Notas iniciais
Neste primeiro capitulo eu procurei apresentar a personagem principal e o ambiente onde vive, jogando um mistério logo de cara para animar a leitura dos próximos capítulos, espero que gostem

O galo cantava exatamente como todos os dias: às 05:30 da manhã. O que significava que era hora de se levantar. Sento-me na cama ainda coçando os olhos, os pés bambos procuram os chinelos que sempre acabavam espalhados para baixo da cama. Assim que os encontro, os calço, e logo me levanto em direção do banheiro que ficava do outro lado do quarto, o que não é muito longe.

Enxáguo a boca e me olho no espelho, meus cabelos louros estão parecendo uma juba de um leão, era assim que meu pai me chamava toda manhã.

– Bom dia leoazinha,dormiu bem?- Diz meu pai a me ver entrando na cozinha. Ele tem 45 anos, mas não aparenta tal idade, mesmo já tendo o cabelo grisalho. Saudável, alto, forte, ele trabalha cuidando dos cavalos junto com outros trabalhadores. Sempre de bom humor, respiro fundo e lhe respondo:

– Como sempre... Já estão todos acordados? – Sua mãe já foi retirar o leite das vacas e cabras e seu irmão está ajudando os outros trabalhadores a levar o feno até os cavalos – E o senhor? Por que ainda está tomando café? – Digo-lhe ao me sentar junto a mesa para comer algo.

– Hoje tive folga, ontem trabalhei dobrado e só precisarei ir trabalhar depois das 7:00, Agora vá se aprontar, já está na hora!

– Estou indo, vou me apressar – Engulo rapidamente uma fatia de pão e um copo de leite morno.

Volto ao meu quarto para me aprontar, aqui na vila onde moro todos trabalhamos, exceto as crianças abaixo dos 12 anos que ainda estudam, e aqueles que trabalham com os “turistas”, é assim que chamamos umas pessoas que se vestem de maneira engraçada e chegam até aqui em grandes máquinas de quatro rodas que andam em alta velocidade, eles as chamam de Carros. Eles vêm todo mês para nos observar cuidando dos animais, eles usam umas caixinhas negras que de vez em quando soltam flashes de luz.

Aquilo incomoda a visão Não são todos que são escolhidos para serem observados, só os mais saudáveis e mais bonitos da vila. Os outros trabalham cuidando dos animais, tirando leite das vacas e cabras, penteando os cavalos, recolhendo os ovos das galinhas e outros trabalhos. Quando os animais estão adultos e saudáveis, são selecionados e levados para outra vila, junto com alguns moradores também sortidos.

Desde criança somos educados e ensinados a cuidar dos animais, aprendemos a escrever e fazer contas simples, até chegarmos aos 12 anos, que é idade suficiente para por o que aprendemos em prática. Não que seja ruim a vida que levamos aqui, mas eu acho que existe muito mais para se aprender e a se ver. Certa vez eu decidi caminhar pelos pastos ao redor da vila, cheguei a um ponto onde havia uma enorme descida, lá embaixo, havia enormes paredões cinza que refletiam a luz.

Era um material que lembrava os dos baldes que usamos por aqui para recolher leite. Quando voltei e perguntei aos meus professores nenhum deles sabiam ao certo o que eram, me taxaram de louca e disseram para eu não fuçar onde não se deve. Depois disso não paro de pensar um minuto sequer no que teria atrás daqueles muros. Volto a me arrumar, penteio meu cabelo e o divido em duas partes, amarradas com uma liga.

Visto minhas roupas de baixo e depois meu vestido verde, com o avental azul. É o que uso para trabalhar Quando estou calçando as botas meu pai me chama alertando que Rupert já me aguardava na porta. Ele é um amigo, o conheci na escola quando tinha 4 anos. Crescemos juntos e sempre o vi como um irmão, mas ultimamente venho achando que ele me vê de outra forma. Saio do meu quarto e os vejo sentados no sofá da sala de estar, pareciam conversar sobre o centro de recolhimento da cidade. É onde os selecionados pelos turistas vão para se prepararem para irem à outras vilas que ficam um pouco distantes daqui. Outro amigo nosso, Larry, foi selecionado mês passado, iremos visitá-lo hoje.

-Bom dia Lotte, está atrasada hoje. -Não me faça ficar estressada também, você vai visitar Larry desse jeito? Ele vestia um casaco de couro marrom com uma blusa de tom escuro por baixo. Usava as calças de trabalho e calçava botas de couro. Ele me fitava com seus olhos calmos de cor verde, que caiam super bem com seus cabelos negros.

-Qual o problema com minha roupa?

- Nada, achei que só começasse a trabalhar hoje após o almoço — Estou adiando o trabalho, hoje é aniversário da minha mãe, vamos passar à tarde em família Rupert tinha a mesma idade que eu, 17 anos, trabalhamos na mesma seção em horários diferentes, eu fico no turno de manhã e ele de tarde.

Ele mora com a mãe e duas irmãs, as duas trabalha com os turistas, toda a família puxou o lado dos olhos verdes, não é a toa que suas irmãs são conhecidas por toda a vila.

- Bem, mande meus parabéns a ela- Digo dando um abraço em meu pai — Tomem cuidado os dois, não quero saber que andaram se metendo onde não são chamados. – Diz meu pai seriamente

-Não se preocupe, eu vou tomar conta dela — Que tal primeiro aprender a tomar conta de si mesmo?– Digo rindo e puxando-lhe para a porta Saímos de casa ás 6:30, não estávamos apressados, meu turno começa apenas as 7 em ponto.

- Estou com saudades do Larry, vou sentir muita falta quando ele partir. – Digo a Rupert — Ainda não entendo a necessidade dessa seleção todo mês, nunca temos notícias depois que eles partem o que será que acontece com eles? – Ele me pergunta pensativo

De repente me vem o pensamento de que talvez isso tivesse ligação com os paredões que eu vira há alguns anos atrás.

- Não sei, apenas encaro essas partidas como um verdadeiro velório. – Após me escutar um seco desce em minha garganta

- Você já foi lá alguma vez?- Pergunta Rupert — Não para visitar alguém, apenas passei por perto, não gosto do clima daquele local.

Enquanto conversava eu avistava os turistas com as pequenas caixas lançando flashes em direção aos animais nos pastos, eles pediam para que as garotas e garotos brincassem com os bichos de forma que eles parecessem ativos Logo adiante dos “carros” eu avisto algo não muito comum por aqui, além dos carros dos turistas há outros muito maiores, assustadores, em sua volta homens de alturas acima de 1,85 vestidos de pretos e segurando enormes pedaços de metal aparentemente ofensivos

- Rupert, olha, o que são aquelas máquinas gigante?

- Ah, elas levam os selecionados para as outras vilas, já vi alguns sendo colocados

- E o que é aquilo que ele está segurando?

- Não sei, eles sempre seguram, mas nunca vi usando-os Chegamos ao local, ele exala um cheiro forte, nunca senti algo com o mesmo cheiro. É um estabelecimento grande, um pouco maior que os celeiros e galinheiros que temos espalhados pela vila. Há uma placa a cem metros do portão, nela está escrita a lista dos selecionados do mês e os horários de visitas. Larry ocupa o 28ª lugar dos 30 selecionados, a vila não é muito populosa, creio que a seletiva seja proporcional ao número de habitantes

- Não acha um local muito grande para tão poucas pessoas? Nem existem tantos funcionários trabalhando aqui. – Pergunto a Rupert

- Existem quartos desocupados, acho que a estrutura foi feita com a intenção de acolher mais pessoas

- Bem, vamos logo falar com ele, não posso chegar atrasada hoje Quando entramos no terreno escutamos um barulho parecido com uma pequena explosão, logo depois vemos alguns funcionários saindo do centro e indo para trás do estabelecimento.

Decidimos segui-los -Que barulho foi aquele? – Diz Rupert correndo logo atrás de mim — Não sei, nunca ouvi esse barulho em minha vida Fazemos a volta no prédio pela direita a fim de cortar caminho e poupar tempo.

Ao chegarmos ao suposto local onde houve o barulho avistamos uma escada encostada em uma das inúmeras janelas, aberta, onde uma pessoa teria entrado ou saído dali Logo embaixo da escada vemos dois daqueles homens de preto e perto deles vários funcionários em volta de um homem, aparentemente de 25 anos, com um buraco em seu peito, em volta uma poça de sangue se forma

Ao ver aquela cena eu fico em choque, paralisada, nunca havia visto algo parecido, um ferimento tão pequeno com tais conseqüências O corpo do jovem agora está imóvel, sem vida. Seus olhos continuam abertos junto a sua boca, imagino o que ele estará pensado ao tentar sair do prédio de abate, aparentemente ele foi bem cuidado, estava saudável e farto

- Lotte! Saia daí! – Diz Rupert me alertando, escondido atrás de um pequeno poço Volto a si e logo recuo para onde Rupert estava, observamos os homens de preto cobrindo o cadáver e o levando para algum lugar — O que foi isso? – Pergunta — Não sei , não consigo acreditar no que vi. Será que aquele ferimento foi feito por aquele pedaço de metal? — Talvez, mas agora não é hora de ir atrás de confusão, temos que ver Larry! -Tudo bem, vamos.

Nos levantamos e saímos discretamente para não ser notados pelos funcionários que estavam se debatendo e retirando a escada Voltamos a entrada principal do prédio e enfim entramos, lá dentro temos que preencher um formulário de visita e carimbar nossa digital no documento Ele está no segundo andar, o mesmo que o rapaz estava.

Enfim somos guiados por uma funcionária de trajes brancos até o quarto onde Larry está hospedado Ao andarmos pelos corredores longos e estreitos percebo que cada porta é etiquetada por uma placa, com o nome do seu atual hóspede.

Passando por algumas portas reconheço alguns nomes, vizinhos, ex-colegas de classe, entre outros. Até que finalmente chegamos ao quarto onde a placa se nomeia de Larry — Aqui estão vocês tem alguns minutos, logo todos eles serão transportados para outra vila. -Não vamos demorar não se preocupe. – Responde Rupert A funcionária nos deixa a sós em frente a porta, após sua saída decido abrir a porta para enfim me encontrar com Larry.

Ao entrarmos no quarto vemos um cômodo de tamanho médio, com poucos móveis, apenas uma cama estranha, parece ter sido feita para agüentar muito peso, sem contar na estranha plataforma de madeira, que ficava logo abaixo do móvel, uma prateleira onde se encontra os pertences do hospedado e outra onde havia os instrumentos usados pelos funcionários

Em nossa frente eu vejo um homem um pouco maior que eu, gordo, aparentemente pesando mais de 100 quilos, de costas, olhando para a janela.

- Com licença, onde está o hóspede desse cômodo? Ele se chama Larry... – Pergunta Rupert O rapaz se vira e nos mira com o olhar curioso

- Não estão me reconhecendo? Sou eu, Larry.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado, deixe sua opinião, é de grande valor =] obrigado
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.