Cancro & chaos
7 O homem mais feliz do mundo
Após levantar, ainda desacordado, da parede que tomei de abrigo, recomecei as minhas andanças. Mal hálito, mal cheiro, mal gosto. Apenas continuei a andar. Imundo, fervido pelo Sol escaldante que despontava já perto da hora do almoço. A fome tinha alcançado níveis doloridos.
Tinha a cabeça cheia de sonhos que não consigo pôr no papel, contudo, obliterado por saber que todos os meus sonhos de criança tinham sido roubados e eu me sentia o ladrão; ainda assim, eu não conseguia aceitar que para alcançar tais determinados sonhos eu tinha que me vender, por migalhas simbólicas com valores absurdos, conotados por seres humanos que dariam tudo por um pedaço de papel.
Alguns passos mais e alcancei um conglomerado de pessoas que se juntavam em volta de um homem, o qual se erguia sobre uma caixa de madeira. Fiquei um pouco afastado do grupo, não queria espantá-los, no entanto, fiquei numa posição que possibilitava ouvi-lo. Cheguei sem pretensão, com a mente aberta e com o coração confortado por certa invisibilidade.
Por entre os ombros e pés, avistei uma face congestionada, transtornada por emoções que se remontavam positivas, mas, de uma maneira caótica, como já era de se esperar. Feito flores que se proliferam num jardim, crescem, tomam espaço, deixam seus espinhos por todo o campo, mas, permitem sentir o olor entre toda a grama massiva que se esgueira entre os caules e pétalas.
O homem tinha uma barba rala, esbranquiçada, uma velhice estampada na face, sem condizer com a sua idade, a qual arrisco dizer que beirava trinta anos. Cabelo amarronzado, ralo, porém, desgrenhado.
Falava com um sentimentalismo bonito de se ver:
— Dias antes do meu filho ir, eu entrei no seu quarto enquanto ele dormia e vi que por debaixo da cama, havia livros, amontoados, abarrotados. Pensei serem da escola, não o beijei e voltei ao meu quarto... Após ele partir — despontava pranto —, remontando toda a minha dor de pai inconformado, tomei dos livros que estavam ocultos pela cama baixa... Abri, as lágrimas caíam, eu lustrava a dor, pois, era só o quê eu podia fazer... Não sabia o quê fazer... Então, mexi nas coisas dele, procurando alguma forma de apaziguar tudo que me encarcerava... Eram livros de poema... Abri os olhos encabulado... Em todo final daqueles poemas tinha o nome do meu filho assinado... — pausou e retomou com os olhos arregalados — Meu filho era poeta... Pensei catastrófico: “poeta! Poeta! E eu nunca soube...”. Meu filho nunca se tornará um escritor de sucesso e nem terá suas poesias expostas em alguma banca... Meu filho é só mais um que se foi sem querer deixar vestígios... Eram versos bonitos. Eu não entendia nada, mas, sabia que eram versos de quem sabe escrever... Palavras que não se usam hoje em dia... Meu filho lia o mundo e eu só lia faturas...Trouxe algumas palavras dele hoje...
Ele tomou duma folha no bolso, amassada e carcomida, lutou contra o vento para erguê-la, parecia antiga, e leu:
— “Se o mundo que restou é esse, não merece ser vivido, mas, se continuamos vivendo, algo nos diz que o mundo que nos restou não é o definitivo. Faça valer a pena esse desejo de permanecer vivo”.
Pisquei não sei quantas vezes. Meu interior tão dividido e repartido entre parcelas de amor e ódio, tinha uma dificuldade intrínseca de lidar com toda essa alternância emocional. Ora eu queria que o mundo não fosse páreo para uma explosão, ora eu queria que com o mal expurgado, a poesia e a benevolência reinassem nos corações. Sentia-me a humanidade e a sua multipolaridade cósmica.
Minha visão pegava tantas cores, tanta multiplicidade de gestos, havia tons diferentes de preto, tons semelhantes de rosa, água em poça, árvore curvada, inverno em pote frágil de almas, Sol forte, brilhando, enquanto trovejava lá fora. Uma mente cristã coçava, dizendo que o amor poderia curar todas as pestes purulentas que havíamos criado. Mais ao canto, havia ferro e fogo, havia bem o contrário de toda a não violência. Havia imposição. Não posso afirmar que havia um rei por dentre os escombros do que sobrou de mim, mas, havia tribos demasiadas lutando por um pedaço de terra, enquanto eu procurava a pérola mais valiosa ali; o amor como ouro entre as pedras batidas.
As palavras daquele pai e daquele filho mexeram comigo e nem o mais forte dos tragos poderia me derrubar. Enquanto andava pelas calçadas irregulares, comecei a pensar: a cidade é representação simbólica do que se manifesta dentro do ser humano.
As ruas esburacadas, as lombadas e os assaltos à mão armada: a incoerência moral dos indivíduos que tentam caminhar, os obstáculos que parecem querer barrar e os assaltos do desejo sobrepujando virtudes valiosíssimas.
Parques e crianças brincando, casas de caridade, templos religiosos: a necessidade de lazer e voo, a benevolência (mesmo que não completamente pura) existente e a necessidade de procurar e criar justificativas para o quê acontece ou tende a acontecer, realmente ou num mundo distante.
Lembrei-me de um sonho pueril, dos meus tempos de escola primária: querer ver o mundo florido como o mais belo jardim que há dentro do homem mais feliz do mundo.
Persisti nos passos, algo me fazia crer que eu estava indo para algum lugar, talvez, para algum lugar mais fundo dentro de mim, onde bate a luz ou onde reina o escuro.
Se você crê que não existe o quê melhorar em você, você com certeza sofre de miopia, das piores miopias que existem, daquela que te impede de ver que o clichê está correto: toda mudança deve partir de nós e orgulhar-se de erros é o quê generais de guerra, mortos, adoram fazer.
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