Cantarella
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Uma gota.
Depositara apenas uma gota do veneno incolor e adocicado, mas, ainda assim, a dose era letal. A criança sorveu o conteúdo da taça de cristal em um ato tão inocente que o tornava quase libidinoso. Em breve já não conseguiria mais respirar.
O corpo infantil foi ao chão, em busca do elemento que não conseguia absorver, derramando o resto do vinho sobre o tapete. O vermelho da bebida e o vermelho do tecido confundindo-se em um único tom. A criança arrastou-se até aquele que jurara proteger-lhe, seus olhos imploravam por ajuda.
Entretanto, ele não movera um único músculo. Observava a pequena debater-se iluminada pelo fogo que provinha da lareira, tão fascinado como se assistisse uma ópera de Donizetti. Ao término do “espetáculo”, ela não mais se movia. O rapaz então se aproximou do corpo, ainda quente, e depositara a mão sobre o seio que mal havia despontado, obtendo a certeza que procurava: o coração já não batia, ela estava morta.
Cuidadosamente, ele pegara o pequeno corpo no colo, sentindo-o esfriar pouco a pouco, e subira pelas grandes escadas de mármore. Abrira uma das inúmeras portas de carvalho daquele corredor, deparando-se com uma enorme cama de casal sob um dossel tão branco quanto a neve. Colocara o corpo, já frio, sobre os lençóis de seda e deitando ao seu lado em seguida.
De seu hobby azulado ele retirou um diminuto vidro que abrigava um líquido incolor. Bebeu até a última gota, como se saboreasse o mais valioso dos néctares, e então uniu seus lábios pecaminosos ao do corpo imaculado que jazia ao seu lado.
— Vejo-te no inferno, minha adorada irmã.
E adormeceu eternamente ao lado da criança que tanto amava.
Cantarella
30/07/2011
by Kelen Yoru
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