Captura em Le Cap
3 Agaté - Menos Espertos do que Pensam Ser
Notas iniciais
Terça-feira
Os dois Assassinos encontravam-se no telhado de uma construção de dois pisos, próximos ao porto de Cap-Français, observando atentamente o movimento nas docas. Encobertos por seus típicos capuzes e vestindo mantos de cor bege, ambos eram negros e tinham cerca de trinta anos. O da esquerda tinha cabelo crespo e curto. O da direita, que segurava uma luneta para ver melhor o porto, era careca e tinha um pequeno cavanhaque.
—E então, Agaté? Consegue ver algo?
—Consigo! Temos ali uma escuna chamada Morrigan. – disse, passando a luneta para o amigo – Não era essa a que o Mentor nos disse para procurar?
O outro Assassino olhou pela luneta e analisou a imagem.
—Sim. E veja só: o capitão do navio veste uma armadura templária e usa o que parece ser um anel templário no dedo. Só pode ser ele! – ele sorriu – Agaté, teremos boas notícias para dar ao Mentor!
—Não, Baptiste. Essas são más notícias.
—Como?
—Lembra-se? O Mentor disse que o ideal seria que a Morrigan nunca chegasse a Le Cap. Deveria ter afundado no meio do caminho.
—Ah. – continuou Baptiste. Enquanto o navio terminava de ser atracado, o capitão Templário descia do navio, junto a um homem mais velho que também parecia ser membro da Ordem. – Você acha que eles são perigosos? Esses Templários?
—Eu não sei. Mas sei que são forasteiros. Parecem mais britânicos do que franceses.
—Qualquer que seja a origem, precisamos relatar isso ao Mentor. Volte para o esconderijo e conte a ele.
—Tudo bem, mas e quanto a você?
—Templários costumam andar em bando. Irei segui-los para ver aonde nos levam e extrair o máximo de informações que puder.
—Boa sorte e até logo, Baptiste! – Agaté completou, com um sorriso para o amigo.
Ele desceu do telhado e caminhou em direção ao sul, acompanhando o rio. Após quarenta minutos de caminhada, chegou ao esconderijo. Para chegar lá, era necessário seguir contra o curso do rio Mapou e penetrar por alguns quilômetros de mata densa e úmida. Algum desavisado poderia facilmente se perder (e era essa a intenção dos Assassinos), mas Agaté sabia aonde ia, e logo chegou ao terreno desmatado, oculto dentro da selva que havia nos arredores de Cap-Français. Lá vivia a pequena comunidade criada por Assassinos. Nela, os moradores, negros e negras libertos de seus grilhões, cuidavam de plantações de legumes, onde trabalhavam livremente pelo bem comum da vila. A comida era repartida entre todos, e o excedente era vendido em Cap-Français. Os Assassinos usavam o lucro obtido para construir mais casas na vila e alforriar mais escravos.
Enquanto os moradores trabalhavam, recrutas eram treinados para ingressar na Irmandade dos Assassinos. Recebiam aulas de combate, caça, escalada, furtividade, cultura vodu e, mais importante, aulas sobre os valores dos Assassinos. Os valores de liberdade do corpo e da mente, que agora permitiam a dezenas de escravos abandonar seus passados e construir seus futuros.
Naquele dia, Agaté chegava ao campo de treinamento e via justamente aquilo. O Mentor dos Assassinos, François Mackandal, estava sentado em uma pedra, ao lado do Mestre Assassino Claude Dubois. François contava alguma história de sua vida a cinco ou seis recrutas sentados em roda, todos jovens entre 16 e 25 anos.
—Com licença, Mentor. – interveio Agaté.
Mackandal se interrompeu e fitou o Assassino. Ao fazer isso, um sorriso se abriu em meio à sua barba grisalha.
—Agaté, zanmi mwen, como vai? Estávamos justamente falando de você! – exclamou ele, usando sua única mão para dar tapinhas nas costas de Agaté.
—Mesmo?
—Sim, eu estava contando a eles sobre o dia em que invadi a fazenda onde você e Baptiste trabalhavam e os recrutei para a causa. – virando-se para os recrutas, completou: – Veem, rapazes? O Agaté aqui já foi como vocês. Com um treinamento dedicado, podem se tornar iguais a ele algum dia.
—Agradeço os elogios, Mentor. – Agaté respondeu, modesto – Mas vim aqui porque tenho notícias a lhe dar.
—Mas é claro. Garotos, acabou a folga! Voltem para a aula com o Mestre Dubois.
Agaté acompanhou Mackandal enquanto ele entrava na casa principal, que não era muito grande, mas era a maior da vila. Quando estavam a sós no escritório de François, Agaté falou:
—Mentor, eu e Baptiste estivemos monitorando o porto de Le Cap nos últimos dias. Hoje, o navio Morrigan finalmente chegou. De lá, saíram dois Templários de origem britânica, um deles o capitão do navio. Baptiste deve estar seguindo-os neste exato momento.
Mackandal olhou para seu aprendiz, surpreso. Ele disse, enfim, com pesar:
—Maldição. Parece que Achilles e eu subestimamos o inimigo.
—Se me permite, Mentor... posso saber o que há nesse navio?
—Wi, zanmi. A Morrigan veio das colônias britânicas do norte. O capitão de que você falou... é Shay Cormac, um ianque traidor, que já foi membro da Irmandade Norte-Americana.
—Mas... ele trocou os Assassinos pelos Templários? – exclamou Agaté, indignado – Traição é um crime punido com morte em nossas leis!
—E acha que eu não sei disso? Você é testemunha, eu não perdoo traidores entre meus homens. Sempre cuido de dar um fim neles. Mas este homem... Os Assassinos do Norte tentam mata-lo há mais de dois anos. Mas, ao invés disso, Shay matou alguns dos seus melhores Assassinos. Ele é uma fera perigosa. Para ter uma ideia, lembra-se de quando Adéwalé viajou para o norte e lá faleceu?
—Sim, eu lembro. Mas o que isso...? – Agaté subitamente hesitou. Ele então ligou os pontos e percebeu: Shay, o homem que ele vira no porto, era o responsável pela morte de Adéwalé. O ódio correu por seu corpo. O respeito que ele tinha por Adéwalé era tão grande quanto (ou até maior do que) o que tinha por Mackandal.
—Quando soube, fiquei tão bravo quanto você. Eu quis vingar Adé. Eu então troquei cartas com Achilles, um velho conhecido meu na Irmandade de Inagua, e atual Mentor da Irmandade de Davenport, na América do Norte. Nós tramamos um esquema para emboscar Shay. O Sr. Cormac estava há muito procurando uma Caixa Precursora de tecnologia d’Aqueles que Vieram Antes. Então, no Norte, Achilles deu um jeito de enviar aos Templários a informação de que eu estava com a Caixa. Nós sabíamos que Shay seria mandado até aqui, então preparamos quatro exímios navios para ataca-lo no meio do caminho. Duas das melhores naves de Achilles e duas das minhas melhores, nas docas que mantemos perto de Port-de-Paix.
—Vejo que o desgraçado sobreviveu ao ataque. – disse Agaté, com raiva.
—Sim. – assentiu Mackandal, pesaroso – Por isso nós temos o plano B: agora que Shay chegou a Cap-Français, ele passa a ser nossa responsabilidade. Nós cuidaremos da morte dele, e faremos o que Achilles não conseguiu; enquanto isso, nossos colegas do Norte ganham tempo para compreender como a Caixa que eu mencionei funciona.
—Caixa? No Norte? Mas você acabou de dizer que está com ela!
—Eu disse?
—Disse.
Mackandal então gargalhou alto.
—Essa é a parte engraçada, meu amigo! Eu não estou com a Caixa! Era um blefe!
—Blefe? Uau!
—Sim, os Templários são bem menos espertos do que pensam ser! – completou, ainda rindo.
—Isso é muito... perspicaz, Mentor. Mas Shay acha que a Caixa está aqui. Imagino que ele não vai querer voltar às colônias do Norte de mãos vazias.
Mackandal gradativamente parou de rir, e, quando já estava sério, disse:
—De fato, ele não vai voltar de mãos vazias, Agaté. Mas acredite em mim... – François então flexionou seu antebraço para ejetar a lâmina oculta que nele havia. Da ponta da lâmina pingaram gotas de veneno. – ...ele não irá precisar voltar quando for enterrado aqui mesmo.
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