Captura em Le Cap
12 Shay - Um Assunto Pessoal
Shay pensava que carregar um corpo pela cidade causaria estranhamento nas pessoas à sua volta. Ficou surpreso ao ver que estava enganado. Os cidadãos pareciam pouco se importar com o fato de que ele levava nos ombros o corpo de um negro inconsciente. Mas mesmo assim, o Templário resolveu se precaver. A população podia estar alheia, mas a Irmandade dos Assassinos possuía olhos e ouvidos por todo canto. Transportar o corpo de um de seus membros não parecia uma boa ideia, caso cruzasse outro em seu caminho. Desse modo, Gist retornou à Morrigan para tentar disfarçar o corpo do Assassino, de modo que não chamassem atenção mais tarde.
Enquanto isso, Shay entrou na fragata de onde o encapuzado havia saído. Perguntou pelo nome de William Cavendish. O homem que lhe atendeu disse que ia chamar o comerciante, mas logo voltou dizendo que ele estava morto. Shay entrou em seus aposentos. O cadáver estava curvado, como se William houvesse esfaqueado a própria garganta. Ele então vasculhou a cabine em busca de documentos importantes, para talvez encontrar algo que pudesse provar a ligação de Cavendish com os Assassinos. No entanto, não encontrou nada; se havia provas, o Assassino provavelmente já as havia recolhido.
O que o levava de volta à Morrigan. Gist havia embrulhado o corpo em um lençol branco que tinham a bordo. Mal se reconhecia o conteúdo embrulhado. Mas, como todo cuidado é pouco, chamaram pela ajuda de dois marujos. Shay e Gist caminhariam sozinhos à casa do Mestre Duvalier, enquanto Finn e Thomas os acompanhariam alguns metros atrás, carregando o corpo.
Não demoraram para chegar à fazenda, e por sorte não tiveram problemas no percurso. Mas, na fazenda, notaram uma certa solidão. Normalmente algum capataz lhes permitiria a entrada, mas desta vez a propriedade estava mal guardada, com apenas alguns guardas espalhados em frente à mansão. O arrastão assassino do dia anterior havia claramente diminuído os ânimos de todos.
Desse modo, o grupo andou diretamente até a casa, onde foram recebidos pelo Mestre Xavier, que segurava uma caneca de café. Ele lhes saudou, em francês:
—Mestre Gist! Sr. Cormac! O que os traz de volta?
—Capturamos um deles.
Shay retirou o lençol de cima do rosto do Assassino, puxando o capuz do mesmo. Olatunde analisou mais de perto, entusiasmado.
—Um Assassino? Vivo? Isso é ótimo! – e, voltando-se para o interior do aposento, prosseguiu: – Guillaume, novidades!
—Por falar nisso, como está Guillaume? – perguntou Gist – Está se recuperando do veneno?
O Templário suspirou.
—Vejam por si mesmos.
Os homens entraram na sala de estar. Duvalier estava sentado em uma mesa bebendo café, mais pálido do que nunca e com olheiras profundas.
—Boa tarde, cavalheiros! Quais são as novidades?
Gist respondeu-lhe:
—Senhor, estávamos no porto, investigando por pistas dos Assassinos. Acabamos encontrando um deles em pessoa.
Shay fez um sinal para Finn e Thomas, que deitaram o corpo no chão, descobrindo-o do lençol.
—Ele estava em uma missão de assassinato. – explicou Christopher – Quando o encontramos, ele havia acabado de matar seu alvo, que identificamos como sendo um comerciante chamado William Cavendish.
—Maldito! – exclamou Olatunde – Estava na nossa lista de suspeitos!
—Acho que isso confirmou as suas suspeitas! – ironizou Gist.
—Confirmou que nossas pistas estão mortas! – ele continuou, em remorso – Eu deveria ter percebido que ele estava em Cap-Français! Deveríamos ter chegado a ele antes dos Assassinos!
—Nenhum bem virá de lamentações, Mestre Xavier. Temos um refém; isso é uma boa notícia e é isso o que importa.
—De fato, Sr. Cormac. – interveio Duvalier – Em primeiro lugar, deveríamos revistá-lo. Talvez tenha algo útil consigo.
Dito isso, Shay curvou-se sobre o Assassino. Primeiro retirou as lâminas ocultas dele — não queria ser surpreendido caso ele acordasse repentinamente. Em seguida, analisou os bolsos em seu manto. Logo encontrou, na parte interna do traje, um maço de documentos. Shay abriu um deles e constatou que se tratava de uma carta com um remetente que lhe trazia lembranças detestáveis: Achilles Davenport. Assim, entregou o maço a Guillaume, que pôs-se a lê-lo.
Enquanto um Templário lia, o outro vasculhava o cinto de ferramentas do Assassino, a fim de desarmá-lo por completo. Nisso, Shay encontrou uma espada, uma bolsa com bombas de fumaça e estalinhos ruidosos, além de três frascos com venenos diversos e uma bolsinha com moedas de ouro.
—Estas cartas são um milagre! – exclamou Duvalier – Cavendish tinha vários contatos entre os Assassinos: Nathanael Burke, Achilles Davenport, Nicolas de Saint-Prix, François-Marie Arouet, Louis-Joseph Gaultier...
—Odeio esse sujeito. – resmungou Shay ao ouvir o último nome.
—E, é claro, François Mackandal. Cavalheiros, nosso trabalho já está a meio caminho!
—O que William fez para ser tão importante? – Gist perguntou.
—Aparentemente ele vendia armas de todos os tipos para a Irmandade.
—É um tolo então. Ele trabalha com Assassinos, mas não consegue ter a decência de queimar seus documentos – comentou Xavier, apontando para as cartas – A Irmandade já teve aliados melhores...
—Agradeçamos a Deus por esse tolo descuido, cavalheiros. As cartas de William estão escritas em algum código complicado, mas decerto não indecifrável. Elas poderão ser úteis para a Ordem em ambos os lados do Atlântico – virando-se para Shay, Guillaume completou: – inclusive para o seu Grão-Mestre Kenway.
—Excelente. Mas e quanto ao Assassino?
Após Shay perguntar isso, os olhos dos Templários viraram-se para o ainda desmaiado refém. O Mestre Duvalier respondeu:
—Eu o manterei aqui. Mandarei meus capatazes se certificarem de fazê-lo falar. – aproximou-se do Assassino com uma certa fúria nos olhos – Farei o que for preciso para que ele confesse onde está o seu Mentor. Em hipótese alguma eu deixarei que Mackandal fique impune por seus crimes. Vou encontra-lo e providenciar sua morte.
•
Mais tarde, Shay e o Mestre Xavier saíram para o centro da cidade a fim de investigar um comerciante chamado Antoine de Rue. Ele mantinha rotas mercantes entre Saint-Domingue e Québec, encontrava-se em Cap-Français e estava na lista de suspeitos de Xavier. No entanto, os Templários falaram com o homem e puderam reunir informações o suficiente para concluir que ele de fato nada sabia sobre os Assassinos. Assim, mais uma vez se reuniram com os Mestres Gist e Duvalier, bem a tempo de ver a interrogação do Assassino refém.
Já era noite, e os homens se encontravam numa casinha nos quintais da fazenda. O ambiente era iluminado por uma vela, e dois capatazes arrastavam o Assassino pelo chão, segurando-o cada um por um braço. Outro capataz se encontrava à frente deles.
—Ele ainda não acordou? – perguntou Guillaume ao capataz.
—Não, chefe. Seja lá o que ele tenha tomado, era muito forte.
—Hm... – indagou – Então acorde-o... por meios igualmente fortes.
Dito isso, o capataz socou o Assassino com força. Ele acordou, sobressaltado, e analisou o local onde estava. Seus olhos por um momento espelharam um desespero, mas quando viram Shay e os outros Templários, se encheram de raiva.
—Boa noite, Assassino! – cumprimentou Duvalier, irônico e se curvando para o refém – Dormiu bem?
—Modi ou!— ele respondeu – Me soltem!
—Oh, mas é claro que te soltaremos. Isto é, depois que você nos agraciar com suas preciosas informações. É uma pergunta bem simples, na verdade: Onde o seu Mentor está escondido?
O Assassino se calou. Houve silêncio no recinto por meio minuto.
—Ele não vai falar. – comentou Gist, atrás dele.
—De fato não irá. – adicionou Xavier.
—Pra que esse pessimismo, cavalheiros? – falou Duvalier – Ele vai falar sim. Eu lhes garanto.
Dito isso, ele se curvou. Aproximou seu rosto ao do Assassino e falou, em tom ameaçador:
—Eu conheço você... Você é o preto filho de uma puta que me serviu aquela maldita comida envenenada! – ele deu um tapa forte no refém – Tentou me matar! Olhe para o meu rosto. Está contente com o resultado? – mais um tapa – Arsênico! Bah. Um ótimo exemplo de como Mackandal é um pária. Um homem honrado enfrentaria seus inimigos cara a cara. Mas, em vez disso, François manda um de seus seguidores matar o inimigo com veneno. Veneno! A arma dos covardes! – ele deu outro tapa, dessa vez com ainda mais fúria – E pensar que, séculos atrás, usar veneno era uma proibição na sua Irmandade... Mas, para Mackandal, essa é a arma principal! Estou dizendo, aquele desgraçado conseguiu corromper o pouco de legitimidade que o seu Credo tem, e o transformou em uma falsa ideologia de puro caos e matança! E você ainda o segue! – Duvalier completou o monólogo com uma série de três socos. Sangue começou a escorrer da boca do Assassino.
Shay assistia àquilo sem saber o que sentir. Por um lado, tinha satisfação em ver um Assassino sendo punido. Mas, por outro, tinha espanto em ver Duvalier agir daquela forma. Ele sempre havia se mostrado tão razoável, mantendo a compostura em qualquer ocasião. Mas agora ele revelava uma brutalidade estarrecedora. Shay por um momento quis interferir. Levantou o braço e abriu a boca para falar com ele; no entanto, Olatunde, ao seu lado, fez um sinal para permanecer calado e não parar o interrogatório, abaixando-lhe o braço.
Enquanto isso, o Assassino, recuperando o fôlego, fitou o Templário, balbuciando:
—Você também seguiria Mackandal... se soubesse o que é ser um escravo!
Guillaume mais uma vez estapeou o Assassino. Em seguida, se acalmando, suspirou e virou-se para os colegas.
—A negligência do Assassino não me surpreende. Cavalheiros, sugiro que deixemos ele por enquanto. Com o tempo, atingiremos nosso objetivo. – com um sinal para os capatazes que se encontravam no recinto, completou: – Providenciem isso.
Os Templários saíram da casinha, com exceção de Guillaume, que ficou lá por mais um minuto. Shay aproveitou sua ausência e falou aos outros:
—Isso é loucura!
—O que é loucura, Sr. Cormac?
—Duvalier. Eu nunca o vi tão furioso. Isso era mesmo necessário?
Christopher o fitou.
—Shay, o Mestre Duvalier é um Templário respeitado há quase vinte anos. Ele sabe o que faz.
—Além do mais... – prosseguiu Xavier – ...temos que organizar nossas prioridades. Mackandal tem a Caixa mágica dos Precursores. Não sabemos o que ele pode estar fazendo com ela, mas ele com certeza pode iniciar outro terremoto quando bem entender. Nesse sentido, não culpe Duvalier por perder sua compostura falando com o Assassino. Para ele, isso é um assunto pessoal.
—Pessoal?
Olatunde suspirou.
—Anos atrás, o Mestre tinha uma esposa, além de um filho, que seria pouco mais novo que você hoje em dia. Ambos estavam em Port-au-Prince no dia do terremoto. Ele com certeza está preocupado com o futuro de Saint-Domingue, disso não duvido; mas desconfio que o motivo principal para ele estar obcecado em achar Mackandal é esse. Ele quer se vingar.
Nesse momento, o dito-cujo se juntou aos demais Templários.
—Ah, então está resolvido. O Assassino está sob os cuidados dos meus homens. Não dou muito tempo até ele falar. Deixemos que façam o trabalho.
—Então... – perguntou Gist – ...estamos dispensados?
Duvalier o fitou.
—Não por enquanto. Vamos para dentro da mansão. Bebamos alguma coisa, sim?
—Ótima ideia, senhor. Eu estou precisando.
—Eu que o diga, Mestre Gist. – Guillaume completou, sorrindo.
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