Carmen
18 Draughts
Ele estava próximo ao chão, os membros superiores se dobrando na centésima quinta flexão quando o telefone tocou e seus olhos capturaram o nome dela. Continuando com o exercício com apenas um dos braços, ele pegou o aparelho e levou ao ouvido.
“McLocksller.”
“Hey.” Ele achou que a voz dela parecia distante, e balançou a cabeça. Desvencilhar-se desse tipo de pensamento ridículo também era um exercício a ser realizado com dedicação. “Eu vou demorar um pouco mais para aparecer. Não me tranque para fora.”
“Onde está?”
“Descendo na estação de Haggerston.”
Ele franziu o cenho. “Por que?”
“Preciso encontrar um amigo em um pub de jogos. Isso é tão americano...”
“É o Draughts. Eu costumava ir quando era adolescente.”
Ela riu do outro lado da linha. “Deve ser um pub bem antigo.”
“Comediante.” Rebateu ele, mas percebeu que estava sorrindo. Maldita Carmen.
“Você está... correndo?”
“Malhando.”
“Oh. Emocionante.”
“Aqueles músculos não se definem sozinhos.”
Ele sorriu imaginando-a mordendo os lábios e lembrando-se de seus músculos. Podia ver o rosto iluminado e o olhar malicioso, as bochechas empinadas em uma careta facial juvenil. “Você deve estar trabalhando bastante duro aí...” Provocou e ele engoliu em seco. É, ela havia ganho essa rodada.
“Não tanto quanto você e esse amigo que vai encontrar.”
Ele odiou-se imediatamente após as palavras escaparem pelos seus lábios. Ele estava com ciúmes e agora ela sabia disso também. Bateu o celular contra sua têmpora direita, decepcionado com sua burrice.
“Robin...” Ouviu a voz dela amenizar, uma tentativa de acalmá-lo.
“Eu não deveria ter dito isso. Me desculpe.”
“Tudo bem...” Um silêncio constrangedor posicionou-se entre eles, e ele se xingou por ter feito tamanha burrada. “Eu vou chegar tarde. Fique bem, McLocksller. Até mais.”
Quando ela desligou, ele parou o que estava fazendo e deitou-se no chão. Regina agora sabia que ele estava com ciúmes. E havia o censurado, baixando o tom e finalizando a conversa. Como se quisesse evitar o assunto. Robin fitou o teto, digerindo os sentimentos de inveja e ciúmes que se espalhavam por seu tórax como tinta óleo. Imaginou Regina com um vestido preto curto e meia sete oitavos; os cabelos castanho escuros caindo por seus ombros e a boca bem marcada com um batom vermelho. Imaginou um homem como Damon Salvatore, bonito, sofisticado, bem-dotado financeiramente dançando com ela, passando as mãos pelo corpo pequeno e delicado, tocando-a de maneira que a fizesse gemer baixo e se contorcer ao redor do toque. Imaginou Regina rindo, despreocupada, despojada. Imaginou-a com os olhos fechados permitindo que algum garoto de faculdade a despisse, imaginou-a despindo outro homem. Regina Mills, ou Carmen Sandiego – não importava. Ela o estava enlouquecendo cada vez mais, a cada dia de convivência, a cada sorriso, a cada farpa, a cada carinho, a cada estranhamento. Não conseguia mais imaginar seu apartamento sem a bagunça que ela deixava pelo caminho; sem tropeçar nos sapatos deixados pelos cantos.
Fechou os olhos e respirou profundamente. Ele podia sentir ciúmes, mas ela não era culpada. Havia sido bem clara sobre os dois, sobre não querer se envolver a fim de que ninguém se ferisse mais do que o necessário e respeitava a decisão dela. Porém respeitar uma escolha não significou acreditar nela. Não significou dissipar sentimentos que, mesmo que ele nunca pronunciasse, já estavam lá.
***
Regina ergueu o rosto com suavidade e fitou o número 337 impresso na cor branca sobre uma placa azul. As paredes de tijolo simples traziam um ar jovial e despojado combinado ás grandes vidraças. Não era a espécime de pub que ela costumava ir, mas servia. A calçada espaçosa facilitava o fluxo na Acton Mews; a grade de segurança abrigava pequenos canteiros – trazendo um detalhe feminino para a dureza da arquitetura britânica. Chovia um pouco, e ela percebeu que prestes a se atrasar. Deu dois passos à frente e entrou no recinto, puxando o capuz de sua cabeça e balançando os cabelos no ar para soltá-los.
O lugar estava cheio. Prateleiras cheias de jogos preenchiam um dos cantos arredondados do lugar que a lembrava um labirinto circular. Lembrou-se das coordenadas de Jake e seguiu em frente, fitando a grande luminária de led na cor lilás, com o logo do pub. Olhou em volta, e percebeu que havia corredores e neles pessoas sentadas ao redor de mesas e seus jogos. Esperava com veemência que essa fosse apenas mais uma escolha esquisita de Ballard e não uma brincadeira – ela não estava com humor para isso. Fitou o tabuleiro de xadrez iluminado ao lado de uma grande vitrine e notou a presença dele.
Jake continuava incrivelmente bonito. Os olhos verdes misturados a um tom dourado, o cabelo liso que criava ondas para dentro, os lábios cheios e a barba rala. A personalidade dele havia mudado com o tempo, amadurecido – muito disso também atribuído à suas desilusões sobre certa senhorita de chapéu branco. Vestia camiseta jeans e terno pretos, assim como os coturnos militares – um cachecol fino no tom cinza quebrava o visual e trazia sofisticação. Ele sorriu.
“Carmen Sandiego.”
“Jake Ballard.” Respondeu ela, sorrindo brevemente. Eles permaneceram se encarando por alguns minutos até que ele estendeu a mão sobre o tabuleiro montado com as peças de xadrez.
“Uma partida?”
“Não vai ficar com o ego ferido quando perder, capitão?” Flertou ela.
“Não me faça rir. Você é uma péssima estrategista.”
Ela piscou para ele e simulou como se fosse lhe contar um grande segredo. “Lembre-se que sou uma ótima ladra.”
Ele retirou do bolso um pequeno pacote, menor que um envelope padrão. Caminhou até ela, ficando atrás dela, próxima o suficiente para ela sentir a respiração dele na parte de trás de sua cabeça. Regina não se mexeu. Ouviu ele abrindo o zíper de sua mochila, e fez certa pressão, voltando a fechá-la. “Esse pendrive tem tudo o que você pediu. Destrua-o depois do uso.”
Com isso, ele se afastou e voltou ao seu lugar, do outro lado do tabuleiro e frente a frente com ela, possibilitando ler suas expressões. Ela apenas balançou a cabeça, consentindo com a informação fornecida. “Você quer começar, Ballard?”
Ele fez um gesto para o garçom e então ergueu as sobrancelhas para ela, num total descaso. “Pode começar, vou te dar alguma vantagem. A derrota será feia o suficiente.”
“Um homem confiante é duas vezes desatento, Ballard.”
Ela começou saindo pela frente. Ele sorriu. Seus peões moviam-se pelos lados. O jogo de Jake era definitivamente mais arriscado que o dela. Ele não pensava duas vezes para sacrificar um cavalo, uma torre ou um bispo, desde que isso lhe desse uma vantagem na localização. Regina observava cada jogada, pensando, analisando cada detalhe e movendo suas peças com meticulosidade. Ele queria rir, muito, mas resolveu deixa-la em paz.
Não demorou muito para Regina perder suas torres e seus cavalos, assim como metade de seus peões. Ela ouvia a gargalhada ininterrupta do adversário, mas concentrou-se enquanto bebia a cerveja que chegara a algumas jogadas atrás. Presunçosamente, Jake colocou sua rainha em risco; seu coração disparou quando ele se deu conta do erro que havia cometido. Estava pronto para o massacre, quando ela moveu a rainha dela em outra direção. Ele não entendeu. Ela havia o poupado de propósito? Não, essa não era Carmen Sandiego.
Jogou o bispo sobrevivente para cima do bispo dela, derrubando-o. Ela riu, e ele soube que havia perdido. Ele fitou o tabuleiro e percebeu que o bispo fora colocado ali de propósito. Daquela maneira, ela havia feito com que ele se colocasse em situação de xeque-mate sozinho.
“Você é um demônio.” Comentou ele, bebericando sua cerveja e fitando incrédulo o tabuleiro. Regina apenas riu e apontou o sofá mais próximo. Eles sentaram ali, e ela bebeu outro gole de sua cerveja. “Na verdade, eu tirei um cavalo e dois peões seus de cena e você nem notou.”
“Você roubou de mim.”
“Você é muito devagar.” Ela rebateu e ele a fitou de uma maneira que ela entendeu o que ele quis dizer. “Eu não quis dizer nada, estou me referindo ao xadrez.”
Alguns rapazes entraram pelo saguão rindo e fazendo barulho e isso roubou a atenção deles por alguns instantes. Pouco depois, ela encostou o cotovelo na parte de cima do sofá e apoiou a cabeça, visivelmente cansada.
“É verdade o que dizem? Sobre sua missão?”
Os olhos dela se arregalaram imediatamente e seus lábios se abriram devido ao choque. “Como assim todos já sabem disso?”
“Não me chame de todos, Sandiego. Eu sou presidente do B613. Eu tenho que saber de tudo.” Ela achou aquela constatação incrivelmente sexy; um cargo de tanto poderio só podia fazer bem à virilidade de um homem. Sorriu e ele fitou seus olhos por algum tempo. Um pequeno flash de quando se conheceram veio à tona. Do que ela se lembrava, ele beijava maravilhosamente bem.
“Por que me trouxe aqui, Ballard? Um bar cheio de jogos.... É alguma mensagem subliminar? Porque eu não estou com humor ou paciência para joguinhos.”
“Ao contrário do que pensa eu não quero foder você. Quer dizer, de certa forma, eu adoraria...” Ele riu, a malícia formando um sorriso que ela retribuiu antes de revirar os olhos. “Mas eu não vou foder com o seu trabalho. Só estou avisando que é arriscado. Bastante arriscado. E outra coisa, você estará entregando poder e autonomia gigantescos ao detentor dessa mercadoria.”
Ela não havia se dado ao luxo de pensar em quanto isso era importante. Tanto dinheiro e influência nas mãos erradas poderia ser tão ruim quanto ser morta na operação. Em nenhum momento ela pensara que algo assim teria um impacto profundo na sociedade e também no jogo de poder e influência que regia as grandes instituições e governos. Ultimamente, ela não estava pensando em nada, quer dizer, ela estava pensando nele. Ela havia distraído a si mesma pensando na pessoa a qual ela continuava rejeitando, dia após dia.
“Eu ajudaria, mas não posso me envolver. Além do mais, tenho problemas suficientes com aquele presidente e com a Liv.”
Ela sorriu. Ele realmente a amava. Jake Ballard amava alguém com profunda intensidade e isso era surpreendente. Somente Olivia para não entender a dimensão dessa constatação. Regina desejou ardentemente trocar algumas palavrinhas com a mulher.
“Não se preocupe.” Assegurou Regina. “Ainda é uma utopia. Eu não consegui bolar uma estratégia de invasão que seja segura.”
Ele mordeu o lábio encarando-a. Depois de algum tempo, soltou o ar em uma lufada só. “Como eu não pensei nisso antes? Such an idiot....”
Regina continuou encarando-o como se ele fosse um lunático. Ele sorriu e se aproximou dela. “A sociedade que criou o B613 possuía uma fortaleza sobre as cidades. Trata-se de diversos corredores que ligam antigas centrais, localizados em diversos países da Europa. O plano inicial desses túneis era a preservação da humanidade se houvesse alguma guerra e o risco de extinção. Outros dizem que o propósito era vigiar a humanidade por baixo de seus pés. Não se sabe.”
“C’est formidable. Mas no que isso me ajuda?”
“Tem um corredor que passa exatamente embaixo do Cofre Nacional de Londres. Mas não existem mapas atualizados. Pode ser que só existam escombros, pode desmoronar enquanto você estiver lá. As ruínas são muito, muito antigas. É extremamente arriscado e você pode não voltar, mas ainda assim...”
“Ninguém me verá entrando.” Concluiu ela. “Eu consigo entrar e sair. Ou tentar sair, no caso. Mas... eu tenho a leitura topográfica do solo ao redor do Cofre. Não havia nada detectado.”
“Talvez alguém não quisesse que esses caminhos fossem detectáveis por estranhos. Mas eu vou enfatizar: os tuneis abandonados no submundo europeu são parte de uma lenda muito, muito antiga. Muito se fala, mas poucos os viram. Eu não posso te dar localização exata pois eu não sei. Existe um mapa antigo escrito em latim com transcrições gregas. Mas ele sofreu alterações.”
Fazia sentido. Eram plataformas para espionagem, não era exatamente algo projetado para ser tombado como patrimônio histórico. Tudo que ela precisaria era encontrar uma maneira de entrar em um lugar que ela não fazia ideia de onde estava ou onde começava. Mas de algum modo, ela sentiu que havia feito progresso. Um progresso incalculável. Jake sorria para ela; parecia orgulhoso por tê-la ajudado de alguma forma.
“Eu aceito o mapa. Me passar essas informações não lhe trará problemas?”
“Você não é um problema para mim, Carmen. O que você rouba dessas pessoas não tem valor para o Pentágono, nem para a Casa Branca, nem para a ONU. Nem para o B613. Ninguém vai fazer uma guerra porque um rubi foi roubado, ou um quadro ridículo pintado com o cotovelo de um imbecil. Ninguém se importa com artefatos astecas, a não ser o povo asteca.”
“Entendido.”
Ela deitou a cabeça no estofado e respirou fundo. Por algum tempo, ele apenas a observou o quão cansada ela parecia. Seu cabelo embora brilhante, estava desalinhado pela chuva tomada e ele não se lembrava da última vez que a vira de jeans e moletom – se é que já vira antes daquele momento.
“Posso lhe perguntar algo?”
Ela sorriu com os olhos fechados. “Ouí.”
“Por que continuar? Por que se arriscar nessa missão que parece emocionante, mas que pode também dar incrivelmente errado? Eles não têm mais nada contra você, Carmen.... Você é uma mulher livre. Eu queria entender por quê ficou.”
Ela abriu os olhos rapidamente e o fitou confusa. “O que você disse?”
“Que parece...”
“Não, não isso. Como eu sou uma mulher livre? Como eles não tem nada contra mim? Eu sou uma fugitiva procurada, Ballard. A minha sorte é que os cidadãos londrinos estão pouco se importando com os fugitivos da Interpol.”
Ele balançou a cabeça sorrindo. “Você não sabe.”
“Não sei o quê?” Questionou, irritada. Jake continuou sorrindo, um riso irônico de quem não deu nenhuma credibilidade a sua ignorância. Ele era insuportável, era por isso que não havia durado. Ela se lembrou imediatamente. Deu um soco no braço dele, fazendo-o gemer e parar de rir.
“Seu histórico foi apagado. Todas as evidências, provas, interrogatórios, tudo que a polícia ou a Interpol tinha contra Carmen Sandiego foi erradicado dos sistemas de informação. Eles não têm com o que segurar você. Como eu disse, você é livre. Como se – legalmente — você não existisse.”
Ela sentiu uma ligeira tontura. Perguntou-se o que aquilo queria dizer. Encostou a cabeça de volta ao sofá, e respirou fundo. Seu coração batia descompassado, e ela achou que ele sairia por sua traqueia. Aquela informação não podia ser real. Sua boca ficou seca repentinamente. “Como você descobriu isso, Jake?”
“Eu sempre faço a checagem policial quando vou entregar algum trabalho assim. Ajuda a manter meus clientes fora da cadeia e eu continuo ganhando. Pedi para Huck abrir seus arquivos apenas para me assegurar que não havia novos crimes adicionados e você sequer estava lá.” Ele notou que ela estava suando. “Carmen, você está bem?”
“Sim.” Sussurrou ela, a voz embargada pelas emoções confusas que dançavam em sua mente e coração naquele momento.
“Mas há algo que você precisa saber.”
“O que?”
“Bem...” Começou ele, encabulado. “Huck rastreou o gatilho que apagou todos os seus arquivos. Veio da Interpol. Veio do esquadrão deles em Westminster.”
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