Notas iniciais
Hum, bem, aí está o capítulo para vocês c: O próximo já está pronto, dependendo dos reviews, eu posto ele ainda amanhã u.u Enfim, boa leitura!

Eu estava sentada na cama com um livro no colo. Não estava realmente prestando atenção – era um livro sem graça que o professor de Inglês havia nos recomendado para o recesso de Natal – mas era o melhor que eu conseguia fazer para me distrair. Eu milagrosamente não estava a fim de desenhar, o que era quase uma vantagem. Se eu pegasse o lápis sabia que desenharia aquela mansão enorme e, sinceramente, não estava com vontade de me lembrar que estava num lugar totalmente desconhecido.

Você já deve estar presumindo que eu de fato não conseguia, de jeito nenhum, me distrair. Um pensamento irritante ficava martelando na minha cabeça. Se minha mãe e os Lightwood eram amigos de longa data e tudo mais, como era possível que eles houvessem tomado caminhos tão diferentes? Minha mãe era uma artista que dividia um tríplex com dois idosos com possíveis doenças mentais graves, e os Lightwood moravam numa mansão enorme e trabalhavam em qualquer coisa que desse dinheiro.

Suspirei e fechei o livro com força. Droga. Eu não conseguia nem sequer mergulhar na história de um livro – qualquer livro serviria, normalmente. A situação estava ruim mesmo. Coloquei o livro sobre o criado-mudo cuidadosamente, me certificando de marcar a página em que eu havia parado com um marcador amarelo do Batman.

— Que tédio – bufei.

Deviam ser quase três da manhã, mas eu não estava com sono – pelo contrário, havia aquele tipo de tédio que provocava um frio na minha barriga. Caminhei até o banheiro para analisar minha imagem (era uma casa de pessoas chiques demais para se andar completamente desarrumada). Prendi meu cabelo num rabo-de-cavalo quase ajeitado e escondi minhas roupas amassadas sob o mesmo casaco que eu havia usado no dia anterior. Eu sabia que não deveria sair do quarto àquela hora da manhã, sabia que deveria estar deitada tentando dormir, mas eu precisava fazer alguma coisa. Parecia que eu explodiria de tédio a qualquer momento.

Apaguei as luzes do quarto antes de sair e me guiei pelo corredor, que estava iluminado pelas lâmpadas pálidas pendendo do teto. Parecia mais sombrio agora, e eu quase recuei, pensando no filme Atividade Paranormal, que antes eu havia achado totalmente patético, e agora parecia mais aterrorizante do que nunca.

Obriguei a mim mesma a não parecer uma covarde. Se havia algum espírito maligno me observando, ele saberia que não devia mexer com Clarissa Fray. Franzi a testa com o pensamento idiota e segui em frente, até chegar à escada que levava a uma sala com uma lareira – eu nunca havia visitado aquele cômodo. A lareira estava acesa, o que era estranho, e em frente a ela haviam duas poltronas elegantes com estofado de veludo cinza, e nelas estavam sentadas duas figuras que eu não conseguia enxergar direito dali.

Desci as escadas lentamente, sem saber por que eu estava fazendo aquilo.

— ... ter paciência – uma voz desconhecida estava dizendo.

Houve um silêncio por um momento, eu só conseguia enxergar os encostos das poltronas dali de onde estava, no último degrau.

— Eu sei, mas... – era a voz de Isabelle, soando incerta. – Eles estão cada vez mais afastados, Hodge, e isso está afetando a todos nós.

Ah, esse é o tal Hodge.

— E isso afeta Max ainda mais do que eu e Alec – Isabelle disse, por fim.

Seus braços pendiam ao lado da poltrona, como se ela estivesse cansada de viver.

Eu comecei a me afastar, percebendo que havia entrado no lugar errado, na hora errado. Mas, no meu jeito super gracioso, eu não podia deixar o local sem tropeçar num dos degraus e chamar a atenção de Hodge e Isabelle. Eles se levantaram das poltronas rapidamente, como se houvessem nascido para aquilo, e me encararam, surpresos.

— Uh... – eu gaguejei, tentando me levantar. – Desculpe, eu estava perdida e...

— Você estava nos escutando? — Isabelle perguntou, lenta e ameaçadoramente, suas mãos finas fechadas em punhos ao lado de seu corpo. Ela parecia com mais raiva do que o normal, o que de fato significa muita coisa.

— O que? Não! — eu me apressei em dizer. — Eu estava tentando achar a cozinha para... para... beber alguma coisa, sei lá. Eu não conseguia dormir! estava andando por aí e acabei aqui...

Você é a filha de Jocelyn? — Hodge interrompeu, parecendo surpreso. — Nossa, você é exatamente como ela quando tinha a sua idade!

Levantei uma sobrancelha — ou pelo menos tentei, porque acho que sou a única pessoa que não consegue fazer isso — para ele e assenti. Hodge estendeu uma mão enrugada para mim, dizendo:

— Sou Hodge Starkweather, também era — sou — um grande amigo da sua mãe, desde muito antes de vocês — ele olhou para Isabelle — nascerem. Eu moro aqui com os Lightwood há algum tempo, sou uma espécie de tutor dos filhos deles e de Jace.

Ele suspirou quando pronunciou o nome de Jace, quase como se estivesse com pena dele.

— Ah, claro — falei, sem ter muito o que responder. — Bem, me desculpem, eu não tinha a intenção de... ouvir... o que vocês estavam falando... eu nem sequer...

Isabelle havia cruzado os braços sobre o peito. Ela parecia com vergonha, mas ainda me encarava.

— É bom mesmo — ela grunhiu, e se virou para Hodge. — Foi legal conversar com você, obrigada. Acho que vou levá-la para a cozinha antes que caia em lugares errados novamente.

E assim, sem qualquer palavra à mais, ela me arrastou pelo cotovelo por vários metros, até que me largou e entrou num lugar mal-iluminado, diferente dos outros cômodos da casa.

— Você quer dormir, certo? — ela falou, num tom impaciente. — Que tal café?

— Café, na verdade, só me deixaria mais acordada ainda.

— Arg... Que tal chá?

Suspirei. Não era muito fã de chá, mas mesmo assim assenti, concordando. Ela foi até a bancada e preparou algo por alguns minutos, que me entregou depois. Era uma xícara com um líquido fumegante dentro, algo com uma coloração amarelada.

— Você não colocou veneno, colocou? — perguntei, encarando a xícara.

— Só bebendo pra saber — ela respondeu, e mesmo sem olhar para ela poderia dizer que estava sorrindo.

Dei de ombros e bebi um pouco. Era amargo e nojento, mas eu queria dormir, então bebi tudo em apenas três goles. Quando terminei olhei por Isabelle por alguns segundos e disse:

— Então, acho que não é hoje que eu vou morrer envenenada, não é?

Ela se sentou no banco ao meu lado. Estava usando calças jeans, uma blusa de mangas pretas e botas marrons, como se houvesse acabado de voltar de um passeio durante o outono.

— Não deveria ficar vagando por aí de madrugada, você sabe — ela comentou.

— É, eu sei — falei, tentando soar neutra. — Mas eu estou... numa fase difícil, eu acho.

Isabelle bufou.

— Fase difícil? Tipo o quê?

Definitivamente Isabelle não era a pessoa certa para se contar aquele tipo de coisa, parecia o tipo de pessoa que faria piada se eu confessasse. Mas eu precisava dizer para alguém, e ela parecia milagrosamente a pessoa mais qualificada para aquilo — não é como se eu pudesse comentar aquele tipo de coisa com Jace.

— Hum, deixa eu ver — falei, suspirando. — Você se lembra do cara que estava comigo no Java Jones alguns dias atrás?

Ela pensou por um momento.

— Ah, lembro — sorriu. — Ele era bonito.

Ignorando aquilo, eu continuei:

— Ele é meu melhor amigo desde que me entendo por gente, nós sempre fomos próximos, mas...

— Amizade colorida? — Isabelle interrompeu, os olhos com um brilho esquisito.

Não, definitivamente não. Você é uma péssima ouvinte.

— Sei disso. Continue.

— Enfim, ontem nós estávamos vendo X-Men...

— Filme patético.

— ... e ele me disse uma coisa que meio que me assustou.

— Deixa eu adivinhar: ele disse que gostava de você do jeito "ruim".

É, pelo menos nisso ela é boa. Eu assenti, sem conseguir pensar em algo mais para falar. Isabelle ficou calada por um momento, mas depois disse, num tom compreensivo:

— E aí você está se sentindo péssima por não corresponder aos sentimentos dele?

— Não é exatamente isso — falei, fechando os olhos e massageando as têmporas com os dedos. Aquele chá não estava me deixando com sono, apenas distraída, eu precisava me forçar a prestar atenção em qualquer coisa que fosse. — Na verdade tem outra coisa também.

— Que coisa?

— Eu gosto de outro cara — falei, antes que pudesse perceber o que estava fazendo.

Isabelle riu para mim.

— Sério? Eu gostaria de saber quem é, mas provavelmente eu não...

— É o Jace — soltei, e então me sobressaltei com a minha própria declaração. — Oh, merda, o que você colocou nesse chá? Alguma espécie de droga que faz eu contar tudo o que você quer? Droga. Eu preciso ir.

Eu estava começando a levantar, meu rosto queimando com vergonha, quando uma das mãos geladas de Isabelle agarrou meu pulso. Seu rosto estava neutro, quase compreensivo.

— Acho que eu já deveria ter adivinhado — ela falou, me obrigando a sentar-me novamente.

Apertei meus olhos, tentando afastar a nuvem nebulosa que começava a preencher minha mente. Eu ainda não conseguia acreditar que havia confessado aquilo para Isabelle, quando não conseguia admitir nem sequer para mim mesma que estava apaixonada por Jace. Droga. Eu era tão idiota. Idiota, idiota, idiota.

— Então — Isabelle insistiu. — Conte-me mais sobre o assunto.

— Não — grunhi. — Essa já é declaração o suficiente para que você possa me fazer sentir uma total idiota.

— O que? Acha que eu vou contar para ele? — ela riu, meio indignada. — Hey, eu sei guardar segredos, se você quer saber, embora você sugira muito apenas com um olhar para Jace...

— Você não... não vai contar? Quer dizer, obrigada, mas você não pareceu gostar muito de mim desde a primeira vez em que nos vimos realmente.

Isabelle mordeu o lábio inferior e engoliu em seco.

— Não estou acostumada com outras garotas — ela encolheu os ombros. — Tenho certos problemas com seres humanos do meu gênero, é uma coisa que eu tenho faz muito tempo. Quer dizer, eu convivo entre três irmãos idiotas, dois homens adultos e apenas uma mulher — e minha mãe não faz o tipo mulher doce e amigável, entenda. Eu só preciso me acostumar à ideia de ter alguém semelhante a mim.

Me lembrei das palavras de Jace na noite anterior. Alec e Isabelle são muito reservados. Permaneceram a vida inteira nessa casa, mal podendo sair dela por muito tempo. Quando aparece carne nova eles ficam na defensiva, é isso.

— Eu também não sou do tipo que tem muitas amizades femininas — falei. — Praticamente falando, eu só tenho relações sociais com a minha mãe, o amigo dela, Luke Garroway, e...

— Simon — ela completou, usando um tom reconfortante. — Olhe, se quiser, quando a sua estadia e a da sua mãe aqui acabar, eu posso te ajudar com o negócio do Simon, de verdade.

Suspirei e, sem conseguir pensar numa coisa melhor de fato, eu disse:

— Obrigada, eu gostaria de alguns conselhos e tal.

Ela sorriu e se levantou do banco, estendendo uma mão para mim em seguida.

— Já está tarde, é melhor você ir dormir — falou. — Prometo que amanhã te levo para fora daqui, ir pra longe desse lugar medonho.

— O lugar não é medonho...

— Eu sei que é, Clary, quando eu tinha sete anos não conseguia me mover pelos corredores sozinha porque morria de medo — ela deu de ombros. — Enfim, eu te levo para o quarto, você tem uma boa noite de sono, acorda, veste uma roupa bonita se der e depois eu te levo à um lugar realmente legal.

Eu sorri. Isabelle não era assim tão medonha quanto eu pensava — se eu fizesse a coisa certa, poderia até ganhar uma amiga nova.

Segui ela até o meu quarto e concluí a segunda condição dela: uma boa noite de sono.

Notas finais
Izzy é tão diva e perfeita *-* Espero que tenham gostado. Eu sei que a Clary só começa a gostar da Isabelle lá pelo terceiro livro, mas aqui as coisas tem que ser aceleradas, então... Mandem reviews!