Cante!

8 Ep07 - O voo da asa branca


Notas iniciais
Chegou o momento da apresentação da Semana de Artes pela qual o coral trabalha tanto. O show de talentos também chama a atenção dos alunos e alguns dos nossos conhecidos irão participar. quem irá ganhar o troféu do torneio?
Baixe as músicas do episódio:
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EPISÓDIO 07

O VOO DA ASA BRANCA

I

Todos já estavam prontos. Ensaiaram bastante na última semana para que as duas músicas que iriam cantar saíssem perfeitas. Osmar era o mais nervoso; seu talento estaria à prova naquele momento. Se algum daqueles adolescentes estragasse tudo... Não! Nada de pensamento negativo! Vai dar tudo certo! Vai ocorrer tudo bem.

Estavam prontos meia hora antes do início do show. As meninas vestiam vestidos brancos de um tecido que parecia seda, iam até os joelhos. Uma fita bem grossa marcava a cintura. Cada uma com uma cor diferente, porém, todas em tons pastéis. A única fita de cor forte era a de Annah: vermelho sangue. Um laço feito de retalhos posto no lado esquerdo da cabeça, um coque delicadamente arrumado, maquiagem básica e uma sandália preta de salto não muito alto fechava o look das meninas. Os rapazes vestiam calça e sapato social -perfeitamente engraxado -, camisa social amarelo pastel sem gravata, as mangas dobradas acima do cotovelo.

Todos prontos, aliás, todos menos Talita, que nem estava ali.

A garota sentara-se na plateia, bem de frente ao palco montado no centro da quadra de futsal do colégio. Ainda não entendia como fora parar ali.

***

— Te amo.

Ela estava pasma. Não sabia como reagir.

Como assim ele a amava? Aquilo era muito complicado de se entender. Haviam se tornado amigos recentemente e agora ele vinha dizer que a amava? A cabeça dela dava voltas.

Fernando ficara vermelho. Ele gostava muito dela, mas aquele “te amo” saiu automaticamente de seus lábios. Será que ele a amava mesmo? Decerto nunca sentira algo tão forte por outra garota, mas aquilo era o que todos chamavam de amor? Ah! Vida complicada! Seria ótimo se recebêssemos um guia de instruções ao nascermos, mas aí, pensou ele, acabaria com o principal motivo e prazer da vida: a descoberta.

— Desculpe Fernando, — disse Talita rompendo o silêncio do auditório – mas não sei o que te dizer. Só sei que isso foi uma grande surpresa pra mim; não esperava isso de você. – ele a observava, ela sentia como se ele pudesse penetrar no âmago da sua alma – Não sei o que sinto por você, achei que fosse só amizade, mas vou precisar de um tempo para digerir essa informação e pôr meus pensamentos e sentimentos em ordem. Não quero te magoar, e só posso ter algo contigo se tiver certeza do que sinto. – pausa; ele não disse nada – Você poderia me dar um tempo?

Antes de responder ele olhou para os próprios pés, em seguida, nos olhos dela.

— Tudo bem. – disse secamente, mas pode-se notar uma ponta de decepção no seu tom.

O último olhar que ele deu para ela fez com que um nó entalasse na garganta de Talita.

Ele foi embora.

Talita sentiu vontade de chorar. Será que estragara tudo? Precisava fazer algo para redimir sua culpa. Não poderia deixar um rapaz tão legal pagar por algo que não cometera. Agora, não importavam mais as consequências, deveria se confessar.

Encaminhou-se para a diretoria.

Coincidência ou não, pareceu que o caminho encurtara-se e rapidamente chegou ao local. Bateu e entrou na pequena antessala onde ficava Alice, a secretária do diretor.

— Posso falar com o diretor? – perguntou Talita.

— Quem devo anunciar? – arguiu de modo cortez.

— Talita Tabosa.

Entrou e sentou-se.

— A que devo sua ilustre presença, senhorita? – perguntou o diretor curioso.

Talita respirou fundo. Embora não quisesse fazer aquilo, precisava. Faria por Fernando, que se arriscou por ela. Aquele “te amo” mudou sua mente completamente. Não poderia deixar aquele doce rapaz ser castigado.

Separou os lábios, nenhum som saiu. O diretor esperava ansiosamente; pressentia o que ela iria lhe dizer. Talita respirou longamente. Não imaginara que assumir as consequências dos seus atos fosse algo tão difícil. Coragem! Você não é tão confiante?

— Eu sou a responsável pela brincadeira com a Annah.

O diretor quis esboçar um sorriso, mas controlou-se. Seriedade era crucial naquele momento.

— Mas o culpado já se delatou. Foi Fernando Gouveia. – tentou parecer surpreso com o que ela lhe dissera, mas não era bom ator.

— Não foi ele. Fui eu. – Talita sentia-se angustiada.

— E por que ele se acusou? – endireitou a gravata.

— Porque queria me proteger. – ansiava chorar, não sabia por que, mas algo lhe apertava o peito.

— Quer dizer, então, que a senhorita é a responsável por aquela “brincadeira” e Fernando Gouveia só quis lhe proteger?

— Isso mesmo.

— Ele teve alguma coisa a ver com isso?

— Não.

O diretor anotou algo.

— Poderia me dizer o motivo que gerou tudo isso?

Talita respirou fundo, parecia que aspiraria todo o ar da sala. Aquilo era complicado, mas já havia começado. É horrível não ser uma garota perfeita!

— Inveja. – disse com dificuldade evitando olhar nos olhos dele – Tive inveja dela porque ela recebeu o solo da apresentação da Semana de Artes. – o diretor simulou ar compreensivo, mas, para ele, aquele era um motivo ínfimo para acarretar uma vingança – Então, fiz aquilo com ela.

— Você não acha que exagerou um pouco?

— Talvez... – conteve um soluço – Mas me senti tão humilhada na hora que só pensava em me vingar. Não medi as consequências que aquilo poderia tomar. – seus olhos estavam vermelhos e marejados.

O diretor endireitou os óculos. Tinha um ar cansado, mas a confissão da moça acabou lhe reconfortando, dando-lhe mais ânimo.

— Espero, senhorita Tabosa, que isso nunca mais volte a acontecer. – a expressão dele ficou sisuda – A senhorita está suspensa por 15 dias. Ligarei para seus pais ainda hoje.

Ela concordou. Levantou-se e quando ia sair, ele completou:

— Também está suspensa das apresentações da Semana de Artes.

Essa frase cortou seu coração como uma espada.

— Desculpe? – virando-se, não conseguiu conter as lágrimas.

— A senhorita não se apresentará com o coral, nem poderá participar do show de talentos.

Talita não conseguiu dizer mais nada, se falasse, não passariam de argumentos desconexos.

Saiu da diretoria. Queria correr... Queria chorar...

Tudo tinha saído pior do que ela pensara, mas fora por um bom motivo, reconfortou-se. Já imaginava o que aconteceria: assim que sua mãe soubesse da suspensão, ligaria para seu celular, gritaria, perguntaria se ela estava ficando louca ou arranjara novos amigos e começara a se drogar; seu pai cortaria sua mesada e, provavelmente, a internet. Mas o que mais lhe doía era estar suspensa também da Semana de Artes. Estava proibida de frequentar o único evento de artes do seu colégio. Aquilo era tortura! Onde ficaria seu talento agora? Teria que esperar pelo próximo ano? Embora soubesse que o que fizera fora grave, a punição do diretor era extremamente injusta...

***

Os aplausos dos alunos trouxeram-na de volta à realidade.

Naquele momento, o diretor finalizava seu tradicional discurso de abertura:

— ...por esses motivos, o tema escolhido esse ano foi homenagear essa importante região do nosso pais. – pigarreou – Nesse momento, declaro oficialmente aberta a XIII Semana de Artes do Colégio Augusto dos Anjos – todos aplaudiram – cujo tema será: “As faces do Nordeste”. E, agora, para abrilhantar ainda mais nossa noite, o coral do colégio cantará algumas músicas para nosso deleite. Aproveitem!

As cortinas subiram. Poucos aplaudiram.

Estavam organizados em linhas nos degraus do palco. No primeiro degrau, estavam os quatro rapazes: Fernando, Leandro, Renan e Pedro; no segundo, Paloma, Maria e Tiffany; e no último, sozinha, Annah. Todos em posição ereta com as mãos para trás.

O piano começou.

[Asa Branca (Luiz Gonzaga {Garçons cantores}) – Coral]

TODOS:

Quando olhei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João

MENINAS:
Eu perguntei a Deus do céu, ai
(MENINOS: Ah... Ah, Deus, ai...)
Por que tamanha judiação
(MENINOS: Por que... Judiação).

Eu perguntei a Deus do céu, ai (MENINOS: Ah, ah, ah... Ah, ah.)
Por que tamanha judiação
(MENINOS: Ah... Judiação).

TODOS:

Tu, ru, tu, ru, tu, ru, tu, ru, tu, ru

Tu, ru, tu, ru, tu. (bis).

Quando o verde dos teus "óio"
Se "espaiar" na “prantação”
Eu te asseguro não chores não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chores não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração.

Tu, ru, tu, ru, tu, ru, tu, ru, tu, ru

Tu, ru, tu, ru, tu.

A sanfona atacou.

[Isso aqui tá bom demais – Pagode russo (Dominguinhos – Luiz Gonzaga) – Annah e coral]

Organizaram-se em pares: Tiffany com Renan, Pedro e Paloma, Fernando e Maria, Leandro e Annah.

ANNAH:

Olha, isso aqui tá muito bom
Isso aqui tá bom demais
Olha, quem ta fora qué entra
Mas quem ta dentro não sai (bis).

Separaram-se. Fernando, Renan e Pedro pareciam dançar frevo. Leandro e Tiffany dançavam juntos pelo palco. Annah na frente do palco. Maria e Paloma no último degrau fazendo coro.

ANNAH, MARIA E PALOMA:

Parecia até um frevo naquele cai e não cai
Parecia até um frevo naquele vai e não vai (bis)

Vem cá cossaco,

ANNAH:

Cossaco dança agora
Na dança do cossaco, não fica cossaco fora

TODOS:

Entra cossaco,

ANNAH:

Cossaco dança agora
Na dança do cossaco, não fica cossaco fora

Voltaram à formação de casais, fazendo como uma quadrilha.

ANNAH:

Vou me perder me afogar no teu amor
Vou desfrutar me lambuzar deste calor
(TODOS: Vem cá, cossaco)
Te agarrar pra descontar minha paixão
(TODOS: Entra, cossaco)
Aproveitar o gosto dessa animação.

Formaram um túnel e todos passaram individualmente. A plateia começou a dançar também.

ANNAH:

Olha, isso aqui tá muito bom
Isso aqui tá bom demais
Olha, quem ta fora qué entra
Mas quem ta dentro não sai

TODOS:

Olha, isso aqui tá muito bom
Isso aqui tá bom demais
Olha, quem ta fora qué entra
Mas quem ta dentro não sai

A plateia ficou de pé e os aclamou.

Os alunos do coral estavam extasiados; definitivamente, aquela apresentação fora perfeita.

II

— Muito bem garotos, todos aqui! – Osmar os reuniu atrás do palco – A única coisa que tenho a fazer agora é parabenizá-los; a apresentação foi impecável – seus olhos brilhavam; aquelas crianças remelentas fizeram jus ao talento dele – E como recompensa, desejo a todos merecidas férias, afinal, trabalhamos bastante para atingir a perfeição...

— Não sabia que ficar sentado, escrevendo era trabalho duro. – Fernando cochichou para Maria.

Ela fez sinal para que ele calasse a boca.

— Professor... – interrompeu Renan.

— Diga Ricardo!

— É Renan. – Osmar ficou indiferente – Nossos ensaios continuarão normais no próximo semestre?
— Bem, por enquanto não temos nenhuma apresentação marcada, então, não tem por que continuar ensaiando. Mas se vocês quiserem, posso pedir para o diretor nos encaixar em algum evento – a maioria concordou – Ok! Falarei com ele, mas, até segunda ordem, nossos ensaios estão suspensos. Agora vão se trocar que chegou o momento do show de talentos!

Pedir para o diretor marcar uma apresentação? Aquilo não era do feitio de Osmar. Ele estava almejando férias há tempos e da forma como seu espírito criativo estava cansado, elas deveriam durar no mínimo seis meses. Cansava muito preparar uma apresentação perfeita como aquela. Ansiava por maratonas de filmes Cult na solidão da sua moradia, talvez um bom clássico da literatura também. Lembrou-se que comprara “Helena” algumas semanas atrás.

III

— Ok, caros alunos, — disse o diretor – chegou o momento do tradicional Show de talentos. – aplaudiram sem muito ânimo – Antes de começar, porém, anunciarei o júri desse ano: a primeira jurada desse ano – disse sorridente — é a querida professora de matemática do Ensino Médio: Vivian Macêdo; — um refletor acendeu sobre ela, levantou-se e acenou para os alunos como uma miss; seu decotado vestido vinho valorizava muito bem suas curvas e faria qualquer homem enlouquecer – ao lado dela, o talentoso professor de história do 9º e 1º ano e instrutor do coral, Osmar Camelo; — levantou-se, quase ninguém o aplaudiu – também compõe o júri desse ano, o professor de física do 2º ano, Rubens Torquato – levantou-se, sua camisa justa fazia seus músculos parecerem ainda maiores; as garotas da plateia gritavam: “gostoso!” – E, por último, mas não menos importante – o refletor acendeu, porém, a cadeira estava vazia – o digníssimo diretor Henrique Ferreira. – posicionou-se na sua cadeira e continuou: — E para iniciar nosso Show de Talentos: Leandro Marques, do 1º ano D, cantando “Admirável chip novo”, da Pitty.

A cortina ergueu-se, a plateia aplaudiu. Leandro ao centro do palco. Vestia-se casualmente.

A banda começou.

[Admirável chip novo (Pitty) – Leandro]

Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação.

Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente
E eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema.

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga...


Não senhor, Sim senhor (2x)

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga...


Não senhor, Sim senhor (2x)

Mas lá vêm eles novamente
E eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema.

Aplaudiram.

IV

Talita assistia. Ficara animada com a performance de Leandro, ele tinha grandes chances de ganhar.

Sentiu alguém tocar-lhe o ombro, virou-se para ver quem era. Era Fernando, que sentou ao lado dela.

— Oi. – disse o rapaz com um sorriso estampado no rosto.

— Oi. – respondeu timidamente; puxou o cabelo para detrás da orelha.

— Então, qual a sensação de não estar no palco sendo aplaudida?

— Estranha. – disse quase rindo de si mesma – Mas me deu um olhar completamente novo. Agora posso criticar as pessoas com argumentos mais fundamentados. – soltou uma piscadela seguida de um riso contido.

— E que críticas seriam essas? – aproximou-se; estava com uma vontade imensa de beijá-la.

As bochechas dela coraram quando ele chegou mais perto. Talita recuou.

— Por exemplo, Annah tem alguns problemas com sustenidos; ela sempre sobe essas notas.

— Não percebi isso. – ele se afastou e cruzou os braços.

— É porque a desafinação dela é muito pequena. Só fica evidente para ouvidos absolutos e bem treinado como o meu.

— Ah... – ele não entendera muito bem o que ela disse — E sobre mim? Alguma crítica?

— Você não dança bem e sempre desafina nos rés. – disse sem prestar muita atenção nele; olhava atentamente para o palco, onde, naquele momento, um aluno tentava tocar o hino nacional com uma embalagem de bala.

Ele ficou calado; não sabia mais o que dizer. Ela continuou fixa no garoto do papel de bala.

— Já vou. – disse ele – Preciso me arrumar para a minha apresentação.

— Você vai se apresentar? – perguntou curiosa.

— Vou.

— Vai cantar o quê?

— Surpresa. – disse misterioso.

— Tá certo então. – riu – Pode ir se arrumar, senhor cantor misterioso! – ele ameaçou gargalhar.

Fernando se afastou. Ela ficou observando. Ainda não sabia o que sentia por ele, mas quando conversava com aquele rapaz, sentia-se completa, mais forte. Ele parecia entendê-la perfeitamente; sempre tinha um conselho para lhe dar. Além disso, arriscou-se para protegê-la. Nossa! Como ele é fofo! Ele é... Perfeito! “Totalmente diferente de mim.”, pensou ela tristemente.

— Agora, caros alunos, — a voz do diretor ampliada por toda a quadra fez com que ela se assustasse – assistiremos uma aluna do 1º ano que cantará um clássico de Elba Ramalho. Com vocês: Francinalva...

— É Annah. – ouviu-se alguém gritando por detrás da cortina.

O diretor pigarreou.

— Com vocês: — sorriu amarelo – Annah Silva.

A cortina subiu. Annah usava um vestido amarelo claro que ia até o meio de suas coxas, botas branca até o joelho e o cabelo arrumado num estranho rabo-de-cavalo.

[Forró do Xenhénhém (Elba Ramalho) – Annah]

Morena forrozeira do cangote suado
Tô ficando arriado com você meu bem
Com esse rebolado teu corpinho fica mole
E nesse bole-bole, nesse vai-e-vem
O coração da gente chega lateja
A gente só deseja passar bem

Com você meu bem
No xenhenhém, no xenhenhém, no xenhenhém

Dançava por todo o palco. Parecia realmente uma diva da axé.

Quem foi esse inteligente que inventou o forró
Fez a morena levantar pó
Ele é um artista
Trabalhou bem
E a morena forrozeira é de quem
Estiver disposto pra ganhar no xenhenhém

Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Vou fazer tudo pra ganhar no xenhenhém (bis).

Alguns alunos começaram a dançar também.

Talita sorriu; não se podia negar: quando o assunto era forró, a performance de Annah era impecável.

Morena forrozeira do cangote suado
Tô ficando arriado com você meu bem
Com esse rebolado teu corpinho fica mole
E nesse bole-bole, nesse vai-e-vem
O coração da gente chega lateja
A gente só deseja passar bem

Com você meu bem
No xenhenhém, no xenhenhém, no xenhenhém

Quem foi esse inteligente que inventou o forró
Fez a morena levantar pó
Ele é um artista
Trabalhou bem
E a morena forrozeira é de quem
Estiver disposto pra ganhar no xenhenhém

Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Xenhenhém, xenhenhém, xenhenhém
Vou fazer tudo pra ganhar no xenhenhém (7x).

Todos aplaudiram.

— Obrigada, meus lindos! – gritou Annah.

V

Renan estava cansado. Por ser da equipe do jornal do colégio, precisava trabalhar dobrado na Semana de Artes; primeiro, precisava preparar o trabalho que valeria boa parte de suas notas do bimestre; segundo, como esse era o maior evento organizado dentro do colégio, ganhava a matéria de capa da edição de agosto do jornal e, para piorar tudo, naquele ano ficara responsável pela cobertura do evento com seu melhor amigo, Jaime.

Ainda por cima, como problema pouco é bobagem, ainda tinha se enfiado no coral. Problemas e mais problemas! Matérias e apresentações. Ele precisava parar de arranjar trabalho para si; já estava muito cansado.

Jaime se aproximou. Era bem mais alto que Renan, magro, não usava óculos e vestia frouxas calças jeans e uma blusa polo listrada por dentro da calça.

— Algum furo? – perguntou Jaime.

— Que nada! – disse o outro exausto – Até agora a coisa mais interessante que teve foi o garoto que tocou o hino nacional no papel de bala. E você? Alguma foto comprometedora?

— A minha belezoca aqui – mostrou a máquina fotográfica semiprofissional que carregava na mão direita – tá doida pra funcionar, mas tá tudo tão chato. – olhou para as arquibancadas – Metade dos alunos já foi embora.

Ouviu-se o diretor anunciando a próxima atração.

— ...o aluno José Maria do 3º ano B fará sua tradicional interpretação de Romeu e Julieta onde ele interpretará o Romeu e a Julieta.

Jaime virou-se para Renan.

— Não! – disse o último – Todo ano o Zé Maria é entrevistado, tava a fim de fazer algo diferente.

— Pois eu vou lá bater algumas fotos.

Tédio! Para Renan, essa palavra resumia a Semana de Artes daquele ano.

VI

O diretor levantou-se para anunciar a última atração da noite. Aquela noite estava saindo abaixo do esperado, apresentações entediantes sem criatividade e não fora fácil aguentar ver o Zé Maria interpretar pelo quarto ano consecutivo Romeu e Julieta. Sorte que aquele era seu último ano.

Leu o nome dos alunos e o da apresentação mentalmente. Sorriu, aquilo provavelmente salvaria a noite.

— Prezados alunos, agora nossa última apresentação noite...

***

Talita esperara ansiosamente pela apresentação de Fernando, mas o diretor anunciara agora a última apresentação e o rapaz não estaria lá, com certeza. Deve ter acontecido algo...

***

Depois de ouvir o nome da atração, Renan fixou o olhar no palco. Tinha um pressentimento que aquela última atração valeria por toda noite. Rezou para que Jaime estivesse bem posicionado para tirar fotos perfeitas.

***

— ...com vocês: — concluía o diretor – as Empreguetes do Augusto dos Anjos.

A cortina levantou.

Três garotas de costas. Usavam collant preto, meia calça preta e um scarpin da mesma cor. Seus braços também estavam cobertos.

A música começou a tocar. A primeira girou, posicionou-se, um refletor acendeu sobre seu rosto: era Paloma. A última fez o mesmo: era Maria. Apenas a do meio continuou de costas. Era loira; “será que é Tiffany?”, pensou Talita.

A garota virou-se: era Fernando, usando uma enorme peruca loira.

Todos os presentes começaram a rir e a aplaudir.

[Vida de empreguete (Empreguetes) – Fernando, Maria e Paloma]

Dançavam a coreografia original. Todos riam de Fernando.

FERNANDO:

Todo dia acordo cedo,
Moro longe do emprego
Quando volto do serviço quero o meu sofá

Tá sempre cheia a condução
Eu passo pano, encero chão
A outra vê defeito até onde não há

PALOMA:

Queria ver madame aqui no meu lugar
Eu ia rir de me acabar
MARIA:

Só vendo a patroinha aqui no meu lugar
Botando a roupa pra quarar

PALOMA:

Minha colega quis botar
Aplique no cabelo dela,

TODOS:
Gastou um extra que era da parcela

MARIA:

As filhas da patroa,
A nojenta e a entojada,

TODOS:
Só sabem explorar, não valem nada

Queria ver madame aqui no meu lugar
Eu ia rir de me acabar
FERNANDO:

Só vendo a cantora aqui no meu lugar
Tirando a mesa do jantar

TODOS:

Levo vida de empreguete, eu pego às sete
Fim de semana é salto alto e ver no que vai dar
Um dia compro apartamento e viro socialite
FERNANDO:

Toda boa, vou com meu ficante viajar (bis).

FERNANDO:

Todo dia acordo cedo,
Moro longe do emprego

TODOS:
Quando volto do serviço quero o meu sofá

PALOMA:

Tá sempre cheia a condução
Eu passo pano, encero chão
TODOS:

A outra vê defeito até onde não há

TODOS:

Queria ver madame aqui no meu lugar
FERNANDO:

Eu ia rir de me acabar
TODOS:

Queria ver madame aqui no meu lugar
MARIA:

Eu ia rir de me acabar

TODOS:

Levo vida de empreguete, eu pego às sete

FERNANDO:
Fim de semana é salto alto e ver no que vai dar

TODOS:
Um dia compro apartamento e viro socialite

FERNANDO:
Toda boa, vou com meu ficante viajar

TODOS:

Levo vida de empreguete, eu pego às sete
MARIA:

Fim de semana é salto alto e ver no que vai dar
FERNANDO:

Um dia compro apartamento e viro socialite
PALOMA:

Toda boa, vou com meu ficante viajar

FERNANDO:

Ba-da-ba-da-bauea (PALOMA: Ba-da-ba-da-bauea)

MARIA:

Ba-da-ba-da...

TODOS:

Ah, ah, ah, ah... (4x).

Aplaudiram de pé, inclusive os jurados – exceto Osmar. O diretor pegou o microfone e anunciou:

— Acho que já tomamos nossa decisão, não é? – os outros jurados concordaram – E tenho o prazer de anunciar como campeãs do XIII Show de talentos do Colégio Augusto dos Anjos: — o baterista rufou os tambores – as Empreguetes do Augusto dos Anjos!

***

Todos aplaudiram e gritaram. Talita precisou se controlar para não invadir o palco; estava muito feliz por Fernando e, por um instante, teve vontade de correr, agarrá-lo e beijá-lo ali mesmo, mas controlou-se. O que quer que aconteça entre eles, precisava ser sincero, ele merecia depois de tudo que fizera por ela.

***

Renan disparou para detrás da banca dos jurados e pôde ver Jaime tirando fotos das campeãs, ou campeões... Seja lá o que fosse! Agradeceu por ter sido escalado naquele ano como responsável pelo Show de talentos, afinal, uma entrevista exclusiva com Fernando Empreguete, garantiria a admiração de todos os seus colegas.

***

Osmar arregalou os olhos. Como assim? Eleger aquele trio de bestas excêntricas como campeãs? Achei que o nome do evento fosse “Show de talentos” e de talento, aquele grupinho não tinha nada. Teve vergonha por ser professor daqueles três no coral, eles mereciam ser expulsos!

Ora! Aclamar as Empreguetes campeãs? O diretor cometeu uma grande desfeita com todos os jurados, pensou Osmar. Se fosse para só ele decidir, por qual motivo convocara uma banca? Todos os outros jurados concordariam com ele, disso tinha certeza. O único que mostrara um pingo de talento naquela noite, além dele mesmo, logicamente, fora José Maria. O professor arrepiava-se ao lembrar a apresentação como Romeu e Julieta do garoto. Aquilo sim fora inspirador, não aquele show de Drag Queen!

Para sua frustração, porém, ao olhar para o lado, viu os outros jurados de pé, aplaudindo e gritando com a plateia. Como eles poderiam compactuar com aquela aculturação? Os jurados precisariam ser escolhidos com maior cuidado no ano seguinte. Osmar não entendia como eles poderiam aplaudir aquele trio aculturado, e ainda por cima, nomear o trio-sem-talento vencedor do Show de talentos. Recusava-se a assistir a verdadeira cultura ser assassinada a sua frente.

Retirou-se da quadra.

***

O diretor Ferreira segurava o troféu de campeão — era pequeno, apenas de valor simbólico.

— Agora, — disse ele – tenho a honra de entregar o troféu de campeão às Empreguetes.

Todos aplaudiram e gritaram ainda mais alto.

Fernando levantou o troféu o mais alto que pôde. Maria e Paloma se abraçaram, depois os três.

Talita observava tudo com um sorriso e os olhos cintilantes. Ficara muito feliz por ele; Fernando merecia tudo aquilo e ainda mais. O carinho que ela sentia por ele parecia que ia aumentando cada vez mais. Talita precisava entender o que estava sentindo; ainda não estava muito claro para ela.

Fernando explodia de felicidade e toda a quadra gritava em uníssono:

— Empreguetes! Empreguetes!

Notas finais
Heey! o/
Então, o que acharam? Gostaram?
Até semana que vem, com o último episódio da primeira parte da temporada! XD
Témais! (:
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/WuQdilcA/Cante_-_1x07.html