Capturada

3 Capítulo III


Henry ainda não conseguia acreditar no que tinha acontecido.

Passar as últimas duas horas na delegacia não tinha feito sua ficha cair.

Já havia revivido dezenas de vezes o momento em que havia voltado à trilha e encontrado Clara, Lara e um dos guias com os rostos pálidos. Queria ter certeza de que não deixara passar nenhuma pista que indicasse o que havia acontecido com sua irmã.

Mas cada vez que revivia o momento mais desesperado ficava. Sentia vontade de quebrar alguma coisa sempre que se lembrava de Clara se atirando sobre ele e o abraçando apertado, e, em seguida fazendo a pergunta que desmoronou seu mundo.

—Onde está Annie?

Henry limpou rapidamente uma lágrima solitária que escorreu por sua bochecha.

Onde estava sua irmã? Será que ainda estava viva? E se estivesse, o que estariam fazendo com ela?

Porque se alguém tocasse em um fio de cabelo de Annie... Ele iria fazer o desgraçado sofrer mil vezes mais do que ela!

—A culpa é minha- Clara sussurrou ao seu lado no sofá— A obriguei a fazer a trilha.

—Mas fui eu que a deixei sozinha naquele lugar— A voz de Henry estava baixa e cheia de raiva reprimida. Raiva de si mesmo e daquela cidade maldita.

Clara apertou sua mão e olhou para ele com os olhos castanhos vermelhos e cheios de culpa.

—Não acho que alguém aqui seja o culpado— Lara disse da poltrona a sua frente passando a mão entre os fios de cabelo— Mas mesmo que seja não vejo como isso pode ajudar a encontrar Annie.

—Eu só... — Henry se calou quando a porta de vidro da pousada se abriu e seus pais entraram.

O rapaz se levantou no mesmo instante e correu até eles.

Henry se espremeu contra o corpo da mãe se sentindo como um garotinho perdido que acaba de voltar para casa. Os braços dela o apertaram com força, como estivesse com medo de que ele também sumisse.

—Mãe, Annie... — Henry engasgou, sua raiva deu lugar ao medo e a dor. Um bolo se formou em sua garganta e as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Ele tinha a sensação de que depois de horas as reprimindo, elas tinham finalmente achado o caminho para fora.

—Shiii... —A mãe sussurrou e o apertou mais forte. A mão do pai apertou seu ombro.

—É minha culpa— Ele sussurrou rouco. A mãe precisava saber que ele tinha deixado a irmã sozinha, que não havia cuidado dela como tinha prometido.

—Não, não é. Olhe para mim— A mãe se afastou alguns centímetros e ergueu o rosto do filho para que olhasse em seus olhos. Havia uma força que Henry nunca havia visto no rosto da mãe— Nenhum de vocês três tinha como saber o que iria acontecer.

Os olhos de Lilian brilharam quando acrescentou limpado as lágrimas do rosto de Henry:

—E nós vamos encontrar sua irmã, esta me ouvindo?

O rapaz concordou com um aceno de cabeça. Havia tanta certeza nos olhos e na voz da mãe que uma pequena parte de seu peito se aqueceu diante daquelas palavras.

A determinação queimou dentro de Henry. Eles iam encontram Annie e a trazer de volta. Viva. Ou isso ou ele iria quebrar aquela cidade inteira até encontrar o culpado e fazê-lo pagar por cada segundo de sofrimento que Annie fosse submetida.

*****

Seus sentidos foram voltando lentamente.

Aos poucos as lembranças confusas em sua mente foram se juntando para montar o quebra-cabeça completo.

O medo atingiu Annie tão forte quanto uma pedrada na testa. Porém, um pequeno alívio se instalou em sua alma.

Ela estava viva.

Mas talvez não por muito tempo.

Annie já havia lido livros o suficiente para saber que muitas vezes os sequestros não tinham um final feliz, e que nem sempre era dinheiro que os sequestradores queriam.

Provavelmente iria sofrer muito antes de morrer.

Lentamente, à medida que a lentidão que envolvia sua mente foi desaparecendo, descobriu que tinha sido largada de bruços sob uma superfície fria e áspera, e que estava vendada.

Quando tentou se virar de barriga para cima percebeu que não tinha força suficiente, e que seus braços tinham sido amarrados atrás de suas costas, e que suas pernas tinham sido amarradas juntas.

Provavelmente o crápula que a havia sequestrado devia achar que ela era um saco de batatas. Ou melhor, a crápula.

Annie tinha quase certeza de que era um corpo feminino que havia sentido contra sua costa quando foi agarrada na trilha.

Depois do que pareceram ser horas a força começou a retornar a seus membros e sua mente ficou mais clara e leve.

Com muito esforço conseguiu se virar de costas para o chão e em seguida se sentar.

Pela primeira vez em sua mente desesperada percebeu o cheiro ruim de mofo que impregnava o lugar.

Depois de alguns minutos Annie se pegou desejando ter feito as malditas aulas de dança- que a mãe queria que fizesse- quando tentou passar as pernas por entre os braços para poder manter as mãos a frente do corpo e poder retirar a venda.

Depois de falhar miseravelmente, tentou balançar a cabeça para tentar fazer a venda cair de seu rosto. Mas depois de dez minutos de tentativas falhas desistiu, e então tentou se levantar.

Mas descobriu que era praticamente impossível com as cordas apertadas em volta de seus tornozelos.

Um suspiro quebrado e cheio de desespero escapou de seus lábios.

A pequena esperança que estava lutando para cultivar desde que tinha acordado parecia desaparecer a cada lágrima que ela reprimia.

Não tinha como sair dali. Teria sido melhor que nem tivesse acordado.

Um rangido vindo de algum lugar à sua direita a sobressaltou e a fez virar a cabeça às cegas.

Annie apurou os ouvidos para tentar ouvir mais alguma coisa, mas as batidas alucinadas de seu coração a impedia de identificar qualquer som.

Porem depois de alguns segundos um rangido muito mais alto achegou até ela. Parecia uma porta se abrindo.

Annie pensou em fingir que ainda não havia acordado, mas quando uma pequena claridade entrou por debaixo da venda que cobria seus olhos, percebeu que era tarde demais, fosse quem fosse já a tinha visto.

Annie tentou não chorar quando passos pesados soaram a menos de dois metros de distancia de seu corpo.

Uma risada que mais parecia um latido chegou aos seus ouvidos, fazendo todos seus músculos se tencionarem. Em seguida uma voz masculina rosnou satisfeita:

—Fico feliz que a nossa gatinha tenha finalmente acordado. Estava ansioso para começar a brincar.

Um frio que Annie nunca tinha sentido antes se instalou em seu corpo e congelou sua alma.

Notas finais
O que estão achando?