatro bolas.
– Eu não acredito que você parou pra comprar sorvete. Seu esfomeado! — Ao dizer isso, a barriga da menina começou a roncar. Foi quando percebeu que tinha saído de casa sem almoçar e, por conta disso, suas forças estavam quase se esgotando.
– Senta aí e pede alguma coisa. Eu pago. — Jaime fez sinal para a atendente.
"Ainda bem que ele se ofereceu pra pagar porque eu não trouxe dinheiro nenhum comigo." – Pensou Maria Joaquina, enquanto Jaime fazia o pedido por ela. Curiosamente, o garoto havia acertado seu sabor favorito.
– Como você sabe que eu gosto de morango com abacaxi? — Perguntou com cara de quem não estava entendendo nada.
– Eu presto atenção nos meus amigos, diferente de você. — Respondeu Jaime enquanto devorava seu mega sorvete.
Os dois começaram a relembrar as aventuras que viveram no ano passado enquanto uma pontinha de saudade ia crescendo em seus corações. Quando deram por conta, estava completamente atrasados para o encontro com os amigos. Jaime pagou o sorvete enquanto Maria Joaquina juntava o máximo de guardanapo possível.
– Solta isso aí e vem logo que a gente ta atrasado! — Gritou Jaime do outro lado da rua.
– Nem morta que eu saio daqui com a boca suja de sorvete. Espera que eu já te acompanho! — A menina limpava calmamente os lábios enquanto notava a cara de impaciência de Jaime.
"Ele fica muito fofo quando ta nervoso..." – O pensamento escapou contra a sua própria vontade e isso a fez ficar um pouco vermelha.
De volta à rua, os dois seguiram apressados rumo à casa abandonada. O carro de Jorge estava estacionado na frente mas não havia nenhum barulho no ambiente. Outro fato estranho era que Rabito não estava vigiando a entrada como de costume.
– Eles devem ta aprontando alguma pra cima da gente. Toma cuidado. — Alertou Jaime.
Mais uma vez Maria Joaquina foi surpreendida por um ato de cavalheirismo vindo da pessoa mais improvável possível.
"Talvez ele tenha mudado…"– Definitivamente não tinha mais controle sobre seus pensamentos.
Ao entrarem na sala principal, onde costumavam se reunir para conversar e brincar, se depararam com uma cena um tanto curiosa. Por mais que não tivesse ninguém no local, as bolsas de todo mundo estavam jogadas pelos cantos.
– Será que eles tão no esconderijo secreto? — Perguntou Jaime desconfiado.
– Não sei não. Ta tudo muito esquisito por aqui.
Ao reparar bem na cena, algo chamou a atenção de Maria Joaquina no centro da sala.
– Dá uma olhada nesse livro. Eu nunca vi ele antes por aqui. De quem será? — Perguntou enquanto aproveitava para folhear algumas páginas.
Jaime veio se aproximando até ficar bem perto dela. A menina sentia um calor estranho e desconfortável. Algo que desconhecia totalmente. Olhou para ele, na esperança de entender o que estava acontecendo, mas notou que talvez estivesse imaginando coisa.
– Por que você ta me olhando com essa cara de boba? — Perguntou Jaime ainda preocupado na peça que seus amigos possivelmente estavam tentando pregar neles.
– Deixa de ser convencido, garoto! Eu só quero saber se você sabe de quem é esse troço. — Falou enquanto desviava timidamente o olhar de volta para o livro.
– Convencido? Eu ein... Enfim, eu acho que é o tal do livro mágico que o Adriano roubou do avô dele. Foi por causa disso que tudo mundo veio pra cá hoje.
– Todo mundo menos a gente, você quis dizer. — Observou Maria Joaquina.
Aos poucos os dois iam percebendo que tinha algo muito estranho acontecendo.
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Ainda naquele dia, Jaime e Maria Joaquina realizaram diversas tentativas para encontrar seus amigos. Reviraram a casa abandonada de ponta-cabeça, ligaram para o celular de cada um deles, tentaram o telefone de casa, o Firmino, a professora Helena e tudo mais em que puderam pensar, porém não obtiveram sucesso algum.
No fim das contas, voltaram para a casa abandonada em busca de alguma pista e tudo que encontraram foi o livro esquisito no mesmo lugar onde deixaram. Era a única coisa diferente e que poderia ter a ver com o sumiço de todo mundo.
– Você que é inteligente, consegue entender alguma coisa que ta escrita aqui? — Perguntou Jaime tentando decifrar os códigos à sua frente.
– Eu nunca vi nada parecido com isso em toda a minha vida. Só pode ser mais uma das loucuras do Adriano. — Observou Maria Joaquina.
– É isso! Você é um gênio! — Jaime deu um beijo no rosto de Maria Joaquina e os dois se espantaram com aquilo.
Ao se dar conta do que havia acabado de fazer, Jaime tentou contornar a situação.
– Eco! Que nojo! Não conta pra ninguém que eu fiz isso ta! — O garoto passava a mão na boca para limpar os resquícios do beijo.
– Eu é que não quero passar vergonha. Imagina só o tamanho da zoação com a minha cara que iam fazer se soubessem que… — A menina interrompeu a fala ainda envergonhada. Foi um beijo extremamente suave. Totalmente diferente do que esperava de alguém feito o Jaime — Mas e então, por que é mesmo que eu sou um gênio?
– Porque você matou a charada! Tudo que a gente precisa fazer é procurar a casa do avô do Adriano e mostrar o livro pra ele. Pode ser que ele tenha alguma pista do que aconteceu.
– Que coisa mais sem sentido. Se bem que a gente já procurou em todo canto, então… vamo ver né. Você sabe onde ele mora, pelo menos?
– Eu acho que sei. O Adriano comentou uma vez que ficava perto da Biblioteca. A gente pode ir até lá e perguntar pras pessoas da redondeza.
Maria Joaquina agarrou o livro com as duas mãos e os dois seguiram rumo à única pista que tinham do paradeiro de seus amigos. Em algum lugar bem distante da realidade, uma grande aventura estava aguardando ansiosamente por eles.
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