Captura em Le Cap
1 Prólogo - Intensas Revoltas
Cap-Français, novembro de 1758
O dia amanhecia na cidade de Cap-Français, e, como sempre, o trabalho começava. Centenas de escravos, homens e mulheres negros trazidos de terras africanas, dirigiam-se às plantações de cana-de-açúcar, onde trabalhariam arduamente por horas sob um sol escaldante, enquanto eram supervisionados por capatazes que não hesitariam se tivessem de castiga-los fisicamente. Era esse o cotidiano da cidade. Um cotidiano em que negros eram desde a infância rodeados pelo trabalho, e em que seus senhores brancos viviam rodeados pelo luxo e pelas riquezas da dinâmica colonial.
Uma dinâmica muito bem-sucedida, aliás, já que a colônia francesa de Saint-Domingue, parte oeste da ilha de Hispaniola, era não apenas a maior fonte de renda da França, mas também a mais lucrativa colônia dentre as dezenas que compunham o Mar das Índias Ocidentais. Era de lá que vinha boa parte do açúcar, café e tabaco que eram levados à Europa. Não se pode esperar menos, já que a dinâmica escravista de Saint-Domingue era a mais intensa do continente: a população escrava superava a população livre numa proporção de dez para um. E, em Cap-Français, a capital da colônia, carinhosamente apelidada de Le Cap, essa proporção não era diferente.
Mas, como preveria o espanhol Laureano Torres caso ele ainda estivesse vivo, tal cenário de intensa escravidão está propenso a intensas revoltas. A rebelião maroon estava presente em todo o Caribe, mas se concentrava em Saint-Domingue. Vários escravos, percebendo a ausência de esperanças em seus destinos, fugiam para a liberdade. Nas montanhas do sul se concentrava a resistência dos maroons, ex-escravos que dedicavam suas vidas para libertar cada vez mais cativos e tentar pôr um fim à opressão. Essa rebelião era apenas um vislumbre da grande e sangrenta revolução que transformará a colônia em país daqui a algumas décadas.
Quando a Irmandade dos Assassinos chegou a Saint-Domingue pela primeira vez, na década de 1730, logo se identificou com a causa dos maroons. A liberdade de pensamento pela qual os Assassinos lutavam só poderia se iniciar após a liberdade do corpo. Assim, anos depois, o líder dos maroons era ninguém mais ninguém menos que o Assassino François Mackandal. Um ex-escravo que perdeu boa parte de seu braço esquerdo em um acidente com uma máquina de moer cana, Mackandal reuniu os maroons e os Assassinos de Saint-Domingue em torno da magia vodu. Sob sua liderança, os rebeldes invadiam plantações, libertando os escravos e matando os capatazes. Mackandal inclusive defendia que todas as pessoas brancas de Saint-Domingue deveriam ser exterminadas, algo que seu parceiro, o lendário Mestre Assassino Adéwalé, considerava extremo demais.
O quartel-general dos Assassinos costumava ficar na cidade de Port-au-Prince, mas, após um terremoto devastar a região em 1751, a sede teve de ser mudada para Le Cap, no norte da colônia. François Mackandal liderava o novo quartel-general, enquanto Adéwalé e outros Assassinos permaneciam em Port-au-Prince para ajudar na reconstrução da cidade. Sem Adéwalé por perto, Mackandal não via obstáculos para pôr seus planos em ação. Ele queria ver os franceses pagarem pelas décadas de horror que impuseram aos seus escravos. Usando a cultura do veneno, ele propagou entre os Assassinos um extermínio de brancos. Os Assassinos negros passaram a ter como objetivo matar os brancos mais poderosos sempre que viam a chance. Os poucos Assassinos que eram brancos foram expulsos da Irmandade e executados pelo próprio Mackandal.
Era sob esse cenário que vivia Cap-Français em 1758. As autoridades francesas, apoiadas pela Ordem dos Templários, se preocupavam cada vez mais em colocar um fim às ações de Mackandal. Mesmo assim, a vida na cidade continuava. O porto continuava movimentado como sempre, com vários navios mercantes indo e vindo todo dia, carregando o melhor açúcar de Saint-Domingue. Mas, naquele dia de Novembro, um dos navios não estava interessado em comércio. O navio era uma escuna pequena, mas muito bem fortificada, com vários canhões e uma grossa armadura. O capitão do navio era um homem branco de cabelo liso, que descia ao porto. Usava em seu dedo anelar direito um anel, que trazia a gravura da cruz templária.
Não muito longe dali, dois Assassinos observavam a cena por uma luneta. Apontaram o objeto para a popa do navio de onde vinha o Templário, e leram com atenção o nome da escuna: Morrigan.
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