Captura em Le Cap

5 Agaté - Três Coelhos


Era quase meia-noite daquele mesmo dia quando os Assassinos se reuniram na sala de estar da casa principal. Cerca de doze homens estavam de pé em volta de uma mesa comprida e retangular, sobre a qual se estendia um mapa de Cap-Français e seus arredores. O ambiente era iluminado por velas postas nos cantos da mesa e pela luz da Lua. Na cabeceira estava o Mentor, com um semblante mais sério do que o normal. As outras pessoas presentes eram Mestres Assassinos ou Assassinos veteranos, como Agaté. Ao seu lado estava seu amigo Baptiste, que acabara de retornar de Cap-Français, trazendo informações a respeito dos assuntos templários de Shay Cormac e seus parceiros.

Mackandal enfim deu início à reunião.

Trè byen. Meus leais Assassinos... Serei breve. Nesta manhã, um Templário chegou à cidade, vindo das colônias do norte. Seu nome é Shay Cormac. Ele é um homem perigoso e acha que estamos em posse de uma das Peças do Éden. Nossa missão pelos próximos dias é uma só: mata-lo. Fazê-lo pagar pelos crimes que cometeu contra a Irmandade do Norte e contra a nossa própria.

—Mais especificamente... – interveio o Mestre Claude – Pagar por trair, saquear e matar membros da Irmandade do Norte; e por matar um membro da nossa Irmandade: Adéwalé.

Dito isso, burburinhos se formaram entre os outros Assassinos. A morte de Adéwalé era algo que certamente todos naquela sala gostariam de vingar.

—Um dos nossos homens, Baptiste... – continuou o Mentor, apontando para o aprendiz citado – ...pôde hoje espionar Shay e trazer informações sobre nosso alvo. Baptiste, conte-nos o que você viu e ouviu.

—Sim, Mentor. Após eu e Agaté encontrarmos Shay no porto... – o Assassino dissertou conforme apontava para localizações no mapa – ...eu segui ele e um parceiro Templário que o acompanhava. Eles se dirigiram a uma fazenda de tabaco que descobri pertencer a Guillaume Duvalier.

—Duvalier?

—Mas como? – perguntou o Assassino Kobina – Durante anos, procuramos pistas que nos levassem a ele, sem sucesso. Como você pode tê-lo encontrado de repente?

—É porque eu finalmente descobri: Duvalier usa um pseudônimo, e por isso nós não o encontramos. Eu me infiltrei na fazenda, fingindo ser um escravo. Todos lá, tanto escravos quanto capatazes, o conhecem pelo nome de Philippe Laurent. Imagino que seja por esse nome que ele se apresente a todos na cidade.

Houve um silêncio. Mackandal estava pensativo, e Claude comentou:

—Isso é algo importante, Baptiste. Você tem certeza de que o dono da fazenda era mesmo Duvalier? Ele poderia ser de fato algum Philippe Laurent.

—Tenho certeza absoluta, Mestre Claude. Primeiro o vi de relance por uma janela na mansão dele, mas na hora do jantar, não houve dúvidas. Eu próprio servi sopa a ele e aos outros dois Templários. Não havia como não o reconhecer.

—Você conseguiu ouvir algo da conversa deles? – perguntou François.

—Infelizmente pude ouvir muito pouco, Mentor. Escutei Duvalier dizendo que havia convocado uma reunião para planejar a... – Baptiste fitou Mackandal, com receio – Planejar a sua morte, Mentor.

Mackandal apenas sorriu.

—E onde e quando será essa reunião, Baptiste? – indagou Jean, um Mestre Assassino.

—Será amanhã, mas não consegui ouvir o local. Pouco antes de Duvalier falar, um capataz me ordenou que eu voltasse à cozinha. Como eu não podia estragar meu disfarce, apenas o obedeci.

Te fè byen, Baptiste. Você lembra onde fica essa fazenda?

—Mas é claro, Mentor. – respondeu, apontando para o mapa.

—Muito bem. Se você pôde se infiltrar lá, poderá se infiltrar de novo. Qualquer que seja o método que usemos, a fazenda será a base de nosso ataque. Quero lembrá-los, senhores, de que devemos investir nos próximos dois dias.

—Dois dias? – exclamou Agaté – Mas por quê?

—Porque a nossa iniciação acontecerá no terceiro dia, e estaremos mais vulneráveis nessa ocasião.

—Claro, não podemos esquecer que os Templários estão atrás de nós tanto quanto nós estamos atrás deles. – comentou Claude – A cerimônia da iniciação irá concentrar muitos dos nossos homens. Estaremos mais visíveis nesse dia, e qualquer descuido pode ter maus resultados.

Todos se lembravam da iniciação anual que aconteceria na próxima sexta-feira. Naquele dia, todos os recrutas treinados para serem Assassinos iriam oficialmente ingressar na Irmandade, com uma grande cerimônia vodu. O próprio Mentor seria o sacerdote da cerimônia, visto que ele já era um houngan antes de se tornar um Assassino. A cerimônia não se aplicaria apenas aos Assassinos de Cap-Français. Outros membros, vindos de sucursais assassinas em todos os cantos da ilha de Hispaniola, presenciariam o evento, que contaria não apenas com a presença dos iniciados, mas dos Mestres também. Por exemplo, Babatunde Josèphe, filho de Adéwalé e líder Assassino em Port-au-Prince, estaria presente, com meia dúzia de seus novos recrutas.

—Por isso temos que agir antes da cerimônia. Deveríamos atacar a fazenda de Duvalier amanhã. – propôs Jean – Como Baptiste disse, haverá uma reunião de Templários. Ou seja, Duvalier e os outros não estarão na fazenda.

—O que facilita nossa infiltração. – completou Mackandal – Bon lide, Jean.

—Se mandarmos um ou dois homens para fingirem ser escravos... Eles podem envenenar a comida de Cormac e Duvalier. E, de quebra, com os Templários eliminados, podemos enviar um grupo maior para matar os guardas e libertar os escravos. Assim, matamos Cormac, matamos Duvalier, e trazemos mais pessoas para compor nossa comunidade. Acertaremos três coelhos com uma cajadada só.

—Seu plano tem uma falha, Jean. – interferiu Claude – Aquele é o lar de Duvalier, mas como podemos ter certeza de que Cormac estará lá?

Mackandal se pronunciou.

—O navio dele continua atracado no porto, não é, Agaté?

—Creio que sim, Mentor. – respondeu o aprendiz.

—Pois bem. Eu digo que devemos mandar alguém para seguí-los até a reunião. Um dos nossos seguirá Shay, e outro seguirá Guillaume. Mas essas pessoas deverão ser cautelosas, e não atacar nenhum deles antes da hora. Mesmo que a hora para atacar não apareça, ao menos teremos espionado a reunião de nossos inimigos.

Um silêncio se instaurou entre o grupo. O Mentor olhou em volta, encarando cada Assassino.

—Todos de acordo com o plano?

A resposta foi unânime: sim. Pelos quarenta minutos seguintes, os Assassinos discutiram os detalhes do plano. Decidiram quem seria responsável por cada função, qual veneno seria usado, quando atacariam, entre outros. Era assim que os Assassinos agiam: minuciosamente. Era necessário planejar todos os mínimos detalhes, para impedir que qualquer falha ocorresse. Seu disfarce era atuar nas sombras, e ser avistado não era uma opção.