Masmorras do Palácio de Abamanu


No subterrâneo do palácio havia uma espécie de sala oculta, somente podendo ser acessada por ninguém menos que seu criador. Tal sala encontrava-se alguns metros de distância da cela onde Charlie mantinha-se cativo, com o propósito de criação para servir como ponto de reuniões com os coletores.

A regra consistia que apenas o deus lunar, sendo o anfitrião, teria a liberdade de deslacrar a rocha quadrada marcada com o mesmo sigilo de tranca gravado na cela onde Êmina estava presa na extinta fábrica tóxica em Liverpool.

O símbolo iluminou-se com sua cor azulada claro, fazendo a "porta" abrir-se vagarosamente, deslizando pelo lado esquerdo.

O deus lunar adentrou um tanto afobado, deparando-se com dois de seus sócios que surgiram repentinamente no recinto.

— Não é uma cara de boas notícias. — disse um coletor, disfarçado de um homem caucasiano, careca e trajando um terno preto.

Abamanu apoiara suas mãos cobertas pelas manoplas da sua armadura sobre a mesa de pedra, fitando o nada. "Tenho tentado me concentrar somente no meu escriba, mas essa... energia é... E continua irradiando sem interrupções. O dia que eu tanto temi... pode estar mais próximo do que pensei.", pensou ele, erguendo um pouco mais a cabeça ao finalmente dar atenção aos presentes na sala.

— Como está indo o plano? — perguntou o deus lunar.

O coletor de terno e gravata insistiu em reparar na expressão do imperador.

— Você não parece estar em boas condições para...

— Como estou me sentindo agora não é importante! — vociferou Abamanu para ambos — Apenas me digam qual o status do plano!

— Se isso for algum tipo de ordem, pode esquecer. — retrucou o segundo coletor, este disfarçado como um rapaz jovem de porte atlético, rosto robusto, cabelo liso e curto e vestindo um longo sobretudo preto por baixo de vestes da mesma cor. Ele se aproximou — Perdeu a fé em si mesmo a ponto de nos tratar como seus meros lacaios. Se tentar nos rebaixar novamente, pegaremos o mago do tempo à força.

— Vai mesmo incitar um conflito quando nós estamos a um passo daquele objetivo? — questionou o coletor de terno, encarando com desaprovação, logo em seguida voltando-se para Abamanu — Se o alegra saber, nós definimos as localizações, conhecidas também como casas de leilão.

— Sem um trabalho meio sujo antes, é claro. — disse o outro, complementando.

— Em breve começará a divulgação. — falara o de terno, pondo as mãos para trás.

— E quanto ao julgamento de Chronos? — perguntou Abamanu, erguendo mais a coluna ao acalmar-se.

— Especula-se que a sentença já está para ser determinada. — disse o coletor de sobretudo — Como conhece nosso modus operandi... — esboçou um sorriso malévolo — Enfim, nossa furtividade deu um salto incrível em meio à toda a tensão, e com as vistas miradas em Chronos nada nem ninguém interceptou nossos movimentos.

O deus lunar suspirara, mas o que se entendia não era alívio.

— A coleta já está quase terminando. — informou o de terno, não tirando os olhos do imperador — Porque é isso que fazemos. — sorriu com canalhice — Tomamos de volta aquilo que é nosso. E o que não é nosso... também. — desviou o olhar para o companheiro.

— Então está tudo nos conformes. — disse Abamanu, virando as costas para se retirar.

— Por que a pressa? — perguntou o de sobretudo, estranhando.

— Até porque não nos contou o que anda o perturbando tanto. — disse o de terno, partilhando da dúvida. — Dividir para conquistar. Lembra?

— Não sentiram essa emanação? — perguntou Abamanu, fitando-os por cima do ombro. — A mortal que tentei obrigar a agir conforme meus intentos... sofreu uma lavagem cerebral que a forçou a recorrer à meu pior inimigo.

— A garota... chamada Rosie Campbell? — indagou o de terno — Ela realmente se entregou? Quanta coragem.

— Quer que detenhamos Yuga antes que cause estragos até chegar à você? — perguntou o de sobretudo.

A tentativa de adivinhação soou como uma verdadeira piada.

A gargalhada escarniante soltada pelo deus lunar os fez sentirem-se um tanto inferiores.

— Eu quero acreditar que não ouvi o que acabaram de dizer. — falou ele, ainda dando risadinhas infames. Voltou novamente seus sibilantes olhos amarelos para os aliados — Sofrerão uma morte rápida antes que tentem, seus palermas. Portanto, sugiro que foquem em seus deveres e não interfiram em nada do que Yuga estiver fazendo. Essa emanação tão poderosa quase não me fez reconhecê-lo. Rosie Campbell não foi nada mais que um mero objeto. Ela é o trunfo de sua vitória. — fez uma pausa, andando para sair — Não vai estar convencido disso por muito tempo se depender de mim. — a porta fechara com um baque estrondoso.

— O que acha de fazermos uma visitinha ao mago do tempo para inteira-lo das novidades? — sugestionou o de sobretudo, olhando para o companheiro com empolgação contida. — Tudo bem, assumo sem a menor culpa: Não ia resistir em fazer uns cortes no rosto dele, só como aperitivo. Você também não?

— Não, melhor deixarmos como está. — disse o de terno, mantendo os braços cruzados — Tudo no seu tempo. Não iremos meter nossas mãos onde não devemos e estragar o espetáculo. — dera uma risadinha, fazendo o parceiro sentir-se ligeiramente contagiado pelo espírito de neutralidade numa guerra onde os dois lados poderiam estar fadados a sucumbirem. Pois lá no fundo o que prevalecia era o típico orgulho de um coletor, o qual semeava a ideia de nunca estar de fato lutando por um lado.

***

QG Alternativo do Exército Britânico

O amplo refeitório possuía seu espaço ocupado pelo som das vozes dos soldados que punham a conversa em dia aproveitando o único e breve momento de lazer que era oferecido.

Porém, todas as atenções, simultaneamente, voltaram-se para o alto-faltante que normalmente era impercebido, produzindo seu característico ruído agudo. A última vez que havia sido utilizado foi quando ocorreram as operações paralelas em Birmingham e Liverpool.

A voz grave e áspera do General Holt retumbou sobre o espaço.

— Atenção, todos! É uma pena interromper a hora do recreio, mas devo informar que estamos diante de uma situação urgente e que exige medidas preventivas imediatas! A líder das operações de desmanche das fábricas ilegais, Rosie Campbell, se revelou uma ameaça potencialmente alarmante em todo o país! Mais do que isso... Revelou ser o que nós, seres humanos, mais tememos! Preparem-se agora, acionem a frota de tanques e a força aérea! Sinto muito desiludi-los, rapazes, mas, a partir deste momento, Rosie Campbell, de modo geral, não é mais uma de nós! É uma assassina paranormal que deve ser detida a qualquer custo!

— Eu avisei que essa garota era encrenca...

— Verdade. Não dava para confiar nela desde o início. Sabia que tinha algo no mínimo estranho nela.

— Que droga! Da próxima vou me lembrar de não deixar o melhor pedaço por último! — reclamou um soldado de porte robusto, largando sua bandeja e saindo às pressas.

Uma torrente de cochichos exasperados tomou conta de todo o local. Soldados comentavam entre si, enquanto se levantavam apressadamente, sobre o quão decepcionante a revelação era e o quão impactante foi sentida. Vários soldados largavam seus pratos e saíam das mesas diretamente ao vestiário

O refeitório se esvaziava à uma velocidade nunca antes vista.

***

Uma dor de cabeça latejante acometia Holt logo ao sentar em sua cadeira de couro após retornar ao gabinete. Não tinha percebido de ter esquecido a porta escancarada, mas ignorara completamente. Apoiou os cotovelos sobre a mesma e, com seu único olho fechado, passou as mãos pelo cabelo quase branco dando um suspiro pesado em explícito desespero. Suor fresco pingava de sua testa.

Uma olhadela no telefone à sua esquerda o fez cogitar algo incerto.

"Não faça besteiras, Holt! Você enxergou a prova, ela tinha toda a razão e não tem obrigação de reportar isso à ela só para receber zombarias e piadinhas em troca. Eu sinto... tanta vergonha! Jamais me senti tão impotente em toda minha vida!", pensou ele, logo, impulsivamente, puxando uma gaveta da mesa cujo interior abrigava uma pistola 45mm de cor preta. "Que se dane!". A pegou tremulamente, mirando o cano exatamente para sua testa e o encostando na mesma segurando com as duas mãos

"Fui tolo... tão tolo em negar que estava pronto. Estou cansado de enganar a mim mesmo!"

Pusera o dedo no gatilho, verdadeiramente preparado.

A entrada de um soldado, entretanto, quebrara o momento assustando o General de modo a fazê-lo sobressaltar e a arma acabar por disparar acidentalmente. Por sorte, o tiro atingiu a janela atrás da mesa. Holt, estabanado, largou a pistola na mesa, voltando os olhos horrorizados para o soldado que o encarava com um misto de temor e estranheza.

— O que está fazendo? O senhor está pálido... Olha, sem querer ser invasivo, mas me pareceu...

— Não é da sua conta. — interrompeu Holt, soando ríspido, tentando reaver a calma ao ofegar — O que me traz?

— Só vim avisar que os leitores de atividade sofreram um grave curto-circuito. De uma só vez.

— E de onde vem essa atividade com toda essa magnitude? — indagou Holt, levantando-se para se certificar do que estava temendo.

O soldado hesitou por alguns segundos, nervoso.

— De Rosie Campbell, senhor. — respondeu, sério. — Ela foi vista em Londres após cometer várias chacinas. Essa leitura suplanta a que foi feita por Edgar e seu grupo há dois anos naquelas ruínas.

A face chocada de Holt permaneceu por vários instantes. As palavras de Sekhmet remoíam-se mentalmente. "Um poder incontrolável.", pensou ele, a aflição crescendo no âmago como uma bomba-relógio. "Ela não estava mesmo errada".

***

O cadáver de um dos clientes daquele restaurante caíra reduzido à carvão, exalando uma fumaça abafada e exibindo parte de sua arcada dentária aberta. O estabelecimento possuía uma infraestrutura relativamente semelhante ao que fora invadido pelo deus solar anteriormente.

Yuga limpara as mãos, fitando o corpo em puro desdém, os cabelos loiros — outrora negros de Rosie — realçando com a luz solar que adentrava pelas janelas quebradas. Em algumas partes da parede amarela viam-se resquícios de carne humana tostada e resíduos de cinzas também achados nos cantos. O deus solar voltou-se para um atemorizado homem gorducho e ruivo de barba volumosa que se recostava sentado numa parede observando com pavor, praticamente respirando pela boca. Seu olhar de súplica intensificou-se quando o atroz executor deu passos adiante à ele.

— Muito bem. Onde nós paramos? — perguntou Yuga, debochante.

— Po.. Por favor, eu faço tudo, tudo o que você quiser, mas não me mate! — implorava Lorry, entristecendo a expressão de horror.

— Você realmente ainda não entendeu o porque de eu te-lo poupado. Sorte sua a paciência ter sido uma das poucas virtudes que me sobraram depois que eu mudei. — disse o deus, mantendo-se ameaçador.

— Então o que você quer de mim? — perguntou Lorry, suando profusamente — Dinheiro? Joias?

Yuga dera uma risadinha zombeteira.

— Me parece que não compreende mesmo o que acabou de acontecer diante dos seus patéticos olhos. — olhou em volta, as mãos levemente erguidas ao mostrar o espaço ocupado por corpos carbonizados — Veja ao seu redor, não está enlouquecendo, tudo isso foi real — olhou para Lorry -, e pude ver nos olhos dessas pessoas toda a angústia e o medo. Tentamos impor respeito com a melhor das intenções, mas o que ganhamos em troca é desproporcional ao nosso esforço... Nós incentivamos respeito e adoração e o que vemos por baixo da carne não passa de acovardamento. — deu uns passos à frente — Os mortais são desonestos, instáveis e escravos de seus temores. E quando se trata de eliminar as impurezas, não existe preço que pague a satisfação de realizar esse trabalho que foi conferido à mim.

Lorry engolira a saliva de forma súbita, afrouxando a gravata vermelha.

— Se entendi bem... Me poupou para que... para que eu escolhesse minha morte?

Um sorriso fechado e de canto surgira na face de Yuga.

— Não exatamente, mas gostei da ideia. — disse ele, deixando emanar um ar imprevisível — Mas como estou no controle, não seria justo essa decisão ser sua. Concorda? — indagou, logo depois erguendo levemente sua mão direita com a palma para cima e os dedos em posição de "garra", incutindo um efeito ardorosamente letal sobre aquele homem que chefiou as atividades humanas do escriba de Abamanu. O corpo de Lorry convulsionara e expelia-se sangue pela sua boca e pelos olhos que reviravam até as pupilas não ficarem mais visíveis.

— Ahn... Acho que passaram do ponto. — disse Mihos, surgindo de repente próximo a uma mesa queimada, olhando para cada um dos cadáveres queimados, logo voltando os olhos para seu pai.

Ao sentir a inconfundível presença do filho, Yuga virou-se com um semblante fortemente sério.

— E devo dizer que Rosie Campbell não lhe caiu bem. — provocou Mihos, sorrindo com ironia. Olhou-o com minúcia — Você mudou.

— Tudo mudou. — disse Yuga, aproximando-se — A propósito, por onde esteve... meu estimado filho?

— Fazendo o mesmo que você, só que não com tanta... — visualizou os corpos — ... impulsividade. Espero que o castigo dobrado não esteja de pé ainda.

— Isso vai ter de aguardar. — disse o deus solar, sucinto — Tenho punições mais importantes a executar, além de explorar os limites dessa força que este belo corpo ajudou a aprimorar em anos.

— Mamãe deve estar se mobilizando junto com a tropa de capachos — disse Mihos, virando-se de costas para o pai -, é só uma questão de tempo até a família estar reunida novamente.

— Ela que se dane. — disparou Yuga, esbanjando desprezo — E seria bom que mantivesse seu posicionamento. Uma vez que eu sentisse culpa por alguma insolência... seria pela morte do meu próprio filho.

A expressão de Mihos adquiriu uma seriedade embargada com um nervosismo incontrolável. Mas algo lhe dizia que a reação imaginada o prepararia melhor para fazer o que achava ser preciso.

— Sabe... O motivo pelo qual eu vim à este mundo foi pra extravasar toda a dor que as suas decisões me fizeram sentir. E não importava quanto sangue era derramado, toda aquela... sensação de insatisfação não diminuía. Era como se ter escapado só para ter que me distanciar não preenchesse a ferida. No fim das contas, eu só queria mesmo nossa família unida. Como nos velhos tempos.

— Eu o obrigo a aceitar os novos que estão por vir. — falou Yuga, o tom autoritário e soberbo — Venha comigo, estou lhe dando uma única chance de reconsiderar seu objetivo de vida ao lado do seu pai.

— A resposta é não. — declarou Mihos, lacônico, mantendo-se de costas — A questão é que... não bem é esse o caminho que deveria ter escolhido para reaver a glória do império. Você quer triunfar, mas está extrapolando, e como o filho dedicado e cuidadoso que sou... — levou a mão direita até seu colete marrom, tirando de dentro uma afiada adaga dourada em tamanho maior que o convencional — ... quero curar a doença do meu amado pai. — virou-se rapidamente, logo golpeando-o com a reluzente lâmina que, para o seu completo espanto, quebrara-se em pedaços ao chocar-se com o corpo de Rosie.

Yuga reergueu o olhar para seu filho, depreendendo o significado daquela visita. Sem mover um dedo, o empurrou com telecinesia contra a parede.

— Questione mais uma vez as minhas decisões e o farei padecer em um destino pior que a morte. — disse o deus solar, fitando-o com fúria. — Considere isso um aviso.

Mihos o encarava com repúdio.

— E eu pensando que já tinha gastado todas as opções. — ironizou ele.

— Não vou deixar seu atrevimento me testar. — disse Yuga, enfático — Você, ela e a massa de subordinados tratem de ficarem fora do meu caminho. Me arrependo de ter pensado em arrasta-lo comigo achando que isso me faria redescobrir os antigos valores, mas eu já tenho tudo o que preciso.

Uma ponta de rendição pôde ser observada na expressão de Mihos quando o mesmo assentiu positivamente ante à implacável decisão do soberano.

— Tudo bem. Fique por sua própria conta... já que meus serviços não são mais necessários.

E por fim o guerreiro escarlate desaparecera em nanosegundos, deixando seu pai solitariamente saborear a diversão sádica que só estava em seus primeiros avanços.

"Bem... Próximo.", pensou Yuga, olhando para toda a arrasada extensão do restaurante com um claro sentimento de trabalho concluído.

***

Croydon

Da sala de estar ao quarto de hóspedes, tudo inspirava puro silêncio. Algo percebido como muito repentino e suspeito por Eleonor que voltava da cozinha com uma bandeja amarela na qual continha cookies em prato e uma xícara de chá sobre um pires branco. Por reflexo, virou o rosto para a porta da frente, alterando a expressão para suspicácia imediata. Depois baixou seus verdes olhos para a mesinha de centro, onde se via um bilhete dobrado.

— Alexia? — chamou ela, querendo se certificar, olhando de soslaio para o corredor. Não obtendo resposta após cinco segundos, andou em direção à mesa, pousando a bandeja perto do vaso marrom com tulipas vermelhas, logo pegando o papel e o visualizando.

"Desculpe sair sem ter avisado, mas é urgente, preciso conhece-lo o quanto antes. Quanto mais forte essa ligação se torna, mais próxima eu sinto que devo estar dele. É como um instinto despertado muito tarde. Veja pelo lado bom antes de sair desesperada pra me buscar. Se o que Hector disse a você for verdade, então existe uma chance de me reaproximar à Rosie, ainda que remota, mas eu quero continuar acreditando. Vou retribuir todo o seu apoio à mim trazendo Rosie de volta à você. Eu prometo."

"Sua tola", pensou Eleonor, fechando os olhos por uns segundos e passando a língua entre os lábios para manter a calma. "Faça promessas que pode cumprir. Mas... quem sou eu pra impedi-la? É o escriba de Abamanu. Minha serventia não é nada comparada à dele. Então esse é verdadeiro lado bom da história: Finalmente vai estar ao lado de alguém especializado no seu dom. Não conte com trazer Rosie de volta, porque... as coisas nunca ocorrem exatamente como se planeja."

A bruxa deu um suspiro pesado e longo, amassando o pequeno papel, um tanto pensativa sobre a possibilidade de rever sua querida neta após o fim da luta, deixando derramar uma lágrima de incerteza.

***

O local selecionado para o teleporte havia sido uma antiga mansão abandonada por uma família cuja linhagem masculina detinha um extenso legado militar no Exército Britânico. No interior da estrutura colossal, mais precisamente no salão de festas, apenas Údon se encontrava, sozinho à espera da chegada do imperador solar ser capturado por um dos 10 sigilos teleportadores ligados ao único sigilo de Onúris localizado na sala de estar da cabana em Kéup, antigo QG da Legião.

O arqueu assoviava baixinho enquanto dava passos vagarosos no meio do recinto com as mãos nos bolsos da calça bege escuro. Lester, Hector e Áker estavam escondidos próximos à porta, observando pela brecha. O caçador estrategista não deixou de mencionar o quanto duvidava da coragem de Údon ao notar manchas de suor na camisa branca, exatamente na região das axilas.

— O barba cinza está tremendo nas bases. — disse ele, pouco confiante no plano.

— Nós avisamos que se algo der errado, iremos intervir. — salientou Áker, pacientemente vigilante.

— Como é? Ouvi um "nós"? — indagou Lester, olhando-o fingidamente confuso. — Você, quis dizer. Hector e eu ficamos na retaguarda até o fim e não se fala mais nisso.

— Lester. — disse Hector, desaprovando-o — Não é nada coerente você acusar Údon de estar sendo covarde e querer permanecer apenas assistindo, sem colaborar com nada. Temos as lâminas exclusivas que Áker nos deu e as balas douradas com sigilos entalhados.

— Ele forjou balas? Como assim tão rápido? — questionou Lester, apontando para o arauto.

— A partir das lâminas especiais. — informou Áker — Aqueço até liquefazer o material e extrair a quantidade exata. — voltou sua visão à Údon — Os efeitos podem ser temporários, mas talvez seja possível freá-lo para no caso do sigilo de Onúris não funcionar como esperado.

— Ah sim, se o barba cinza estiver errado é basicamente o mesmo que confirmar nossos leitos de morte. — disparou Lester, irrequieto.

— Não existe nada, nem mesmo um item raro capaz de drenar a energia bruta em toda a sua essência? — perguntou Hector, mantendo os olhos fixos em Údon.

— À esta altura, receio que nem mesmo o brasão de Sekhmet seja forte o bastante. — disse Áker, soando um tanto pessimista — Ele se tornou um monstro destruidor nunca antes visto. Algo que se contrapõe ao majestoso rei a quem jurei lealdade eterna. Não espero que nossas opções dobrem. Você, Hector, teve o desprazer de sentir uma fração do seu poder. O que me diz sobre isso?

O caçador baixou um pouco a cabeça, mordendo os lábios. Uma descrição era praticamente inviável.

— Creio que não experimentei nem um décimo. — disse o caçador, honestamente. — Você fez a ligação há 8 minutos... Essa demora toda é para nos testar? O que esse maldito pensa que...

Cortando a frase de Hector subitamente, Yuga aparecera diante de Údon que se virou com alarme.

— E falando no diabo... — disse Lester, em seguida estreitando os olhos — É impressão minha ou... ela tingiu o cabelo? — deu um sorriso malicioso — Até que caiu bem.

Uma atmosfera silenciosa fez o ar do salão tornar-se carregado de tensão.

Údon o fitava sério, a postura equilibrada.

— Ora, ora, ora... — disse Yuga, sorrindo para o arqueu, dando alguns passos — Se não é o meu ilustre confidente. Veio renegociar os termos?

— Não vim negociar nada. — disse Údon. "Mantenha a calma, não olhe para o chão...".

— Você nunca foi de poucas palavras. — disse o deus solar, continuando a andar — O que houve? Estou tão feio até pelo meu conveniente aliado?! Não me leve a mal... mas é um pouco decepcionante, se precisou do meu segundo em comando pra me chamar sobre algo tão importante, deveria ao menos prestar algum respeito. Que tal começar com uma reverência, só pra variar? — sugeriu, erguendo a mão direita e usando sua aura para fazer Údon curvar-se perante à ele.

Hector não se aguentou ao ver o arqueu cair de joelhos com os ombros encolhidos e sendo forçado a realizar um gesto diante de alguém que não merecia.

— Está o torturando...

— Não. — disse Áker, impedindo-o de fazer uma besteira — Údon vai se sobressair. — falou, assentindo positivamente. — Tenho certeza.

Údon contorcia-se por dentro devido ao imenso poder de submissão incutido sobre ele, rangendo os dentes com os olhos fechados e apertados e sua cabeça sendo abaixada ao chão.

Parecendo entediado, Yuga suspirou e desfizera o controle, baixando sua mão.

— É, sou mesmo um teimoso. — disse ele, olhando o arqueu com altivez — Nunca tem graça quando é forçado.

— Eu não me referia... á monstruosidade que se transformou.... — disse Údon, levantando-se — ... Meu repúdio vai ao fato do quanto esta mortal está sendo maltratada por dentro.

— Que estranho. Ao fazer a previsão, não via toda essa piedade no seu rosto. — declarou Yuga, não deixando dúvidas de que ainda mantinha-se no controle — Talvez seja porque... — ergueu de leve a mão direita com os dedos indicador, maior e polegar juntos — ... não queira desagradar os seus novos amigos ali atrás. — estalara os dedos.

Como fantasmas, o trio surgira no meio do salão de festas. Hector demonstrou estupefação intensa na face. Lester olhou ao redor, tocando no corpo, completamente impressionado.

— O que é que foi isso? — indagou Lester, recuando alguns passos, amedrontado.

Hector fitou o deus solar com um misto de seriedade e raiva.

— Por que ficaram espiando? — perguntou Údon, aborrecido. — É essa a confiança que vocês querem que eu aceite?

— Errado, arqueu. — disse Yuga, elevando o tom da agradável voz de Rosie — A pergunta que não quer calar é: Tínhamos um acordo ou não, Hector?

Tanto Údon quanto Áker voltaram olhares surpresos para o caçador. Desconcertado, Hector se limitou a ficar nervosamente pensativo. Lester não mediu protesto.

— Como é que é?! — disse, franzindo o cenho — Hector, que história é essa de acordo? Fez um pacto com esse monstro?

— Eu posso explicar... — disse o caçador, erguendo de leve sua mão esquerda em pedido por calma.

— Na verdade, sou eu quem devo. — retrucou Yuga, com um olhar infame — Concordei com o prazo de cinco dias para que ele pudesse encontrar a quimera e enfim aceitar seu verdadeiro destino, em troca de poupar suas vidas miseráveis.

— Cara, você ainda não aprendeu que esse negócio de guardar segredo sempre acaba em merda. — disse Lester, repreendendo-o.

— Se entregar à Abamanu em sacrifício por nossas vidas!? — disse Áker, olhando-o com o cenho franzido — Onde estava com a cabeça, Hector?

— Está bem, chega. — disse o caçador, aparentando estar farto — Já não importa mais.

— A sobrevivência dos seus aliados? — indagou Yuga, visualizando cada um deles com canalhice — Benevolência não é de fato uma característica inerente aos que são destinados às trevas.

Em um impulso surpreendente, Lester chamara atenção do resto do grupo ao sacar seu revólver e aponta-lo bravamente em direção à Yuga.

— Lester, o que vai... — disse Hector, apreensivo, quase considerando detê-lo.

Antes que deixasse o amigo concluir a frase, o caçador disparara contra a testa de Rosie em um estampido retumbante que fizera o deus solar inclinar rapidamente a cabeça para trás devido ao impacto da bala.

— Idiota! — disse Údon, recuando alguns passos.

— O que foi? Só o peguei de surpresa pra testar uma teoria! — defendeu-se ele, a fumaça saindo do cano da arma.

— Foi um movimento muito imprudente, Sr. Cooper. — reprovou Áker, concordando com os demais. — Combinamos que as balas seriam usadas se as coisas não saíssem de acordo com o plano.

A gargalhada espalhafatosa e maléfica de Yuga com a voz de Rosie assustara-os.

— E quando isso esteve ao ponto de dar certo, afinal? — questionou ele, desinclinando a cabeça e baixando-a à frente, ainda dando com ares de riso. A bala dourada caiu com um tilintar ressoante estando retorcida. — São ignorantes... estúpidos... e amadores. — falou, erguendo a cabeça exibindo a marca do tiro na testa se regenerando. — Hector, tolero todos os pecados... menos a traição. Ainda mais sendo pelas minhas costas! Agora entendo como Rosie se sentiu quando a enganou porque no fundo você não passava de um covarde, incapaz de proteger alguém que ama!

Hector o fitava com mais fervorosidade, ouvindo as provocações em silêncio por via das dúvidas. Mas palavras começavam a engasgar-se a cada segundo. "Se eu pudesse arranca-lo dela com minhas próprias mãos..."

— E como punição pela deslealdade... — disse Yuga, fazendo crescer labaredas de fogo do seu braço direito que o preenchiam — ... vou começar com seu insolente companheiro. — visou Lester com fúria, logo em seguida esticando o braço flamejante e lançando uma poderosa rajada de chamas.

Áker prontificou-se e, superveloz, correu para salvar Lester de ser atingido, tirando-o do caminho no último segundo antes que o fogo alcançasse.

Ambos caíram no chão após bolarem até baterem na parede.

— Como se sente? — perguntou o arauto.

— Um pouco constrangido. Será que dá pra sair de cima? — pediu Lester, educadamente, arqueando as sobrancelhas.

Údon não perdera mais tempo e assumiu a frente, recitando o dialeto divino para acionar o sigilo.

Um intenso clarão formou-se ao redor de Yuga que visualizava as linhas que reconheceu ao seu redor. Um vislumbrante olhar de revolta foi a última que o arqueu viu no deus solar antes da claridade esbranquiçada irromper com mais potência por todo o salão.

Hector protegera os olhos com um dos braços, enquanto Lester era levantado por Áker.

— Obrigado. — agradeceu o caçador, ignorando o clarão — Se não fosse por você, o desgraçado ia comemorar a vitória com churrasquinho de Lester.

A luz diminuía em questão de segundos. Údon voltara-se para Hector e escancarando sua pressa pela forma como ia se aproximando.

— Rápido, toquem em mim. — disse ele, pegando a mão direita de Hector e a colocando sobre seu ombro. — Menos você, Áker. — determinou o arqueu, enfático, olhando com firmeza. Lester chegara perto, tocando-o.

— Podem ir. — aquiesceu Áker, assentindo — Eu cuido de reparar os danos que ele causou nas pessoas. — fez que sim para Hector que retribuíra com o mesmo gesto.

— Tudo bem. Nos vemos em breve. — disse Údon, logo desaparecendo dali com ambos os caçadores na velocidade de um pensamento.

CONTINUA...