Notas iniciais
Olá leitores, espero que todos estejam bem. O drama continua e pela primeira vez na fic, os Karas juntos entram em ação. Boa leitura!

— Deixa eu ver se eu entendi direito — Chumbinho quebrou o silêncio pesado que havia caído no forro do vestiário do Colégio Elite — Você encontrou um bilhete escrito por alguém desconhecido dizendo que o herdeiro da máfia quer se vingar?

Crânio acenou do outro lado do semicírculo confirmando a pergunta do menor dos Karas. Os outros se entreolharam sem conseguirem esconder a preocupação.

— Quando voltei da biblioteca e abri novamente minha mochila, encontrei o bilhete lá. Não conheço de quem é a letra — continuou Crânio no seu modo automático habitual quando raciocinava — Comparei com várias letras de criminosos que se tem notícia, mas nenhuma chegou perto. Não acho também que a pessoa que escreveu tenha colocado o bilhete enquanto eu estava na biblioteca, porque eu estava com a minha mochila perto de mim o tempo inteiro, então foi antes disso.

Ele parou para tomar fôlego, ainda sem olhar diretamente para os amigos, mas sabendo que os quatro prestavam total atenção.

— A pergunta principal é por quê? Por que alguém iria se dar o trabalho de me avisar que estou correndo perigo? O que essa pessoa ganharia com isso?

Ninguém respondeu de imediato. O silêncio caiu de novo, mas os pensamentos borbulhavam na cabeça tanto do gênio dos Karas quanto de Miguel, Magrí, Calú e Chumbinho.

Miguel por fim continuou na mesma trilha de raciocínio de Crânio:

— Você estava na delegacia dando depoimento hoje de manhã cedo, certo? Talvez o remetente do bilhete estivesse por perto e sabia da sua presença. Agora sobre as motivações dele ou dela... Estamos deixando passar alguma coisa nisso, tenho certeza.

Magrí encontrou o olhar de Crânio e nessa troca silenciosa foi dito muita coisa. Parecia que a menina queria convencer o rapazinho de algo, o que não passou despercebido nem para Miguel e nem Calú. Chumbinho estava muito absorto nos próprios pensamentos para ter percebido. Crânio parecia relutante em fazer o que Magrí estava lhe pedindo, porém no fim das contas, ele cedeu.

— Eu procurei ajuda antes de chamar vocês — disse ele arranhando o forro do vestiário com uma moeda fazendo padrões que faziam sentido apenas para ele — Conversei com o agente Tyler, da Interpol. Ele estava presente no meu depoimento.

Calú franziu a testa ao fitar o rapazinho.

— Por que você o procurou antes de falar com a gente, Crânio? Por que envolver mais gente nisso? Isso é um trabalho para nós, não eles.

— Você está certo, Calú. Mas não se esqueça que infelizmente... — Crânio trincou os dentes — Infelizmente o nome da minha família está envolvido nessa bagunça. Não se trata somente de mim. Se fosse só eu...

Ele parou e suspirou alto. Miguel encarou o amigo com pesar, como se soubesse o que se passava na cabeça dele e entendia muito bem.

Crânio sempre foi um garoto reservado, pois não gostava tanto de partilhar da própria vida, a não ser as vitórias no Xadrez ou qualquer outra coisa que havia conquistado academicamente. De vez em quando ele mencionava a irmã mais nova, ou alguma viagem que fez com os pais em algumas férias distantes, mas não passava disso.

A única que mais conhecia a família do rapazinho e tinha mais informações sobre ela era Magrí. Miguel procurava não pressioná-lo a esses assuntos de família desde quando o conheceu, e os dois estavam e sempre estiveram bem assim. O extinto de preservação dos seus era muito forte no garoto, justamente por amá-los. Estavam, porém, numa situação muito delicada e precisavam agir com cautela para não expor mais ainda a família.

Os jornais não estavam sendo gentis e todo o tipo de conjectura a respeito daquela respeitada e importante família estavam sendo analisadas e dissecadas por jornalistas e palpiteiros, desde a possível e obscura origem de sua fortuna, até se eles tinham parentescos ou não com criminosos da máfia italiana de pior calibre. Crânio foi obrigado a segurar o soco que queria ter dado num moleque impertinente que perguntou a ele, no corredor do Colégio Elite no dia anterior, se sua família era rica porque contrabandeava drogas.

— Eu entendo seu posicionamento, Crânio — começou Miguel de forma suave — Entendemos também o que você está passando. Mas acho que foi um pouco imprudente, se pensarmos que a polícia nem sempre é confiável...

— Ele me disse que era possível o tal herdeiro estar na festa hoje à noite — Crânio respondeu secamente.

Chumbinho protestou.

— Como eles podem saber disso? É possível que a Interpol desconfie quem é o herdeiro?

— É a Interpol, Chumbinho, dãh — Calú riu — Tenho certeza que a essa altura das coisas eles até já descobriram que é o tal herdeiro. Só acho engraçado esse agente Tyler querer tanto de ajudar, Crânio.

— Também acho isso, Calú — Magrí falou pela primeira vez — Por isso disse a ele para não confiar completamente nesse cara.

Miguel ergueu a sobrancelha fitando Magrí.

— Você disse para Crânio? Então você já sabia antes da reunião?

Magrí corou e Crânio fingiu que não estava escutando nada, tirando a gaita do bolso da calça e soprando-a baixinho.

— Eu estava lá, Miguel, quando Crânio encontrou o agente Tyler. Porém isso não importa, temos que pensar no plano para a festa. Agora temos um bom motivo para irmos todos.

O líder dos Karas não respondeu de imediato, ainda encarando Magrí sem nenhuma expressão. A menina evitou olhar para o garoto, mas ouviu o assobio sarcástico de Calú que fez o estômago dela afundar.

Havia um quê de ressentimento na voz de Miguel quando ele falou:

— Eu espero que mais ninguém tome alguma atitude sem consultar o grupo a partir de agora — ele fitou todos os presentes de forma solene — Porém temos prioridades. Precisamos descobrir quem poderia ser um possível suspeito de envolvimento com a máfia para hoje à noite. Como só temos algumas horas até, vou dividi-los em pares para ganharmos tempo.

— Mas estamos em número ímpar, Miguel — contestou Calú.

— Sim. Mas o que eu vou fazer, prefiro fazer sozinho. Calú e Chumbinho, quero que vocês dois providenciam a lista de todos os convidados da festa.

— Certo, Miguel — respondeu Chumbinho ao mesmo tempo que Calú acenou concordando com o plano.

Miguel fitou os dois últimos Karas que sobraram sem expressão. Crânio o encarou de volta, parando de soprar a gaita. Pareciam estar se medindo de cima para baixo, ao mesmo tempo que chegavam a uma conclusão silenciosa. Por breves segundos, o olhar do líder dos Karas suavizou-se, em especial quando olhou rapidamente para Magrí. Porém, havia dor nos olhos do rapazinho.

— Crânio, acho que você sabe o que tem fazer... Magrí pode te ajudar nisso — ele sorriu fracamente para ela, que retribuiu de forma rápida.

O gênio dos Karas engoliu em seco, apenas concordando. No entanto, olhou para os amigos como se gravasse a fisionomia de cada um deles.

— Eu sei que vocês estão dispostos a qualquer coisa para esse caso. Porém, vocês sabem bem que o mafioso vai vir até mim e que no fim das contas, eu terei que lidar com ele sozinho. Eu peço que nenhum de vocês coloquem a vida em perigo naquela festa por minha causa.

Magrí, Calú, Chumbinho e Miguel por um momento abriram a boca para protestar, mas rapidamente, Miguel compreendendo o posicionamento do amigo, levantou a mão, impedindo que os outros falassem.

— Entendemos seu pedido, Crânio. Porém não se esqueça que somos um grupo e que devemos sempre estar unidos, não importa o quão ruim a situação seja. — Miguel sorriu — E não será a primeira vez que vamos nos colocar em perigo para salvar sua pele.

— Até parece que a gente vai deixar você ficar com todos os créditos de ter resolvido o caso como das outras vezes — brincou Calú — Desse jeito você não vai ter cabeça para caber tanto ego, vai precisar de um cabeça nova.

Pela primeira vez, todos eles riram, perdendo a rigidez nas fisionomias de cada um deles, com o ambiente tornando-se um pouco mais leve.

O silêncio caiu novamente no forro do vestiário, até Magrí perguntar de forma suave para Miguel:

— E você, o que vai fazer, Miguel?

— Vou ter uma conversa com o nosso amigo detetive Andrade...

Ela acenou sem pedir detalhes e por fim, Miguel deu a reunião por encerrada.

Enquanto desciam pelo alçapão do forro do vestiário, Crânio e Magrí ficaram para trás. Sabendo que estavam sozinhos, a menina aproximou-se do garoto. A voz saiu um pouco embargada.

— Esse seu orgulho e teimosia pode te matar um dia, sabia?

À meia luz do forro, o garoto franziu a testa e depois revirou os olhos sem responder. Magrí suspirou alto e sentou-se ao lado do rapazinho, encostando a cabeça no ombro dele como sempre tinha costume de fazer. Os dois ficaram em silêncio.

Crânio depois de um tempo passou o braço pelos ombros da menina, que se aconchegou mais perto dele.

— Eu sei disso — sussurrou ele olhando-a com súplica — Não deixe que eu faça alguma besteira, Magrí. Nem hoje e nem no futuro.

Ela levantou a cabeça e o fitou de volta com um leve sorriso. Sentiu as bochechas esquentarem pela proximidade um do outro. Sentiu o coração dele acelerar, enquanto o garoto se aproximava do rosto bonito dela... Sentiu os braços subindo pelos ombros do rapazinho, o abraçando com fervor.

Até ouvirem o sinal de fim do intervalo e se separarem em um pulo de susto. Surpresos, começaram a rir como duas crianças, enquanto se levantavam e deixavam o forro do vestiário.

***

Crânio bateu suavemente na porta do escritório da casa, entrando ao aceno carinhoso da mãe. Não gostava de interrompê-la enquanto ela trabalhava, mas dada a gravidade da situação, ele não tinha muita escolha.

— Tem café na garrafa, querido — disse ela ainda com carinho maternal na voz — Se você quer usar o computador, eu já estou quase terminando. Vou ter que sair de qualquer jeito para fazer compras...

O garoto sorriu com doçura, sentando-se na cadeira oposta da escrivaninha com um xícara de café na mão.

— Eu espero, mãe. Não tem problema — ele tomou um gole sem conseguir desviar os olhos da mãe, o estômago fazendo acrobacias parecidas com as que Magrí fazia no ginásio do Colégio Elite para centenas de expectadores. Com a diferença que aquilo o deixava enjoado.

Os dois ficaram em quase total silêncio se não fosse o barulho do teclado e o vento que batia na janela oposta da sala. Crânio fitou a mãe com o olhar que somente os filhos podiam fazer. Ela ainda era um mulher muito bonita, ainda mais com o coração tão nobre que possuía. Ele, no entanto, temia feri-la com o que desejava saber.

— Mãe... É verdade essa história que as minhas tias contam que você quase se casou um siciliano antes de conhecer meu pai?

A mulher levantou os olhos, estes que ficaram arregalados pela pergunta. Protelou por alguns segundos com a testa franzida, antes de responder com a voz incerta.

— Sim... É verdade, filho. Mas por que você quer saber dessa história? Já fazem tantos anos, eu mal me recordo dos anos que vivi na Itália... E creio que você não se lembre de quase nada quando passou férias lá.

O garoto balançou a cabeça concordando. De fato, as memórias eram vagas e confusas, como o borrão e o amarelado em fotografias que passaram anos expostas na umidade.

— Foi só uma conversa que eu ouvi numa desses jantares de família — Crânio forçou um sorriso — Mas que sempre tive curiosidade de saber mais.

A mãe desligou a tela do computador e colocou uma mecha de cabelo para trás de forma desconfortável.

— Bem... Sim, sim. Eu quase me casei com um rapaz que conheci por lá. Mas éramos muito novos na época, acho que nem vinte anos eu tinha ainda — ela deu um suspiro saudoso com um tímido sorriso — Ele era mesmo um tenerore, cativava todos à sua volta... Mas suas ligações familiares eram um pouco suspeitas.

O sorriso sumiu de seu rosto e Crânio sentiu o coração bater mais forte. Estava próximo do que queria tanto saber.

— Ele e sua família tinha envolvimento com a máfia, não era? É o que pai diz...

Ela baixou os olhos como se estivesse envergonhada, mas o garoto sabia que o silêncio da mãe era uma afirmativa de sua pergunta.

— Olha, querido... Isso foi há anos. Não me recordo e nem sei o que aconteceu com ele, pois tudo não passou de amor juvenil. É a mesma coisa do seu namoro com aquela menina bonita de que vez em quando vem aqui. Magrí é o apelido dela, né?

Crânio quase cuspiu o café, o que fez sua mãe rir.

— Mãe, eu e a Magrí não somos namorados!

— Não são? Eu jurava que eram! Até iria te perguntar sobre isso. Mas são tão bonitinhos juntos...

O menino tossiu de nervoso e sentiu as bochechas corarem furiosamente. Todos os sentimentos confusos que tinha pela menina pairavam na sua cabeça como abelhas irritantes, somando o constrangimento pelo comentário da mãe.

Ela, ainda rindo do filho, levantou-se pegando a bolsa já para sair. Deu um beijo na bochecha do garoto, dando instruções para não esquecer da festa daquela noite. Crânio ainda passou longos minutos até se recuperar da surpresa dos comentários da mãe, e ligar o computador de novo. Em instantes, sua mente prodigiosa estava focada no que queria fazer.

Ele estava diante de um quebra-cabeça com todas as peças bagunçadas. Havia algo que o incomodava em toda aquela história, mas não sabia definir o que era.

Descobrir um pouco do passado da sua família era a única alternativa que tinha e talvez a única pista sobre quem era o tal herdeiro da máfia. Ainda tinha um tempo sozinho antes de Magrí chegar, mas no fundo ele queria fazer aquilo sozinho, por mais que gostasse dela e de sua companhia. Porém, ele temia o que poderia descobrir.

Rapidamente olhando para o relógio, começou pelo mais fácil e o que tinha a mão. Teria que hackear um sistema, mas como já havia feito aquilo antes, não seria tanto problema.

Conseguindo acessar o que queria, pesquisou o que desejava saber. No entanto, inicialmente tudo pareceu infrutífero e estranho. Não havia nenhuma informação que fosse útil para o seu propósito.

Passados quase um quarto de hora, próximo do horário que Magrí chegaria, Crânio estava a ponto de desistir e acreditar que tinha enlouquecido de vez, quando se deparou com uma foto que fez seus olhos se arregalarem e a boca ficar seca.

Se não fosse um gênio persistente, nunca teria conseguido descobrir aquilo!

Imprimiu a foto em um frenesi, ao mesmo tempo que ouviu a voz e os passos de Magrí entrando na casa, dando de cara com ela na escadaria para o segundo andar.

— Crânio...?! O que está havendo?

Ele a pegou pela mão puxando-a junto com ele com muita pressa, voltando a subir as escadas, mas pegando a direção oposta dos quartos. Magrí seguiu sem entender nada e com muitas perguntas.

Chegaram a uma porta no fim de um dos corredores e por sorte, não estava trancada como costumava ficar. Os dois entraram e o garoto acendeu as luzes.

Ainda aflito, Crânio colocou nas mãos de Magrí o papel que carregava e se dirigiu para uma das estantes cheias de tralhas antigas da família. O lugar era uma espécie de porão, porém bem mais limpo e arrumado do que os porões comuns.

A menina, sem esconder sua confusão, fitou o papel e não demorou para adquirir a mesma expressão de surpresa de Crânio.

— Não pode ser! Como?!

O garoto aproximou-se carregando nas mãos um pesado álbum de fotografias e sentou-se no chão. Magrí sentou ao lado dele sentindo-se um pouco trêmula e talvez mais aflita do que o rapazinho.

Crânio passava as folhas do álbum como se sua vida dependesse daquilo — e mais tarde, descobriria que era bem verdade. Finalmente chegou nas fotos que queria rever: as suas férias na Sicília. Em qualquer outra ocasião, Magrí não teria perdido a oportunidade de fazer comentários jocosos sobre as fotos do amigo quando era criança, mas não podiam se dar ao luxo naquele momento.

Ainda em frenesi, os dois acharam o que estavam procurando. O mesmo rosto na folha de papel estava espelhado nas fotografias em preto e branco que Crânio segurava, com a diferença que no álbum, estava mais jovem. Mas estava lá, como se risse da expressão de espanto dos dois Karas.

Magrí sussurrou contendo o pânico que crescia em seu coração:

— Precisamos avisar os outros.

***

O salão de festas localizado na movimentada rua Oscar Freire já estava cheio. Quase todas as mesas já tinham sido ocupadas, e na parte superior do prédio, o DJ tocava sequências para animar os convidados mais jovens, enquanto um música mais lenta tocava no andar de baixo.

Quieto em pé em um canto mais afastado, observando os colegas de turma dançarem como se não houvesse amanhã, Crânio só conseguia se concentrar no que poderia acontecer. O choque inicial por sua descoberta havia passado, dando lugar a raiva. Estava com raiva de si mesmo, com raiva do seus antepassados, com raiva de tudo. Sabia que deveria controlar as emoções, mas tudo estava sendo demais para ele e o garoto não conseguia esconder seu descontentamento.

Deveria descer e ficar de olho nos convidados, como ele e os outros Karas haviam combinado antes de chegarem. Eles sabiam, é claro, quem era o suspeito...

— Você está fazendo aquela sua cara de que vai bater em alguém. De novo.

A voz suave de Magrí o despertou de seus pensamentos sombrios. E quando a viu, Crânio perdeu o curso das palavras. A menina estava mais bonita do que de costume, em um vestido preto brilhoso até os joelhos e o longo cabelo preso pela metade no topo da cabeça.

Ela sorria tentando se mostrar otimista, o que a deixava ainda mais bonita, mesmo com a preocupação clara em seus belos olhos, mais acentuados pela leve maquiagem. O coração do menino até disparou no peito. Se não estivessem em uma missão perigosa dos Karas, se aquela fosse outra ocasião...

Balançou a cabeça para dispersar tais pensamentos. Não, o relacionamento deles não iria passar da amizade e da confiança, por mais que ele quisesse. Outros garotos talvez seriam mais ousados do que Crânio se estivessem no lugar dele, mas o rapazinho sempre considerava os pós e contras em tudo.

Os comentários de sua mãe o deixaram ainda mais desconfortável em relação a Magrí, por mais que uma outra parte dele — a parte que fez com ele a abraçasse corajosamente no táxi até a casa do Marius Caspérides e fingisse ser namorado da garota por duas vezes — dissesse para ele parar de ser idiota e chamá-la para sair de uma vez.

A garota riu perto dele. Crânio riu de volta fracamente.

— Eu estava com a cara tão carrancuda assim?

— Estava, com uma mistura de cara de enterro também — ela deu um leve empurrão no ombro dele — Eu sei que devemos estar atentos, mas acho que você pode tentar se mostrar mais animado. Não gosto de vê-lo assim.

Crânio respirou fundo.

— Eu vou tentar, prometo.

Ela sorriu e o que o garoto mais queria fazer era abraçá-la e não soltá-la mais.

***

Miguel circulava pela festa sem muito interesse nas conversas dos convidados ou sobre o que estava acontecendo. Tudo era uma chatice sem tamanho, mas ao menos tinha um objetivo como os outros Karas.

Tinha visto Calú circulando com vários amigos, rindo e conversando e Chumbinho tentando se livrar da camisa social para ficar com a mais simples que estava usando por baixo — para o riso de Miguel — e Crânio conversando com Magrí no andar de cima. Tudo parecia bem até ali, tirando o fato do garoto não conseguir controlar o ciúme de ver a menina tão próxima do gênio dos Karas.

Ele suspirou. Aquela não era uma boa hora para tais sentimentos, mas não conseguia evitar em até mesmo sentir um pouco de raiva de Crânio, porque ele sempre lhe parecia estar puxando Magrí cada vez mais para perto dele e para longe de Miguel, principalmente depois dos acontecimentos no Pantanal há algumas semanas. A culpa que sentia por não ter acreditado no amigo no início de toda aquela confusão estava sendo ofuscada pelo ciúmes.

Sentiu alguém bater no seu ombro e virou-se dando de cara com Calú.

— Tudo certo, Miguel?

O líder dos Karas acenou em afirmação. Naquele momento, Magrí passou do outro lado de um grupo de mesas indo em direção oposta onde os dois garotos estavam. Os dois garotos a observaram.

— Ela tá cada dia mais gata, não é Miguel?

O líder dos Karas tossiu de forma seca e remexeu os pés como se quisesse fugir dali. Os dois olharam a menina desaparecer no meio dos convidados. Calú, após desviar os olhos de Magrí, riu com ironia.

— Não me vem com essa, Miguel. Já peguei você a secando várias durante as nossas reuniões. Essa sua pose de santinho não me engana não.

— Vá se ferrar, Calú — o líder dos Karas tentou soar sério, falhando miseravelmente para o riso do outro — Temos coisas mais importantes para se preocupar.

O ator dos Karas deu de ombros e Miguel se segurou para não xingá-lo mais. Era sempre assim, se Crânio não estava próximo, sobrava para ele ser o motivo de chacota para Calú. O comentário dele deixou Miguel ainda mais enciumado do que já estava.

— Excuse me, boys. Onde é o toalete?

Os dois Karas se viraram para o dono da voz. Era um sujeito alto e loiro, de olhos muito claros e pele alva. Tinha um jeito engraçado de falar, o que não passou despercebido para os meninos.

— É só seguir em frente em direção a adega e virar à esquerda, sir — respondeu Miguel.

O homem agradeceu, mas antes de sair, Calú, após trocar olhares significativos com Miguel, disse:

— Você está de passagem pela cidade? Não o vimos nas outras festas...

O sujeito estacou em um sorriso sem expressão ao fitar os dois Karas. Os olhos pareciam em calmaria pronta para uma tempestade.

— I'm a especial guest, boys. Tenham uma boa noite.

Quando ele saiu, Calú não escondeu a apreensão na voz. Miguel levantou a sobrancelha.

— Eu duvido que ele estava na lista de convidados, Miguel, porque eu nunca vi este homem nos outros anos que vim e eu nunca perdi uma festa. Era isso que eu estava tentando te dizer.

O líder dos Karas trincou os dentes.

— Então não temos apenas um suspeito, mas sim dois?

***

Chumbinho estava zanzando pela rua paralela ao salão de festas tentando ignorar a fome e o calor. Quase tropeçou em um cabo esquisito que se enrolou no seu calcanhar. Fitou e franziu a testa. O cabo era longo e saia de uma janela do mesmo prédio do salão.

"Que estranho, por que alguém colocaria um cabo desse tamanho no meio da rua?".

***

Crânio, cansado de toda a baderna que a festa estava virando, como todos os anos, foi para o pequeno jardim para tomar um ar puro. Estava pensando em pegar em alguma coisa para beber, pois estava com muita sede, quando ouviu alguém chamar seu nome, seu nome de verdade, não apelido.

Procurou o dono da voz e quando a achou, ficou vermelho. Vermelho de raiva.

— Você?! Finalmente te achei!

O agente Samuel Tyler tentava demonstrar confiança numa posição defensiva, porém sem sucesso.

— Listen to me, boy. Get out of here. Cai fora daqui, eles vão te pegar.

O gênio dos Karas cerrou os punhos.

— Tipo você mesmo? Ou devo chamá-lo de Paolo Franchetti?! Você é uma piada achando que iria me enganar por muito tempo!

Paolo Franchetti/ agente Tyler trincou os dentes com os olhos faiscando.

— We don't have time for yourrr stubborn behavior. Saia! Vá embora! Lasciare!

— Tia Matilde já está morta. Nada do que fizer comigo vai trazê-la de volta!

Os olhos do homem faiscaram de raiva e por momento, o ex agente o segurou pelo colarinho da camisa com força e ódio.

— Shut up! If you haven't my family blood you'd kill you right now for her, but someone alrrready wants to do it for me...!

Por dois segundos os dois estavam prestes a se matarem, no outro segundo, alguém veio por trás do gênio dos Karas e o agarrou pelo pescoço.

Crânio lutou com todas as forças que tinha até sentir um pano molhado com um cheiro horrível ser imposto nas suas narinas. Lutou contra o seu agressor em vão. Logo, a inconsciência já estava chegando.

Antes de desmaiar, conseguiu ver duas coisas. A primeira foi a figura de Chumbinho ao longe gritando e a segunda era a chegada de um outro homem que se prostrou ao lado de Paolo Franchetti/ agente Tyler. Parecia um anjo de tão loiro, mas seu sorriso era cruel.

A cabeça pendeu e Crânio mergulhou na escuridão.

Continua...

Notas finais
Até o próximo capítulo!