Caos
1 Der'A
Der’A vagava pela vasta cidade de Poros, procurando alguma hotelaria que pudesse tomar uma boa cerveja gelada em uma taça de madeira, descansar um pouco e partir logo em seguida para Rumos, seu caminho dado quando nascera.
Nosso protagonista é um pouco, peculiar, por assim dizer. Todo guerreiro sempre viaja acompanhado, pois, sabe-se que vagar pelas florestas de Sahmar não é algo que é facilmente pode ser completado, apenas um nobre guerreiro com o título dado de mestre poderia fazer com tanta bravura, não sabe-se se Der’A faz por coragem ou apenas imbecilidade.
O garoto é jovem, apenas um Novato e desde que perdera sua mãe, seu único parente vivo, procura conhecer o mundo, ver coisas novas e acima de tudo, entender o poder que não cabe em si.
Der’A passa pela praça principal de Poros, a cidade um dia já foi um dia a mais bela e brilhante de toda Sahmar, entretanto, o repúdio divino fez com que definhasse aos poucos. Aqui, o Sol Vermelho iluminava todas as praças e ambientes públicos, os julgamentos eram feitos em anfiteatros, para que os deuses pudessem atestar a democracia em pleno funcionamento, somente pessoas acima de Auxiliadores podiam discutir a favor ou contra determinados cidadãos. Os dias em Poros sempre foram belos, mesmo nos dias de execução de penas; a luz que iluminava a cidade refletia em seus belos prédios e em suas reluzentes imagens, Poros já fora um centro de adoração aos deuses, principalmente Rhoy’na, Poorti e Tafu, agora esquecidos (ou assim por eles desejado), o cuidado que tiveram ao construir essa cidade, mostrava-se ser divino, mas agora, Der’A vagava pelos escombros que um dia, foi sede dos maiores Senhores de toda Sahmar.
Caminhando, não consegue encontrar um negócio que talvez ainda funcione, será que valeu a pena todo o esforço para chegar até uma cidade vazia? Sim, Der’A sabia o que essa cidade podia lhe proporcionar. Diziam que o último Mago do Tempo habitava no subterrâneo de algum escombro. Ele confiava em uma história que contam-lhe desde que entende por gente. Depois de muito tempo e muitas guerras, todos os magos se retiraram do mundo, dividindo-se, quebrando a união que os Magos possuíam. Reza a lenda que os Magos Vermelhos andam por ai, caçando vítimas para assiná-los, com remorso e amargura da guerra passada; os Magos Verdes teriam se transformado em entes ou apenas em árvores, camuflando-se nas florestas para que não fossem mais perturbados com brigas e guerras desnecessárias; os Magos Amarelos com seus desejo de vingança, se isolaram nos desertos, para crescerem sozinhos, tornando-se futuros Senhores, para quando a guerra estourar novamente, eles dominarem; os Magos Azuis esconderam-se em lugares inimagináveis, e quando pode-se imaginá-los, com sua grandíssima inteligência, eles mudam suas posições, tornando assim, impossível encontrá-los; Animagos transformaram-se em animais, e sumiram pelo mundo, e, os Magos do Tempo, o último Mago do Tempo, teria se escondido em escombros da antiga Poros. Mas isso tudo não passava de uma história para crianças dormirem, entretanto, Der’A acreditava piamente que isso era tudo verdade.
Chegou próximo a uma hotelaria que visivelmente, destoava da cultura local, e que possuía algum druida. Era um local na altura dos prédios ao lado, porém, todo feito de madeira, com cipós passando por grossas toras de madeira, folhas por todos os lados, o teto parecia a copa de alguma treep ou joop, e uma grande porta redonda, com uma maçaneta bem grande redonda e marrom. Percebera que ali no chão em trapos estava um homem a dormir. O homem estava em posição fetal, magro, parecia não comer a dias, com o cabelo comprido e grande barba. Der’A analisou-o, conhecia aquela roupa, aquele manto prateado com detalhes em dourado, era difícil confundir, era de um clérigo. Um clérigo… Naquele estado? Como os deuses podiam ter sido tão cruéis com um servo? Para Der’A era plausível o sumiço deles após a guerra, mas, abandonar um Clérigo? Deixar seu arcanista naquele estado? Ele aproximou-se mais do mendigo e percebera o colar que carregava no peito: um grande hamsa, todo de ouro com rubis, ele não era um clérigo comum, era um Sumo-Mestre, abrira mão de toda sua vida mortal para auxiliar os deuses… Der’A entendera o porque do homem ter abandonado sua vida. Se os deuses tivessem feito algo semelhante com ele, provavelmente agiria da mesma forma.
Passou do lado do homem, como se não tivesse o notado, entrando na hotelaria. Chegando, viu que estava mais cheio do que esperava. O local era bem receptivo, as mesas saiam do chão, como grandes troncos partidos ao meio, e os bancos pequenos troncos. As garçonetes eram lindas Odaliscas, que andavam com pouca roupa pelo salão.
“Patético”, pensou Der’A ao ver aquelas mulheres.
Caminhou até próximo ao balcão, onde encontrava o grande movimento de pessoas. Umas vinte pessoas estavam lá, cinco sentadas em um canto, quinze pessoas avulsas. No balcão, percebera que o responsável pelo local era realmente um Druida, mas um Elfo Sombrio. Der’A entendera que, era tomar sua bebida, pagar o ouro necessário e ir embora, sem dar muita atenção.
Ao sentar-se em um banco próximo ao bar, o Elfo deu-lhe uma olhada de cima a baixo, analisando sestes escuras como ébano, sua espada nas costas, e um colar simplório no peito, mostrando que era apenas um Novato.
— Poros anda muito perigoso para andar sozinho, garoto – Disse o elfo – Onde estão seus pais?
— Mortos. — Respondeu Der’A.
— Me desculpe, jovem rapaz. Que Awarg cuide deles – Quando mal terminou de dizer, Der’A o interrempeu.
— Somente minha mãe foi assassinada, meu pai morreu antes mesmo de eu nascer. Inclusive, Awarg os matou.
— Acredito que para você, as coisas andam meio fáceis não é, saco de sangue? Você sai vagando por ai, com uma espada dessas nas costas, vestes maltrapilhas, não indica qual sua perícia, um colar mostrando que é Novato, quase jogando na cara de quem o vê, é muito ousado não é? Ou muito burro. — Atrás dele, aos poucos, surge um cajado todo feio de de Joper, uma das madeiras mais resistentes de Sahmar – Poros não é mais um lugar para crianças.
— Vamos lá, Jukk, deixe isso de lado – Disse um homem que estava no grupo de cinco – Ele é apenas um garoto, não tem culpa pelo o que Tafu fez com você.
— Ele não tem culpa? — Começou Jukk a gritar – Ele anda por ai como se fosse um deus desse mundo, enquanto clérigos e paladinos estão morrendo? Quem vai se responsabilizar por guerreiros que estão morrendo fora de tempos de guerra? Os deuses? Acho que não.
— Jukk, ele não é um deus. Sequer é filho de um – Começou a dizer uma garota que estava ao lado do homem anterior — Você descontar sua frustração em um cliente, não é certo. Acredito que o garoto possuía ouro para gastar aqui, certo? — Assentiu com a cabeça – Então, deixe que o rapaz beba e continue sua jornada. Sahmar precisa de gente assim.
Ele entendeu o que a garota quis dizer, exatamente o que ele pensara. Tomar sua bebida e continuar vagando por Poros até achar o local do mago.
Virou o resto da sua bebida, deixou algumas moedas de ouro no balcão (a bebida custava uma moeda de prata), ele levantou-se rapidamente de forma brusca, demonstrando sua falta de paciência com aquele local. Sem perceber, o rapaz que interferira levantou logo após, e, assim que Der’A passou pela porta, o homem tocou em seu ombro:
— Rapaz, Jukk em partes está certo. É perigoso vagar por aqui. Não recomento que um Novato ande por aí sozinho.
— Já andei muito, senhor…
— Çor, meu nome é Çor. Ou ao menos é o que eu me lembro.
— Como assim?
— Sou sacerdote de Awarg. Diferente dos Clérigos ou Paladinos, o meu poder não é parcialmente cedido, eu possuo um poder específico cedido pelo meu deus. Isso é bem incomum de se ver, poucas são as pessoas confiadas a esse poder.
— O que ser sacerdote de Awarg prejudica sua memória?
Ele abriu suas vestes, um longo quimono que possuía desenhos do sol nascente: seu corpo parecia todo remendado. Cheio de marcas de corte, queimaduras, cicatrizes, costuras… Era assustador como um homem desse pudesse estar vivo. Um colar com tridente, mostrando que era Renomado.
— Awarg me dá o poder da ressurreição, entretanto, cada vez que volto, fico com uma partezinha a menos, e na maioria das vezes, ele pega uma partezinha da minha memória. E sempre pega das boas.
— Tudo bem, bom, devo ir.
— Garoto, que deus seguia antes disso tudo?
— Não tive tempo de passar pela Ritualística.
— E seu colar de Novato?
— Era da minha mãe. Ela nunca foi uma nobre guerreira, mas chegou a passar no ritual.
— E qual era o deus que ela seguia?
— RarenMoth, o deus dos Dragões.
— Você está na cidade do sol vermelho, garoto. Eu colocaria ao menos uma vela na estátua dele. É uma das poucas estátuas que se mantém em pé. E eu sou Renomado, não que isso seja algo, mas posso fazer sua ritualística. — Ele pegou um pequeno bolo de tecido e entregou nas mãos de Der’A, parecia leve, mas quando pegou percebeu seu verdadeiro peso. — É uma adaga, de osso de dragão obsidiano. Toda preta. Faz parte da criação de RarenMouth e Awarg, se precisar de mim, coloque essa espada no solo e eu saberei sua localização.
— E o que você ganha com isso?
— Um amigo. E quem sabe, mais um companheiro de equipe.
— Não tenho interesse em guildas.
— Ainda. Nunca diga nunca.
— Tudo bem, vou guardar e quando me sentir pronto para a Ritualística, cravarei no solo.
— Aguardo ansiosamente para poder te ajudar. Por mais que os deuses estejam isolados e revoltados, em algum momento eles podem lhe ajudar, ou quem sabe, serem úteis para algo.
— Agradeço. Abençoado seja.
— Abençoado seja.
Der’A nunca gostou de demonstrar seus sentimentos. Mas, no fundo, ele estava curioso. Sua mãe fora uma devota excepcional de RarenMouth, embora ele cometesse seus erros, sua mãe sempre estava ao seu lado e sempre apoiava as suas decisões. Lembrou-se de uma situação em que fora contra os pensamentos do deus e sua mãe o acertou com um pedaço de madeira. Será que ele conseguiria ser um devoto tão bom quanto sua mãe, mesmo com a época em que Sahmar estava passando? E qual deus o escolhera? Tinha medo de ser XrorLuna ou XrorNielb, o que o deus do Lobisomens e o deus dos Anões poderia agregar a ele? Era um dos últimos animagos conhecidos, como permitiria que esses deuses pudessem interferir sua missão? Eram tantas as dúvidas, que mal conseguia colocá-las na cabeça, e quando percebeu, Çor já havia voltado até a hotelaria.
“ Você está na cidade do sol vermelho, garoto. Eu colocaria ao menos uma vela na estátua dele. É uma das poucas estátuas que se mantém em pé” ele conseguia ouvir ecoando em sua cabeça. Decidiu que iria até o templo da cidade, mesmo que em escombros, para iluminar o deus que sua mãe tanto cultuava.
Não demorou a chegar aonde ficava a imagem de RarenMouth, o templo possuía três grandes pilares, com as imagens de Pasoorti a esquerda, RarenMouth a direita e Rhoy’Na no meio (como é pedido em todos os rituais). Hesitante, o jovem pegou uma vela e colocou aos pés da imagem de RarenMouth. A imagem que sua mãe possuía era pequena e não tinha muitos detalhes, mas, quando olhou essa, conseguia perceber todos os detalhes, ainda por ser colorida: os cabelos eram semelhantes ao seu, longo e liso, escuro como ébano, sua pele branca como neve, olhos vermelhos como fogo, unhas grandes para um homem de coloração amarelada, sem camisa, mostrava seu corpo robusto e forte, uma calça meio rasgada vermelha e não usava nenhuma veste nos pés. No seu peito, o colar do olho de dragão, usado por todo Senhor dele. Der’A quando não ficara mais assustado com a imagem do deus, pegou a vela, aproximou do fogo divino draconiano que nunca apaga, acendeu-a e colocou aos pés da imagem do deus, fazendo uma oração simplória.
E o que era pedra se tornou carne e escamas, o que era frio tornou-se quente, e o sol de Poros brilhava mais quente do que nunca, pois, RarenMouth, manifestava-se ali naquele momento para Der’A.
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