Carona

1 Carona


Ele vestia uma regata quase branca, quando comprou era dessa cor mas agora depois do uso diário e lavagem mal feita, a peça apresentava manchas com cores indefinidas e sua maior parte estava coberta com uma amarelado porco. A bermuda d’água e o chinelo desbotado compunham o conjunto. As roupas de uma pessoa geralmente dizem muito sobre ela e com Emerson não era diferente: desajeitado, sujo e preguiçoso eram adjetivos apropriados. A barriga saliente denunciava os hábitos sedentários e o cabelo crescido além da conta o descuido.

Nunca namorou uma mulher por mais que algumas semanas, inicialmente era gentil e atencioso mas logo revelava seu eu verdadeiro, as grosserias, insultos constantes, impaciência e falta de atenção além do machismo descarado e eventuais tapas faziam com que todas recuassem.

A mais recente era apenas um ano mais jovem que ele, seu nome era Carla. Conheceram-se em uma festa, ambos bêbados trocaram alguns beijos e foram pra cama. O relacionamento acabou na manhã seguinte.

“ Tem cigarro? Tô precisando fumar.” Ele disse.

“Não fumo.”

“Nada? Aceito uma erva também.”

“ Não é meu tipo”. A atitude de mulher independente não era familiar a ele.

“Então busca uma cervejinha pra mim, vai.”

“Tá achando o que? Acha que eu sou a porra da sua empregadinha que te obedece e toda noite abre as pernas pra você? Só tô aqui porque bebi demais.”

Levantou-se com raiva, vestiu o short e a camiseta fluorescente que avantajava seus seios.

“Não vai embora ainda, bebê.”

Com o dedo do meio esticado e já na porta ela respondeu uma frase que era conhecida dele.

” Vá se foder.”

Na mesma noite Emerson decidiu ir à praia, era um homem de 26 anos que queria se divertir e como estava de férias do serviço no posto de gasolina queria aproveitar pra conhecer o máximo de meninas possível. E ali estava ele, dentro de sua caminhonete velha e barulhenta deixada pelo pai dirigindo pela estrada durante a madrugada por medo de ser parado por uma blitz. Seus documentos estavam atrasados e tinha gastado grande parte do dinheiro em gasolina, a caminhonete bebia e como bebia. O tempo quente lhe deu a desculpa para usar a regata quase branca. No som do carro algum funk pedindo para que mulheres “ levantem sua bunda” era tocado.

Em sua cabeça repassava o plano pronto: chegaria em um lugar qualquer e dormiria por algum tempo dentro do carro, pela tarde daria alguns mergulhos no mar. À noite utilizaria o dinheiro restante em alguma boate, beberia e dormiria com qualquer uma que aparecesse. Os sons eletrônicos cortaram seu pensamento. Na tela do celular viu que era sua mãe, ele não havia avisado à ela que viajaria e pensava que não tinha importância. Seus pais eram comerciantes, Carolina tinha uma barraquinha de artesanato e Rodrigo trabalhava em uma loja de móveis como sub-gerente. Não ganhavam muito bem mas conseguiam se manter sustentando Emerson, que apesar de morar ainda com eles, gastava todo seu dinheiro no carro e com bebidas.O jeito despreocupado e preguiçoso do filho sem nenhuma ambição era resultado do fato dele ser mimado, pensavam os pais.

Pegou o aparelho com a mão direita enquanto conduzia com a esquerda. Eram 2 horas da manhã mas sabia que uma mãe preocupada não pensa na hora.

“Alô.”

“Oi Carol.”

“ Filho, cadê você? Dormiu fora sem avisar, seu pai me disse que você passou aqui de tarde e pegou algumas roupas, aconteceu alguma coisa?”

“Não, só decidi viajar. Nada demais.” Emerson gostava de sua mãe mas às vezes ela agia de forma protetora o que lhe irritava, mesmo ainda morando com ela.

“Aonde está indo?”

“Vou passar um dia na praia.”

“Se cuida, hein.”

“ Não se preocupe Carol, vou ficar bem, tchau”. Desligou antes que ela pudesse se despedir. Ela já conhecia todos os conselhos que as mães dão: “se cuide”;” use camisinha”;” não beba muito”;etc.

A estrada estava tranquila, poucos carros viajavam naquele horário. Tudo corria bem até que Emerson avistou ela. No canto da estrada estava uma menina, parecia ter uns 19 anos e mesmo assim caminhava sozinha. Ele diminuiu até parar do lado dela. Com a luz do interior do carro ligada Emerson pôde ver o rosto dela. Os cabelos vermelhos caíam no ombro, olhos azuis como os de uma princesa de desenho animado, traços finos dando a impressão de ser uma menina frágil. Os lábios nem muito finos nem muito carnudos seduziram o homem.

“Precisa de ajuda, princesa?”

“Não, eu estou bem.” Sua voz fraca e melodiosa era como o canto de uma sereia.

“ Venha, posso te dar uma carona nessa máquina”. Disse dando um tapinha na lataria. O convite tinha segundas intenções.

“Não se preocupe, estou realmente bem.”

“Aonde está indo?”

“Praia de leste.”

“Eu também, entre no carro, não sou nenhum maníaco.”

Um pouco receosa a menina abriu a porta e sentou-se no passageiro. Disse que poderia usar de alguma ajuda. Ele não perguntou porque ela estava ali naquela hora. A inocência da garota seria explorada.

“Qual é seu nome?”

“ Me chamo Júlia.”

Gostou do nome, era uma menina bonita com um nome bonito, nada poderia dar errado. Júlia não se parecia com as outras meninas com que ficava, ela era doce e meiga. Talvez ele tivesse encontrado o amor de sua vida. Talvez não.

“ O que vai fazer no litoral?”

“Vou encontrar minha família.” Ela não parecia muito disposta a conversar, ainda estava um pouco assustada.

“Eu vou dar uma relaxada.”

Passaram mais 30 minutos sem conversar, Emerson dirigiu focado até desviar o caminho por uma estradinha estranha. Júlia não pareceu perceber e continuou olhando pela janela. Ele encostou carro. Pensava estar no controle da situação, mas não estava. A mão magra de unhas pintadas segurava uma seringa. Acertou o pescoço dele que imediatamente teve seu corpo dominado pela dormência.

Júlia procurou por todo carro objetos de valor, o celular de Emerson e a carteira dele foram levados. Para garantir que ele não acordaria no meio da fogueira, a mulher perfurou a jugular do homem várias vezes fazendo com que sangue jorrasse nela. O passo final fora incendiar o automóvel e o corpo levando as evidências da presença dela com a fumaça negra que cresceu pelo céu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!