Capitão Da Frota
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mama = Mamãe em francês (lê-se mamá)
Papa = Papai em francês (lê-se papá)
O rebuliço no cais era total. Todos falavam da chegada do Capitão Lemund, comandante da frota de navios da Marinha Francesa. Os murmúrios eram extremamente irritantes e além de tudo a movimentação para transformar o porto sujo e fetido de Dunquerque em um lugar ligeiramente apresentável era agonizante, de um esforço totalmente desnecessário e impossível.
Não tenho nada contra esse homem, o tal Capitão, mas acho um desperdício de tempo da parte das pessoas dessa medíocre cidade tentar impressioná-lo. Era óbvio que ele nunca mais pisaria nesse local em sua vida, mas não, o acolhedor povo de Dunquerque tem que mostrar o seu valor e seu respeito sobre o heróico Capitão Lemund! Deus, como isso é desnecessário! Tudo bem que ele venceu as Guerras territoriais do Sul, mas era apenas sua obrigação. Me pergunto se o famoso bordel da cidade também estava se preparando dessa forma...
– Senhorita Morsson? – A voz rude e severa do Sr. Topinson me fez corda de meus devaneios. O olhei um pouco perdida. – Chegou a sua vez senhorita. O que vai querer? – Oh, verdade, estava tão perdida em minha irritação que nem percebi que havia chegado a minha vez de ser atendida no minúsculo, e também o unico, Armazém da região.
– Dois quilos de farinha inglesa, uma lingüiça italiana, uma barra de chocolate meio amargo e 500 gramas de açúcar. Ah, por favor, tenha cuidado para que dessa vez ela seja pesada corretamente. Papai ficou furioso porque da ultima vez que comprou aqui vieram cinco gramas a menos que o pedido.
Assim que mencionei o nome de papai o Sr. Topinson engoliu em seco. Eu era uma das filhas de Pierre Morsson, o milionário local temido por seu pulso firme e seu castigo encima de quem não o obedecesse ou respeitasse. Sei que elas falam a verdade, mas foram poucas as ocasiões em que vi Papa tratar alguem de forma rude. Em casa ele era um homem dócil e gentil, que fazia de tudo para agradar as filhas e o pequeno herdeiro, isso claro, se nós o agradacemos também.
Em minha casa eramos cinco irmãos. Simone é a mais velha, está noiva de um rico comerciante Inglês que se derreteu por seus encantos, não que eu o culpe, Simone era realmente uma mulher linda, linda como uma rosa. Na auge de seus 18 anos já havia conseguido a proesa de ser uma completa dama, encantava qualquer um com seu jeito delicado e seus lindos cabelos castanhos.
A irmã do meio era a Anne, está para nascer no mundo pessoa mais dócil e gentil que ela. Anne tinha 17 anos de vida, era ruiva de cachos grossos, igualmente linda a Simone, porém completamente diferente em temperamento. Choviam pretendentes encima dela, mas papai sempre os chutava para fora de casa; ele respeitava o sonho de ser uma Freira Carmelita de sua filha, tanto é que daqui a duas semanas ela partira para o convento.
Sou a filha mais nova, Cecile. Tenho 16 anos e mamãe já possui planos de casamento para mim. Não que me importe, as garotas aqui geralmente casam aos 13, 14 anos de idade. Na verdade já estava mais do que na hora, mas não que me sentisse muito animada com a ideia.
Mama sempre foi uma mulher rude e de pulso firme, que muitas vezes botava mais medo do que meu próprio pai, mas também uma pessoa incrívelmente justa. Queria que aproveitássemos a nossa juventude com molecagens e diversão, não com responsabilidades e filhos como ela, que casou-se aos 14 anos.
Por ultimo há meu encapetado e querido irmão Josef, ele será o grande herdeiro da construtora marítima dos Morsson, mas para isso precisaria crescer um pouco mais, afinal ninguem comanda nada com apenas 8 anos de idade. No final das contas isso não era problema, papai era forte como um touro e viveria por mais muitos anos. Isso também funcionava para mamãe, ela possuí 32 anos, doze anos mas nova que papai. Sorri, eu tinha uma família considerada perfeita, e de certa forma realmente pode ser considerada assim.
Sr. Topinson virou-se de forma desajeitada com alguns pacotes a mão e fazendo um enorme barulho. Segurei um sorriso.
– Aqui esta Senhorita Morsson. – Ele colocou os pacotes encima do balcão velho de madeira. – E diga a seu pai que coloquei as cinco gramas que faltaram da outra vez nesta encomenda.
Ele deu um sorriso nervoso, fazendo com que seu bigode tremesse. Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços.
– Eu direi Senhor Topinson, mas o senhor espera mesmo que uma dama leve todo esse peso?
Sorri delicadamente. Sim, eu poderia levar os pacotes, mas mamãe assim que me visse carregando-os reclamaria comigo provavelmente dizendo algo como “ Menina, homens não gostam de mulheres brutas.” ou então “ Isso é trabalho de escravo Cecile, onde já se viu uma dama carregando peso?!” e como eu queria evitar esse tipo de coisa não iria carregar nada.
– Er, desculpe Senhorita Morrson é que a senhorita sempre leva então pensei que não se importaria de levar hoje.
– Levava Senhor Topinson, mas não levo mais, então trate de mandar um de seus empregados entregar essa mercadoria intacta em minha casa e ainda hoje. – Fiz uma pequena referencia com a cabeça e virei às costas para ir embora.
– Por favor senhorita, so mas essa vez. Meus empregados estão ocupados limpando a baia. — Bufei, que homem mais chato!
– Olhe aqui Senhor Topinson. – Ele se surpreendeu com meu tom irritado. – Trate de mandar um de seus homens agora mesmo levar essa mercadoria, ou meu pai ira ter uma conversinha com o senhor sobre como se trata um cliente, e ainda por cima uma dama! – Ele arregalou os olhos.
– C-claro, irei mandar agora mesmo. – Sorri, fiz uma nova referencia e sai daquele lugar imundo.
Não era comum uma garota de alta classe como eu ir fazer as compras do mercado, mas não me importava. Era o único lugar fora dos muros da mansão que podia ir. Meus pais – principalmente Mama – não queriam que eu me misturasse com os pobres. Revirei os olhos, que besteira da parte deles, não via nada demais em falar um “oi” ou um “bom dia” para alguém de porte social mais baixo que o meu, mas para eles isso era importante, então não discutia.
O caminho do Armazém até minha casa era curto então ia a pé. O sol cinzento típico da região do norte da França estava me fazendo suar, não gostava disso. Se não bastasse os vestidos pesados e os metros de tecido ainda existia o sol e o mormaço. Caminhei poucos minutos, não daria mais de dez, e avistei os enormes portões negros da Mansão Morsson e logo em seguida escutei a risada estridente e alegre de Josef.
– Cecile! – Josef gritou assim que me viu e eu sorri para ele. – Onde estão as compras? Você trouxe meu chocolate belga? Diz que sim, por favor! – Ele balançava minha saia e eu revirei os olhos.
– Pare com isso Josef! – Mama apareceu com sua escrava pessoal à tira colo. Luri era uma negra já de idade, suas feições eram cansadas, mas um sorriso nunca saia de seus lábios. Ela era amiga de mamãe desde sempre, foi sua babá e assim que se casou Mama a trouxe para casa como sua negra de companhia.
– Deixe-o Mama, já estou acostumada. – Ele sorriu e eu comecei a fazer cócegas nele que se contorceu e caiu no chão rindo.
– Cecile. – Ela falou revirando os olhos. – Pelo que vejo aprendeu a lição e não trouxe as compras. Muito bem.
– Claro, afinal sou uma dama. – Puxei as laterais de minha saia em uma pequena referencia deboxada e sorri. Mama abriu a boca, certamente para me repreender, mas nunca irei saber pois um grito me chamou a atenção.
Olhei para trás, avistando Merli, minha escrava. Quem a olhava não podia dizer que ela era uma das muitas filhas de Luri. Merli era quase tão branca quanto eu, suas vestes eram iguais a uma garota de classe media e seus cabelos eram arrumados como tal, eu fazia questão que ela fosse tratada como uma pessoa normal. Merli estava muito afobada, agitando as mãos da forma do código que nos tínhamos desde quando éramos pequenas, eu sabia na hora que pela forma que ela agitava as mãos alguma novidade estava por vir. Pedi licença a minha mãe e fui para o seu lado.
– O que aconteceu? – Perguntei curiosa.
– O Capitão Lemund e seu irmão, o Astrônomo da frota, irão se hospedar na sua casa. – Merli soltou um gritinho típico dela.Fiquei paralisada por um segundo e então arregalei os olhos.
– Como é que é?
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