Carabosse
5 Terceiro Ato - Parte II
Notas iniciais
Terceiro Ato
Parte II
Yuri não entendia o que era aquele lugar onde estavam, mas para ele não importava, desde que estivesse em companhia da mãe. Entediado naquela sala com estantes metálicas muito altas e caixas cheias de poeira que fazia seu nariz coçar, ele trocou passinhos inconstantes de um lado para outro, sempre olhando para a mãe para saber se estava muito longe ou não. Era Yulia quem media se a distância entre ela e seu bebê era muita e, dependendo do quanto o filho se afastasse, ela deixava tudo para trás para correr atrás dele e prendê-lo em seus braços pelo resto do dia, como punição. Ela não sabia como seu pequeno Yura adorava aquele tipo de castigo, talvez pela raridade em seus sorrisos não deixá-la saber muita coisa do bom humor do filho, ou a falta dele.
Naquele dia — ou seria tarde? Aquele quarto era muito escuro para Yuri ter certeza —, no entanto, Plisetskaya estava muito concentrada em buscar alguma coisa em todas aquelas caixas velhas e desinteressantes, restando a Yuri abraçar sua pelúcia tigrada e ficar ali por perto, esperando até que a mãe decidisse ir embora. Cansado, pensou que as caixas mais baixas eram muito parecidas com os encostos duros e desconfortáveis das cadeiras do estúdio onde Yulia trabalhava e a comparação o fez querer usá-las como um substituto para apoiar suas costas. Com calma, visto a limitação de movimentos causada pelo excesso de roupas quentes, ele ajoelhou no chão sujo, inclinando para o lado como mandava o passo-a-passo mental, cujo a finalidade era a de conseguir se sentar. Grandes aventuras de uma criança.
Como planejado em sua mente, Yuri terminou de sentar, esticou os joelhos, escolheu uma caixa aparentemente boa o bastante para se encostar e… Caiu para trás, com as perninhas esticadas para cima.
“Yuri!”
Abandonando os arquivos de anos passados, Yulia correu até o filho, com metade do corpo pequeno soterrado por caixas e sacolas. Desesperada, ela jogou o entulho para o lado e abraçou Yuri com desespero, arrependida por um milhão de coisas que nada tinham a ver com a situação, culpando-se por outras milhares e antecipando o choro de ver seu menino internado. Levou mais tempo do que o necessário para ela perceber que Yuri estava inteiro e bem cuidado, apenas um pouco confuso com a comoção materna e irritado em ter perdido o brinquedo preferido. Nenhum hematoma, nenhum arranhão, apenas um susto. Aliviada, ela cobriu o rosto do filho de beijos e os estendeu até os cabelos finos, notando, entre uma reclamação e outra de Yuri, que as caixas que haviam caído sobre ele estavam vazias.
Aquilo explicaria o porquê de Yuri não ter se machucado quando as caixas de arquivo caíram em cima dele, mas não explicaria a razão de existirem. Foi ali que Plisetskaya sentiu as suspeitas começarem a feder, como tudo o que envolvia o estragado nome dos desafetos de Margosha que Yulia tinha como os dela.
Yulia sempre foi desconfiada por natureza e, por essa razão, dificilmente algo de estranho passava por ela sem ser descoberto. Era assim que ela sabia como se defender de garotos que tentassem provocá-la e prevenir eventuais puxões de orelha de Lilia quando ainda costumava dançar. Certo, não havia tido tão bom tino assim quando conheceu o bailarino alemão, mas para a própria defesa, estava apaixonada e pessoas apaixonadas são burras, em sua maioria. Oh, lembrar disso sempre a fazia querer recomeçar a chorar.
Mas não era para lamuriar sua ingenuidade passada que Yulia esteve ali, fazendo aquele teste. Georgi sempre foi apaixonado por qualquer miudeza interessante que pudesse atiçar sua imaginação e um dos mais baratos e certeiros presentes a se dar para ele eram cartões postais, recordações de lugares que ele nunca havia estado, mas que ao mesmo tempo davam a sensação de ter o mundo nas mãos. Não era apenas a família de Popovich que o presenteava com esse tipo de souvenir, pois a alegria infantil sempre inspirava viajantes do corpo de baile e colegas de trabalho de Margosha a trazerem algum cartão de fora, ou ainda, mandá-los pelo correio, o que garantia detalhes adicionais de selos e carimbos em idiomas diversos. Georgi adorava, é claro. E continuaria adorando, se recebesse essas encomendas.
A princípio, Yulia pensou se tratar de um infeliz extravio, afinal, cartões postais eram pequenos e não tinham nenhum envelope para transporte. Porém, o padrão espaçado com o qual seus envios chegavam ao apartamento de Margosha a deixou desconfiada; era como se apenas às quintas-feiras eles tivessem entrega garantida. Poderia ser uma coincidência? Poderia, caso as últimas notícias recebidas de Minako há poucos anos, não tivessem acontecido também em uma quinta-feira. Isso tinha grandes chances de que o problema não estivesse no caminho percorrido pelas encomendas, mas da agência que cuidava delas; e Yulia iria com certeza descobrir o motivo.
Foi um teste que lhe custou poucos minutos de tempo ao longo da semana, alguns centavos e o roubo do quadro de funcionários do correio local. De consciência limpa, justificando aquelas ações para um bem maior, ela deu um jeito de surrupiar a lista com os nomes e rotatividade dos empregados da agência, usando como principal distração, o choro birrento e incessante do filho. Era bom que Yuri jamais soubesse para qual finalidade havia servido.
Com funcionamento de segunda à sábado, as folgas funcionavam por uma escala fixa, garantindo que sempre houvessem funcionários à disposição da população e que o pessoal interno conseguisse o descanso combinado por contrato. Assim, com o horário de todos em mãos, Yulia começou seu teste, enviando um postal por dia para São Petersburgo. Confirmadas suas suspeitas, apenas o cartão enviado na quinta-feira chegou para Georgi, enquanto os outros sequer apareceram no centro de distribuição da cidade. A partir disso, Yulia precisou apenas rabiscar da lista todas as pessoas que tiravam folga naquele dia em específico e comparar com os demais para saber em quem ela cairia matando. Não literalmente, lógico.
Lógico.
Levou mais tempo do que ela queria, dado suas responsabilidades com as turmas infantis de balé e o filho que tomava todo o resto de sua vida — felizmente, ela não estava reclamando! —, mas enfim Yulia tinha em mãos o suspeito por interferir nos presentes de Georgi e na comunicação entre familiares e amigos: Gorki Osipov. O puxa-saco de Nikiforov, pai da peste infantil que tanto perturbou Georgi em seus primeiros meses frequentando aulas de patinação e aquele que sobre o passado de Popovevna, sabia de tudo. Ver seu nome ali sequer havia dado brechas para a surpresa da descoberta, pois de todas as pessoas listadas, Yulia já esperava vir dele aquele tipo covarde de interferência. Ela mataria aquele rato, mas não sem antes descobrir onde ele havia guardado os pacotes com mentiroso histórico de extravio. Plisetskaya torcia, para o bem de Osipov, que ele não tivesse dado um fim definitivo a tudo.
E finalmente, por decorrência daquele acidente imprevisto com Yuri, ela estava de frente para inúmeras caixas de papelão, datadas e numeradas falsamente, já que seu interior nada mais tinha que plástico bolha e poeira acumulada. Elas não estariam ali, ocupando espaço entre os demais arquivos da agência devidamente preenchidos, se não tivessem a função de mascarar a falta de documentos. Talvez aquilo nem estivesse envolvido com o que Yulia buscava, mas mesmo assim, ela começou a revirar cada caixa vazia e jogar para cima todo o enchimento dos arquivos fraudulentos. Yuri, mais animado com a bagunça feita pela mãe, saiu pisoteando toda a extensão de plástico bolha, sorrindo com o som estourado que ele fazia sob seus pés aquecidos com três pares de meia..
A jovem não precisou procurar muito para achar, entre arquivos falsos e teias de aranha, uma sacola plástica escura, o mesmo tipo usado para coleta de lixo, amarrada e amassada em um canto, escondida atrás dos álibis mentirosos. Poderia ser…?
Nervosa, Yulia deixou que os dedos trêmulos abrissem o nó do bocal plástico, usando-os logo em seguida para tampar os soluços que queriam escapar junto com a verdade revelada; estavam ali, estavam todas ali, as encomendas extraviadas ao longo de oito anos. Cartões borrados pela longa viagem, envelopes enfeitados pela letra tremida de Georgi em suas primeiras tentativas de escrita, papéis amarelados pelo tempo guardado, escondido de seus verdadeiros donos… Até a última carta escrita para Minako, o envelope gordo e pesado que teria lhes custado alguns rublos acima do esperado, estava ali, sem nenhum carimbo, nenhum selo. Sequer havia sido mandado. Osipov não deu nenhuma chance para aquelas cartas encontrarem seu destino. Entre todas as embalagens nunca abertas, ela identificou aquele padrão riscado de letras japonesas que por tantos anos usou para provocar Minako, endereçado pela própria Okukawa. Interferindo ainda mais em um assunto que não lhe dizia respeito, ela abriu o envelope e se pôs a ler os últimos relatos, comentários sobre o onsen dos Katsuki, fotos aleatórias da cidade e de um garoto de óculos que Yulia quase não reconheceu se tratar do bebê Yuuri que ela tinha visto há tanto tempo… Um Yuuri como o dela… Triste, se deu conta de que a notícia de sua gravidez sequer tinha chegado à Minako.
Porém, o que mais doeu em toda aquela carta, foi um pedido, uma piadinha de fundo melancólico que a fez sentir na Rússia, toda a saudade transmitida do Japão:
“Façam o favor de me responderem dessa vez, hein? Já estou desaprendendo o cirílico.
Sinto falta de vocês. Mandem notícias, por favor.
Com amor, Minako.”
A carta datava de três anos.
Yulia abaixou a cabeça e derramou lágrimas que valeram por todo aquele tempo em que terceiros interferiram em suas vidas. Por que tanta maldade? O que tanto a alegria daquela família incomodava Osipov?
Ele não agiria sozinho, Yulia sabia, era estúpido demais para pensar por conta própria em todo aquele plano cruel. Osipov era uma pessoa pequena, quem ali tinha coração e mente cruéis era Nikiforov, mas a motivação por trás daquela atitude ainda era um mistério e não ter nenhuma explicação doía tanto quanto ter a prova em mãos.
Sem aviso e sentido pela evidente dor materna, Yuri deixou a brincadeira para trás para abraçar a mãe, tentando consolar sem palavras o provável dodói que Yulia tivesse. Na inocente compreensão de Yuri, apenas machucados doíam e ele não conseguia enxergar os joelhos da mãe para saber onde ela os havia batido.
Agradecendo o carinho do filho com um beijo estalado na bochecha macia — e sorrindo de como ele resmungava contrariado por aquilo —, Yulia amarrou a boca do saco plástico e deixou a bagunça para trás, saindo da sala de arquivo tentando esconder sua presença o melhor que podia. Invadir o estabelecimento daquele jeito não havia sido correto e poderia ser usado contra, caso envolvessem a tutela de Yuri no meio, e isso ela não podia arriscar. Não sentia-se tão errada quanto Osipov, mas ela já não podia disputar contra ele que tinha o saiote de alguém com grande nome para se esconder atrás. O mundo ainda daria voltas… Se existia justiça, o mundo giraria em busca dela.
Em posse das chaves do apartamento, Yulia se recompôs o suficiente e se apressou até o local. Margosha e Georgi já teriam deixado a casa para a apresentação do programa curto e, se Plisetskaya não quisesse perder, precisaria ter pressa. Foi o tempo de chegar, amontoar a sacola de cartas entre as tranqueiras acumuladas na varanda e trocar a roupa de Yuri, enquanto o menino mastigava um pedaço de grénki frio, para enfim descerem os oito andares e tomarem um táxi até o rinque de patinação. Depois, quando Gosha tivesse ido embora, ela contaria tudo para Margosha. Até lá, choraria antes o que não poderia chorar na hora e pensaria na melhor forma de contar tudo para a costureira.
A entrada do estabelecimento estava levemente agitada. A maior parte dos interessados já havia entrado em busca de um bom lugar para assistir a apresentação e os poucos que ficaram para trás, estavam ali para tentar a sorte de terem seus rostos filmados para a divulgação do campeonato, cederem algumas palavrinhas para a mídia, em busca de seus quinze minutos de fama e — o que Yulia não esperava e não desejava para aquele dia nem para nenhum outro —, claro, conseguir um autógrafo de Oleg Nikiforov.
Plisetskaya queria ter pensado com mais seriedade, saber que a presença daquele homem ali era mais do que uma infeliz coincidência, uma provocação depois de tudo o que descobrira, entender que Oleg estava ali apenas para atrair atenção e fazer propaganda para o filho. Porém, assim que seus olhos castanhos viram Osipov se aproximar de Nikiforov, forçando sorrisos e intimidade, ela não se conteve; como sobra de sua irresponsabilidade juvenil, sua impestuosidade adolescente, como Lilia ora condenava, ora elogiava, Yulia voltou-se para o filho e tomou a mais inesperada das atitudes.
“Yura, preste atenção!” Atento ao dedo em riste, ele obedeceu. “O que a mamãe vai fazer agora é muito feio e muito errado e você não pode fazer igual!” Atento aos gestos negativos feitos por ela, Yuri pareceu entender. Ou quase. Se era errado e ele não podia fazer, por que a mãe faria? Sem expressar a dúvida em palavras, já que não as conhecia o suficiente para isso, ele a encarou no que pareceu bem mais condenação do que dúvida. “Vamos, meu amor, não me olhe assim… Algumas pessoas más merecem uma grande punição!”
Ela percebeu que a justificativa era mais infantil e imatura que os quase dois anos de Yuri. Oh céus…
“Certo, isso é errado e só pode ser feito contra pessoas más!” apontando para onde Nikiforov se despedia da imprensa local, ela completou. “Nikiforov é a pessoa má, entendido?” Com um único aceno, Yuri estava de acordo. “Bom…” Bom. Ao menos foi o que ela tentou se convencer. Que Margosha não soubesse.
Parcialmente de acordo com a própria culpa, Yulia levou as mãos ao chão e uniu a neve suja e pisoteada em uma esfera cinzenta e firme o bastante para suportar o deslocamento. Ignorando todo o discurso anterior, Yuri abaixou as mãozinhas enluvadas e tentou fazer o mesmo, unindo o monte disforme de gelo na mão e o jogando como fez Yulia, vendo seus esforços caírem ridiculamente aos seus pés, enquanto a bola de neve da mãe riscou o ar frio e acertou em cheio a cabeça de Oleg, desmanchando-se em pedaços gelados.
O dejavu daquele ocorrido o levou para a mesma cena de anos antes e instantaneamente ele soube de quem se tratava. No lado oposto, com os punhos fechados em sinal de ódio e os olhos cerrados lançando ofensas tão certeiras quanto a esfera gelada, estava o rosto amadurecido da garota que o acertara no passado, unida em um plano de Okukawa como se juntas fossem um esquadrão de proteção à Margosha. Como há oito anos, a atitude foi inútil.
Enquanto Osipov enchia seus ouvidos de palavras indignadas sobre o comportamento de Yulia e que Oleg precisava fazer alguma coisa a respeito daquela afronta pior que a morte, Nikiforov usou uma das armas na qual era especialista; o desprezo. Batendo a neve dos cabelos e ombros, ele acenou para a jovem e lhe ofereceu um sorriso ordinário, responsável por piorar a irritação dela e arrancar uma ofensa gritada entre lágrimas, a plenos pulmões.
Era o tipo de pequeno poder que Oleg gostava de ter, de cruel satisfação em saber ser maior do que as forças que outras pessoas — não — podiam suportar.
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A mídia não sabia qual era a melhor parte naquela edição do campeonato júnior, se ter Victor Nikiforov no pódio da final em Moscou e Popovich na concorrida quarta colocação, ou Oleg presente em preservada carne e invejado osso, prestigiando os dois adolescentes, sendo um seu filho e o outro, o brilhante afilhado de alma artística o qual ele patrocinava há anos. A agitação dos repórteres e os cliques repetitivos não deixavam que os familiares e amigos de Popovich se aproximassem para parabenização, sobrando para Yakov abrir espaço entre os sanguessugas para resgatar seus patinadores e deixá-los a salvo em algum camarim disponível. A coletiva de imprensa nem tinha começado e ele já estava ficando estressado; em seu tempo os jornalistas não eram tão intrometidos assim, tinha certeza.
Como a coletiva era reservada aos três primeiros colocados, Feltsman deixou Georgi livre para aproveitar o tempo com Margosha e Yulia, descanso mais do que merecido o qual o garoto ficou feliz em aceitar. Victor, por outro lado, deixou de lado a felicidade de Georgi, se mostrando muito contrariado em ser separado da única companhia que tinha, principalmente levando em conta que logo estaria enfrentando uma extensa e chata coletiva sozinho, cheio de perguntas sobre o pai, logicamente, com horas extras de exposição posterior onde Oleg o exibiria como um belo e bem polido troféu. Tudo o que ele queria, nossa.
“Gosha, quanto você quer para me levar com você?” perguntou Victor, no ápice de seu exagero dramático. Tudo o que ele queria era sair de fininho e se esconder até a hora de ir embora. Poderia ir para o apartamento da mãe de Georgi, Yakov não precisava saber.
“Desculpe, Vitya, mas daqui eu saio com minha família.” Popovich quis sentir pena, mas não disfarçou o riso quando viu a cara de choro de Victor. “Vamos, você sobrevive… Soube que na mesa da coletiva tem chocolates à vontade.”
“É você quem gosta de chocolates, não eu” resmungou, apoiando pesadamente a cabeça no ombro de Georgi. “Você é um péssimo amigo.”
“E você uma péssima estrela, querendo desapontar seus fãs desse jeito.”
“Não sou eu quem tenho fãs, é o meu pai.”
Leves batidas na porta do camarim interromperam as reclamações de Victor, como se pedissem gentilmente licença para entrar. Reconhecendo na sutileza os trejeitos da mãe, Georgi deixou os pertences e Victor de lado para abrir a porta. Sorrindo e brilhando na porta daquele camarim, mais do que a medalha de ouro conseguia reluzir, Margosha abraçou o filho, entrando logo em seguida para não chamar muito atenção do lado de fora. Atrás dela, Yulia entrou trazendo Yuri no colo, equilibrando-o enquanto tentava abraçar e cumprimentar Gora por seu bom desempenho, uma bagunça que por pouco não passava da porta de entrada. O bebê, fascinado com aquela sala tão diferente com seus espelhos cercados de lâmpadas, mantinha os olhos verdes estalados, observando todos os detalhes esquisitos, incluindo aquele garoto de cabelo comprido que não era Georgi. Percebendo ser maior foco do interesse desconfiado daquela criança loirinha, Victor sorriu e acenou.
“Vitya, eu ainda não tinha te apresentado a Yulia, não é?” a jovem professora de balé deu um sorriso torto quando reconheceu na cor dos cabelos de Oleg, sua cria e principal herdeiro dos patins dourados da fama. “Essa é Yulia Plisetskaya e o filho dela, Yuri. Yulenka, esse é meu amigo e colega de rinque, Victor Nikiforov!”
“É um prazer conhecê-la!” Simpático como estava aprendendo a ser, dado o número cada vez mais crescente de fãs, Victor caminhou até ela, oferecendo a mão durante todo o trajeto. Desconfortável, imaginando que a qualquer momento Oleg pudesse aparecer e flagrar a confraternização forçada, Yulia aceitou o cumprimento e sorriu o melhor que podia. “Gosha sempre fala muito de todos vocês!”
“É um prazer conhecê-lo, também” disse, sem de fato querer fazê-lo. O problema não estava no garoto, mas no patriarca rondando aquele lugar. Estava pronta para sair correndo, qualquer que fosse a situação “Sua apresentação foi linda, Victor, chorei desde sua entrada até o lançamento de notas.”
“De fato.” No canto do camarim, Margosha, que já estava reunindo os pertences de Georgi, ansiosa por deixar o ginásio e não ter o perigo de esbarrar em Oleg, sorriu. Pequeno, mas ainda assim, um sorriso. “Sua interpretação de ágape foi tocante, como eu nunca antes tinha visto.”
“E olha que a Margosha aqui já assistiu infinitas performances de ágape!”
“Isso é verdade” recordou, bem humorada. “Meu pai tinha pelo menos um aluno interpretando essa composição por temporada.” Rindo para cada palavra dita por Margosha, Victor não desviava a atenção. “Você mereceu em muito o primeiro lugar.”
O elogio sincero de Popovevna importou para Victor mais do que a primeira colocação e a medalha de ouro teria valido. Com o sorriso largo, ele engasgou palavras rebuscadas de agradecimento que pudesse falar para aquela doce e cativante mulher, percebendo no fim das contas, observando o carinho simples trocado entre ela e o filho, não precisar de muito para impressioná-la. Ela não era como seu pai — e isso era um elogio, o maior deles.
“Muito obrigado!”
A dor e necessidade naquele agradecimento, na voz quase quebrada daquele garoto que ansiava tão desesperadamente por aceitação, desarmou Margosha mais uma vez. Era tão difícil, tão difícil… Se ao menos ele não fosse filho de quem era…
A solenidade do momento não durou muito tempo. Embora pequeno demais para entender totalmente o mundo ao redor, Yuri tinha compreendido uma coisa no dia anterior: sua mãe jogava bolas de neve muito bem, mas elas só podiam acertar o tal Nikiforov. Se aquele garoto era um, bom, azar o dele. Plisetsky apenas seguiria os conselhos maternos e contribuiria para a punição do homem mau que era aquele sorridente garoto de cabelos compridos, fazendo o que sabia de melhor;
“Yuri, solte o cabelo dele agora!!”
O menino não entendeu a razão da controvérsia de Yulia e continuou puxando os fios prateados mesmo assim, ajudando a desmanchar o cabelo preso com puxões firmes e cada vez mais irritados por não estar vendo o penteado desfazer-se tão rápido quanto queria. Foram necessários muitos pedidos implorando o término daquela pequena agressão e mãos extras para segurar a de Yuri para, finalmente, libertarem Victor da tortura infantil que era ter de lidar com a agressividade de Plisetsky. Ele se lembraria de nunca mais se aproximar de uma criança, nunca! Muito menos daquela!
“Me desculpe, Victor!” pediu Yulia, completamente envergonhada. Ver os dedinhos do filho fechados em volta de um chumaço prateado que ele teria arrancado piorou o rubor em seu rosto e ela desejou poder desaparecer. No rostinho redondo, um sorriso assustadoramente vitorioso para um bebê, comemorava o grande feito. Yuri esperava ter mais oportunidades para punir todos os Nikiforov ruins, como tinha testemunhado a mãe fazer.
“Não tem problema… Ai...” Victor riu, com metade do cabelo desfeito e lágrimas na beira dos olhos. “Seu filho é uma gracinha…”
“Sinto muito, de verdade...”
Yuri, erguendo o chumaço de cabelo acima da cabeça, como se fosse sua chupeta ou um grande troféu, não sentia o mesmo.
Quem resolveu interromper mais uma vez a conversa no camarim, não teve o cuidado de Margosha em bater. Girando a maçaneta e forçando sua presença sem se dar o trabalho de pedir permissão, o marcante cheiro de álcool entrou antes de Oleg, com uma cara de poucos amigos que logo se desfez quando percebeu estar na presença de mais pessoas, um tipo de dispositivo automático desenvolvido ao longo dos anos, acionado quando precisava fazer caras e bocas e agradar a multidão. Programado como a máquina sem sentimentos que Victor sempre pensou o pai ser.
“Boa tarde” foi o cumprimento geral, acompanhado de um sorriso. Margosha e Yulia recusaram-se a responder e Yuri, corajoso o bastante no colo da mãe, esticou o cabelo recém-arrancado de Victor como forma de cumprimento.
“Boa tarde, senhor Nikforov!” sorriu Georgi, ajeitando a postura e alisando o casaco escuro.
“Oi, pai…” o cumprimento de Victor foi bem menos intenso e satisfeito, mesmo mantendo o sorriso, em respeito aos demais presentes.
“Grande apresentação hoje, a de vocês dois.” Victor sustentou o sorriso falso, enquanto o de Georgi dobrou de tamanho. “Seu filho tem se mostrado um patinador cada vez melhor, senhorita Popovevna.”
Cada vez melhor. E Georgi pensando que Oleg talvez não estivesse satisfeito com seu desempenho… Depois daquele elogio, ele sequer dormiria de noite!
“Sei disso.” Orgulhosa, Margosha não dava espaço para dúvidas. “Victor também fez uma apresentação maravilhosa.”
Com aquela declaração, era Victor quem não dormiria.
“Ele tem a quem puxar” riu, sem usar de falsa modéstia para disfarçar a humildade que não tinha. “Lamento ser o estraga prazeres, mas, Victor, está quase na hora da coletiva e os fotógrafos querem uma foto nossa.”
Àquela altura, Vitya não aguentou e bufou alto. Sequer teve tempo de ser cercado por câmeras fotográficas e flashs incômodos e já estava cansado. Há algum tempo os mimos da mídia havia deixado de ser algo engraçado para ser aquele martírio, especialmente agora que ele entendia melhor o motivo de tanta adulação. Não tinha mesmo um jeito de fugir daquilo tudo e sair escondido embaixo do casaco de Popovevna? Ele até aceitaria mais puxões de cabelo de Yuri se pudesse sair correndo daquele lugar.
“É bom se acostumar, Vitya, será uma vida inteira assim.” Oleg não via problema algum com os paparicos e paparazzi. Lançando um olhar superficial para a resistência de Margosha, a careta de Yulia e exibição vitoriosa de Yura com o cabelo arrancado, ele se despediu. “Uma boa tarde para vocês. E Georgi,” sobressaltado em ter seu nome chamado separadamente da despedida coletiva, o garoto esperou, atento. “continue assim. Você vai longe.”
A piscadela cúmplice fraquejou o controle de Popovich e ele se viu rindo vergonhosamente, acenando animado na tentativa de conter as mãos trêmulas. Ele sabia, Oleg estava o sustentando e pagando por seu treinamento há anos, mas aquele momento parecia ser, finalmente, a hora que ele estava esperando, a de ser notado por seu ídolo, reconhecido por seu trabalho! E se Nikiforov, o homem em quem se espelhava para crescer como patinador e pessoa, estava com os olhos fixos em si, ele mais do que deveria aproveitar a chance:
“Eu prometo, senhor Nikiforov” garantiu, com toda coragem que possuía. “na próxima, o senhor me verá no pódio.”
Oleg sorriu e Victor também. A diferença estava na sinceridade que as lentes rosadas de sua admiração não o deixavam ver.
“Estou contando com isso.”
“Até mais tarde, Gosha!” acenou Victor, despedindo-se.
“Até amanhã” riu Popovich. Avoado, o outro garoto já havia se esquecido que o amigo ficaria na casa da mãe algumas horas a mais antes de voltar a São Petersburgo. Relembrando disso, Victor refez a careta, desaparecendo porta afora. Ele agora teria uma horda inteira de jornalistas para enfrentar.
A partida dos dois Nikiforov deu um suspiro de alívio no camarim fechado, e olhares trocados entre Margosha e Yulia celebraram em silêncio aquela conquista. Agora tudo o que elas precisariam fazer seria voltar ao apartamento e aproveitar aquele restante de paz, comemorando unicamente entre amigos uma festa que teria como única estrela e merecido protagonista, Georgi.
Recolhendo os últimos apetrechos e cuidando para que tudo fosse deixado organizado assim como receberam, eles trancaram o camarim e devolveram as chaves aos responsáveis locais. Deixando para trás o burburinho que ainda se podia ouvir da sala da coletiva de imprensa, o grupo ainda passou em frente aos televisores ligados, transmitindo ao vivo a entrevista que muitos não conseguiram espaço no salão de imprensa para ver.
Popovevna não iria olhar, ela estava jurando pela medalha sagrada que levava no pescoço, mas havia algo chamando sua atenção para a coletiva, um detalhe que, sendo ela conhecedora do significado e importância, tornou-o muito maior e escandalosamente visível. Oh céus, se Lilia pudesse ver...
“Mãe?” Georgi a chamou, assim que notou ao lado de Yulia, que ela havia parado de andar.
“Yasha… No dedo dele…” comentou em um sussurro, achando que se não falasse muito alto, ninguém notaria.
“Oh não…” balbuciou em resposta, não crendo em seus olhos. “Ele esqueceu de tirar…”
“Você só pode estar brincando!” Plisetskaya, bem mais expansiva, gargalhou alto, uma risada que ecoou pelos corredores e provavelmente interferiu no registro limpo da gravação.
Ao lado de um Victor muito entediado — e até mesmo um pouco triste — com seus chocolates desembalados, Yakov falava cheio de felicidade e orgulho sobre o trabalho de seus patinadores, gesticulando alto e fazendo visível para quem quisesse gravar, a aliança dourada reluzindo em seu anelar direito.
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O céu abriu-se para Georgi como um enorme e resplandecente sorriso, assim como Oleg o tinha sorrido no dia anterior. Timidamente escondido pelo clima gélido, o Sol iluminou de prata a manhã da capital russa e continuou assim por quase todo o dia de viagem. O trem, sem encontrar empecilhos climáticos, seguiu caminho sem grandes interrupções além do embarque e desembarque dos poucos viajantes, tornando a viagem uma das mais tranquilas já feitas por Georgi. Margosha ficaria aliviada em saber disso quando o filho ligasse para avisar ter chegado bem em são Petersburgo. Victor, inclusive, o invejaria quando contasse ter tido todo um vagão de platskart só para si.
Encolhido em seu assento, ele abraçava as próprias pernas e com o rosto apoiado nos joelhos dobrados, assistia a paisagem mudar de cidade em cidade, revezando construções modernas com as datchas de madeira dando graça ao monótono cinzento que ocupava até a vegetação local naquela época do ano. Enfeitadas por clássicos nalítchniki, Georgi pegava-se pensando se sua mãe conseguiria fazer um bordado que remontasse com fidelidade os adornos esculpidos em madeira. Melhor ainda se ela o ensinasse a fazer.
Contente e ainda sem poder acreditar nas incríveis emoções passadas nos últimos dois dias, o garoto riu, escondendo o rosto entre os joelhos com a vergonha de poder ser pego tendo aquele devaneio divertido, embora estivesse sozinho. Mas o que Georgi poderia fazer se o elogio de Oleg não abandonava sua cabeça desde então?
Junto ao medalhista, Yakov já tinha deixado a capital no começo da noite anterior, apressado com o começo da semana útil e os trabalhos que havia deixado para trás. Ele não teve muito tempo para celebrar os desempenhos de Georgi e Victor e, se Popovich bem conhecia o técnico, sabia que ele gastaria todo o tempo da viagem antecipando trabalho. Yakov Feltsman, tirando um tempo para descansar? Baba Yaga seria real quando isso acontecesse.
Por mais longe que tentasse fazer a própria imaginação voar, ele não havia parado de sorrir e isso desde que voltou ao apartamento de Margosha, acompanhado de Yulia e seu filho, falando sobre a breve troca de palavras com Oleg como se tivesse sido o mais maravilhoso dos sonhos. Em uma recapitulação de sua infância, Georgi ainda encontrou a antiga fita cassete com os programas do ex-campeão e tentou forçar Yuri a assistir às imagens pioradas pelo passar dos anos e não uso do aparelho, que para ele continuavam com o mesmo brilho e nitidez de seus quatro anos. Plisetsky, provavelmente tomado pelo sentimento coletivo de desgosto a Nikiforov, não suportou sequer os primeiros acordes, abraçando sua pelúcia e indo sentar-se aos pés da mãe.
Relembrar aquela cena era como espiar o passado, com a diferença de que agora Oleg era mais possível, alcançável.
O sorriso de Georgi se abriu, de fazer inveja ao céu do lado de fora. A respiração agitada e os risos que escapavam por entre dentes condensavam no ar frio do vagão e denunciavam sua animação. Ele não poderia estar mais feliz! Oleg havia dito que ele iria longe! Que está contando com Georgi no pódio! Sabia que ele e Victor não se davam muito bem, mas isso talvez fosse porque Vitya tivesse a mãe como um modelo; mesmo com a agenda cheia em razão dos shows, Georgi pensava se ele não seria para seu ídolo, uma exceção, uma pessoa para colocar suas expectativas além de Victor! Sua esperança era tão grande e intensa, tão real que ele quase podia vê-lo tomada por uma forma densa o bastante para poder pegá-la com as duas mãos; e se Oleg o treinasse? Ou composse uma coreografia para Georgi?! Estaria pensando longe demais? Ora, mas o próprio Nikiforov havia dito que ele iria para longe!
Tão longe sua mente voou, que Georgi não percebeu o longínquo trajeto para São Petersburgo passar, oito horas que transformaram o passar do tempo do dia para noite, desgastando seu corpo, mas não sua cabeça, agitada e ansiosa por mais. Pegando as bagagens, fez o caminho até o rinque, não muito longe da estação, enfrentando o inverno com sorriso e peito abertos, um tipo simpático de coragem e determinação naquele fim de janeiro. Eles sempre se empolgavam e ficavam até mais tarde treinando, de modo que, se Yakov não reclamasse, ele entraria com toda sua mala e arsenal de apresentação no gelo, pronto para aprender uma nova rotina! Georgi poderia conseguir isso, depois do que Oleg o tinha dito, ele sentia poder chegar ao pódio com as mãos e lâminas atadas nas costas.
Como era de se esperar, as luzes do centro de treinamento estavam acesas e ele já conseguia ouvir os gritos de Yakov e as quedas de Victor no gelo, sempre em busca de mais um spin, mais um salchow, mais um Biellmann, mais um salto, mais, mais, mais… Hoje, o filho de Nikiforov não seria o único buscando por mais; o sorriso de Georgi para o interior climatizado da sala de recepção já deixava isso bem claro.
As poucas pessoas circulando por ali, tão frias quanto o clima local, receberam o bom humor contido de Georgi com seus rostos impassíveis habituais. Alguns iam para o mesmo lugar específico, o ginásio poliesportivo, outros vinham daquela direção com copos coloridos em mãos e pedaços de algo comestível embrulhado em guardanapo de papel. Alguma confraternização entre os jogadores de basquete? Bom, não importava, ele estava indo para o rinque principal, que ficava do lado oposto.
Foi uma surpresa chegar ao local do rinque e perceber as portas fechadas, quando costumavam estar sempre abertas em subentendido convite para novos patinadores. Um pouco confuso pela nada usual agenda local, Georgi ainda espiou pelas aberturas da porta o interior escuro e abandonado, e forçou as travas de segurança, abrindo as portas para o vazio mergulhado em breu, confirmando de uma vez que o rinque de patinação não estava em funcionamento naquela noite. Mas que estranho! Por que não havia nenhum aviso na recepção? Por outro lado, a animação inicial havia dissipado o bastante para ele sentir o cansaço se apoderando de seus braços e pernas, tornando o levar para lá e para cá do peso extra de suas malas um inconveniente cada vez maior. Pensando com mais clareza, sem treinos extras, Yakov deveria estar arrancando o resto dos cabelos com sua falta de notícia e se Margosha já tinha ligado para saber da chegada do filho, estaria igualmente desesperada. Era melhor pegar um táxi e ir direto para casa, antes que um boletim de ocorrência por seu desaparecimento fosse aberto, um em São Petersburgo e outro em Moscou.
O resquício de força em seus braços e pernas findou de uma só vez com a visão de Oleg Nikiforov seguindo caminho logo a frente, um copo meio vazio na mão e uma careta tensa no rosto, atravessando um corredor cortando para o ginásio poliesportivo. Um tanto confuso com tantas situações fora do comum vindo à tona de uma só vez, Georgi tentou entender porque logo Oleg, que havia interrompido um fim de semana de apresentações e providenciado um voo particular unicamente para acompanhar a final de patinação júnior, estava ali, continuando a fazer furos em sua agenda abarrotada… Não tinha nenhum treino, o rinque estava fechado e Victor não estava ali…
… Estava?
As malas agora eram arrastadas e os passos hesitantes. Algo dentro de si estava temendo o que encontraria, alguma surpresa não requisitada, o desvendar de algo ruim… Mas por que tanto medo ao redor de Nikiforov se esse mesmo nome foi um dos principais motivos de sua alegria durante toda a viagem, toda uma vida? Georgi não conseguia entender; devia ser uma daquelas coisas que Yakov lhe dizia, sobre ele sentir. Ele queria muito estar sentindo errado naquele momento.
A entrada para a quadra estava fechada, mas era possível ouvir música clássica tocando por trás da porta dupla, um som quase ambiente, levemente mais baixo que o burburinho identificado como conversa, mas alto o suficiente para Georgi saber se tratar de Danúbio Azul.
As malas ficaram para trás quando ele abriu uma brecha da porta metálica e espiou a confraternização lá dentro. Duas mesas longas dispostas de comida e álcool, uma estante exibindo belos e polidos troféus e um amontoado de caixas com embrulho intocado, tudo o que podia levantar as suspeitas de ser aquilo uma festa. Bem, o cartaz escrito em alfabeto romano um grande e dourado “HAPPY BIRTHDAY VICTOR” jogou por terra — ou neve — sua desconfiança, transformando ela em certeza; estavam comemorando o aniversário de Victor. Em janeiro.
E Georgi não havia sido convidado.
Sua entrada não foi notada a princípio, mas por que o notariam se era Victor a estrela, a luz daquela festa e daquele esporte, tanto brilho que sobrepunha a Georgi a sombra que ele sempre conheceu como sendo de seu único e exclusivo domínio? As pessoas só olhavam para ele quando Victor não estava por perto e, sendo o filho da saudosa e encantadora Narkissa o protagonista da noite, a presença não requisitada de Georgi foi igualmente ignorada.
Poucos flashs atravessavam a quadra, tão arrumada que mais assemelhava-se a um salão, registros dos convidados, da comida servida e da coleção de prêmios dourados com o nome do jovem Nikiforov ocupando todos eles, ao lado do número que representava a posição que ocupava desde seu nascimento: 1. E ele merecia, de fato, Georgi nunca foi o tipo egoísta de pessoa que fazia da vitória alheia motivo de sua amargura; o que de fato estava intragável naquilo tudo era a aparente recusa de sua presença, como se não estivesse à altura de ocupar espaço entre tantos desconhecidos, mesmo sendo ele quem mais conhecia Victor.
As palmas começaram de repente, quando Georgi ainda não havia se dado conta totalmente da decoração, dourada como todos os pódios de Vitya, embalando de forma sincronizada o cantarolar que parabenizava o principal e único herdeiro Nikiforov pelos catorze anos de vida feitos em dezembro. Infinitas felicidades naquela data não tão querida assim, já que era também aniversário de falecimento de Narkissa Nikiforova, mas anos de vida extras para que a imprensa continuasse a ter pauta em suas revistas esportivas, como havia sido com seus pais, logicamente.
A mídia sempre soube escolher seus favoritos, Georgi aprendeu a ver conforme crescia. Não só ele, como qualquer outra pessoa, leiga a respeito da venda de imagem, saberia bem — as capas de revistas estavam lá, aliás, todas elas, com fotos repetidas e textos previsíveis como provas, para quem quisesse ver.
Todos queriam ver Victor.
Ninguém queria ver Georgi.
Desapontado com a verdade golpeando duramente suas ilusões, Georgi olhou para a saída, imaginando-se longe dali, tão longe quanto Nikiforov disse que ele iria, tão longe que sua mãe não poderia alcançá-lo. É claro que eles escolheriam o filho da própria lenda, não um garoto sem berço. Victor é quem passaria o nome do pai para a frente, ele quem continuaria com o legado…
Ah, o legado. A coroa formado por louros, o trono de prêmios e um reinado de gelo. É claro que o sucessor seria Victor, quem Popovich tentou enganar todos aqueles anos? Se Georgi estava ali, não era para competir pelo posto do príncipe herdeiro; ele não fazia parte do reinado Nikiforov. Ele não era como Victor. Ele não era filho de Oleg.
“Gosha!” Victor, por trás da mesa recheada de guloseimas onde esteve todo aquele tempo, faiscou de alegria. Os braços, erguidos e agitados pela alegria em ter o amigo por perto para fazer companhia, foi encarado como um abraço acolhedor pelos presentes e logo seus rostos mudaram de direção e os flashs somaram ao brilho de Victor, clicados exaustivamente.
Yakov, posicionado propositalmente no fundo da quadra, notou tarde demais a presença de Georgi. Ao se dar conta, não era só ele quem olhava para o garoto; diante da expressão consternada do adolescente, as conversas paralelas dissiparam momentaneamente, fazendo as lamúrias de Georgi ganharem atenção. Antes que pudesse intervir, o garoto estava com todos os olhos fixos em si, rostos impassíveis com sua presença, outros escondendo sorrisos amarelos dentro de seus copos cheios, enquanto os mais descarados riam sem nenhuma vergonha.
Sem se importar com padrões de comportamento ou o inferno que deveria fazer naquela festa que pegara não somente Victor, como também ele de surpresa, Yakov empurrou meia dúzia de pessoas vestidas da mesma forma e correu até Georgi. Seria melhor tirá-lo dali, levá-lo ao apartamento, afastá-lo daquela exposição nada saudável para sua pouca idade, rápido antes que aquela decepção fosse irrecuperável.
Como em um balé dramático, todavia, já era tarde demais.
Uma lágrima escorreu dos olhos azuis e por pouco Yakov não se pôs a chorar também. Secando-a com uma das mãos, ele respirou fundo e conteve dentro de si a fraqueza emocional que não cabia naquele momento e talvez nunca coubesse em nenhum outro. Que mundo injusto o de Georgi Popovich.
“Por que eu não fui convidado?” perguntou ele, mudo para os demais, sendo ouvido unicamente por Feltsman.
“Foi uma surpresa para nós, também.” O técnico tentou explicar, mas como convencê-lo se o ginásio estava cheio e todos os prêmios exibidos com polimento recém-feito? Parecia de propósito, uma exclusão proposital disfarçada em esquecimento, um pedaço melancólico de um conto de fadas que ninguém se atentava, quase como se ele fosse… “Georgi!”
Se Popovevna pudesse estar ali para testemunhar aquela triste cena, estaria tão machucada quanto Yakov, assistindo Georgi fugir pela porta e deixar para trás a ingenuidade quebrada de seu coração, frágil como cristal.
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Victor estava grande o suficiente para lidar sozinho com meia dúzia de repórteres e possíveis patrocinadores, de modo que Oleg o deixou para ajudar Yakov na procura de Georgi. Ou, como Feltsman — não — gostava de pensar, Nikiforov deixou o filho sozinho no meio de um bando de desconhecidos, livre para o ataque de empresários enlouquecidos para estamparem até a testa do garoto com suas marcas, em uma festa que não havia sido requisitada. Pai do ano.
A vontade de Yakov era a de pegar o rosto de Oleg e afundá-lo aos socos, como na última vez em que quase teve a oportunidade de fazer isso com seus punhos, há tantos anos. Se não tivessem o segurado, Yakov teria se assegurado de tornar a imagem do patinador apenas uma memória — uma memória deformada de pancadas.
Depender do dinheiro de Nikiforov era um golpe em sua dignidade, mais doloroso que seus socos. Era um exercícios constante, quase diário, o de pensar ser aquele dinheiro imundo nada mais que o pagamento merecido por treinar os dois adolescentes, sua presença como pai e apoio como padrinho convertido em rublos, cabendo a Feltsman tornar aquele dinheiro, algo digno daqueles meninos. Victor e Georgi precisavam de uma família, não ligações esporádicas e as mentiras que Yakov contava, não para livrar Oleg, mas para acalentar o coração carente das crianças que via como suas.
As mãos de Yakov estavam fechadas, no que poderia ser confundido com a tentativa de manter os dedos aquecidos no exterior gelado. Se não encontrassem Georgi logo, ele as usaria como arma e se vingaria pela noite de hoje e todas as outras que somavam mais de uma década de revolta, nem que para isso precisasse ocultar o corpo de Oleg embaixo de todo aquele gelo, depois. Com toda aquela neve caindo de forma espessa, não teria dificuldades para isso.
Contudo, tanta neve não facilitava na procura e se Georgi de fato tivesse deixado o centro de treinamento e fugido sem rumo, o gelo já teria encoberto suas pegadas e ocultado sua fuga. Se Yakov tivesse sido mais rápido, se não tivessem tantas pessoas no caminho… Margosha já devia estar preocupada, ligando para saber do filho e não conseguindo falar com ninguém. Como explicaria para a filha ter deixado o garoto sumir dessa forma?
Yakov sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo, e a reação não se deu pela temperatura abaixo de zero. Apavorado com a ideia de Popovich ter mesmo desaparecido, ele chacoalhou a cabeça e avançou passos largos para longe de Oleg. Ele encontraria Georgi, sim, o daria uma bronca por ter fugido daquela forma e depois o abraçaria e tentaria pedir desculpas por mais aquela falha em sua criação. Não bastasse ter falhado com a filha, Yakov agora o fazia com o neto e também com Victor, tinha de admitir.
“Yakov, vamos voltar para o centro, não podemos mais ficar aqui!” Ao ouvir a voz de Oleg tentando sobressair ao forte assovio do vento, a vontade de socá-lo voltou com mais intensidade. “Vamos, eu tenho meus contatos!” Ignorando-o, ele continuou andando. “Yakov!”
“Não vou voltar sem o Georgi!”
“Não vai achar ninguém nesse breu branco!” Nikiforov estava certo e Feltsman odiava reconhecer isso. “Nem mesmo um adulto teria ido longe, se ele saiu mesmo nesse tempo, precisamos pedir ajuda!”
Contrariado, porém de acordo, Yakov assentiu com os argumentos de seu ex-aluno e o seguiu de volta ao centro de patinação. Lá dentro, Oleg bateu a neve dos cabelos claros e marchou até o ginásio poliesportivo, onde os pertences de Georgi ainda estavam, intocados, ao lado da porta. No local da festa, Nikiforov pegou duas doses de vodka e exigiu para um funcionário local, regalias que seu nome justificava. Victor, exibindo o sorriso em formato de coração para pessoas que não paravam de falar de seus produtos, lançou um olhar de desespero para Yakov, um pedido de socorro que também transmitia preocupação pela ausência de Georgi. Oh céus, se uma daquela crianças não pôde ser ajudada, ao menos aquela Yakov queria poder intervir…
“Vamos.” Mas o chamado de Oleg, acompanhado de tapas nada amigáveis em seu ombro, pesado por responsabilidades mil, o impediu de ser útil mais uma vez. Victor continuaria tendo de lidar com os abutres oportunistas por mais tempo.
Em posse de uma chave mestra, eles fizeram o caminho contrário, em direção ao inutilizado rinque de patinação principal. Usar o telefone da recepção poderia chamar uma atenção que eles não queriam no momento, sendo preferível manter os ouvidos intrometidos longe e usar a linha independente que ficava na sala de áudio e iluminação da pista.
Nada, além de seus passos pelo corredor, podia ser ouvido e, contrário ao que se podia esperar do silêncio total, a falta de palavras dizia muito sobre ambos; não existia conversa entre Oleg e Yakov que não fosse uma briga e na ausência dela, apenas o silêncio sufocando a vontade que um tinha de ver o outro longe.
Evitando acender a luz de todo o ginásio e com isso atrair uma atenção indesejada, Feltsman ligou apenas as luzes de emergência, iluminando com a fraca luz fria, o curto trajeto à sala. Não era muito pequena, mas com o amontoado de entulhos entre a mesa coberta de botões e a porta, tornava quase impossível a presença de duas pessoas no mesmo ambiente. Era bom que conseguissem fazer logo aquela ligação, ou Yakov não iria suportar — e dessa vez ela não estava pensando no tamanho da sala.
Bufando em reflexo ao estresse que estava passando, Oleg tirou as luvas de couro e as jogou sobre a mesa não limpa há semanas, por pura negligência do pessoal designado para aquele serviço, discando um número seu conhecido algumas vezes, até finalmente se dar conta de que aquela ligação não iria longe;
“Sem linha!” Esbravejou irritado, não crendo naquela falta de sorte. “Era só o que me faltava!”
Irado, ele bateu com o fone na base diversas vezes, até pequenas rachaduras serem notadas e ele precisar parar, antes de despedaçar o aparelho. Tanto nervosismo, tremores que chegavam a afetar inclusive sua respiração, que foi preciso, mesmo que a força, recolocar sua mente no lugar, ou nada daquilo os levaria a lugar nenhum.
Sem reagir, independente se a razão era o nervosismo que Yakov sempre soube esconder — exceto em razões extremas —, o técnico não tirava os olhos de Oleg, parecendo tentar enxergar além de sua presença. Ainda em posse do fone mudo, ele não ousou nenhum outro gesto sem antes ouvir o que Yakov tinha a falar; e era bom que o fizesse logo.
“Para quem me dizia para deixar Georgi nas sombras, até que está se esforçando.” As sobrancelhas finas de Nikiforov franziram-se em dúvida, achava que era óbvio o que ele, o que ambos, estavam fazendo. “Se eu fosse estúpido, talvez acreditasse em toda essa preocupação com Georgi, mas como não é o caso...”
Não tão calmamente assim, mas atuando muito bem, ele se desfez do fone, o devolvendo ao gancho danificado. Aquela manipulação de sentimentos e o cinismo em seus trejeitos estavam terminando de ebulir o sangue pulsando nas veias de Yakov. Ele só precisava de um pretexto para avançar no pescoço de Oleg.
“Mas é claro que não se preocupa, com nenhum dos dois você se importa, senão tentaria falar com a polícia, não com algum contato onde sabe lá você achou…” A irritação de Feltsman o fazia tremer. “Não pode deixar que os tablóides saibam do desaparecimento de seu afilhado ou o quê? O que você realmente quer, Oleg?”
“Esteve até agora comigo buscando por esse menino, ou por acaso já se esqueceu?” ironizou com ares de deboche. “Pelo visto a idade chega para todos, não é, Yasha?”
As mãos de Yakov voaram em direção a Oleg e seus dedos fecharam-se na gola do casaco. Irado, ele chacoalhou seu ex-aluno enquanto grunhia parte da raiva que gostaria de traduzir em palavras e, considerando o rancor trazido no peito, algumas agressões, também.
“Vai me bater como fez antes da final de 87?” Como sempre fora, o deboche de Oleg se sobrepôs ao receio de ser agredido e o aparente desprezo pela situação fez Yakov o largar em um empurrão e levar as mãos trêmulas aos cabelos ralos.
Recomposto tanto quanto possível do que quase se tornou uma briga, Nikiforov ajeitou a gola e alisou a lapela, empurrando Feltsman para o lado e deixando a pequena sala sem ser seguido. Parado no meio do caminho para a saída do rinque, onde a luz parcial tornava a situação mais melancólica do que deveria, ele voltou-se para trás, observando sem muita paciência Yakov se recuperar do surto repentino de raiva.
“Ora, vamos, Yakov, não temos a noite toda!” explodiu, levando ambas mãos aos cabelos e puxando-os para trás. “Você era o mais preocupado com o sumiço desse garoto, então pare de enrolar e venha logo!”
Cambaleando, Feltsman deu alguns passos incertos à saída da sala, permanecendo na porta de acesso, recostado no batente. Era tanto a se falar, cobranças a fazer, um débito de anos, que ele não podia mais suportar.
“Meça sua língua para falar comigo!” Mostrando saber gritar mais alto que o ex-aluno, ele exclamou e sua voz reverberou por todo o ginásio, uma imposição aprendida quando ainda competia, executada no começo de carreira como técnico e aprimorada observando Lilia. “Para o inferno se as pessoas continuam lambendo o chão onde pisa com seu sapato caro, você ainda é um bosta para mim!”
“Um bosta que te deu muito dinheiro!”
“Para você ver como qualquer patinador de merda pode fazer fortuna!”
Calados pelas palavras que acertaram a ambos, um breve silêncio se instaurou antes de Oleg assumir novamente o tom da discussão.
“Adoraria ficar aqui trocando farpas com você pelo resto de nossas vidas, mas se algo acontecer com esse menino e isso vier a público, eu juro, Yakov, usarei tudo o que estiver a meu alcance para que essa culpa recaia apenas sobre o seu nome, você não terá um único dia de paz pelo resto da sua vida.”
“É uma bela ameaça, uma pena não ter considerado que eu não tenho paz desde que o seu nome apareceu no meu caminho!”
Notando a relutância do mais velho, Oleg desistiu, seria inútil. Ele cuidaria daquilo sozinho, pagaria uma equipe de busca particular, se necessário, só não poderia mais perder tempo ali dentro, considerando que cada minuto perdido ali, poderia ser um perigo para Georgi e sua própria magem.
“Você está apenas preocupado com o que as pessoas dirão de você, caso alguma tragédia aconteça, não é?” Nikiforov não conseguiu dar dois passos em direção a porta quando Yakov o interrompeu com aquelas palavras. A voz dele estava embargada, embora não tivesse ingerido uma gota de álcool naquela noite, denunciando que palavras tristes seguiriam-se dali para frente. Conhecendo bem o ex-técnico, Oleg revirou os olhos — ele não estava bêbado o suficiente para isso. “Não, claro que não… Você não liga para ninguém além de si mesmo.”
“E você não está preocupado com o que sua doce e sensível Margosha dirá quando seu querido pai contar que perdeu o filho dela?”
A coloração vermelha voltou ao rosto consternado de Yakov e sua feição transformou-se para a de raiva novamente.
“Não diga o nome da minha filha! Você não tem esse direito!”
“E você tem algum para me cobrar ter sentimentos pelo garoto ou qualquer coisa do tipo?! Como ousa encher a boca para falar de mim, se você a abandonou, a deixou desamparada com um filho nos braços, praticamente a chutando para fora de São Petersburgo?!”
“Não haja como se sentisse muito por isso, Oleg! Não seria você quem daria um teto para Margosha viver!” Diante a verdade, ele não tinha mais o que dizer. “E agora age como se sua preocupação fosse mesmo a segurança de Georgi! Resolveu brincar de ser pai, de repente, quando nem mesmo com Victor você faz isso?! Tarde demais, Oleg! Está catorze anos atrasado!”
Não tendo como rebater ou negar a acusação, Nikiforov se calou. Permanecer calado era a melhor saída para situações que não podia manipular.
“Então fique aí, lamuriando o passado” murmurou, fingindo ser o mais sensato daquela briga. “Enquanto isso, eu irei tentar consertar o presente.”
“Do que você tem medo, Oleg?” Yakov estava cansado e isso era notável na voz entrecortada. “Não está cansado de tentar ser eterno? Você não será o herói dessa nação para sempre.” A feição fechada de Oleg mostrava que ele não gostava nenhum pouco daquela perspectiva. “Deixar Georgi nas sombras, não acostumar Victor com elogios… Na frente das câmeras você fala uma coisa, mas longe delas, não é assim tão precioso ter o filho legítimo passando seu nome adiante e o bastardo que você negou, projetando no gelo uma interpretação que você jamais foi capaz de fazer.”
Daquela verdade amarga, Oleg se recusava a tomar.
“Já terminou de resmungar como o velho que você é?”
“Olhe-se no espelho, Oleg… Quando as pessoas citam o nome Nikiforov, não é mais sobre você que eles falam.” Se aquelas palavras fossem fatais, teriam matado Oleg naquele instante. “E, veja só que ironia, a criança que você quis jogar no esquecimento, jogou sua marca nas sombras ao mostrar-se uma das promessas da nossa patinação.” Lembrar de Georgi e a constante busca pela aprimoração de sua expressão artística, fez com que os olhos claros de Yakov ardessem pela vontade de derramar lágrimas. “Ele te admira tanto, Oleg… Te olha com tanto encantamento, pensando ser você uma meta distante, sem fazer ideia de quem realmente é… Enquanto Victor, nem mesmo reconhecido pelo pai teve a oportunidade de ter um.” Feltsman sabia que tudo o que estava dizendo doía mais em si do que em Nikiforov, mas era preciso colocar aquilo para fora, aquela situação indigesta que engolia há anos. “Você não merece nenhum dos filhos que tem, Oleg.”
“Então pegue-os para você.” Cansado do sermão, Nikiforov rebateu com frieza. “Vou tentar fazer a ligação de algum outro lugar e providenciar sozinho a procura dele. Você pelo menos feche a sala antes de sair.”
Deixado no meio breu, Yakov encostou-se em uma das paredes, transferindo para os tijolos todo o peso que não conseguia suportar sozinho. Suspeitava que mesmo aquelas paredes revestidas de cimento e cal não poderiam aguentar o que ele levava nos ombros, um segredo pesado, com sua fundação no desprezo e abandono e tijolos de mentiras com boas intenções, que apenas tornava tudo ainda mais insuportável. Onde estava a paz de Deus, prometida por seu tio-avô? Onde estava a compensação dos humilhados, exaltados após anos de dor? Poderia pedir para Deus que a justiça viesse em forma de punição, matando Oleg e levando para seu túmulo maldito toda a farsa que acabaria por sepultar sua existência repulsiva? Aquilo parecia justo para Yakov.
Enquanto Oleg usava meia dúzia de palavras como fácil moeda de troca, Feltsman deixou o rinque para trás e devolveu a chave ao devido responsável, decidindo por conta própria fazer andando o trajeto até o apartamento onde moravam. Georgi deveria ter ido para lá, para onde mais ele iria com aquele tempo?
Sem dirigirem nenhum cumprimento ou troca de olhares um ao outro, Yakov e Oleg deixaram o centro de treinamento sem perceber que as malas de Popovich não estavam mais lá.
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As forças haviam deixado os braços e pernas de Georgi há muito tempo, ainda que sua vontade de desaparecer fosse enorme. Chorando, e tendo suas lágrimas marcadas pelo vento gelado, ele arrastava as malas pela neve cada vez mais grossa, deixando um rastro irregular pelo caminho torto que seguia. Todo o cansaço, a dor e a decepção resolveram cobrá-lo de uma só vez e Georgi estava quase desistindo de todos os pertences para continuar o caminho sozinho. Deixaria para trás as malas, os figurinos usados na última apresentação, o pacote de caramelos presenteados por Yulia e o pequeno troféu da quarta colocação, celebrando o trabalho duro de uma competição que teria feito sua mãe vibrar por ele e Nikiforov…
Fechando os olhos com força, Georgi gritou sua raiva para o vento e o mesmo fez questão de calar o apelo desesperado, não o deixando ser ouvido por mais ninguém. Sentiu-se fraco, incapaz, uma piada; para ele, restava sofrer pelos cantos, chorar nas sombras, reclamar com o vazio e ser amparado pelo nada? A constatação daquela triste realidade fez doer a tentativa de forçar os soluços para baixo. Ele não queria mais chorar, queria ser capaz de ter voz para enfrentar seus demônios, ser grande e forte como Yakov e fazer seus lamentos serem ouvidos. Mas e quando ouvissem? Para que serviria? Todos o tinham visto na festa e nada de relevante havia acontecido — se duvidasse, sua presença teria sido inclusive questionada naquele lugar e sua expulsão providenciada.
A eles, não importava sua dor ou se padeceria pelo desprezo, a importância estava em celebrar aquele que era tão bom quanto o pai e tão belo quanto a mãe, quase o tesouro nacional, Victor. E ele era sim, tão belo e encantador, que sua presença acabava por ofuscar o rei que era Oleg e a princesa há muito adormecida que era Narkissa, brilhando sozinho o protagonismo conquistado ao manter quase toda a magia apenas para si, como a memorável Fada Lilás de Tchaikovsky, enquanto para Georgi, disponibilizaram como prêmio de consolação o resto, o papel coadjuvante da personagem indesejável que nem deveria estar ali, para estragar a festa, uma Carabosse injustiçada de dor ignorada. Mas quem se importaria? Ninguém parecia se lembrar que Carabosse também era uma fada.
Georgi não parou de arrastar suas malas, nem quando as lágrimas embaçaram sua visão, ou o frio enrijeceu seus dedos ao redor das alças. Ele não parou quando se tornou difícil continuar caminhando, não parou quando sentiu os joelhos vacilarem e mesmo quando caiu em meio à neve pisada, Georgi espalmou as mãos sobre o gelo e ergueu-se para continuar sua caminhada. Ele continuou, tropeçando e caindo, desesperando-se com a distância entre o centro de treinamento e a estação ferroviária percebida ser maior do que havia imaginado. Tudo o que Georgi queria era chegar logo naquele lugar, comprar uma passagem e sumir de São Petersburgo para nunca mais fazer seu nome ser ouvido novamente. Era nas sombras que ele deveria ficar? Pois bem, delas nunca mais sairia.
“Georgi?!” Ouvir seu nome ser chamado aumentou o desespero do garoto em querer continuar com a fuga, e tamanha pressão não o deixou agir conforme desejava, tropeçando e caindo mais uma vez, sem forças para levantar. “Georgi!!”
Abatido pelo desespero e sabotado pelo clima, Yakov também chegou a tropeçar algumas vezes, porém, dado a força e resistência, conseguiu continuar movendo suas pernas no que intencionava ser uma corrida, jogando-se ao lado de Georgi assim que a distância permitiu.
“Georgi, você está bem?! Georgi!” Longe de ser uma exigência, ele implorou, pegando Popovich pelos ombros e o trazendo para perto, tentando se certificar de que ele não estava desacordado. “Georgi, olhe para mim!”
Foi com enorme alívio percebê-lo acordado, seguido de total confusão por ver Georgi forçando-se para longe de seus braços, tentando empurrar Yakov para longe. Aproveitando-se da confusão de Feltsman, ele se arrastou para longe, deixando malas e técnico para trás; sem peso extra, pensava ser capaz de continuar sua fuga sem mais empecilhos, ter sucesso naquela corrida para longe de todos aqueles problemas, chegar o quanto antes em Moscou e jogar-se aos cuidados de Margosha, mergulhando em um sonho onde nada mais existiria além do nada.
“Georgi, pare com isso!” Alcançando-o novamente, Yakov tentou pará-lo, segurá-lo pelos braços e conter sua relutância, mas o garoto continuava a evitar seu contato, empurrá-lo, negar sua aproximação como se o técnico estivesse prestes a transmitir alguma doença. Forçando as mãos em seus ombros mais uma vez, Yakov o segurou com força, o chacoalhando levemente, tentando não piorar sua agitação agressiva e ter enfim a atenção que pudesse lhe dar respostas. “Georgi, o que você está fazendo?!”
“Eu vou embora!” gritou ele, e daquela vez todo o mundo pareceu ouvir. “Eu vou embora de São Petersburgo, eu vou embora até de Moscou, da Rússia!” E vibrando no vocal ferido, Yakov sentiu toda a dor e revolta naquela decisão. “Vou jogar fora meus patins, sairei da patinação, eu nunca mais pisarei em um rinque novamente!”
“O que você está falando, Georgi?!” Igualmente desesperado, Yakov queria entender. “Aquela festa, aquela porcaria de festa, você não precisa dela, não precisa de nenhuma! Mas se quiser, nós te fazemos uma, do jeito que você quiser! Com balões, com doces, colaremos ilustrações nas paredes, ela pode ser temática do jeito que você sonhar!” Chorando e tremendo, Georgi ouvia os planos absurdos de Feltsman em uma segunda-feira de inverno. “Sua mãe pode vir, pode trazer sua amiga Yulia e o filho dela, também! Ou então nós todos levamos a festa até eles, faremos tudo do bom e do melhor, pegaremos tudo do mais caro, Nikiforov pagará por cada papel de bala e lantejoula que você quiser!”
Sem mais argumentos de uma abordagem confusa até mesmo para ele próprio, Yakov parou de falar, observando aquele garoto suspirar e soluçar, sentindo-o tremer na palma de ambas as mãos, encolhendo-se a ponto de parecer sumir a qualquer momento. Com a cabeça tombada para o chão, Georgi observou a teve pisoteada e viu suas lágrimas cristalinas perderem-se no caminho até a neve, sem saber se teria chegado a juntar-se ao monte gelado, ou apenas cristalizado no ar para perder-se no vento. Georgi não sabia daquilo, Georgi não sabia de mais nada. Ele queria que pelo menos alguém soubesse e lhe explicasse, amenizasse a ânsia causada por tanta confusão, lhe mostrasse um caminho, nem que este fosse para longe;
“Georgi…?” Yakov tentou chamá-lo mais uma vez, preocupado com a falta de respostas daquele garoto que sempre o atendeu prontamente. Devagar, porém o mais rápido que conseguia, Georgi ergueu os olhos azuis para o técnico, e Yakov conseguiu enxergar neles uma dor tamanha, que nem mesmo o mais forte dos homens conseguiria suportar.
“Por que ninguém nunca me disse que Oleg Nikiforov é o meu pai?” Yakov não soube o que dizer. Como Georgi…? “Mantenha Georgi nas sombras, não acostume Victor com elogios…” murmurou, segurando-se para não por para fora mais do que aquelas palavras de gosto amargo. Enquanto Yakov e Oleg buscavam pelo garoto do lado de fora, ele mantinha-se escondido no único lugar capaz de oferecer acolhimento em um momento de dor; as sombras do rinque de patinação. “Por que ninguém nunca me contou que ele me rejeitou? Por que todos me rejeitam?”
Yakov dificilmente chorava. O primeiro acesso de choro, se bem se lembrava, acontecera em 1964, dois, aliás, no mesmo ano. A terceira grande crise emocional ocorrera um pouco antes de seus quarenta anos completados e depois de um intervalo de poucos anos, mais outros dois casos nada fáceis de lembrar. Curiosamente, Margosha ocupava três dessas passagens dolorosas.
Era preciso casos muito extremos para provocar as lágrimas de Yakov e, mesmo nessas raríssimas exceções, era necessário tirá-las a força, tamanha sua resistência em expressar emoções. Daquela vez, no entanto, diante de Georgi e contrariando todas as suas ressalvas emocionais e resistência mantida ao longo dos anos, Yakov abraçou o neto e chorou como nunca as extremas exceções de sua vida o permitiu fazer.
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O estabelecimento não era muito frequentado na parte da manhã, ainda que a placa do lado de fora se orgulhasse em dizer que eles possuíam o melhor kasha da região. Não era um restaurante ruim, no entanto; a vitrine que servia de janela, era bem ampla e polida, possibilitando uma visão privilegiada do branco deixado pela neve, o interior era quente e os móveis padronizados em tom e estética, deixavam o ambiente confortável para se estar, com um eterno aroma de chá pelo ar. De fato, um bom lugar para visitar, se Georgi não estivesse em companhia de Nikiforov.
Sentado de frente para Popovich, Oleg tomava seu café da manhã em silêncio, kasha com manteiga e uma xícara de chá até então desprezada junto com as fatias de pão de grãos. Esquecida ao lado da bebida quente, uma dose de vodka tomada antes mesmo de chegada a refeição, dito, nas palavras do homem, ser a melhor opção para aquecer o frio russo. Àquela piada, Georgi não respondeu e seu silêncio era muito suspeito, em especial se considerasse Yakov do lado de fora, cercando a entrada como um cão de guarda.
“Não vai pedir nada para comer?” Oleg perguntou, tentando tirar alguma palavra do menino. A resposta, todavia, não passou de um gesto, um aceno negativo que dispensava a refeição. “Tem certeza? O kasha está muito bom.” Mais uma vez, a resposta de Georgi foi o completo silêncio. “Não é o melhor da região, como eles dizem, mas na falta de vodka, é bom para espantar o frio” observou com bom humor. “Sabe qual foi o melhor kasha que eu já comi na minha vida?” Tentando forçar proximidade, Oleg deixou o talher de lado e inclinou-se sobre a mesa, diminuindo a distância entre Georgi e ele. Encurralado, sem ter para onde olhar ou correr, o garoto o fitou com timidez, aguardando resposta. “O da sua mãe.”
Como se tomado pelo susto, Georgi exasperou surpreso, observando Nikiforov voltar a recostar-se em sua cadeira com um sorriso divertido nos lábios. Era a primeira vez naquele dia que Popovich se atrevia a olhá-lo com tanta atenção e foi inevitável não se lembrar das palavras ditas por Victor logo quando passaram a morar juntos.
Os cabelos prateados de Oleg, que não deixavam Georgi distinguir os fios grisalhos, estavam penteados para trás, como era habitual, deixando o rosto exposto. Embora levemente marcado pelo tempo, suas feições seguiam marcantes, tal como seu nome no gelo. O elevar nos lábios de fina expessura, riscava o rosto de Oleg como uma linha irregular, assimilando-se ao que parecia o sorriso de um gato — se Georgi pudesse defini-lo, com toda certeza seria o gato de Cheshire, o felino risonho do País das Maravilhas, ainda que Nikiforov não tivesse nada de tão maravilhoso, uma ilusão, como o mundo de Alice. Entretanto, na dolorosa ironia de seus contos de fada, Georgi ainda conseguiu se reconhecer naquele sorriso riscado, no maxilar quadrado, o queixo proeminente, o nariz longo e delgado, nos olhos que, pelo peso do semblante baixo, tornavam-se afiados, perigosos. Em reflexo, Georgi acabou ainda por tocar as próprias sobrancelhas, percebendo o mesmo formato reto e ralo repetir-se ao de Oleg, com exceção do tom cinzento. Não havia como negar. Victor estava certo há muitos anos, mesmo sem saber estar:
“Você deve ser parecido com o seu pai, Gosha!”
“... ela, às vezes, fazia manteiga artesanal para comermos com o arroz, acho que era o café-da-manhã mais disputado entre os alunos.” E ainda que Georgi estivesse perdido em dor e comparações, Oleg continuava a falar. “Lembro certa vez de ter trancado um colega meu chamado Osipov no vestiário, para ter um concorrente a menos…” A memória era, honestamente, boa. Nikiforov se divertia relembrando as partes que considerava boas de seu passado, mesmo o fazendo sozinho. “Yakov descobriu e ficou louco comigo, você precisava ter visto, acho que foi naquela época que ele começou a perder os cabelos.” Notar — finalmente — o abalo se mostrar nos olhos emotivos de Georgi, o fez parar de falar. Diferente de Victor, Popovich era discreto, reservado demais para um adolescente e, aos olhos de Oleg, idêntico a Margosha. Pelo menos nisso. Paciente, ele não precisou esperar muito para o garoto começar a falar.
“Eu não quero mais o seu patrocínio, senhor Nikiforov.”
Oleg permaneceu calado por mais algum tempo e por pouco Georgi pensou não ter se feito entender, pronto para repetir aquela decisão, quando teve a nem iniciada fala interrompida pelo patinador.
“Isso se deve pelo ocorrido há três dias?” Com um aceno, ele negou. “Foi Yakov que te mandou fazer isso?”
“Não, senhor” garantiu Georgi, temeroso que a desconfiança de Oleg recaísse sobre o técnico. “Eu já tinha decidido isso antes.”
“E por quê desistir do meu patrocínio?” Parecendo tratar de negócios com outro adulto, Nikiforov entrelaçou os dedos e encostou-se melhor na cadeira, esperando os argumentos.
“Não só do senhor…” Ele explicou, olhando para o tampo da mesa. “Farei uma pausa para poder me concentrar melhor nos treinos e pretendo voltar apenas na categoria sênior.”
“É uma pausa de dois anos.”
“Eu sei.”
“É muito tempo.”
“Eu sei.”
Oleg respirou fundo antes de continuar.
“E como continuará treinando sem patrocínio? Como providenciará o pagamento das lâminas, do treinador, seu sustento…?” Se Georgi não tivesse ouvido a discussão entre Oleg e Yakov na noite anterior, acreditaria que o patinador a sua frente estivesse tentando fazê-lo reconsiderar.
“Tem um quarto disponível no dormitório do centro de treinamento e Yakov também disse que quer começar a ampliar sua turma de competidores, onde eu faria estágio e ele pagaria pelo meu serviço.”
As sobrancelhas finas de Oleg uniram-se em desconfiança, fazendo seus olhos azuis parecerem ainda mais afiados.
“Tem certeza que Yakov não lhe mandou dizer tudo isso?”
“Sei falar por mim mesmo, senhor Nikiforov.”
Com aquela resposta, de franzidas, as sobrancelhas ergueram-se em um arco, surpreso pela resposta de tom levemente mais agressivo. Não estava assim tão convencido, mas bastasse ficar de olho ou pagar alguém para ser seus olhos, que ele saberia se tivesse acontecendo alguma coisa errada.
“É sua palavra final?”
Reunindo um suspiro a mais de todo o fôlego que tinha, Georgi ergueu os olhos para Oleg, vendo no tom profundo, o reflexo de si mesmo. Foram anos admirando aquela pessoa, para só agora perceber semelhanças que morreria para ignorar.
“Sim, senhor.”
“Nesse caso...” estendendo uma das mãos, Nikiforov ofereceu um cumprimento final, que selaria definitivamente aquela conversa. Incerto, Georgi aceitou o contato e apertou a mão de Oleg — de seu pai — , sentindo naquele contato enorme estranheza. Nada daquilo soava real… Era como um sonho, nublado, incerto e prestes a despertar a qualquer momento. “Foi um prazer financiar seu trabalho, Georgi Popovich.”
“Obrigado.” Era tudo o que ele poderia dizer.
“Será que te vejo de novo?” perguntou, logo acenando para pedir a conta. Era uma questão retórica, uma dúvida jogada para apenas o ar interpretar, uma preocupação que ele não tinha, de fato. Para Georgi, no entanto, aquela pergunta tinha sim uma resposta, a única que ele poderia arranjar, ainda que só dita dentro de sua mente;
Seria Georgi quem veria Nikiforov e, da próxima vez, seria do topo do pódio.
.:.
Dado os poucos pertences de Popovich, chegando três dias depois de Georgi se instalar no quarto, a mudança para o dormitório não demorou o tempo necessário para Yakov se acostumar com a ideia de estar vendo Georgi ir embora. Ele não sabia o que era pior de lidar, a partida do filho de Margosha, ou quão desolado havia ficado Victor com a notícia. Em um intervalo de pouco mais de uma semana, ele estava perdendo o colega de morada e rinque sem ninguém explicar quais eram as circunstâncias que estavam levando Georgi a tanto. Confuso e um tanto inconsolável, ele acabou estendendo seu tempo no período pós-aula, sacrificando o treino para não correr o risco de esbarrar na mudança. Já não bastasse para Yakov estar cuidando de Georgi, agora teria Vitya para consolar, também.
O quarto do dormitório era simples, não muito diferente do cômodo dividido nos últimos anos. O sistema de aquecimento era o padrão usado em toda Rússia e os móveis dispostos eram arejados o bastante para não embolorar nenhuma peça de roupa, contando ainda com prateleiras e uma escrivaninha boa o bastante para Georgi estudar e desenhar nas horas vagas. Com tudo devidamente organizado, chegaria a sobrar espaço e para quem toda vida teve companhia, a solidão já começava a doer.
“O banheiro coletivo fica no fim do corredor, você sabe como funciona.” Yakov tentou explicar como sabia. “Venho te buscar para a escola, então nem pense em se atrasar, ou te levo de pijama e tudo.” Mesmo quando a piada não era intencional, Georgi costumava sorrir, mas daquela vez, não foi o que aconteceu. “Os treinos continuam os mesmos, mas agora ficarão para o período noturno. Você chega da escola, descansa e cuida das suas responsabilidades escolares, e depois me ajuda com as turmas menores, sem se esforçar tanto e acabar doente, ou eu mato você antes que sua mãe me mate.” Impaciente com a falta de resposta, Feltsman tentou a — certeira — cartada final; “E te pagarei por isso.”
“Yakov-!”
“Não te propus esse estágio para ser meu escravo, foi com a intenção de te ajudar com um sustento, embora eu ache que teria sido melhor aceitar o dinheiro de Oleg, já que o mínimo que ele pode fazer é custear seu conforto.”
“Não quero nada vindo dele.”
O tom usado por Georgi deixava clara sua posição, algo discutido incansavelmente nos dias que antecederam o encontro com Oleg e que Yakov se viu obrigado a respeitar. Na posição de Georgi, ele teria arrancado até o último par de sapatos de Nikiforov, mas o garoto teve uma boa criação para sair da única grande decepção de sua vida com dignidade. Ele era mais parecido com a mãe do que podia supor.
“Eu sei, me desculpe. Mas se é para não depender de Oleg, encare que o mundo funciona na base da troca de cifras, não de favores” explicou. As palavras eram duras, tal como a sociedade em que viviam. “Não está se livrando de mim só porque não dividimos mais o mesmo teto, rapaz, nem sonhe com isso.”
Pela primeira vez naqueles dias estranhos, Yakov viu Georgi esboçar a sombra de um sorriso. Bem, já era alguma coisa.
“Não me livraria de você nem se eu quisesse.”
“Nem de mim, nem de Victor!” Ouvir o nome do outro adolescente desmanchou a fraca demonstração de alegria. “Ele está inconsolável desde que anunciou a mudança, parece que desaprendeu a patinar, precisei pegar um cachorro para ver se o animava e aquele bicho já deixou tufos de pêlo por toda casa, mastigou a perna da mesa da cozinha e urinou no tapete.” Imaginando o caos canino, Georgi recuperou o pequeno sorriso. “Não o ignore, Georgi… Assim como você, ele é outra vítima dessa história.”
“Eu sei” murmurou, não bem certo se estava assim tão ciente.
“Tente conversar com Victor, mostrar a ele que está tudo bem, não despreze o seu-”
“Irmão?” Georgi o cortou, antecipando o discurso que esperava ouvir.
“Amigo.” Corrigindo-o, Yakov continuou. “Vocês sempre foram amigos e isso não precisa mudar agora.”
Esfregando os olhos, Popovich sentia estar prestes a chorar. Estava tão cansado emocionalmente que tudo o que ele mais queria era trancar-se longe do mundo e ser deixado em paz por uma semana, uma década.
“Eu não odeio o Victor, mas é tão difícil agora… Como eu vou olhar para ele, sabendo tudo o que eu não sei?” perguntou, a voz engasgada indicando sua aflição. “Por que você não me conta mais nada?”
Yakov olhou-o nos olhos, pensando em tudo o que sabia e tudo o que adoraria nunca ter descoberto. Ao se dar conta de todos os pormenores da vida de Georgi, foram os olhos dele que começaram a arder.
“Porque é tão difícil agora…” Fazendo das palavras de Popovich as dele, Yakov apoiou uma das mãos no ombro do garoto, seu modo sem palavras de pedir desculpas. Aquela era uma história longa e sofrida demais para ele mesmo suportar, quem dirá Georgi. “Você vai ficar bem?”
“Vou me esforçar para isso.”
“É isso que eu quero ouvir.” E aquela era uma despedida. Ele nem estava se livrando do menino, mas sofria como se tivesse fraturado o tornozelo novamente, como nas Olimpíadas de Inverno de 64. “Ligarei para sua mãe quando chegar e você trate de fazer o mesmo, o uso do telefone para você é livre, digamos que uma regalia que eu consegui com um pouco de persuasão e palavras de morte.” Georgi sorriu para o humor estranho o qual já estava acostumado. Era um alívio saber que ainda poderia ouvir aquele tipo de coisa enquanto trabalhasse ao lado do técnico. “Vejo você amanhã.”
Ver Yakov se afastando, indo para um lugar que não era o cômodo ao lado, pesou o coração de Georgi. Ele já estava dormindo ali há alguns dias, mas ter os pertences finalmente ocupando o quarto era o sinal definitivo de que não tinha mais volta.
“Y-Yakov!” Georgi o chamou, confuso sobre o real motivo, e o técnico logo se voltou para ele, se aproximando rápido. “Eu queria perguntar uma coisa, só uma, eu prometo.” Sério, sem conseguir sequer respirar, o técnico esperou. “Sobre o meu nome… Você sabe... “ hesitou, sem saber de onde tirar coragem. “É por causa dele? Oleg Georgievich Nikif-”
“Não.” Feltsman o interrompeu, antes que a pergunta se completasse. “Sua mãe tem uma medalha dourada, você deve saber qual é.” Concordando, Georgi continuou prestando atenção. “Margosha e eu morávamos com meu tio-avô, um padre católico traumatizado pela perseguição religiosa, muito apegado à própria doutrina, que contava passagens bíblicas para Margosha como se fossem contos de fada e sua mãe adorava cada uma delas, sendo a preferida a de São Georgi.” Surpreso, Popovich não sabia o que dizer. A fé de Margosha sempre foi algo muito pessoal e ela nunca a dividiu com o filho, embora ele se lembrasse desde muito novo, de vê-la rezar com frequência. “Georgi foi um cavaleiro que serviu o Império Romano, em uma época onde o cristianismo era visto como ameaça. Ele se opôs, a executar o povo cristão e parece que morreu ou foi executado defendendo o que acreditava. Margosha queria que você, assim como o santo que ela traz na medalha, fosse forte como ele, um guerreiro que sozinho entre inimigos, nada teme.” Dos olhos de Georgi, lágrimas emocionadas de um alívio enorme se mostraram. “Acho que ela fez uma boa escolha.”
Depois de tantas reviravoltas nos últimos dias, aquela história estava sendo um bálsamo para ambos. Respirando fundo, apertando o pingente que trazia no peito, Georgi tentou extrair dele a coragem e força que seu nome representava.
“Por favor, diga ao Victor que agora que eu terei tempo disponível, poderei desenhar o figurino dele da próxima temporada.”
Yakov sorriu minimamente, satisfeito com aquela decisão.
“Irei avisá-lo.”
.:.
Concentrada na matéria da revista de esportes, Minako não percebeu quando duas crianças entraram pela porta da frente. Hiroko já havia sugerido diversas vezes que a amiga colocasse um sino em cima da porta, para o tilintar servir como campainha e chamar atenção da bailarina, mas Minako sempre dizia que aquilo era uma besteira sem tamanho e que ela achava extremamente cafona colocar um sininho típico de konbini local em seu ateliê. E se Lilia visse aquilo, na porta de um estúdio de dança? Morreria de desgosto, não sem antes matar Okukawa de desprezo. Não, definitivamente, aquela não era uma opção.
Relutante com adaptações na recepção, ela ignorou os visitantes e acabou pega de surpresa pelos dois pares de olhos muito atentos em sua postura nada elegante para uma ex-bailarina do Bolshoi, debruçada sobre uma revista de idioma totalmente estranho a eles.
“Ah, desculpe a intromissão, Minako-sensei, é que não ouvimos resposta e viemos ver se o ateliê estava mesmo sozinho!” A garota pediu, com as duas mãos unidas a fim de reforçar seu arrependimento.
“A culpa foi toda dela, sensei, eu disse que a gente não devia entrar!”
“Tudo bem, Yuuko-chan, Takeshi-kun, sabe que o estúdio está sempre aberto para vocês” sorriu ela, alongando-se para atenuar a dor nas costas, pelo tempo exaustivo em que sustentara a má postura. “E então, em que posso ajudá-los?”
As duas crianças entreolharam-se com preocupação, decidindo quem falaria primeiro. De olhos caídos, exibindo um beicinho tristonho, Yuuko acabou convencendo Nishigori a ser porta-voz da apreensão de ambos. Não era como se Takeshi estivesse menos preocupado que a amiga, mas havia algo entre os meninos de sua idade sobre manter as emoções escondidas e fingir não terem medo de nada, tipo a fantasma Kayako de Ju-on, ou de seu filho igualmente assombrado, Toshio.
“Viemos saber do Yuuri.” E embora tentasse disfarçar com toda sua coragem pré-adolescente, Takeshi entregou sem nenhuma resistência sua inquietação. “Ele melhorou, sensei?”
Mais cedo, naquele mesmo dia, Yuuri se arriscou em um novo tipo de salto e acabou falhando. Seria natural, tanto para ele quanto qualquer outra pessoa em processo de aprendizagem, mas a pequena falha passou a incomodá-lo, novas tentativas infrutíferas foram feitas e na insistência de conseguir evoluir o que ele via outros colegas fazendo, Katsuki começou a chorar e hiperventilar, em uma crise de ansiedade tão nervosa que ele precisou sair do rinque carregado pela irmã.
“Estive lá mais cedo e ele já tinha melhorado, estava dormindo.” Aliviados com a notícia, Minako pode vê-los relaxando inclusive a postura. Ambos estavam tendo aulas de patinação, um dos passatempos mais populares de Hasetsu, quando presenciaram toda a cena, sem conseguirem reagir. “Por que não vão fazer uma visita a ele, tenho certeza que Yuuri ficaria feliz em vê-los.”
Yuuko e Takeshi hesitaram, surpresos pela sugestão amigável. Assustados com a crise de Yuuri, traziam nos olhos baixos o lamento por não ter conseguido ajudá-lo, recordando todos os ocorridos que os fazia acreditar terem sua parcela de culpa.
“Não temos certeza, sensei…” Yuuko murmurou, sentida.
“É, e se o Yuuri começar a ficar mal de novo?”
“Não se preocupem com isso” tentou aconselhar. “Vocês não foram e nem serão o gatilho para a crise de ansiedade do amigo de vocês.”
“Tem certeza?” a garota perguntou, com os olhos baixos, fitando o chão.
“Como pode saber?” Takeshi estava inconformado. “Fomos nós que incentivamos os saltos e depois disso, Yuuri não conseguiu parar…”
“Tenho certeza que ele não pensa assim.” A convicção daquela afirmação começou a convencê-los disso. “Ele pode sim querer ter impressionado vocês, mas tenho certeza que foi a situação que o deixou nervoso, não quem estava ali, torcendo por ele, ouviram?”
Cabisbaixos, ambos assentiram. Ainda era difícil considerar aquilo, mas adultos costumavam ser a voz da razão, então era melhor ouvir o que Minako tinha a dizer e arriscar uma visita ao amigo.
“A gente podia chamar ele para comer katsudon” sugeriu Takeshi, esperando pela aprovação das outras duas.
“Tem razão!!” Recuperada da culpa, Yuuko vibrou e saltitou. Katsudon empre animava Yuuri e o prato feito por Hiroko sempre animava todo mundo, mais certeiro que isso, impossível!
“Olha que ideia ótima, acho que vou acompanhar vocês nessa visita!” brincou Minako, rindo para as crianças e deixando que o mesmo riso morresse ao voltar sua atenção para a revista que deixava de lado.
Nada. Nenhuma notícia sequer. Estava decepcionada e com certeza não faria resistência para encontrar consolo no fundo de um copo de sakê ao lado de Toshiya.
“Ah, que linda!” Yuuko exclamou, completamente encantada. Com os olhos brilhando para a foto que ilustrava a capa da revista estrangeira, ela saltitou e com isso fez tilintar todos os penduricalhos barulhentos que prendiam seu longo cabelo castanho. “Quem é ela, sensei?!”
“Ele, na verdade” sorriu Minako. Era bem verdade que os traços delicados e a pouca idade ainda não haviam amadurecido o rosto do adolescente, o dando uma aparência lúdica, muito próxima a da mãe. “Esse é Victor Nikiforov, é um patinador russo da categoria júnior. Tem tido ótimos desempenhos em suas competições” explicou o mais resumidamente possível.
“Incrível!! Os patinadores russos são os melhores, não acha Takeshi?!” O garoto espiou a foto de Victor e deu de ombros. Para ele, todos os patinadores eram iguais em técnica e apresentação.
“Hey, também temos nossa cota de bons patinadores!” Fingindo indignação, Okukawa protestou, em defesa de sua gente.
“E o que tanto essa revista fala sobre ele?!”
“Ah, fala sobre… De tudo um pouco…” Ou, na verdade, tudo.
Folheando as páginas, ela buscou pela matéria de capa que endeusava Victor em razão de seu sobrenome e estendia-se por muitas páginas. Aquela revista foi um apanhado da vida e carreira de Oleg e Narkissa, uma introdução dramática para a estreia majestosa do herdeiro do casal, o qual esperavam o mundo. Quanta responsabilidade para um adolescente de quinze anos…
“Aqui fala que ele começou a participar de competições infantis aos sete anos, treinado por Yakov Feltsman ao lado de outra criança.” Apontando para a foto, editada e recortada para não mostrar quem mais dividia espaço com Victor, Minako precisou segurar a vontade de chorar e a de sair quebrando o ateliê. Ao lado de outra criança. Seria muito difícil para os redatores escreverem o nome de Georgi Popovich? “E desde sua entrada na categoria júnior, tem levado o ouro.”
“Espera, em todas as competições?” Até mesmo Takeshi se impressionou. “Isso é incrível, não é?” Ele estava em dúvida, era Yuuko e Yuuri os nerds da patinação, ali.
“É mesmo…” Minako murmurou, enquanto a garota sequer piscava, maravilhada em ter descoberto Victor.
Ela queria poder dizer conhecer outro patinador tão incrível quanto, mas nenhuma outra citação sobre Victor dava a entender um colega de rinque, e as fotos de todos os pódios em que ele pisara nos últimos anos, nenhum tinha Georgi. O que teria acontecido? Gosha sempre adorou patinação, desde pequeno, com todo o amor contido em seu coraçãozinho… Minako encomendou aquela revista depois de meses de pesquisa e uma dificuldade enorme em lidar com burocracia e tecnologia, buscando pelo menos notícias indiretas sobre Georgi e quem sabe sua mãe. Assim que a teve em mãos, leu a revista toda meticulosamente, buscando nas entrelinhas onde poderiam ter escondido seu menino. Aquela havia sido a compra exorbitante mais decepcionante de sua vida.
“O que mais fala, sensei?!” Yuuko, por outro lado, tinha adorado. Bom, nem tudo estava perdido.
“Aqui tem uma entrevista com ele” mostrou, apontando para a foto de Victor centralizada na página segurando um poodle escuro, do que poderia ser a cor natural do cachorro, ou apenas sujeira. “Ele diz que está triste, porque será sua última participação na categoria júnior, mas feliz que depois dela terá a oportunidade de competir com programas mais desafiadores.”
“Woah, ele soa tão profissional!! E o que ele vai apresentar?”
“Deixe-me ver…” Lendo um pouco mais, ela achou a pergunta que revelava a composição. “Será Tchaikovsky, a parte da peça que apresenta a Fada Lilás.” Aquela composição à dava amargas e doces recordações, um sentimento agridoce que Minako guardava no peito. “O entrevistador perguntou que tipo de figurino Victor usará, considerando a trilha sonora, mas ele respondeu que é uma surpresa, que é uma roupa que ele está elaborando com um amigo.”
“Deve ser linda!” aplaudiu Yuuko, imaginando quão lindo aquele menino deveria ficar em vestes encantadas de fada e outros seres fantásticos.
“Quer ficar com a revista?” ofereceu Minako, conformada de que não encontraria mais nada de seu interesse, ali. “Está em russo, mas ainda possui um monte de fotos e pôsteres que você pode recortar.”
A oferta foi muito bem recebida pela nova fã de Nikiforov e gritando e erguendo acima da cabeça a revista, como se fosse um prêmio, Yuuko comemorou.
“Muito obrigada, sensei!! Eu amei!!”
“Tá, tá, vamos logo ver o Yuuri.” Takeshi chamou atenção da menina, tomando a revista de suas mãos. “Era ele a prioridade, lembra?”
Minako riu da careta de Yuuko e da discussão infantil que logo seria esquecida no caminho a Yuu-topia. Com a chave do ateliê em mãos, ela trancou o estúdio, pensando se não deveria fazer o mesmo com sua esperança de recuperar as pessoas de seu passado.
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Anos de experiência acostumaram Popovich com os deslocamentos de trem e tornaram a viagem de São Petersburgo a Moscou menos cansativa, fazendo Georgi se orgulhar em dizer não precisar mais de horas extras de sono para se recuperar do trajeto. Responsável por arrumar seus pertences, sem ter mais Yakov o recomendando levar peças extras de roupa no caso de reviravoltas climáticas improváveis até mesmo no mais exagerado tipo de ficção, agora ele levava uma única mala para aproveitar seus dias de folga, tornando mais fácil se deslocar da estação e ir ao encontro da família.
Matando a saudade da capital, Georgi caminhou calmamente pelos cenários que conhecia bem, esticando o pescoço para olhar ao redor e admirar a mistura arquitetônica que guardava na memória. São Petersburgo era uma cidade maravilhosa, mas seu coração batia forte por Moscou, especialmente por ser a cidade, lar das pessoas que amava. Anos não o haviam feito desapegar do lugar e ele sabia que, assim que tivesse oportunidade e condições, compraria uma casa boa e confortável para Margosha, onde ambos viveriam muito bem, longe de qualquer ameaça, recebendo amigos para cafés e bolos de cenoura e festejos de ano novo, regado a muito vinagrete. Essa sim, seria sua vida dos sonhos.
E, sendo ainda sonhos, não foi difícil para a buzina apertada repetidamente atravessar seus pensamentos, o despertando para o barulho infernal que o chamava atenção dele e todos os transeuntes. Desconfiado, Georgi a princípio, fingiu não ser com ele, porém, tão logo o carro encostou ao seu lado, ele reconheceu a risada rouca — tão rara quanto a de Yakov —, sorrindo abertamente para a imagem envelhecida, mas não menos querida, de Nikolai.
“Um turista em Moscou!” brincou Plisetsky, trazendo nas costeletas grisalhas e na barba branca, denúncias de sua idade avançada.
“Há quanto tempo, Nikolai!” Georgi estava emocionado. Tinha grandes expectativas naquela viagem e aparentemente elas estavam correspondendo à altura de sua animação.
“Vamos, entre aí, não precisa ficar arrastando essa coisa pesada!”
Feliz com o reencontro, Georgi entrou no veículo e ambos trocaram um abraço afobado como podiam, dado o tamanho limitado do pequeno carro. A alegria era tamanha, que Nikolai saiu dirigindo pelo seu caminho habitual, sem questionar qual seria o destino de Georgi, conversando sobre todos os assuntos que lhe vieram a mente e sendo respondido com o dobro de pautas mil. Plisetsky tinha visto aquela criança crescer e surpreendia-se com quão inteligente e maduro a vida o estava tornando. Quanta coisa teria ele perdido em todo aquele tempo?
“Não está mais competindo, Georgi! O que aconteceu?”
“Apenas uma pausa, continuo treinando para voltar bem preparado para a categoria sênior.” Admirado, Nikolai sorriu largo.
“Pensando no futuro, grande profissional você se tornou, rapaz, Margosha deve estar orgulhosa!”
“Espero que sim!”
“Te deixarei na frente do prédio da sua mãe, é caminho para onde estou indo!” comentou com bom humor, feliz com o reencontro que há muito não acontecia.
Distraído com o bom humor daquela tarde cinzenta, não percebeu os ombros de Georgi encolherem, como se carregassem consigo um pequeno receio, um incômodo despercebido ao velho senhor.
“Agradeço, Nikolai, mas na verdade eu estou indo para outro lugar antes de ir para casa…” Georgi balbuciou, um tanto envergonhado e ligeiramente aflito. “Pode me deixar na altura da Praça Vermelha, de lá eu sei o caminho.”
“Pode me dizer, não me importo em levá-lo” riu, a empolgação o fazendo cantarolar kalinka em voz baixa.
A princípio, o garoto hesitou, desencorajado ao ter a mente preenchida pelas boas recordações de sua infância dividida com Popovevna, Minako, Yulia e Nikolai. Tomado pelo choque de realidade que quase desmanchou aquele momento de celebração, Georgi pigarreou e disfarçou o constrangimento, voltando sua atenção para o lado oposto.
“É onde a Yulia trabalha” explicou, com a voz quase sumida.
Nenhum dos dois disse mais nada, cada qual guardando para si a razão de seu silêncio. Georgi pensava se deveria defender a amiga ou respeitar o isolamento de Nikolai, limitado pela falta de uma decisão que contemplasse ambos. Sem precisar expressar nenhuma palavra sobre o assunto, ele viu Plisetsky desviar da maior circulação de carros, dando a seta para a direção contrária, entrando no retorno que dava acesso à ruas menores e menos procuradas para circulação, um caminho para o apartamento da mãe que ele desconhecia, se Nikolai estava de fato indo para aquele lugar…
“Te levo até lá.”
Entendendo a intenção do aposentado metalúrgico, Georgi sufocou a surpresa e concordou em silêncio, grato por aquela gentileza e respeitando as travas emocionais de Plisetsky. Se ainda existia uma chance daqueles dois serem uma família como antes, ele apenas esperava que Nikolai não levasse o mesmo tempo que Yakov havia levado para voltar a falar com a filha.
“Abra o porta-luvas” Nikolai disse de repente e sem contrariá-lo, assim Georgi o fez, derrubando sobre os joelhos dobrados um punhado de doces envolvidos nas clássicas embalagens coloridas. “Ainda gosta de caramelos?”
Nem tudo estava como em sua infância, doce como aqueles caramelos, mas sorrindo, ele agradeceu pela oferta que fazia ainda viva sua memória.
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Arrastando o pézinho para o lado — dolorosamente apertado dentro da sapatilha de ponta —, Maria alongou a perna, sentindo o incômodo se estender da panturrilha à virilha, um exercício contínuo e ingrato, mas extremamente necessário se quisesse ter alguma chance no teste para ingressar no Instituto Vaganova. Estava tão apavorada com a proximidade da seletiva que não conseguia se concentrar direito nos exercícios, errando em passos que normalmente lhe eram tão fáceis. A gentileza da professora, alegando estar tudo bem não conseguir executar mesmo as piruetas mais simples, não conseguia acalmá-la; ela queria muito entrar no Vaganova, fazer o trabalho da professora Plisetskaya valer o tempo, dedicação e esforço colocados em seu treinamento, feito apoiado unicamente na entrega de Maria pela dança e seu sonho de ser bailarina, já que seus pais não podiam, e tampouco queriam, financiar sua educação clássica. Mesmo sem ter um centavo envolvido em tudo aquilo, ela sentia estar carregando uma dívida enorme em seus ombros mirrados.
“Com licença, a professora Yulia Plisetskaya já foi embora?” Surpresa pela voz tão diferente às que já estava habituada, ela não teve tempo para disfarçar o semblante preocupado e os olhos marejados, encarando, confusa, o garoto estranho que trazia consigo uma mala. “Me desculpe, eu não queria incomodar…” disse ele, percebendo o abalo da menina. “Precisa de alguma coisa?”
Ela sabia que se abrisse a boca para afirmar ou negar a oferta de ajuda começaria a chorar e essa era a última coisa que desejava naquele momento. Respirando fundo, arregalou os olhos avelã em tentativa de conter as lágrimas e mordeu os lábios, segurando dentro da boca qualquer soluço que tentasse escapar, acenando em negativo logo em seguida. O garoto não pareceu acreditar muito na falha tentativa de Maria em se mostrar bem, deixando a bagagem de lado para entrar na sala, caminhando em sua direção.
Maria havia aprendido, em uma educação um pouco severa demais pelo conservadorismo de sua família, que devia obediência total a pessoas mais velhas e isso incluía não reclamar sobre absolutamente nada, principalmente se as queixas fossem a respeito de si mesma, com riscos de ser repreendida duramente — e não apenas com palavras —, de modo que a aproximação daquele garoto a fez se contrair, esperando o tipo de reprimenda que poderia vir.
“Aceita um caramelo?”
Era óbvia a gentil oferta do garoto de profundos olhos azuis, mas muito estranho para ela entender qual a razão de estar tendo a oportunidade de ganhar um doce tão gratuitamente. Maria havia aprendido que não existia nenhum tipo de oferta sem uma troca à altura — era por isso que entrar no Instituto Vaganova era tão importante na quitação daquelas parcelas morais para com Yulia — e, no momento, ela não tinha nenhuma moeda para pagar o caramelo.
Antes de pensar na resposta, Yulia voltou para a sala com um CD em uma mão e o pequeno aparelho de som portátil na outra, esbaforida com o tempo que tinha passado fora e deixado sua aluna sozinha. Maria sempre achava engraçado o jeito expansivo de sua professora, sendo ela a única a conseguir fazê-la sorrir espontaneamente e, pelo que pôde observar no garoto de cabelos negros ao lado, ele também pensava o mesmo.
“Desculpe o atraso, Masha, trancaram a sala da administração e eu precisei caçar alguém que tivesse a chave” explicou-se, atropelando cada palavra dita e arrancando risadas mais altas dos outros presente; foi quando ela enfim notou que outra pessoa além de Maria encontrava-se na sala. “Gora! Desde quando está aí?!”
Sorrindo, Georgi começou a andar em direção a Yulia, que retribuiu com seu próprio jeito espalhafatoso, correndo a curta distância e envolvendo o garoto com pouca delicadeza, arriscando erguê-lo do chão e girá-lo no ar mesmo com protestos por parte dele, muito preocupado com todas as possíveis lesões que Yulia poderia ter por forçar tanto as costas. Maria achou graça; como podia um garoto mais jovem que sua professora parecer ser o mais responsável dos três?
“Oh meu Deus, Gora, quando você vai parar de crescer?” A indignação de Plisetskaya tinha um quê doloroso; ela era tão baixinha! “Já pode trocar lâmpadas sem precisar de escada?”
“Já, costumo ficar apenas na ponta dos pés” provocou de forma inocente, ganhando uma careta infantil e um tapinha no braço como reprimenda. “Cheguei em um mau momento? Vejo que ainda está com uma aluna.”
Yulia deixou de sorrir para Georgi, para abri-lo ainda mais para Maria. Calada, ela levou uma das pernas para trás, junto com os bracinhos magros, encolhendo-se com o desejo de tornar-se invisível e não atrapalhar uma cena a qual não fazia parte. Mas, como sempre, Plisetskaya se comportou diferente de tudo o que ela havia aprendido, correndo em sua direção e se curvando para poder abraçar a garotinha pela qual tinha tanto apreço.
“Essa aqui é a nossa Masha, minha aluna mais querida, mas não conta para ela, tá? Ela não pode saber, ou vai ficar metida” brincou, piscando para Georgi. Envergonhada, a garota abaixou o rostinho, escondendo a cor vermelha das bochechas com as mãos. “E aquele ali é o Georgi, Masha, um dos mais incríveis patinadores que eu já conheci, mas ele é meio burro, porque nunca acredita em mim.” Revirando os olhos, Georgi decidiu que iria relevar aquela pequena provocação. Abandonando as piadas um pouco, ela soltou Maria, voltando sua atenção para o rádio e o CD gravado com diversos ritmos clássicos e eruditas. “Gora, eu preciso passar alguns passos com Masha antes de irmos embora, você espera um pouco ou quer que eu peça um táxi para te levar para casa?”
Mesmo a saudade da mãe sendo imensa, Georgi não queria deixar que Yulia voltasse sozinha e, além do mais, ele também havia sentido muito a falta dela. Assisti-la dando aquela aula particular e dançando um pouco, apenas uma amostra de tudo o que tinha conhecimento e habilidade, resgatava a nostalgia de outros tempos, onde Georgi podia vê-la da plateia, ou espiando da coxia, oculto pelas pesadas cortinas vermelhas do Bolshoi.
“Vou ficar por aqui, não tenho assim tanta pressa” explicou, achando um lugar onde pudesse acomodar melhor os pertences e não atrapalhar o andamento da aula. “Só volto para São Petersburgo dia doze, tive sorte que o feriado esse ano vai até um sábado” comentou aliviado. Em outros anos, não pôde se dar ao luxo de estender o feriado prolongado de janeiro, precisando pegar um trem antes do fim daquela pequena folga, ou Yakov em pessoa o buscaria para evitar que perdesse suas aulas.
“Sorte a sua, não vai precisar aguentar Yura assistindo duas horas dos mesmos programas de patinação artística” riu, colocando a música para tocar. “Pobre Margosha…”
“Duras horas de patinação?” Georgi tremeu, lembrando-se do nome que evitava há um ano, o causando ânsia. “Diz sobre a minha fita?”
Seus lábios tremeram mais do que imaginou quando recusou-se a pronunciar em voz alta o nome do patinador. Era como se muitos anos tivessem passado desde a descoberta, uma que ele negava ferrenhamente. Não sabia se aquela maldita fita ainda existia, mas apenas a ideia de Yuri estar se tornando mais um fã de Nikiforov o fazia temer ter aquilo perto de sua mãe. E pensar que há um ano ele assistia às apresentações passadas de Oleg com empolgação e uma ingenuidade que agora o causava revolta.
“Oh não, é um competidor recente da categoria júnior, Yuuri Katsuki do Japão” explicou, gesticulando suavemente a ordem de passos que Maria conhecia bem. “Não sei se existem muitos Yuuris pelo Japão, mas sua mãe e eu achamos que pode ser a criança da qual Minako falava, lembra?” Ela não esperou resposta para continuar a falar. “Não sei o que o Yura viu naquele menino — agora o plié, Masha —, se esse fascínio todo é por terem o mesmo nome, ou se ele ouve o nome Yuuri e pensa estarem falando dele, só sei que eu tive que dar um jeito de gravar as únicas duas apresentações desse Yuuri em loop, porque é a única coisa que tem conseguido fazer esse menino sossegar, ultimamente.” Georgi riu, imaginando como deveria ser essa repetição ininterrupta. Ele estava até um pouco curioso, agora. “Bom, Masha! Agora, sustentando o plié, vamos ver como está seu relevé.”
A elevação para a ponta, tomando como impulso os joelhos levemente dobrados, não foi sequer próximo de toda a habilidade que Maria possuía. Travada pela vergonha e outras limitações emocionais resultantes de traumas que Yulia conhecia bem, mas infelizmente não podia combater sozinha, a garota recolheu-se na espera de uma bronca que nunca vinha por parte de Plisetskaya. A professora de balé sabia que era preciso muito cuidado com palavras e ações para não machucar o coraçãozinho de dez anos, que tanto já havia sido ferido.
“Fica meio chato ensaiar sem mais pessoas por perto, não acha, Masha, Gora?” Georgi prontamente entendeu o olhar que Yulia o lançara, acompanhado de uma entonação nada discreta que praticamente o convocava à barra de alongamento.
“Ah, eu adoraria treinar, mas não sei se Maria gostará da minha companhia, ela nem aceitou meu caramelo…”
Yulia voltou-se para Maria, seu olhar cobrando explicações. Risonha, ela coçou as mexas de cabelo rente a nuca, fios de um loiro-escuro que começavam a soltar do coque feito por ela, sem nenhuma ajuda de seus familiares. Percebendo que negar não levaria nenhum dos três a lugar nenhum, ela assentiu e corou até a ponta das orelhas quando Georgi saiu de onde estava e ofereceu novamente o doce.
“Agora que somos todos amigos, o que acha de praticar um pouco as elevações?” perguntou e a resposta de Georgi foi logo se livrar das pesadas botas e o casaco forrado. “Gora, como está essa sua quinta posição?”
“Perfeitamente alinhada, professora Plisetskaya.” Entrando no jogo, ele respondeu, piscando para Maria e assim incentivando seu riso baixo.
“Isso é o que veremos! Masha, mostra para ele como é que se faz!”
Colocando a bala na boca, Maria deixou a barra e correu se posicionar no meio da sala, alinhando os pés e elevando os braços na frente do peito, como o garoto de sorriso fácil e brilhantes olhos azuis que estava logo ao lado.
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O som de aplausos saiu do apartamento, ganhou os corredores e chegou aos ouvidos de Yulia, assim que ela e Georgi deixaram o elevador. Suspirando, ela revirou os olhos e logo Popovich entendeu que a ovação fazia parte da fita gravada. Pegou-se imaginando se sua mãe reagia da mesma forma quando ele forçava as gravações de Oleg, ou pior…
Era melhor não pensar muito.
Em silêncio e tentando fazer o mínimo ruído possível, Yulia e Georgi abriram a porta e entraram, pé ante pé, para vislumbrar aquela cena que seria capaz de aquecer o mais gélido dos corações; os olhos de Yuri, sempre cerrados em uma feição pouco amigável, estavam marejados, arregalados e vidrados no programa, que pelo marcador no canto da tela, indicava ser o curto. Sem piscar, ele assistia à performance, hipnotizado pelos gestos suaves e pela interpretação do garoto, um pouco crua e limitada, dado sua idade e pouca experiência, mas encantadora. Embora muito pudesse ser melhorado nos movimentos travados, fosse pelo nervosismo da primeira competição ou limitação de técnica, o alongamento era admirável e Georgi podia afirmar sem dúvidas que educação clássica aquele jovem patinador estava tendo, além de um detalhe extra que seria capaz de diferenciar seu trabalho, se esse fosse aprimorado para o futuro; o garoto se movia no ritmo das notas românticas, acompanhando o embalo da composição e, com isso, parecendo reproduzir música com o próprio corpo. Ele podia entender porque Yuri não conseguia desviar a atenção da tela.
Mas, o que mais encantou Georgi, foi o olhar de Margosha, sereno, assistindo ao programa. Diferente das apresentações de Oleg, ela não se mostrava triste ou agoniada — do pouco que podia lembrar —, pelo contrário: assistindo ao programa de Yuuri Katsuki, Georgi conseguia pela primeira vez acreditar nas palavras de Yakov, quando ele dizia sobre Margosha gostar muito de patinação artística. Ele podia ver isso, agora, no brilho dos olhos, no sofrimento evidente pelo patinador em cada pequeno erro cometido, o cantarolar baixo do tema coreografado e do leve sorriso que não deixava seus lábios durante os curtos minutos onde tudo o que existia era o gelo. Aquela imagem de sua mãe, Georgi sentiu que levaria para sempre.
“Sorte desse Yuuri ser um fofo, porque eu não aguento mais ouvir o Tema de Lara.” Dramatizando a reclamação, foi como Yulia informou estar em casa, tirando a atenção da costureira da tela, mas não a de Yuri, é claro. “Te trouxe uma encomenda, Margosha, direto de São Petersburgo.”
Abrindo o sorriso já existente, Popovevna deixou seu lugar no colchão e recebeu o filho com um abraço tão apertado quanto todos os outros divididos ao longo daqueles anos, mas que para Georgi, teve um significado ainda maior. Abraçar a pessoa que mais amava no mundo, sabendo tudo o que ela teria passado e sofrido, causava uma bagunça de sentimentos que se contradiziam entre ódio e gratidão, a vontade de permanecer ao lado dela e nunca mais voltar, contra o desejo de mostrar a Oleg ser melhor do que um dia ele foi, tanto para o esporte quanto para a vida de sua mãe. Não bastassem os sentimentos soterrados vindo à tona de uma só vez, ele se via imaginando inúmeras situações hipotéticas da vida de Margosha, fantasiando dramas e descasos que Georgi não fazia ideia de quão próximas da realidade ele conseguia prever, ou se não passavam apenas do fruto de sua imaginação culpada.
“Acho que você não me abraça assim desde que tinha cinco anos” riu Margosha, a voz abafada pelo casaco do filho e sua altura que há muito já tinha a passado. “Fez boa viagem, meu amor?”
As mãos macias, como os travesseiros fofos que ele gostava de assimilar quando criança, tocaram os dois lados de seu rosto gelado, enquanto os olhos castanhos o olhavam com doçura, no aguardo da resposta. Olhar para Margosha estando ciente de parte daquele passado nebuloso, o fez pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo, conseguindo reagir apenas com lágrimas, prontamente secas pela mãe.
“Gosha, o que aconteceu? Até parece que não me vê há anos!”
“Sinto que parece uma vida.”
Uma vida de mentiras, para ser exato. Georgi queria chorar pela estúpida inocência em exaltar Nikiforov, chorar pela injustiça sofrida por Margosha, chorar de raiva, chorar de tristeza, apenas chorar. Mas ela, como sempre, apenas sorriu. Carinhosamente, Popovevna puxou o rosto do filho para baixo e beijou sua testa, uma demonstração doce de todo o carinho que tinha por ele, traduzido apenas naquele gesto. Georgi queria poder ter aquele dom de mostrar tanto em tão pouco, assim como ela.
“Meu Deus, Margosha, essa touca não era do Georgi?!” exclamou Plisetskaya, alheia ao reencontro emocionante e admirada com o acessório que cobria cabeça e orelhas de seu pequeno Yura. “Eu lembro dele usando isso aqui na época do Quebra-Nozes!”
Bem humorada pela recordação, Margosha riu, enquanto Yuri chiou baixo, irritado pela intromissão da mãe no meio da apresentação do programa livre.
“Estava limpando aquela sacada e achei um punhado de roupas de frio que foram do Gosha, lavei tudo de manhã e deixei na secadora enquanto você levava Yura na escolinha. Na hora de buscá-lo, já estava tudo seco e eu achei que ele fosse apreciar uma touca quentinha para enfrentar essa temperatura” justificou, visto que Yuri tinha a péssima mania de rejeitar toucas tricotadas e abandoná-las ao descaso. “Ele pareceu gostar dessa, pelo menos.”
“Ah, Yura, você ficou tão lindo, olha aqui para a mamãe!” chamou Yulia, cada dia mais apaixonada pelo filho. Incomodado com todos os ruídos atravessando a transmissão, Yuri lançou um pesado olhar de desprezo para a mãe, que entendeu a repreensão e decidiu ignorar, jogando-se em cima da criança e a envolvendo em um abraço coberto de cócegas que dividiam Yuri entre rir e gritar irritado a imperdoável interferência. Ele se lembraria de negar a Yulia alguns abraços e beijos, depois, ela veria só. Depois de um cochilo, talvez.
Achando graça daquela bagunça, Margosha riu baixo e tentou falar por cima dos gritos infantis e o Für Elise do programa livre do competidor júnior.
“E como está sendo esse tempo sabático, longe da patinação?”
“Um inferno, odeio as aulas militares. De quem foi a brilhante ideia de aprender a montar e desmontar um fuzil?”
“E a arremessar granadas, você já aprendeu? Eu era a melhor da escola, Yakov ainda deve ter um prêmio meu guardado em algum lugar” gabou-se Margosha, achando engraçada a indignação de Georgi.
“Nem me lembre disso…” bufou, só de lembrar quantos arremessos tinha feito por pura implicância do professor. “Tirando isso, nunca achei que ajudar crianças a patinar fosse tão cansativo!” A risada de Yulia atravessou o riso de Popovevna, parecendo que todos estavam envolvidos no mesmo assunto. “Mas é muito gratificante vê-las evoluindo e Yakov diz que eu levo jeito.”
Yakov não elogiava qualquer um, do pai ela entendia.
“Estou muito orgulhosa da decisão que tomou, Gosha, acho muito importante batalhar por novas oportunidades e trabalhar para crescer naquilo que se ama” elogiou, visivelmente orgulhosa pelo filho. “Estou ansiosa pelo seu regresso! Já tem alguma coisa em mente?”
“Já tenho algo em mente, mas deixarei como um mistério até a estreia, como Victor fez nessa temporada.” Margosha não gostou de ser excluída daquele segredo, mas de nada adiantaria tentar arrancar mais informações.
“A propósito, Gosha, sobre Nikiforov…” O sorriso de Georgi congelou e sua mente só conseguiu processar naquele sobrenome, o rosto de Oleg. “Foi você que desenhou aquele figurino do programa livre?”
Aliviado que o Nikiforov citado era Victor, ele conseguiu voltar a respirar, tendo a preocupação de nome Oleg substituída pela expectativa da aprovação de Margosha.
“Fui eu sim, mãe… A senhora gostou?”
“Bom, é lindo, em especial a aplicação de cristais que devem ter custado o salário de uma vida inteira, mas preciso admitir que até mesmo eu, que sempre fui defensora da inovação nos figurinos do Bolshoi, levei um susto quando vi, no entanto…”
“A senhora não gostou.”
“Gostei, claro que sim!” Ela ficou quase ofendida com o pessimismo do filho em relação sua opinião pessoal. “Principalmente porque tem sua ousadia artística nele! Acha que não reconheci dedo seu naquela meia saia lateral, Georgi Popovich?” Georgi riu. De fato, ela o conhecia muito bem. “Agora, convenhamos, de quem foi a ideia de vestir uma Fada Lilás de preto?” Diante da indignação materna, a gargalhada de Popovich foi inevitável. “Tudo bem, inove no figurino, mude as cores, mas isso se fosse uma fada qualquer, não nessa que leva no nome a cor predominante! E o que é aquele trançado na altura do peito? É para significar o quê? Porque se for o que eu estou pensando, mocinho, como vocês descobriram sobre isso? Quem contou para vocês? O que Yakov achou disso tudo?”
Felizmente, não tinha mais espaço para receios ou o medo da reprovação. Afastada junto com eles, foram suas lágrimas, incapazes de atrapalhar aquele momento. Ao lado de Margosha, só existia motivos para sorrir e Georgi se esforçaria para que nenhuma lembrança não requisitada estragasse o que estar ao lado dela significava.
Era muito bom estar em casa.
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Yuri não gostava de ficar parado, mas, contanto que ficasse balançando as perninhas, teria algo com o que se distrair. Quanto mais rápido seus joelhos esticavam e dobravam, maior era sua vontade de aumentar o ritmo, bater algum tipo de recorde, ainda que nem ele entendesse a razão. Às vezes acabava se empolgando demais e caía da cadeira, para desespero de Yulia, outras acertava algum desavisado, para igual desespero da mãe. Yuri achava engraçado como a mãe fazia alarde por nada.
Enquanto esperava a mãe terminar de treinar Maria, ele balançava ambas as pernas de forma revezada, mas sem muita empolgação para fazer daquilo uma brincadeira. Estava cansado, um pouco irritado, querendo ir logo para casa e não fazer nada até a hora de comer, pequenas ambições infantis que faziam da rotina algo grandioso.
Se fosse pensar melhor em tudo que ainda queria fazer, Yuri talvez trocasse a ordem da opção comer e a colocasse como prioridade. Seu estômago estava reclamando a falta de refeição — ele devia ter ouvido a mãe e terminado de tomar sua sopa… — e nem mesmo colocar as mãozinhas sobre a barriga estava atenuando o roncar. Que coisa inconveniente! E o cheiro de comida no ar também não ajudava a atenuar a fome!
Parcialmente irritado, o menino olhou para o lado para achar o culpado pelo aumento de sua fome, um velho de barba e costeletas cinzentas pelo cabelo grisalho e uma boina surrada pesando sobre as sobrancelhas. Em suas mãos, trazia uma sacola de papel, quente e deformada pelo peso do conteúdo fresco que estava cheirando muito bem. O menino manteve os olhos fixados no pacote, franzindo as sobrancelhas e apertando os olhos, forçando a visão para poder enxergar além do papel pardo ou quem sabe derreter a embalagem e ter acesso ao alimento, o que acontecesse antes.
“Boa tarde” cumprimentou o senhor, com sua voz grossa e um pouco arranhada. Ele parecia estar receoso e Yuri sentiu-se muito forte e importante ao pensar ter causado aquela primeira impressão. “Yulia Plisetskaya já terminou de dar aula?”
Era uma pergunta grande demais para a cabecinha de Yuri processar, mas uma coisa ou outra ele entendeu. Se era sua mãe que aquele homem queria, azar; com um aceno agressivo, que fez voar todos seus cabelinhos loiros, ele negou. Aquele homem teria que esperar como Yuri estava fazendo, se quisesse falar com Yulia.
Por outro lado, ficar todo esse tempo do lado de um muito cheiroso pacote, não seria nada fácil e o garotinho estava começando a ficar frustrado, chateação logo notada pelo até então desconhecido. Como ele deveria se comportar, agora…? Fazia anos que não lidava com crianças, nem sabia mais o que deveria fazer ou falar. Quem sabe oferecer…?
“Você quer?” perguntou sem muita certeza, balançando o pacote. O movimento da sacola foi seguido pelos olhinhos verdes, atento como um filhote de gato, prestes a dar o bote.
Yuri parou de olhar o embrulho e considerou a oferta. O que sua mãe e tia Margosha tinham dito mesmo, sobre ofertas de pessoas desconhecidas? Mas nenhuma das duas estava ali para saber, então…
“Não!” gritou, mantendo-se fiel às suas convicções. “Não pode aceitar nada de gente esquisita!”
A frase não era bem aquela, mas foi o melhor que ele conseguiu explicar e o suficiente para o velho entender o que significava o alerta da mãe e da tia. Silencioso, o senhor concordou e abraçou o pacote, concentrando em permanecer calado e calmo até poder falar com a professora de balé, sem nem desconfiar o que a pequena cabeça de Plisetsky planejava.
“Eu sou o Yuri” o menino falou de repente. Estranhando a tentativa de conversa, depois de esclarecido não poder dar atenção a um “esquisito”.
“Nikolai.” De qualquer forma, ele respondeu. Seria estranho não responder e ele não sabia no que ignorar a criança poderia acarretar. Não queria irritar ninguém aquele dia, muito menos Yuri.
Constrangido com tamanha atenção sobre si, ele olhou para os lados e fingiu não estar sob julgamento infantil, apavorado com o que Yuri podia estar considerando e temendo estar sendo reprovado em suas vestes gastas e aparência cansada. Não era bem assim que um avô deveria parecer, certo?
Sem responder seus receios e tampouco dar suas considerações finais, o pequeno estendeu uma das mãos em sua direção, como se esperasse um cumprimento ou uma oferta. Lembrando ainda estar segurando a sacola de papel, Nikolai entendeu parcialmente o que estava acontecendo. A criança estava certamente pedindo pela comida, mas isso não iria contra o que sua negativa sobre falar com estranhos?
Caindo em si, ele finalmente compreendeu: se Yuri sabia seu nome e o contrário também se aplicava, então eles não eram mais estranhos. Criaturinha inteligente!
“Gosta de piroshki?” perguntou, a vontade de rir transparecendo no tom divertido. Esperto, como Yulia sempre fora, embora um pouco emburrado. Quando os dedinhos alcançaram o salgado, seus olhos verdes brilharam e Yuri abriu a boca o máximo que podia para dar uma mordida. “Está bom?” Repetindo o mesmo gesto agressivo, porém positivo daquela vez, ele aprovou a especialidade de Nikolai e isso encheu Plisetsky de felicidade.
Ele tinha tanto a perguntar, tanto que queria saber… Por onde começar? Como conversar? Ainda teria tempo de recuperar os anos perdidos? Podia voltar a fazer parte daquela família? Podia reconquistar a filha?
De repente, percebeu que era ele quem devia respostas, quando Yulia abriu a porta da sala, chamando pelo filho e o notando ao lado do pai. Três anos haviam se passado desde o nascimento do neto, mas ver Yulia tão de perto, pareceu pesar em seus ombros, todas as décadas que sua idade trazia. Os cabelos, bem mais curtos do que ela usara no passado, deixavam o rosto evidente — evidente como a gritante semelhança que ela tinha com a mãe. Se estivesse viva, o que teria dito de tudo aquilo? Com certeza, não teria ficado do lado do marido. Com certeza, ela estaria certa.
“Oi.” O cumprimento nada emocionante era a única coisa que podia falar sem que com as palavras, toda uma carga emocional viesse em forma de lágrimas.
“Oi.” E pela resposta, Yulia pensava o mesmo. Não havia sido apenas à mãe que ela havia puxado.
“Eu trouxe piroshki.” Mostrando o pacote, ele o balançou em oferta indireta.
“Estou vendo…” Acarinhando os cabelos lisos do filho, ela respirou fundo, contendo o emocional prestes a explodir. “Ainda tem para mim?”
Nikolai assentiu e para cada aceno positivo, uma lágrima caiu. Emocionada, Yulia deixou os piroshki de lado e o abraçou, como sentira falta há três anos.
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