Capítulo CLX - Das Interrogativas
1 CLX e único
Como ela tinha chegado até ali? O que a levou até aquele ponto? Por que estava ajoelhada no banheiro, dentro do box, molhando todas as suas roupas, com a garganta doendo, respirando com dificuldade, chorando sem conseguir parar?
Fora seus pais? Seus primos? Seus amigos? Ela mesma? O que era o fator que fez sua mente quebrar e ela virar aquela anormal que era? Desde quando não aguentava mais ver um grão de arroz em sua frente? Por que odiava tanto o cheiro da comida? Por que não gostava da sensação de mastigar e engolir? Por que negligenciava o próprio corpo?
Seus braços — que não sabia se eram gordos ou esqueléticos ou “normais” – abraçaram suas pernas e ela escondeu seu rosto entre seus joelhos pensando em quão quebrada era. Não possuía marcas físicas, mas as mentais já eram mais do que suficiente para fazê-la inútil para a sociedade, não eram?
Sabia que sim. Não precisava da confirmação de ninguém, não precisava escutar pela milésima vez que estava estranha, que tinha que comer, que tinha que fazer exercícios, que tinha que cuidar do próprio corpo.
Por que não fazia isso? Queria autodestruir-se lentamente? Queria corroer seu interior até que nada além da pele sobrasse? Queria que deixasse de funcionar como uma máquina abandonada? Talvez as suas pilhas explodissem e ela morresse intoxicada com o ácido da sua alma ou talvez ela fosse capaz de rasgar seu peito e tirar seu coração fora.
Será que ele ainda batia? Não tinha certeza disso, como poderia? Sua pressão estava baixa demais para sentir seu pulso ou fossem suas mãos que tremiam tanto e não lhe davam condições para checá-lo.
Seus olhos fundos levantaram-se o suficiente para olhar para o celular que tocava loucamente a poucos metros dela. Estava tão próximo, mas tão longe ao mesmo tempo. O ar saiu quente de sua boca seca e ela tentou focar sua visão. Onde estavam seus óculos?
Em sua mente, apareciam todos. Seus amigos e sua família e suas incertezas. Que bem trazia para o primeiro grupo e que mal havia feito para o segundo? Quanto as dúvidas, elas tratavam-se de tudo relacionado a sua vida.
Seguir em frente e ser útil? Seguir em frente e ser inútil? Seguir em frente e sorrir? Seguir em frente e pôr as cartas na mesa? Seguir em frente e aguentar a rejeição? Seguir em frente e ser independente? Seguir em frente e ir para fora? Seguir em frente e ir embora? Seguir em frente e ficar? Seguir em frente e abandonar?
Isso, é claro, supondo que tivesse como seguir em frente.
Estava sendo egoísta, não estava? Como podia ser tão inconsequente e esquecer-se de suas responsabilidades? E as pessoas que dependiam imediatamente de sua participação? E as pessoas que contavam com ela? Iria decepcioná-las não iria? Mas quem garante que já não fez isso e que estão apenas sendo gentis? Mas quem garante que não iriam se decepcionar de qualquer jeito? Será que todos que a rodeavam apenas mentiam como aquela pessoa de sua família? Será que todos que a rodeavam não esperavam de mais dela? Será que era capaz?
Colocou uma mão no chão e respirou fundo.
Há quantas horas não comia? Quão burra poderia ser? Burra, lerda, irresponsável, inconsequente, irritante, infantil, egoísta, preguiçosa. Todos adjetivos que ficam rodando na sua mente e que pareciam não parar nunca. E será que um dia parariam?
Ela precisava de ajuda profissional? De remédios reais? Ou isso tudo era apenas frescura da sua mente?
Como ela reagiria ao saber que era quebrada emocionalmente sendo que não entendia como qualquer adolescente pudesse precisar de remédios já que possuíam vidas tão boas? Como ela reagiria se soubesse que sua filha precisa de ajuda? Como ela reagiria ao saber? Será que ela diria que não ia a igreja o suficiente? Será que ela a culparia? Será que ela diria que é frescura? Será que todas elas a aceitariam? Será que ele ainda seria como é?
Colocou a outra mão no chão.
Parecia que estava de volta aos anos anteriores. Ou será que nunca deixou de ser aquela garota de treze anos que tinha medo de tudo e se odiava? Ou será que seus dedos nunca escreveram nada que prestasse? Ou será que tudo o que queria em sua vida era inalcançável? Ou será que seus sentimentos sempre foram aqueles?
Quão hipócrita. Como podia dizer palavras bonitas e incentivar tantos sendo que não conseguia sair de seu próprio poço. E, ah! Como sentia-se mal ao pensar em todos seus amigos que tentavam torná-la feliz! Como sentia-se horrível por não manter sua felicidade!
Jurava que era real. Quando olhava seus sorrisos e sorria junto. Quando olhava seus olhos marejados e chorava junto. Quando os assegurava de sua importância. Era tudo real. Por que não conseguia tomar suas palavras para o coração, então?
Por que suas tentativas de seguir os próprios conselhos e os conselhos deles não duravam? Por que estava daquela forma sendo que o que sofria não chegava aos pés do sofrimento dela? Não chegava aos pés do sofrimento de noventa e nove por cento do mundo.
Que ridícula. Fora ela mesma que havia dito que sofrimento não se compara, então por que havia isso com o seu?
Levantou-se com dificuldade.
Olhou o banheiro onde estava e deu um passo para fora
Como era fraca. Como era inútil.
Pegou o celular em mãos e viu o nome delas. Um pequeno sorriso surgiu e ela respirou fundo.
Não importa a resposta para qualquer uma das perguntas. Daria mais alguns passos nessa merda de vida antes de responde-las.
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