Carpe Diem
2 Casados desde sempre
Notas iniciais
A livraria estava bem movimentada naquele dia. Havia chegado para o meu turno há duas horas e, desde então, não tinha parado quieta. Era levar livros de um lado para o outro, checar as encomendas, procurar um ou outro título para alguém. Melindra e eu mal estávamos dando conta de lidar com todo mundo. E esse "todo mundo" consistia em, principalmente, pais desleixados que deixavam a compra dos livros escolares dos filhos para última hora.
E o fato de os clientes não pararem de reclamar era algo que não ajudava em coisa alguma.
"Mas o que é que vocês estavam esperando?", tinha vontade de perguntar. A loja era pequena e todas aquelas estantes ocupavam quase todo o espaço. Os corredores eram estreitos, mal cabiam duas pessoas lado a lado. Estava ficando difícil até para respirar. Portanto, não havia nada que pudéssemos fazer para agilizar as coisas.
O sino da porta estava tocando novamente, anunciando a chegada de mais pessoas. Como se as que já estavam aqui não fossem suficientes, pensei. Virei meu pescoço, discreta e rapidamente, da tela do computador que, aparentemente, só porque a loja estava cheia, havia decidido travar, para a minha desgraça. Ian estava parado embaixo do batente da porta, sua expressão surpresa por ver o lugar tão cheio assim. Estava com uma regata masculina cavada cinza, jeans e óculos escuros.
Dei uma olhada no relógio da parede e percebi, surpresa, que já estava no horário do meu almoço. Assim que a nota saiu e a senhora rabugenta foi, enfim, embora, passei rapidamente ou, pelo menos, o mais rápido que pude, pelas pessoas, até chegar no garoto que ainda estava parado, bloqueando a passagem, procurando por alguém. Que no caso seria eu.
— Ei, Ian! — cumprimentei-o, assim que estava bem ao seu lado.
— Ah, que isso, menina! Quer me matar de susto? — ele deu um pulo, daqueles do tipo "Nossa, o que você tá fazendo aqui?!", assim que me viu.
— Não é culpa minha se você se recusa a aceitar a sua miopiedade. — dou de ombros.
— "Miopiedade"? Sério? — ele me olha, cético. — Deixa isso pra lá. Mas e então, pronta para almoçar?
Ambos olhamos para a frente e sabíamos que era uma pergunta que não precisava ser respondida.
— Ian, graças a Deus! Você pode nos dar uma mãozinha aqui? — Melindra pede, apressada, e antes que ele responda, ela já sei foi.
— A gente sai quando acabarmos aqui, pode ser? — pergunto e, também sem esperar por uma resposta, começo a procurar por alguém que precise de ajuda.
Pelo canto do olho, vejo Ian pegando um colete no canto para depois vesti-lo e atender a pessoa mais próxima. Como ele sempre passava aqui, ou para irmos almoçar juntos, ou para me buscar no fim da tarde, ou simplesmente para pegar um livro, ele sabia como era o esquema da loja, mesmo sem ninguém ensiná-lo.
Bem, deixe-me apresentá-lo corretamente a você: Ian Ziemann tem 17 anos; nasceu em uma cidadezinha que quase ninguém conhece chamada Le Claire, em Iowa, que tem uma população estimada em menos de 4 mil pessoas; é intolerante à lactose, então é privado dos maiores prazeres da vida, existência triste a desse menino; é meu vizinho de prédio; é músico e tem uma banda com um nome broxante que toca, ocasionalmente, no café da esquina; e o mais importante de todos, ele é o meu melhor amigo.
Nós nos conhecíamos desde sempre, praticamente. Nossos pais moravam nesse mesmo prédio na época em que havíamos nascido e foi aquele velho papo: "Olha, eu também tenho um bebê!" "Nossa, que linda!" "O meu é menino." "O meu é menina." "Que coincidência! Aposto que quando crescerem irão se casar e ter filhos juntos!" "Vamos ter lindos netos!". Bem, eu não sabia se fora assim mesmo, mas não duvidava nada, do jeito que todo mundo nos tratava. A verdade era que, tanto eu quanto ele, estávamos muito bem como estávamos.
∞
— Eu não me arriscaria se fosse você. — disse, vendo Ian encher uma colher de leite condensado, pronto para por por cima da tigela de frutas que ele havia pegado.
— Aquela garçonete ali me garantiu que não tem lactose, Sophie. — respondeu Ian, revirando os olhos.
As vezes ele era tão ingênuo que dava vontade de rir.
— Sim, e você vai confiar numa garçonete que trabalha o dia todo atendendo pessoas mal educadas e mal humoradas, toda suada por causa desse calor, por míseros, não sei, 8 dólares por hora?
— Você não sabe quanto ela ganha, ok? — ele rebateu, mas colocou a colher de volta na vasilha.
Dei o meu melhor sorriso de "Você sabe que eu estou certa" e pedi a conta. Como cavalheiros já estavam extintos nesse mundo, e Ian era um bom sacana, jogamos "pedra, papel ou tesoura?" para ver quem iria pagar.
Acabei, como quase sempre, perdendo a partida e todas as outras que pedi de revanche. Sabia que Ian só podia estar roubando, embora eu não tivesse ideia como. Cedi, irritada, e peguei a minha carteira quando a garçonete de sorriso suspeito chegou e deixou a conta na mesa.
— Você devia ver a sua cara quando perde alguma coisa! — Ian começou a rir enquanto eu fechava ainda mais a minha cara.
Ele pegou a comanda enquanto tirava uma nota de 100 do bolso, colocando-a em cima da mesa e acenando para que alguém viesse buscá-la. Encarei-o, confusa e desconfiada, porque o garoto que eu conheço nunca iria fazer isso.
— Que foi? — perguntou, fazendo-se de desentendido, assim que uma outra garota veio buscar o dinheiro, dando uma olhada bem expressiva para Ian.
— Nada não. — respondi-lhe, observando a garota enquanto está desaparecia atrás do balcão.
— Com ciúmes, Williams? — provocou, percebendo o meu olhar sobre a menina.
— Você acha que ela estava dando mole para você? — perguntei, com um tom de surpresa e descrença falsos. — Era óbvio que ela estava querendo chamar a minha atenção.
— Ah, é? Querendo chamar a sua atenção olhando para mim?
— Sim! É o único motivo que eu consigo pensar. Quem iria te querer? — provoquei-o de volta.
Era óbvio que a garota que viera recolher o dinheiro não tinha que ter o feito, já que claramente a garçonete que havia nos atendido estava ocupando o seu lugar no caixa agora. Aquela descarada era razoavelmente arrumadinha, e estava toda sorrisos quando deixou o troco diretamente nas mãos de Ian.
Ian deu um daqueles seus sorrisos provocativos e eu achei que a garota ia começar a hiperventilar bem lá na minha frente. Ela não tinha outro idiota para dar em cima, não?
— Aqui está o seu troco. Obrigada e volte sempre! — ela falou, fazendo questão de me ignorar e deixar implícito que o convite para voltar era só para Ian.
— Obrigado. — ele lhe respondeu e, embora eu não estivesse o encarando, sabia que ele me olhava, com um outro daqueles seus sorrisos provocantes.
A garota esperou alguns momentos a mais antes de se retirar da mesa, como se estivesse esperando por algo. Quando finalmente se foi, certificou-se de ir embora rebolando, ou ao menos tentando, aqueles quadris inexistentes.
— Você está pronta, gostosa? — Ian me perguntou, alto o suficiente para que a garota, que agora estava um pouco afastada, ouvisse.
Olhei-o com uma interrogação no rosto e ele piscou para mim. Sorri.
— Claro, meu amor. — falei, com a voz mais "menina feliz apaixonada" que consegui.
Provavelmente, minha tentativa havia sido falha, porque Ian estava se segurando para não começar a rir. Jogou um pedaço de papel na mesa e começou a caminhar em minha direção. Abraçou-me por trás e deu uma chupada fraca em meu pescoço. Antes que eu pudesse expressar a minha surpresa ou algo assim, ele deixou um beijo no mesmo lugar e desfez o abraço, sua mão procurando pela minha, enquanto me arrastava para fora dali, com um sorriso enorme no rosto, como se fosse o cara mais feliz do mundo.
— O que foi aquilo? — perguntei, assim que estávamos fora do restaurante.
Ele deu de ombros e continuou seguindo, tranquilo.
— Ela te ignorou completamente e ninguém, ninguém, pode fazer isso com você, a não seu eu mesmo. E além disso, ela me deu o número dela, anotado num cartão. Não quero que ela pense que eu tô a fim dela ou alguma coisa assim se eu voltar a comer lá. — respondeu, depois de algum tempo.
― Depois desse fora, acho melhor nenhum dos dois voltar a comer lá, sabe. Ela pode cuspir na comida ou, sei lá, jogar alguma coisa nada agradável nela, tudo por sua culpa.
― Ei! Eu estava te defendendo também, ok?
― Ah, é! Defendendo-me porque eu estava muito ofendida por ter ficado quieta, de boa na minha.
― Não vem fingir, não! Você gostou tanto quanto eu! Estava quase espumando de ciúmes de mim que eu sei. ― ele havia se aproximado e agora me abraçava pela cintura.
― Lá vem você com essa de novo! ― bufei, fingindo irritação.
Ele deu uma risada e abaixou o rosto para que pudesse sussurrar em meu ouvido:
― Não se preocupe, gostosa. Já sou seu. ― e em seguida apertou a minha bunda.
Atordoada com o que ele falara, porque, embora ele fosse meu melhor amigo, eu tinha que admitir que ele conseguia ser bem sexy quando queria, demorei um segundo a mais para tirar sua mão, que ainda estava encostada na minha bunda.
― Pode ir tirando essa mão boba do meu corpinho, ok? ― berrei, um pouco indignada, enquanto dava um tapa em sua mão.
Ian apenas riu de novo e pegou a minha mão outra vez, com um sorriso maior que o mundo estampado na cara.
∞
Depois de mais algumas horas na livraria que, felizmente, foram mais calmas, Melindra finalmente havia posto a placa "Fechado" na porta.
— Hoje o dia foi bom. — ela disse, enquanto contava o dinheiro do caixa.
— Sim, mas espero que tenha sido o último desse tipo. Minhas pernas não conseguem mais se aguentar em pé!
Ela riu do tom sofrido de minha voz. Melindra era uma senhora que aparentava estar na casa dos 40. Não era casada, porém tinha uma filha um pouco mais nova que eu. Ainda era bem bonita, além de ser bem humorada.
— E como foi hoje com Ian, hein? — ela me encarou, por cima dos óculos, com a sugestão de um sorriso no rosto.
Ela era outro do fã clube "Sophie e Ian vão se casar".
— Foi bom. — dei de ombros, não querendo me aprofundar muito no assunto.
Ela me olhou, como se estivesse me avaliando. Meu olhar voltado para o chão, minhas mãos brincando uma com a outra, minhas pernas balançando nervosamente na cadeira.
— Pode deixar que eu fecho a loja, Sophie. Amanhã é seu primeiro dia de aula, não é? — Perguntou mas, sem esperar por uma resposta, continuou. — Você deve ter muita coisa para fazer ainda, querida. — terminou, dispensando-me com um aceno.
— Tem certeza, Mel? Posso ficar...
— Vá logo, menina!
— Obrigada! — fui até ela e lhe dei um beijo na bochecha, sem conseguir esconder a minha animação.
Ainda ouvia o som de sua risada enquanto saía, apressadamente, pela porta. Minha casa não ficava muito longe da livraria, apenas quatro quarteirões acima, então não havia problema de eu ir andando, já que o sol ainda iluminava o céu, embora a lua já estivesse pronta para tomar o seu lugar.
Caminhei rapidamente pelo mar de pessoas que estava na rua, já que era hora de pico. Não podia esperar para comprar um carro, mas momentos como esse conseguiam desanimar qualquer um. Quando finalmente avistei o familiar prédio azul, abri a bolsa, procurando pelas chaves, só para depois descobrir que as havia esquecido, de novo.
Suspirei alto e cumprimentei o porteiro. Já era a terceira vez dessa semana que tinha que esperar alguém chegar. Meu pai ainda estava trabalhando e minha mãe fora buscar Sage, meu lindo e adorável irmãozinho. O apartamento de Ian era uma opção, mas estava cansada demais para subir mais cinco andares. Então sentei no corredor e minha mente não demorou a começar a pensar no súbito comportamento estranho de Ian e no que o amanhã reservava.
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