Can you feel me?
3 Flashback
Lembro bem dos meus primeiros dias perdido por aí, era apenas uma criança, sem memória, sem nome, vendo os prédios se erguendo ao meu redor e sobrevivendo da melhor maneira que conseguia encontrar.
Crescer na rua é perigoso, mais do que se pode imaginar, porém eu sempre fui bom em me manter longe de encrenca, se tem uma coisa que eu sempre fui bom foi julgar as intenções das pessoas, por que será? Enfim, havia um festival em Sylou para comemorar vitórias contra outras nações. Toda aquela cidade cinza e sem vida ganhava uma energia nova e pulsante, muita gente, de todas as partes se reuniam para festejar as maravilhas de um mundo em guerra.
Não há só cidades militares no mundo, há cidades cientificas, cidades comerciais, industriais, mistas, e também há cidades puramente habitacionais. Essas cidades não possuem grandes bases militares, indústrias ou são ponto de comércio, é fácil adivinhar por que existem tão poucas. Toda a sua estrutura se baseia em acomodar o máximo de pessoas possível, a qualidade de vida seria melhor que as cidades comerciais se não fosse pela superlotação. E de todas essas cidades vieram pessoas presenciar o festival de Sylou.
Esses festivais são cheios de comidas de todos os tipos, e se você é um garoto de rua, o evento é literalmente um prato cheio, e uma oportunidade única, ninguém resiste a um garotinho pedindo comida. E em casos extremos as pessoas descartam comida perfeitamente boa e comestível e é aí que eu entro. O festival rende as sobras mais maravilhosas da vida de um garoto de rua.
Saí pelas ruas de Sylou no meio das pessoas e toda a confusão, era o mais perto de alegria que éramos permitidos a ter. Naquela época eu era muito inexperiente, estava confuso e perdido, nunca havia visto aquele festival, toda a sujeira das ruas removidas, sem poças d’água suspeitas e o pior, muitos garotos mais experientes que conheciam cada canto da cidade e até os comerciantes mais generosos.
Naquele dia eu só andei exaustivamente pra lá e pra cá no meio da confusão de gente e o colorido das ruas. Consegui algumas sobras apetitosas, e logo depois me sentei em um beco para fazer um inventário do que havia conseguido.
Pessoas passavam pela entrada do estreito beco e não olhavam para minha direção, melhor assim. Era um beco escuro com uma lata de lixo e paredes sem pintura. Também havia uma forte infiltração em uma delas já que o ar era úmido e eu ouvia goteiras em algum lugar a minha direita.
Aparentemente um grupo de garotos maiores teve a mesma ideia. Ao ouvir os passos entrando no beco me abaixei atrás da lixeira e tentei observar o que estavam acontecendo. Pelo menos cinco deles, de idades muito variadas traziam uma quantidade de comida absurda.
–Acho que a gente já tem muito – Disse um dos garotos menores – podemos comer?
–Claro que não – Replicou o garoto maior, que deduzi ser o líder, enquanto pegava o saco de papel que o garoto carregava – isso é uma mixaria, não vamos sobreviver uma semana com isso.
Eu queria que eles fossem logo embora, eu estava faminto e assustado, tentei ficar na ponta dos pés para espiar melhor, foi quando eu pisei em algo que devia ser uma lata e bati o queixo na lixeira fazendo um barulho que alarmou os outros garotos.
–Quem tá aí?
–Acho que estão querendo roubar nossa comida! – Disse um dos menores.
Eles estavam vindo cautelosamente na minha direção, não me restavam muitas opções, então agarrei meu saco de papel e corri para a direita. Quando os garotos perceberam meu medo logo correram atrás de mim também. Sorte que eu sempre fui ágil e consegui uma boa vantagem, porém depois de um tempo dei de cara com um muro.
–Droga – praguejei baixinho.
Só me restava uma opção, que era ir de encontro á meus perseguidores que estavam chegando. Então disparei o mais rápido que consegui, com meu coração martelando a mil. Costurei entre alguns garotos muito bem que logo vieram atrás de mim, porém havia dois ou três bloqueando a saída do beco.
–Te pegamos. –Exclamou um deles
Estavam se aproximando e o que eu fiz a seguir não lembro bem, um deles agarrou meu braço e eu o derrubei com uma rasteira. O outro vinha pela esquerda levou um soco no queixo e bateu as costas na parede. Disparei sem olhar para trás, sabia que eles estavam me seguindo.
Segui velozmente por entre a multidão, arrancando algumas reclamações pelo caminho na esperança de despistar os garotos. Não lembro por quanto tempo corri, mas fui parar em uma rua que nunca tinha visto.
Lá estava tudo mais organizado e limpo, de uma maneira que eu nunca havia visto. Havia vendedores com produtos coloridos e diferentes, além de muitos cheiros e sons estranhos. Os prédios não possuíam janelas quebradas nem pichações. Tudo estava em perfeita ordem.
Estava admirando tudo quando devo ter tropeçado em uma rachadura na rua ou algo assim. Quase dei de cara no chão se uma mulher não tivesse me segurado.
–Perdão senhora – Logo me desculpei.
Ela simplesmente sorriu, era uma mulher de quarenta e poucos anos, porém tinha um rosto amável, uma trança loira lhe caia pelos ombros e basicamente não me odiou a primeira vista.
–Tudo bem garoto, você se machucou? –Indagou a mulher
–Não senhora. – Respondi
–Meu nome é Rose, e o seu?
A verdade é que eu não sabia meu nome, eu sempre estive na rua desde que me lembro e todos me chamavam apenas de garoto, menino ou moleque. Porém aquela moça era amável e me disse seu nome, meus olhos percorreram a rua em busca de respostas.
Foi quando vi um cartaz, mostrava um homem de cabelo preto e olhos puxados com um olhar determinado e embaixo dessa foto havia:
Yang Ming – Criminoso classe A da América, caiu em batalha este ano. Vida longa a América.
Naquele dia não entendi muito bem o cartaz, mas ele era a primeira pessoa com ascendência asiática que eu havia visto além de mim.
–Yang... Meu nome é Yang...
–Yang... Você já comeu alguma coisa hoje? – Ela deve ter deduzido minha situação social por minhas roupas e pelo fato de eu ser muito magro. Nunca fui forte, mas isso me ajudou a me esconder e fugir sempre que necessário, agradeço por isso.
Levantei a mão onde deveria estar meu saco cheio de deliciosas sobras, só para perceber que no meio da confusão algum dos outros garotos deve tê-la pegado. Sem problemas, não os culpo por isso, estavam tentando se defender e defender a comida que conquistaram.
–Ainda não, senhora.
Ela me levou para um restaurante naquele lugar que eu nunca havia visto, era muito mais organizado e limpo do que a maioria dos que eu conheci, havia algumas mesas na calçada e as pessoas bebericavam seus chás despreocupadamente. Aquele lugar não parecia atingido pela guerra.
–Yang. Eu venho de uma cidade não muito distante. Onde as pessoas moram sem se preocupar com militares em suas ruas constantemente. – Ela me olhou, e diante do meu silêncio continuou- Eu trabalho em um orfanato nesse lugar, cheio de gente como você Yang. Crianças que não tem condições de ter um lar. Você conhece seus pais?
–Não senhora, eu não me lembro deles.
–Então você não tem nada a perder nesta cidade tem?
–As sobras daqui são realmente boas.
Ela riu, estava negociando com uma criança.
–Se vier comigo, não precisará comer sobras, e não viverá mais sozinho, talvez até uma família goste de você e te adote... Você gostaria disso?
–Sim, gostaria.
–Se vier, poderá frequentar uma escola e ter um bom futuro, eu prometo que estou sendo sincera.
–Como sei que posso confiar em você?
–Olhe bem nos meus olhos e diga se estou mentindo. Yang, não vou lhe obrigar a ir se não quiser, porém, isso me deixaria muito feliz.
Acho que todos já sabemos minha resposta.
***
Naquele dia, fui levado em um veículo até então estranho pra mim por uma longa estrada, tudo era tão novo para mim, com certeza havia dado sorte grande.
Cheguei a uma cidade diferente da que eu conhecia, os prédios tinham uma nova vibração, era como se uma tensão crescente tivesse sido retirada de mim. Em Sylou estava sempre chovendo por efeitos climáticos, já aqui o sol aparecia com mais frequencia, as pessoas tinham jardins verdes e levavam sua vida normalmente.
O carro parou na frente de uma grande construção amarela e desbotada de 2 andares com um grande jardim. Crianças brincavam no playground totalmente alheias aos acontecimentos do mundo. Ali eu passaria 2 anos da minha vida.
***
Os primeiros dias foram bem legais, ganhei um quarto que tinha que dividir com outras 3 crianças, todo dia havia uma hora em que íamos ao refeitório comer, e podíamos sair pelo jardim e brincar como crianças normais.
O problema é que eu nunca fui bom em socializar, logo eu não fiz amizade com ninguém, então eu simplesmente sentava em uma mesa e comia, enquanto as outras crianças faziam uma bagunça, e simplesmente sentava embaixo de uma árvore enquanto as outras brigavam por um espaço nos brinquedos. Por mim tudo bem, era mais sossegado simplesmente deitar na grama e fechas os olhos, ou simplesmente ler um livro. O problema é que eu me sentia deslocado e isso não era uma sensação muita agradável.
Eu gostava do orfanato, porém eu sentia minha liberdade limitada, as outras crianças não percebiam isso, mas eu queria sair, conhecer mais da cidade e do resto do mundo, não queria que meu mundo se resumisse a apenas aquele jardim e aos cômodos daquela casa.
Então eu ouvi um riso atrás do muro, e me levantei de súbito, andei por sobre a grama e tentei subir em um galho da árvore para espiar por cima do muro, os galhos estalaram com meu peso, mas era um risco que senti que devia correr.
De lá vi uma menina brincando com um filhote de cachorro de uma raça chique que eu não conhecia, ela aparentava ser rica suas vestes e a maneira de falar. Mas acima de tudo ela parecia feliz, e livre de uma maneira que eu não podia ser. Logo eles correram para longe, porém nos outros dias ela voltou para aquele lugar, e eu já não conseguia parar de olhar e me imaginar se eu tivesse nascido rico.
Em um desses dias metade do galho quebrou com um forte estalo e eu quase caí. Porém me agarrei em cima do muro. Olhei em volta para ver se não chamei a atenção de ninguém quando vi que ela me olhava com cara de assustada.
–Oi – falei.
–Quem é você? – Ela apontou pra mim- e o que está fazendo me olhando?
–Meu nome é Yang – Falei ofegante enquanto tentava me manter em cima do muro com os braços- e eu não vou te roubar.
–Eu não acho que você queria me roubar. –Ela sorriu- Por que não vem para o meu esconderijo secreto?
–Esse lugar a céu aberto é seu esconderijo? – Repliquei- De qualquer forma não posso atravessar esse muro... Regras da casa.
A partir desse dia passamos a conversar todo dia, e isso era bom por que finalmente eu sentia que tinha amigos, então meus dias passaram a ser menos tediosos. Eu podia chegar a esquecer do meu cárcere. Passei também a agradecer a Rose todo dia por me levar para aquele lugar, com certeza era melhor que as ruas.
Certo dia eu subi no que restava do galho para falar com aquela garota.
–Por que você não me diz seu nome? – Perguntei
–Por que prefiro assim- ela sorriu- pode continuar a me chamar de águia dourada.
–Isso de codinome não é legal.
–É sim – ela jogou uma pedra para tentar me derrubar da árvore – muito legal!
– Passou longe... Você tem a pontaria de uma garotinha. – Revidei a pedra e por pouco não acerto- Se eu quisesse já tinha te acertado.
Após alguns minutos de conversa um homem chegou, ele usava roupas que eu reconhecia. Era um oficial de Sylou, provavelmente de folga, tinha o cabelo penteado para trás e um bigodinho simétrico típico da aristocracia. Ele parecia furioso.
–O que você está fazendo aqui? – Gritou ele – O que eu lhe disse sobre sair assim?
–Mas pai...
–Vamos para casa, e não quero mais você por essas bandas. – Continuou
Depois de toda a discussão ele chutou o cachorro e a levou pelo braço. Nunca mais a vi.
Mas eu me lembro de que nesse dia descobri que as pessoas têm tipos diferentes de liberdade, às vezes é preciso conquistá-la, e não importavam os meios, eu iria conseguir.
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