Notas iniciais
Olá! Temos alguns spoilers grandes de A Droga da Amizade nesta história. Coloquei uma ideia antiga no papel e gostei do resulado :) Boa leitura!

"Não poderia ter havido um par de corações tão aberto, nem gostos tão similares, sentimentos tão harmoniosos, comportamentos tão amados. Agora eles eram como dois estranhos; não; pior do que estranhos, pois nunca poderiam vir a se reconhecer. Viviam um afastamento perpétuo".

— Jane Austen (Persuasão)

Magrí fechou a porta do consultório com um sorriso de satisfação. Cumprimentou Adélia, a competente recepcionista e saiu para pegar o elevador. Há um ano ela inaugurou o próprio consultório pediátrico. Em pouquíssimo tempo, conseguiu uma leva grande de pacientes de todos os tipos. Os preços camaradas que fazia para crianças de baixíssima renda que sofriam de desnutrição, começaram a fazer o nome da jovem médica no bairro como fogo em palha.

Entrou no carro e se olhou rapidamente no retrovisor. Havia cansaço nos olhos de Magrí, e sendo sincera consigo mesma, não tinha desejo nenhum de voltar para casa. Fitou as mãos ao volante, a aliança de casamento brilhando à luz do sol no dedo anelar.

Cinco anos. O tempo passou tão rápido assim? Há cinco anos, disse sim para o seu melhor amigo de infância, um dia feliz, apesar da ausência sentida de uma pessoa.

Magrí balançou a cabeça, ligou o carro e deu partida. Era hora de seguir em frente, certo? Hora de se preocupar com a própria família que desejava ter, os filhos... Não teve sorte neste último quesito. Todos os meses antecipava e pensava "é agora!", mas no fim sempre se decepcionava e chorava com amargor. O que havia de errado com ela?

Guardou o carro na garagem do casarão que vivia, respirou fundo e olhou para a janela da sala com a luz acessa. Não estaria sozinha naquela noite pelo menos. Sorriu de forma cálida.

Quando adentrou a imensa sala, Magrí encontrou o marido com a cara enfiada no computador. Ela o abraçou com ternura.

— Você deveria deixar um pouco desse trabalho para amanhã e jantar comigo, o que acha?

Ele segurou a mão dela com um sorriso amarelo.

— Eu gostaria, mas ficou muito coisa ainda para fazer, querida. Preciso terminar, mas vou tentar não prolongar...

Magrí suspirou e o soltou. Tirou os sapatos e se jogou no sofá, encarando as costas do marido. Ele estava mais curvado, os olhos cansados, a boca naquela expressão típica dele que não quer conversar.

— Eu vou precisar fazer uma viagem à Brasília semana que vem — disse ele de repente — Tenho uma reunião de trabalho.

— Você vai ver a casa, não é? Já está pensando em se mudar, sendo que mal terminamos de nos acomodar aqui...

Ele suspirou e virou-se para a mulher.

— Magrí, nós já conversamos sobre isso e você aceitou que se mudaria sem protestar. Por que está colocando dificuldades agora?

Ela sentou-se e encarou o marido com a expressão carregada.

— Eu quero estabilidade, eu preciso de uma vida estável. Não posso abandonar meus pacientes dessa forma, eles precisam de mim...

Ele enrijeceu e massageou as têmporas com um longo suspiro. Estava exausto e não havia alguém que mais queria paz e sossego quanto ele. Amava Magrí, faria qualquer coisa para vê-la feliz, porém parecia que nada do que fazia a deixava satisfeita, nada estava bom o suficiente. Desde o dia que ela colocou na cabeça que queria um bebê, as coisas começaram a desandar no casamento.

Ele ouviu, entendeu e explicou que não era tão simples, que eles tinham que se preparar para a chegada da criança, enquanto ela rebatia entre lágrimas que o tempo dela estava se esgotando e logo, não teria mais condições de engravidar. Em uma das brigas feias, ela gritou que ele era um egoísta e autoritário (não necessariamente nesta ordem e nestas palavras) o que o deixou muito ferido.

— Meu amor, tenha paciência — ele se aproximou e tomou as mãos dela — As coisas vão se ajeitar, eu prometo. Só até o final do a...

— Eu vou fazer 33 anos — ela rebateu — 33 anos! Eu não sou mais uma garotinha e meu corpo também não, quantas vezes vou ter que te explicar isso?

— Você já me deu uma aula de anatomia feminina, querida — ele tentou brincar sem sucesso — Eu entendo sua preocupação, mas se você ficar muito ansiosa não ajuda e só vai nos deixar mais irritados. Por favor, tenha paciência, tudo bem?

Ela suspirou e estudou as feições do homem à sua frente. Como ele mudou nos últimos anos, nem parecia o mesmo rapaz que conheceu na escola. O sofrimento era capaz de fazer muitos estragos nos espíritos humanos. O marido era um dos exemplos disso.

— Você sabe o que eu penso dessa história de ir para Brasília. Não vai acabar bem.

Ele beijou as mãos dela rapidamente.

— Seja otimista, vai dá tudo certo.

Magrí viu que seria muito difícil vencer uma argumentação com ele. Ele que foi o orador mais eloquente do Colégio Elite, o presidente do Grêmio Estudantil, líder dos Karas e candidato ao Senado.

Miguel.

***

O celular vibrava com histeria em cima da bancada de trabalho, fazendo-a tremer de forma irritante. O homem desligou-o sem olhar para o número, um pouco irritado. Aquele era o seu horário de trabalho, dizia mil vezes, jamais atenderia o telefone exceto em emergências.

Ele voltou-se de novo para as amostras que analisava no microscópio. Em breve terminaria o que precisava fazer no antigo laboratório da universidade onde se formou e voltaria com os relatórios para Harvard. As teorias que formulou no trabalho de doutorado cada vez mais se tornavam certas, e logo poderia provar uma forma de gerar energia de verdade sem poluição.

O celular tocou de novo para o desgosto dele. Espiou o número e revirou os olhos. Arrependeu-se de ter dado o número do telefone para Carolina, uma mulher que conheceu num desses coquetéis de gente importante que foi obrigado a participar, pois na festa haveria pessoas que poderiam ser úteis, financeiramente falando, para suas pesquisas.

Era verdade que o apoio do governo federal seria de extrema ajuda para a pesquisa do homem, que nos tempos do Colégio Elite era chamado de Crânio pelos amigos. O patrocínio, no entanto, não era tão simples assim e os engravatados do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações até receberam as quase mil páginas da pesquisa, mas se leram a introdução já foi muito.

Precisava de uma indicação, alguém conhecido de Brasília para facilitar as coisas... Infelizmente, enquanto estivesse no Brasil, teria de fazer o "serviço sujo", o que significava mais uma festa entediante. Pelo menos, as margaritas eram boas.

Resolveu voltar para o antigo apartamento, após o relógio da parede do laboratório indicar que faltavam quinze para as onze da noite. Para esticar as pernas, Crânio foi andando para casa, observando as ruas e a movimentação de São Paulo, a cidade que nunca dormia. Era tão diferente de Nova York onde havia se habituado mais. Porém, tinha aquele ar de casa que sentia falta algumas vezes.

Ele passou por uma lanchonete aberta com a TV ligada, quase no último volume, que mostrava alguém sendo entrevistado. Crânio parou na porta do estabelecimento. Ele conhecia bem o homem entrevistado, apesar dele estar mais velho e com um olhar muito mais sério do que Crânio se recordava.

Vê-lo após anos levou os pensamentos do ex gênio dos Karas para outra pessoa, aquela que sempre fazia seu coração apertar dolorosamente. Estaria ela feliz agora? Talvez já tivesse um filho àquela altura, ou até mais de um do jeito que ela sempre adorou crianças...

Balançou a cabeça e continuou a caminhar. Ela era um fantasma para Crânio, alguém que ele enterrou bem no fundo das suas lembranças mais felizes, onde ele trancou tudo relacionado à ela a sete chaves, para esquecê-la para sempre e nunca mais pensar nela.

No apartamento, Crânio se jogou no sofá sem tirar os sapatos, mas deu um pulo quando sentiu que deitou em cima de algo que beliscou suas costas por trás da camisa social final.

Uma gaita velha a gasta pelo tempo apareceu em suas mãos. Quando foi que ele a trouxe? Não se recordava. Tirou um som baixo e suave do instrumento, porém logo o guardou numa gaveta. Aquilo era coisa de criança, e ele não era mais um menino.

Levantou-se para tomar banho e dormir, sentindo as costas estralarem. Antes de entrar no banheiro, porém, viu o velho piano de mesa cheio de poeira encostado a parede.

"Quanto tempo que eu não vejo esse piano... Comprei por causa da...".

Engoliu em seco e sentou-se no banco, abriu o tampão de madeira e acariciou as teclas macias para tirar a poeira acumulada. Ainda se recordava de como tocar o instrumento.

Curiosamente, o piano não era tão doído para ele como a gaita. Talvez porque Crânio nunca parou de tocar o instrumento, enquanto que a gaita era um elemento exclusivo apenas para os Karas... Seus queridos amigos...

Devagar, ele passou a formar as notas, um adagio mais lento que o habitual de Moonlight em C Menor de Beethoven. Recordava-se da partitura de cor, esta que vinha lenta e suave por sua mente prodigiosa. Era uma das suas canções favoritas assim como de Magrí...

Ele parou abruptamente e deixou que uma lágrima escorresse no canto do olho. Sentiu o celular tocando no bolso da calça, mas o ignorou de novo. Um frio incomum arrepiou os pelos dos braços e Crânio sentiu-se um pouco tonto. Talvez estava cansado demais e era melhor dormir, antes que a visão ficasse mais turva. Será que teria de usar óculos de vez?

Crânio baixou o tampão do piano e encostou a cabeça na beirada da madeira.

"O que nós fizemos com nossas vidas, Magrí? O quê?"

***

A galeria de arte estava cheia para uma quinta-feira à noite, Miguel pensou enquanto perambulava vagarosamente. Não queria chamar tanta atenção, mas ouvia os cochichos de algumas pessoas enquanto ele passava em um dos corredores, admirando as belas obras de Caravaggio. Havia ligado para esposa para que viesse com ele, mas ela recusou por causa de pacientes de última hora, caso grave, etc. Miguel não a culpava, pelo contrário, a culpa do casamento não estar indo bem era todo dele e sabia bem disso.

O remorso era um sentimento cruel, amargo e frio, que descia pela garganta sem piedade. Deveria ter sido mais presente na vida de Magrí, passado mais tempo com ela, ter dado mais atenção, carinho e amor que sempre dizia que devotava a ela.

Devotava mesmo todo aquele amor ou ele achou que devotava? Será que aquele amor que começou na época dos Karas era fantasioso, ingênuo? Namoraram e casaram pouco tempo após a formatura da faculdade, será que não foi tudo muito rápido demais?

Não, não aquilo era absurdo, ele jamais duvidou do que sentia por Magrí. E ela? Miguel não era bobo, sabia bem que a esposa teve um amor, um grande amor antes dele.... Se o remorso era amargo, o ciúme era sufocante. Aquele mesmo ciúme que impediu o ex melhor amigo de comparecer à festa de casamento. Ele não quis e Miguel não insistiu uma única vez, na verdade ficou feliz dele não aparecer.

Estacou quando viu uma figura parada em frente ao Narciso de Caravaggio. Miguel não precisou de mais de meio minuto para reconhecê-la. Antes mesmo que ele a cumprimentasse, a moça virou-se de frente. Ela parecia muito desconfortável.

— Olá senhor Miguel. Como vai?

— Vou bem, senhorita Danielle. E você? Belos quadros...

A jovem acenou em concordância e olhou de relance para o Narciso que beijava o próprio reflexo no lago. Miguel colocou as mãos no bolso da calça tentando evitar o olhar perfurador da antiga colega de escola e... Irmã do se ex melhor amigo.

A forma como ela franzia o nariz recordava para o ex líder dos Karas a semelhança com a irmão. Miguel balançou a cabeça para despistar esses pensamentos, que o levava a outro acontecimento nos últimos anos, mais trágico do que o fim da amizade com Crânio, que ainda doía em sua alma.

A última vez que viu Danielle, os Karas ainda estavam juntos, Calú, Peggy, Magrí, o próprio Crânio, ele e... Chumbinho.

Miguel engoliu em seco. Danielle falou sem olhar para ele.

— Fiquei sabendo que você vai se candidatar ao Senado. Parabéns.

— Obrigado... Você vai ficar aqui no Brasil ou vai voltar para o Reino Unido?

— Estou só de passagem, vou voltar definitivamente... — ela suspirou — Queria ter os meus quadros expostos assim um dia. Mas esse sonho morreu há anos.

Miguel já viu um dos quadros de paisagens bucólicas que Danielle havia pintado e sabia como a moça tinha talento. Deveria incentivá-la como um bom amigo, mas o amargor de vê-la era tanto, que resolveu ficar em silêncio. Talvez ela o odiasse e Miguel não a culpava. Talvez todos os Karas odiavam ele e Crânio, por mais que jamais admitissem, principalmente Calú depois do que aconteceu com...

A visão de Miguel ficou turva de repente e os quadros na galeria pareciam girar, trêmulos. Tossiu e sentiu um frio anormal. Será que estava com gripe?

— Eu visitei a mãe do Chumbinho ontem. Pobre mulher, nenhum de vocês foram vê-la esse tempo todo?

O sangue fugiu do rosto de Miguel.

— Acho que Magrí foi visitá-la... Eu ainda não tive tempo.

— Puff, você e suas desculpas esfarrapadas — Dani riu sem humor e se segurava ao máximo para não elevar a voz — Você é tão ridículo quanto meu irmão, Miguel! Os dois preocupados somente com o próprio umbigo e a merda das suas carreiras! Calú tinha razão, a ambição de vocês dois destruíram toda a amizade, e deixaram que o Chumb...

— Já chega, Dani! — Miguel sibilou — Eu já sei de tudo isso!

— Sabe é?! Sabe mesmo?! — Ela estava agora a um palmo do rosto dele com os olhos faiscando — Eu não sei como a Magrí te aguenta, bato palmas para ela. Se você estivesse tão arrependido assim, aproveitaria que o idiota do meu irmão está no Brasil também e pelo menos se entenderiam. Era o mínimo que vocês deveriam fazer.

Aconteceu algo inédito em todo aquele tempo que Danielle conhecia o ex colega de escola. Os olhos dele se encheram d'água para o espanto dela. O orgulho, porém, impediu que as lágrimas escorressem.

— Dani, não ache que eu goste de me olhar no espelho todos os dias quando levanto da cama. Não pense você que eu não me culpe — Miguel respirou fundo — Você não sabe metade da missa, e espero que não saiba. Você vê as coisas de fora dos Karas e sinceramente, eu acho melhor assim.

Ela não sabia o que pensar daquilo. Caras? Do que Miguel estava falando?

Antes mesmo dela perguntar qualquer coisa, Miguel olhou-a profundamente nos olhos. Ela era tão parecida, mas tão diferente dele, como um ímã. Parecia que ela havia parada no tempo...

— Mas você tem razão, eu deveria visitar a mãe do Chumbinho o quanto antes, e levar umas flores para o túmulo dele.

***

A recepção na luxuosa cobertura do hotel mais caro de São Paulo reunia desde empresários a alguns engravatados importantes do Palácio do Planalto. Apesar de ser um momento de socialização, não era de todo estranho negociações e projetos serem decididos ali mesmo, entre um coquetel e outro e alguns cigarros.

Crânio aprendeu rápido que era assim que as coisas funcionavam nesse meio importante, mas ele sempre se sentia um peixe fora d'água nessas reuniões. Havia sido convidado e nem pestanejou. Talvez fosse a oportunidade perfeita para os seus objetivos.

Nessas recepções, Crânio sempre usava uma máscara de sociabilidade, blefe e persuasão. Somente assim que conseguiu atender as exigências de Harvard para dar continuidade ao seu ambicioso projeto, enquanto que os outros pesquisadores eram uma negação nessas coisas.

Ele estava sentado numa mesa de póquer com os homens mais importantes do Ministério de Ciências e do Governo Federal, rindo como fossem amigos de anos enquanto jogavam as cartas na mesa.

Crânio nem fumava, mas aceitou um cigarro acesso de um dos engravatados, no qual ele colocou no canto da boca e de vez em quando tragava e sorria, como se não se importasse com mais nada. Sentia-se o Tony Montana de Scarface, mas sem o prestígio e o dinheiro do mafioso de Brian de Palma. Era necessário, dizia a si mesmo, por mais que detestasse tudo aquilo.

— Você é um cara muito, muito engraçado — disse um dos participantes da mesa de póquer para Crânio — Nem parece um cientista com essa cara de moleque travesso.

"Aprendi com o melhor ator que já conheci", Crânio pensou com amargura "Você iria se impressionar de verdade com o Calú..."

— Na verdade, senhor, eu já deixei de ser moleque há anos — riu ele — Já passei dos 30, estou ficando velho.

Eles jogaram algumas cartas na mesa, e Crânio estava levando a vantagem pela segunda vez na noite. O ex gênio dos Karas subiu as mangas da camisa até os cotovelos e de um meio sorriso. Aquilo seria mais fácil do que tirar doce de criança pelo nível de estupidez daqueles homens.

— Aquela senhorita atrás de você talvez pense diferente.

Crânio franziu a testa e olhou pelo rabo do olho para uma moça bem jovem, que acenou para ele do balcão levantando uma taça de margarita com um sorriso sedutor. Ele balançou a cabeça e continuou o jogo, encarando o seu interlocutor. Tragou o cigarro e comentou:

— Não tenho tempo para romances. A pesquisa é a minha vida agora...

— Ah, a pesquisa... — o homem sorriu — Queria saber mais sobre, parece fascinante.

Era este o momento que Crânio estava esperando com tanta antecipação. Porém, antes que dissesse qualquer coisa, uma mulher num belíssimo vestido azul marinho aproximou-se da mesa.

Os homens silenciaram e Crânio foi o último que a olhou quase deixando o cigarro cair da boca. Havia uma serenidade no olhar dela que ele jamais esqueceu, estava mais bela do que as suas lembranças. Crânio ficou estático e sem reação, enquanto ela trocava algumas palavras com o homem que mediava o jogo de póquer. Por fim, alguém puxou a cadeira ao lado de Crânio e ela sentou-se.

Crânio baixou os olhos para as cartas que tinha na mão tentando ao máximo conter os batimentos cardíacos e a própria perturbação. O jogo continuou agora com mais uma integrante.

— Acho que o seu cigarro apagou — ela sussurrou para Crânio — Deixe-me acendê-lo.

Ela tirou um isqueiro da bolsa de mão que carregava, aproximou-se até a altura do cigarro de Crânio, que continuava preso à boca e o acendeu, mirando-o, estudando-o. Crânio finalmente criou coragem e a encarou nos olhos e o que viu não o deixou feliz. Havia tristeza naqueles olhos tão bonitos.

— O que você está fazendo, Magrí? — sussurrou de volta pelo canto da boca.

Magrí guardou o isqueiro e pegou as cartas de baralho. Ninguém estava mais prestando atenção neles.

— Talvez essa seja a única forma que você deseje conversar comigo.

Crânio voltou a atenção para o jogo, sentindo-se completamente indefeso. Colocou o cigarro entre os dedos. Disfarçadamente continuou o diálogo:

— Como você está?

Ele sentiu Magrí suspirar e abaixar mais os ombros. Pelo canto do olho, ela também parecia tão indefesa, tão frágil, mas que tentava disfarçar, assim como ele, numa máscara de confiança e sorriso falso. Os dois se conheciam muito bem, bem até demais para saberem que estavam fingindo em muitos sentidos durante muito tempo.

— Já tive dias melhores, mas bem.

— Ele veio, correto?

— Sim, mas está ocupado demais conversando para se divertir com o póquer — ela sorriu fracamente — Ele não quis se juntar a nós.

Crânio se segurou para não bufar de desdém. O dia em que Miguel resolvesse se divertir, palavras de Calú, o ator de Hollywood sairia com uma fantasia de unicórnio na rua. Crânio tentou não rir pela lembrança do amigo.

Mas seria ele tão diferente assim de Miguel agora? Querendo sempre mais na própria carreira, fazendo de tudo, o impossível e o possível para conseguir atingir seus objetivos? Crânio sentiu-se hipócrita, um idiota. A sua Magrí era a que mais sofria pela teimosia dos dois, que teve graves consequências na última aventura que viveram juntos.

O maior arrependimento da vida de Crânio, tirando a morte de Chumbinho, foi ter desistido de Magrí para ir atrás de prestígio acadêmico. Se ele pudesse voltar no tempo e consertar as coisas com ela, com Miguel, com Calú, com a Peggy, com Dani... Talvez estivessem juntos agora jogando póquer e falando bobagens.

— Queria tomar um ar — Magrí levantou-se — Você me acompanha?

Crânio não objetou e a acompanhou até o terraço do hotel com poucas pessoas presentes no local. Ele esperou algumas pessoas saírem de perto. Encarou o perfil de Magrí.

— Você não está feliz, né Magrí?

— Você também não — a voz da mulher saía do fundo de sua alma — Não é irônico tudo isso? O que me dói mais é vê-lo tão sozinho... Mas eu acho que eu ficaria enciumada se você tivesse alguém.

Crânio tragou o cigarro sem saber o que responder. A vida não era justa e nem era justiça as decisões que tomaram.

— Magrí, acho melhor não tocarmos nesse assunto, mas... — ele parou — Você sabe que eu só posso amar você, não é?

Ela o olhou com ternura e tristeza. Aqueles olhos diziam o mesmo, Crânio tinha ciência disso. Era errado, sim, ele tinha certeza, mas nem ele e nem Magrí eram capazes de mentirem para si mesmos por muito tempo. Ela foi a única que ele manteve um breve contato após o tragédia, já que ela não deixava que ele sumisse por muito tempo. Talvez Miguel não soubesse e se sabia não aprovaria. Bem... No lugar dele, era provável que Crânio também não gostasse.

— Eu sei... Eu sei bem o que você sente, meu querido.

Eles estavam muito próximos um do outro e era só dar um passo e seus lábios se tocariam. Contudo, Crânio se afastou e Magrí deu um leve passo para trás engolindo em seco. Um garçom ofereceu margaritas aos dois e ambos pegaram uma taça.

— É a única bebida que não me deixa tonta — Magrí riu — Eu sou muito fraca para o álcool.

Crânio sorriu com carinho. Ela ainda continuava a mesma garota peculiar que conheceu tão bem.

— As margaritas americanas são um pouco diferentes de como fazemos aqui. Teve uma vez que exagerei e quando cheguei em casa, eu apaguei no sofá.

A risada musical de Magrí soou no terraço.

— Você até que conseguiu chegar em casa acordado, enquanto eu na primeira e última vez que tomei mais margaritas do que deveria numa festa de aniversário, eu dormi enquanto tomava banho.

Crânio quase engasgou com a bebida de tanto que riu pela cena. Quanto tempo não ria de verdade! Era bom estar com ela, por mais que ele iria sofrer depois que a deixasse.

Magrí continuou:

— Nós não servimos para este mundo Hollywoodiano, Crânio. Nenhum dos Karas, nem mesmo o Calú. Ele odeia o show business. Mas agora estamos neste meio, e não há como mais sair.

Crânio pousou o olhar na mulher que amava sabendo bem o que ela estava pensando.

— Eu ouvi uns engravatados conspirando contra a campanha eleitoral de Miguel — ela murmurou — Ele fez muitos inimigos desde o dia que conseguia uma cadeira no Parlamento, você sabe bem. Não vão medir esforços para impedí-lo.

— Por que está me contando isso? — Crânio franziu a testa — Não posso fazer nada.

Magrí balançou a cabeça com súplica.

— Você pode sim, você pode convencê-lo a desistir da campanha ao Senado e do Parlamento. Desistir dessa tolice em querer ser presidente um dia e voltar a ser embaixador. Por favor, Crânio, me ajude. Eu não tenho mais ninguém a quem recorrer, só você. Peggy e Calú estão esperando um filho, não posso perturbá-los com isso. Por favor...

Ela segurou o braço dele com os olhos marejados e lábios trêmulos, não parecendo em nada com a Magrí de postura altiva e séria como era conhecida. Ele deveria dizer não, que ele não tinha nada a ver com Miguel, nem eram mais amigos e o último não ia gostar de saber que a esposa andou conversando com Crânio sobre sua carreira política.

Mas aquele rosto triste e suplicante... Quantos sacrifícios mais deveria fazer para vê-la sorrir, mesmo que nos braços de outro? Ele estava virando um Cyrano de Bergerac a contragosto. Ou será que já tinha virado?

— Ele me odeia, Magrí. Você sabe disso.

Ela negou veemente.

— Ele não te odeia e nem você o odeia! Vocês só estão com remorso por aquela briga besta no meio da rua por minha causa, há quase dez anos, que fez com que o Chumbinho fosse atropelado quando quis segurar vocês dois sozinho — a voz dela tremia — Vocês querem achar que se odeiam para não se enfrentarem, aceitarem que os dois estavam errados e se perdoarem, como o Chumbinho gostaria! Vocês dois são teimosos que nem mulas!

Uma voz vinda da porta de entrada do terraço se interpôs.

— Você tem razão, minha querida. Mesmo que ele não mereça tanto perdão...

Crânio se virou e deu de cara com Miguel que os encarava com dor no rosto. O primeiro desviou o olhar de forma raivosa.

— Quê? Agora eu vou virar o vilão da história enquanto você se faz de bom moço, Miguel? Era isso que você sempre quis! Sempre quis ser o herói que fica com a mocinha, não é? Enquanto o amigo nerd esquisitão vira teu capacho.

— Crânio, por favor, não começa — Magrí implorou — Será que vocês não podem conversarem como dois adultos?

Miguel se aproximou com a expressão levemente irritada. Crânio sabia como provocá-lo e tirá-lo do sério em segundos.

— E você com esse complexo de inferioridade ridículo, Crânio? Pelo jeito, você continua o mesmo egoísta de sempre!

Magrí irritou-se. Crânio e Miguel parecia que iriam se socarem a qualquer momento.

— Calem essas malditas bocas, os dois! Meu Deus do céu, vocês vão se matarem desse jeito!

Os dois homens a olharam e baixaram os ombros envergonhados. Os três ficaram em silêncio perdidos nos próprios pensamentos.

Miguel por fim levantou o rosto e encarou Crânio.

— Acho que já está na hora de nós dois nos entendermos pelo bem dos nossos amigos, antes que seja tarde. Chumbinho.... — Miguel engoliu em seco — Chumbinho ficaria feliz.

A menção do falecido amigo deixou Crânio verdadeiramente abalado. Ele tomou um gole da margarita e virou-se de costas para Miguel.

— Eu não sei o que é dormir uma noite inteira desde aquele dia — disse Crânio — Não consigo me encarar no espelho.

Miguel se aproximou e colocou a mão no ombro do rapaz.

— Somos dois então. Mas acho que se ficarmos nos remoendo não ajuda.

Miguel estendeu a mão para Crânio que relutou antes de apertá-la. Para a surpresa de Magrí, os dois deram um abraço fraterno segurando a emoção. Ela quase deu pulinhos de felicidade. Finalmente! Achou que aquela briga seria eterna! Um peso a menos sentiu em seus ombros. Sabia que Crânio não deixaria de amá-la e sentir ciúmes, mas só o fato de se perdoarem sobre o Chumbinho já era um começo.

Os dois, no entanto, pareciam sem jeito um com o outro.

— Acho melhor você tomar cuidado com esses engravatados que você anda — Crânio olhou rapidamente para Magrí e depois para Miguel — Ouvi conversas sobre uma conspiração contra a sua vida. Cai fora antes que seja tarde, Kara.

Miguel encarou a esposa e agora, o melhor amigo. Era a família que tinha, já não era hora de pensar mais nos seus no que nas próprias ambições? Deveria pensar mais nisso. Suspirou.

— Está na hora de umas férias, eu acho — ele sorriu fracamente — E deixar a política para lá...

Mal ele havia pronunciado essas palavras, um vulto apareceu na porta do terraço e chamou o nome de Miguel.

Ele virou-se para a voz masculina e tudo virou uma confusão dos diabos: um estopim seco, Crânio se interpondo entre os dois Karas, um grito de Magrí, uma dor dilacerante no peito, Miguel gritando o nome de Crânio e o segurando pelos ombros com as mãos sujas de sangue...

Um apagão, uma escuridão, vultos...

A visão do gênio dos Karas ficou turva, ele começou a tossir e cuspir sangue de forma descontrolada, as paredes do hotel começaram a ruir...

— AH!

Crânio sentou-se no sofá suando frio. A coberta aos seus pés caiu no tapete. Sentiu alguém se aproximar com uma mão gelada na sua testa.

— Amor? O que foi? Que susto você me deu!

O garoto piscou confuso. Sentiu um cansaço no peito que o esmagava.

— Onde eu estou? Magrí, é você?

A menina ajoelhou-se ao lado do sofá com preocupação.

— Você está em casa, hoje é terça-feira e você não foi para a escola porque está muito gripado. Você estava delirando de febre, falando coisas sem sentido.

Ele encarou a menina como se fosse uma criança perdida e tentando se lembrar das últimas horas.

— Que ano nós estamos?

Magrí riu.

— 1985, querido. Por quê?

O rapazinho passou a mão na testa tentando conter a respiração.

— O Chumbinho está bem? E o Miguel?

— Sim, claro que estão bem... — Magrí arregalou os olhos sem entender nada — Nós vimos eles ontem, meu amor. Acho que é você quem não está bem ainda.

— Eu tive um pesadelo — a garganta de Crânio estava seca e a voz não saía direito — Sonhei que o Chumbinho morreu atropelado, você estava casada com o Miguel, eu e ele nos odiávamos e no fim, tentaram matar o Miguel, mas eu me coloquei na frente e tomei o tiro...

Magrí estava com a boca escancarada ao mirar o namorado como se ele fosse louco. Na mesinha da sala, ela viu o VHS de Scarface aberto. Revirou os olhos tentando não rir.

— Ah querido, isso é que dá combinar remédio de gripe, febre e filme de máfia! Depois sou quem vejo filmes demais! — ela fez carinho na testa dele com os dedos — E não foi o Chumbinho que foi atropelado, foi o Mimoso, o meu gato! Aliás, por sua culpa, muito bem lembrado!

A voz de Magrí saiu raivosa na última frase. Crânio piscou encarando-a, até que finalmente se recordou dos eventos do dia anterior.

— Ele machucou a patinha, sabia? Tive que gastar minha mesada com veterinário, tadinho — ela bufou — Se você tivesse segurado ele direito como eu pedi para eu dar banho, ele não teria saído correndo!

Crânio revirou os olhos.

— Ele é um gato de rua, Magrí! Gatos de rua não tomam banho!

Ela fechou a cara e cruzou os braços.

— O meu gatinho toma banho sim, não interessa onde ele vive!

— Então a culpa é sua se ele se machucou, não minha! Quem teve a ideia foi você, oras!

Magrí viu que não conseguiria rebater aquele argumento, porque era verdade, foi ela quem teve a brilhante ideia de dar banho numa bacia no pobre do gato. Por mais que o rapazinho protestasse, ele no fim resolveu ajudá-la... O que não deu muito certo.

Crânio começou a tossir de novo e sentir alguns calafrios na espinha. A expressão de Magrí suavizou-se e ela passou a acariciar a testa do garoto. Deu um beijo na bochecha dele.

— Acho que não foi uma boa ideia essa história do banho. Você está péssimo, coitadinho.

— Eu posso estar morrendo, sabia? — o garoto fez a melhor expressão dramática que conseguia — Eu posso não acordar mais.

Foi a vez de Magrí revirar os olhos.

— Ninguém morre mais de gripe, Crânio. E você já passou por coisas muito piores. Não se lembra de que ficou quase uma semana desacordado no Pantanal?

O garoto refletiu por alguns segundos.

— Err acho que você tem razão... Mas o meu corpo inteiro está doendo, parece que passaram um trator em cima de mim. Não sinto meus dedos, não tenho forças nem para levantar.

Magrí riu e o beijou de novo na bochecha. Sabia que corria o risco de pegar o vírus, mas não tinha coragem de deixar o garoto sozinho. Brincou com ironia:

— Os seus braços estão arranhados pelas garras do Mimoso, também. Coitadinho, realmente está morrendo!

Ela riu com gosto e ajudou a arrumar a coberta no garoto, que a encarou com desgosto. A irritação passou rapidamente após ela beijar de novo o rosto dele e acariciar a testa.

— Que sonho maluco foi esse que você teve, querido?

— Foi um pesadelo e ainda bem acordei — ele beijou a mão dela.

Ela sussurrou:

— Tem tanto medo de me perder assim?

— Tenho, não vou mentir. E tenho medo dos Karas se separarem um dia...

Crânio jamais admitiria tal coisa para os outros, somente para a namorada. Não havia pessoa melhor para compreendê-lo como Magrí.

— Vai dá tudo certo no fim, eu tenho certeza, meu amor — disse ela com ternura — Você vai ver.

O otimismo seguido do belo sorriso, a característica marcante de Magrí, animou o espírito do gênio dos Karas. Ele acariciou o rosto dela com a palma de mão e sorriu. Era tão bom tê-la por perto...

Magrí se levantou com uma expressão travessa.

— Agora mocinho, para você se curar logo e abaixar essa febre para não ter outros pesadelos e começar a delirar, eu pedi para fazerem uma sopa de gengibre para você. Você vai adorar!

Crânio tentou ao máximo parecer contente. "Só Magrí para ficar contente e gostar de um treco ruim desses", pensou "Mas era melhor tê-la por perto com sopra de gengibre do que sem ela".

O pesadelo que teve lhe deu mais calafrios do que os sintomas da gripe. Não, não, aquela possibilidade de futuro não ia acontecer, ele não permitiria. Ele esperava, ele rezava para que Magrí estivesse correta.

Notas finais
No próximo conto: Os Karas aceitam o convite de Peggy e vão visitá-la nos EUA nas férias do meio do ano. Magrí quer fazer uma festa de aniversário surpresa para Miguel e Chumbinho, mas as coisas não saem exatamente como o esperado...