Cancro & chaos

15 O lupanar e a Terra dos Mancos


À par de muitos passos, quando já era noite e eu estava bem alimentado com uma ração de cachorro que encontrei na rua 13, alcancei uma área da cidade conhecida como Amstersim, uma área com as maiores casas noturnas, jogos ilegais de apostas, venda legal de drogas mais pesadas e também recintos de prostituição legalizada. A região é foco dum fluxo milionário. O dono da maioria dos estabelecimentos relacionados aos jogos e prazer é um sujeito franzino que anda de sola ao céu junto a um bando de guardas trajados de preto.

O famoso antro dos depravados, em estado de narcose ou consciência estável.

Continuei andando iluminado pelo neon excessivo, com múltiplas coloridades, num bairro tipicamente “comercial”. Embalado pelo synthpop progressivo e sensual, tocado em caixas de som e postes estrategicamente posicionados.

Entrei numa rua quase desértica, com um ou dois transeuntes que apreciavam as bancas. O prazer nunca dorme.

Passei por bancas de cocaína, feiras de marijuana e deparei-me com uma situação que veio como um soco na boca do estômago. Uma loja de aluguéis toda envidraçada, com repartições e tubos gigantes que pareciam de ensaio. Dentro desses tubos e dessas repartições de vidro havia, nada mais e nada menos, que pessoas. Homens e mulheres com bocas zipadas (claramente não haviam nascido assim, ninguém nasce com uma boca costurada por médicos). Dançavam sensualmente, com representações sexuais estereotipadas e obscenas. Não havia sorriso ou expressão facial, apenas uma padronização de gestos perceptível a qualquer observador atento. Tinham pontos escuros no local das glândulas lacrimais. Eles não tinham como chorar. Em cada cápsula que guardava uma pessoa para fins sexuais, havia um reprodutor de áudio acionado por um botão específico para cada objeto de desejo. Um homem passou e apertou uma das cápsulas que guardava uma mulher de longos cabelos negros.

— Eu estou aqui para o seu total prazer, não há quem me tire da missão de tornar você a felicidade em pessoa. Venha me conhecer.

O homem sorriu e entrou na loja. Só eu estava ali, atônito com o quê via? Vozes programadas e sintetizadas num computador de última geração. Uma placa-propaganda roxeada, ao lado do estabelecimento, guardava as seguintes informações: “Temos os melhores preços e a última leva de corpos especializados no prazer, com bocas que recebem encaixes para sexo oral, beijos e fetiches de inserção, além de reproduzirem a voz que você desejar, se assim preferir. Confira o frenesi da Terra dos Mancos”.

Não conseguia sentir tesão/atração por nada daquilo. Onde o ser humano havia chegado?

O sexo é mais uma válvula de escape, capaz de ser força motriz e atuante das maiores perversidades humanas, capaz de aflorar anseios obscuros e subjugar a razão em prol de supri-los. O quê é normal e presente na natureza humana conseguiu ser adulterado o bastante para ser uma doença venérea.

O conluio entre dois corpos ou mais com preceitos entorpecentes. O problema não é bem o prazer, no seu sentido amplo, afinal, sem prazer não haveria muito pelo quê viver. O empecilho é substanciado quando o ato dota-se como refletor das adversidades humanas. Naturaliza a ideia dos desvios sexuais que levam a estupros, objetificação dos indivíduos e pedofilia, além de outros extravios.

O sentido do lupanar moderno, com pessoas alteradas não só fisicamente para servidão, traz a ideia incrustada na mente de grande parcela da sociedade: existem alguns que nasceram para servir e outros para serem servidos, simples assim.

Seria hipócrita afirmar que todas as pessoas naquelas cápsulas tiveram escolhas de estarem ali. O choro do desgosto é freado, a expressão é falseada e existe uma padronização nos gestos. Infelizmente, a prostituição ainda é imbuída em muitos tratados de tráfico humano. O desejo por uma vida melhor pode ser transformado e até chantageado.

Confesso, sem medo de julgamento: conforme analisa-se o mundo, os mecanismos e as engenhosidades, percebe-se mais matéria escura que precisa de ímpetos filosóficos e atos cálidos para sanar-se, depurar e modelar. E ainda bem que há quem se incomoda com isso. Ainda bem que há quem não se acostumou com pessoas passando fome, com guerra e abusos ao redor do mundo, quem não se acostumou com o terrorismo e com o sequestro da infância...

Por trás de cada um daqueles rostos, daqueles olhos, dos bustos siliconados, dos músculos anabolizados, há certamente uma estória. Uma crônica real e longa. Há tantas reticências e segredos, como podemos desconsiderar a subjetividade e achar que um ser humano pode ser simplesmente usado? É como andar com uma bomba atômica na bolsa, acariciá-la por todo o dia, mostrá-la para impressionar e intimidar, e desconsiderar a iminente fissão nuclear, consequente explosão.

Todo ser humano tem um lado o qual faz parte da convivência, que não se faz ser motivo de orgulho. Há os princípios em vigor e os adormecidos, de virtudes, benfazejos. Os manipuladores, os perversos, os pesadelos vivos não são apenas maldade e delinquência. Da mesma forma, até aquele que mais puro parece, tem o seu cachorro faminto por carniça. É tudo uma questão de escolha, do quê nutrir, do que fazer. Somos feitos dos nossos traumas, mas, eles não podem nos definir, eles condicionam e conforme a nossa debilidade ou valentia, vamos segundo eles ou procuramos uma nova forma de não morrer afogado no que fizemos a nós ou outrem nos fez.

O mundo faz-se da não aceitação. Se aceitarmos o nocaute nada se fez além da nossa queda.

(pausa)

É. Saí andando, cabisbaixo, porém, levantei a cabeça, munido de uma esperança fugidia e de pensamentos contraditórios próprios da existência.