QG Alternativo do Exército Britânico

Um gole do uísque dado de uma única vez pelo General Holt seria o primeiro de vários após o que se passara horas antes. O chefe militar, visivelmente cabisbaixo, parou a mão que segurava o copo que iria depositar sobre a mesa, novamente repensando sobre o complexo de inferioridade que recaíra sobre sua mente em relação aos acontecimentos aterrorizantes registrados. Lhe corroía a sensação de que o mundo estava prestes a mudar para uma era de medo e encolhimento ante ao mal súbito que apareceu como se o universo estivesse o testando até onde iria sua autoridade e a sua firmeza quanto aos dejetos anormais que escorriam direto ao mundo que considerava bonito com as leis e ordens mantidas. A adaptatividade da espécie humana a esse novo mundo era o ponto mais crucial.

A mão que segurava o copo tremia.

"Estou me testando... ao mesmo tempo em que me açoito com esse... temor. Por que? Por que não consigo ficar satisfeito com minha humanidade frágil? Por que... Por que eu sinto tanto medo?"

Enfurecido, arremessara o copo em direção à parede próxima à porta do gabinete.

Uma mão o pegara de forma certeira antes que se espatifasse.

Holt, estupefato e boquiaberto, foi levantando-se devagar sem ter como responder àquela rapidez.

— Como entrou aqui? — perguntou ele, o tom de voz elevado.

Áker ficara "estudando" o copo por alguns segundos até erguer o olhar para o General.

— Sua raiva é injustificável. — retrucou o arauto, devolvendo o copo ao joga-lo à Holt que o pegara por um triz. — Mas estou aqui para ameniza-la. — deu alguns passos na direção dele — Nunca fomos apresentados formalmente, me chamo Á...

— Parado aí! — disse Holt, sacando um revólver e apontando-o para o arauto — Se for um deles...

— Na verdade, eu sou. — respondeu Áker, parando — Mas saiba que tomei a iniciativa por independência. Eu fui encarregado de avisar à Rosie Campbell de seu destino e fui longe demais, talvez... eu tenha desenvolvido uma espécie de afeição que não sinto vergonha de ter. Os humanos me mostraram mais do que apenas seus instintos enraizados. Me mostraram o propósito real da vida e o quanto vale a pena lutar por ele, não importa o que aconteça.

A expressão de Holt ainda exibia irredutibilidade.

— Então foi para isso que veio? — indagou ele, mantendo a arma mirada — Dizer o quanto ama a humanidade para tentar provar que é uma exceção à regra? Me poupe, eu não nasci ontem!

— Por favor, General, escute. — pediu Áker, o olhar pacífico — Sei que está perturbado com os últimos eventos que envolvem Rosie... Mas há uma razão contundente que, no momento, é demais para que assimile.

— Vocês são cheios de segredos! — reclamou Holt, a raiva sendo indicada pela veia saltada na testa suada — Mas não me importo. — passou a língua entre os lábios — Chegará um dia em que vou idealizar uma maneira de confrontar, banir e, se possível, exterminar qualquer ameaça que fuja à compreensão humana. Se uma bala disparada dessa arma ao menos o ferisse gravemente... — disse, baixando o revólver para a mesa, desistindo do ato estúpido — Como disse mesmo que se chamava?

— Áker. — disse o arauto — Ex-subordinado de Sekhmet. Lamento pelos tormentos que ela lhe causou...

— Se refere a isto? — indagou Holt, apontando para o seu tapa-olho — Não é nada comparado a toda a humilhação que tive que me permitir sofrer se eu quisesse confirmar a impressão negativa que ela tinha da senhorita Campbell. Agora que a verdade veio à tona da pior forma possível... — levantou uma sobrancelha ainda furioso — Onde a vadia se meteu?

— Essa pergunta nos leva direto ao ponto-chave do que gostaria de discutir com o senhor?

— Não seja ridículo. — retrucou Holt, pegando a garrafa do uísque e dando um gole pelo boca dela — Não precisa me dirigir a palavra com tanta formalidade. Você é um deus. — olhou-o da cabeça aos pés. — Mesmo sob a pele de um só homem tem a força de um milhão.

— Não sou um deus. — afirmou Áker, olhando-o fixamente — Agora não passo de um desajustado que se designou a proteger um mundo que repele tudo o que lhe escapa ao senso comum. — fez uma pausa, aproximando-se um pouco mais do General — E o que ocorreu hoje me deu a oportunidade de começar essa missão.

— Do que está falando? — perguntou Holt, franzindo o cenho, andando meio cambaleante até o arauto.

— Sekhmet... e Rosie... se enfrentaram no centro de Liverpool há pouco menos de meia hora. Muita destruição. E muitos olhares curiosos, aterrorizados e confusos. Sem mortes. Concordamos em intervir depois de uma reunião bastante concentrada. Diante de todo esse baque que sofreram... não consigo vê-los seguindo em frente sabendo que uma fagulha da verdade até então oculta está gravada nelas como marcas de feridas que talvez continuem doendo. Poucos de vocês estão prontos para essa verdade.

— E o que decidiram fazer? — perguntou o General, completamente atento.

— Limpar suas mentes. — respondeu Áker, andando pela sala vagarosamente com as mãos para trás — Apagar cada resquício absorvido desse confronto. Começará em poucos dias, assim que os danos forem consertados.

Uma ponta de compreensão surgira na mente do General, fazendo-o avaliar a situação minimamente.

— Você também... Quero dizer... Eu também terei minha memória deletada?

— Não exatamente... — disse Áker, fazendo um certo suspense, logo virando-se — Embora seja difícil que se adapte à essas novas condições em pouco tempo, vai conseguir encara-las quando menos perceber e só quando estiver preparado. — fez uma pausa, chegando mais perto e erguendo sua mão direita — Hector precisa estar ao lado de Rosie quando tudo isso acabar. E como eu soube que ainda guarda ressentimentos sobre o que ele é e o que foi forçado a fazer.... — direcionou rapidamente a mão à têmpora esquerda do General a fim de apagar das entranhas da memória do chefe militar qualquer lembrança relacionada às evidências colhidas do assassinato dos tios de Edgar ocorrido após a primeira transformação do caçador em licantropo meta-simbionte.

Holt baixara a cabeça gemendo devido ao forte efeito do poder de Áker. O arauto, satisfeito, respirou fundo, mantendo-se ciente de seu propósito de vida dali em diante.

***

Área florestal de Raizenbool — 19h30

No Casarão, Hector e Lester aguardavam pacientes por novidades, fossem elas agradáveis ou terrivelmente desastrosas. O caçador-detetive estava reflexivo olhando pela janela, de braços cruzados e com o ombro encostado na parede, a luz do luar banhando-o. Já o caçador estrategista estava sentado no sofá com a perna esquerda sobre a coxa direita, a luz amarela do abajur pegando metade de seu corpo. Por um momento se pegou a fitar o companheiro como se tivesse uma curiosidade pedindo para ser respondida.

— Só agora que percebi... — disse ele, estreitando os olhos — ... Você enjaulou mesmo a fera, de verdade. Pra estar contemplando a lua cheia com toda essa calma, deve ter exigido muita força de si. — fez uma pausa, mordendo os lábios e olhando para o chão — O Adam deve ter surtado quando te viu transformado... não foi?

— Olha, Lester... — disse Hector, passando uma mão no rosto em sinal de cansaço — Não quero falar sobre isso agora.

— Ah, tudo bem. — aquiesceu Lester, se levantando do sofá — Com agora você quer dizer... nunca. Certo? OK, entendi. — deu uma batidinhas na calça, logo suspirando longamente — Porque temos coisas mais importantes a resolver.

— O que você quer que eu diga? — perguntou Hector, virando-se para ele, aparentando estar aborrecido — Quer que eu me transforme para saciar sua curiosidade como o jeito fácil de enterrar esse assunto?

— Ei, ei, calma aí. — disse o caçador, erguendo de leve as duas mãos, incomodado — Não vá descontando essa raiva pra cima de mim. Porque pra ser honesto eu também sinto que perdi a Rosie. Tudo bem que não éramos muito chegados, mas... — demonstrou sensibilidade — Não tô afim de parar. Disse que não ia desistir e vou manter essa promessa até o fim. — falou, cerrando um punho.

— Está bem. — disse Hector, mais calmo, desviando os olhos para um canto — Me desculpe, eu...

— Não, sem mágoa, eu te entendo perfeitamente. — disse Lester, compreensivo — Só... vamos continuar esperando o barba cinza ou o ave de rapina voltar.

Poucos segundos depois de Lester menciona-los, um deles surgira no meio da sala em teleporte.

Hector alertou-se e se aproximou rápido.

— Údon.

— Bem-vindo de volta. Calças novas? — indagou Lester, apontando, em tom irônico e brincalhão com o arqueu.

— Ha-ha. — riu Údon forçadamente para o caçador, desfazendo o sorriso logo em seguida — Voltei para ficar dessa vez. Não que signifique que pretendi fugir com Alexia para bem distante, meu nome está na lista negra de um demiurgo e já ficou bem provado que não sou tão bom como fugitivo quanto sou em rabiscar sigilos.

— E quanto a Alexia? — perguntou Hector, intrigado — Imaginei que viria na sua companhia.

— Deixei que ela passasse a noite na minha casa para reorganizar as ideias. Tivemos uma conversa bastante aprofundada. — disse Údon, em seguida andando devagar pela sala juntando as mãos e esfregando-as suavemente — Ela ficará bem, desde que Yuga não tenha um surto psicótico e a transforme em poeira cósmica pelas minhas costas.

— Posso assegurar que isso não tem a menor chance de acontecer. — dissera Áker, aparecendo repentinamente próximo a uma das janelas como um vulto. Foi andando até o trio.

— Isso aqui ainda vai virar a casa da mãe Joana. — disse Lester, em tom baixo, referenciando o quanto os teleportes inesperados o incomodavam.

— Áker, o que quer dizer? — perguntou Hector, curioso.

— Ele aceitou a rendição de uma forma muito estranha. — disse o arauto, olhando para os aliados — Não sei se souberam, mas... Sekhmet o confrontou em Liverpool publicamente, houve intervenção do Exército Britânico que vai ajudar a apagar os rastros de destruição.

— Eles lutaram!? — questionou Hector, espantado — Mas por que Sekhmet acreditaria que tivesse alguma chance de vencer?

— Atrasa-lo, talvez. — especulou Áker, dando de ombros — Ou, sendo ingênua, esperando que o amuleto drenasse toda a energia insistindo no plano de salva-lo.

— Que imbecil. — debochou Údon sorrindo de canto — À esta altura, deve estar rastejando feito uma barata com sua casca mutilada.

— Receio que não. — retrucou Áker, voltando-se para o arqueu — Aquele receptáculo é o seu passe livre para interagir com o General Holt. Se gravemente ferida, vai se regenerar em poucos dias. Caso o contrário, pode ter conseguido escapar bolando alguma outra estratégia com sua tropa. E é nesta hipótese em que confio.

— Então Yuga se rendeu ao Exército. Como isso aconteceu? — perguntou Hector.

— Obviamente, acreditam ser Rosie. — disse Áker — Teoricamente, ele pode estar desejando competir com Abamanu sobre quem governará o mundo, querendo fazer do QG o seu palácio. Só está esperando uma brecha.

— Que pena, pois isso vai demorar. — disse Údon, fazendo com que olhares estranhos o encarassem — Estava até pensando em estabelecer contato para reconsiderar o acordo que ele selou com Hector.

— Espere aí, Údon, o que está planejando? — perguntou Hector, olhando-o suspeitoso.

— Ainda temos o exorcismo, esqueceu? — disse Lester, não esperando algo benéfico do novo plano.

— E vamos utiliza-lo, mas desta vez será por definitivo. — disse Údon, esbanjando uma surpreendente confiança — Afinal, porque o desafixarmos de Rosie e esperar que ele volte só para enfrentar Abamanu... quando podemos aprisiona-los para sempre?

— Agora ficou interessante. — disse Lester, cruzando os braços. — Nos conta mais.

— Há uma dimensão, assim como o Salão das Duas Verdades, fora do tempo e espaço. Mais do que isso, nela não se propaga som, não há gravidade...

— Espera, você tá considerando manda-los para um tipo de espaço sideral? — perguntou Lester, duvidando com certa confusão.

— Me deixe terminar e saberá. — rebateu Údon, arqueando as sobrancelhas — É uma prisão cuja abertura é solicitada quando deuses de qualquer escalão cometem atos que vão contra as leis universais. Conhecida como o Vazio, foi a medida radical determinada por unanimidade no Conselho Geral. Abamanu e Yuga feriram estas leis, cuja violação prevê exatamente essa punição.

— Desculpe, Údon, não vou ser parte disso. — disse Áker, mostrando-se contrário ao plano — Não estamos em posição de julgarmos. Pode haver consequências se agirmos deliberadamente.

— Você tem uma ideia melhor? — retrucou o arqueu, levantando uma sobrancelha — Continuando... O portal só pode ser aberto a cada 1.000 anos e a chave para abri-lo só pode ser obtida se 7 armas divinas do mesmo panteão forem reunidas e banhadas com o sangue de um mortal próximo a um deus.

— Temos o mago do tempo. — disse Áker, ainda aparentando estar hesitando contra o plano.

Hector sentiu o desânimo tomar conta dele amargamente.

— Mas Charlie está confinado sabe-se lá em qual ponto do palácio de Abamanu. Teremos mais trabalho, gastaremos toda a energia para ser investida nesse plano tentando uma invasão que pode acarretar em sérios problemas. Lembrem-se que os coletores estão aliados a ele e podem ser usados como bucha de canhão para nos encurralar em relação às armas e os soldados de Abamanu para barrar o local onde está a prisão de Charlie.

— Eu tive a ideia do acordo ser restaurado, mas não disse que Yuga deveria saber. — declarou Údon, mantendo-se seguro com a aposta — É aí que você entra.

— Não está sugerindo... — temeu Hector, fechando os olhos aturdido com o que estava prestes a ouvir.

— Sim, você vai. — disse arqueu, o tom de voz convencedor — É o único que pode fazê-lo. Sem mago do tempo, sem plano. Com seu pior inimigo detendo um poder incontrolável, vai se sentir entre a cruz e a espada e nem é preciso prever qual opção ele achar conveniente, ainda que de má vontade.

— Por mais que eu odeie admitir... — disse Áker, a inquietação querendo domina-lo — ... ele tem razão. Não existe outra saída senão arriscar esta.

O caçador tinha de aceitar que encontrava-se em um beco sem rumo.

— Farei por Rosie. — declarou Hector, a voz firme, assentindo positivamente.

Údon concordara.

— Você dirá que nosso único alvo é Yuga, o convencendo de que sua influência pode arruinar com seus planos, daí você explica os detalhes do nosso plano. — olhou para Lester e Áker com certa expectativa — Com essas caras vocês com certeza não estão preparados para ter o Cavaleiro da Noite Eterna como improvável aliado.

— E quando ele descobrir que passamos a perna nele? — perguntou Lester, temeroso.

— Ah, meus amigos... — falou Údon, estranhamente auto-confiante na visão dos companheiros — Quando menos ele perceber, já vai estar bem aqui... — tocou seu indicador direito na palma esquerda virada para cima, dando um sibilino sorriso.

***

QG Alternativo do Exército Britânico

No corredor de paredes cinzentas e iluminado por boas lâmpadas fluorescentes que dava até a sala de controle de acesso restrito, dois soldados bateram continência ao General Holt que se aproximava para fazer sua análise do panorama geral da situação.

— Olá, General. — disse um deles, com orgulho.

Holt fez que sim com a cabeça, a expressão séria.

— Qual é o status?

Ambos os subordinados entreolharam-se como se sentissem obrigados a decidir quem relataria.

— Indefinível, senhor. — respondeu o segundo — Desde que a cela foi trancada ela entrou em um aparente estado meditativo que não respondeu a nenhum estímulo externo. — fez uma pausa, meio relutante ao engolir a saliva — E está... flutuando.

Sem surpresa esboçada, Holt captou a mensagem e, em silêncio, andou para abrir a porta para conferir com seus próprios olhos e tentar extrair uma conclusão.

A sala de controle deveria permanecer escura. A única fonte de luz encontrava-se acima da cadeira do mediador de experiência que se encarregava de acionar todo e qualquer funcionamento que a cela de contenção disponibilizasse para determinados fins. À frente do painel estava uma ampla vidraça reforçada que oferecia uma visão geral da cela que era coberta por placas metálicas verticalmente retangulares, com altura de mais de 8 metros.

A atenção do General focou-se somente no corpo de Rosie Campbell pairando no ar em posição de meio lótus com os olhos fechados.

A cor do cabelo alterada foi a menor das dúvidas.

Com o olho estreitado, o General ficou a observar, intrigado e divagante, mergulhando fundo em um oceano de dúvidas que a qualquer instante poderia tornar-se uma forte correnteza e arrasta-lo para uma vala onde encontraria um fim que detestava imaginar.

"O que você é... Rosie Campbell?"