Canções de um Outro Mundo
1 Laranja-Amarelado
Notas iniciais
— Meu nome é Ariel! – o empurrei com o pé, lhe apontando uma espada bem no meio da fuça, sua expressão quase me fez rir – Lembre-se deste nome! Pois eu fui a grande guerreira que o derrotou!
Gritei e o golpeei na cabeça.
— Ai! – Luchio massageou a cabeça, bagunçando seus cabelos vermelhos – Você tá ficando forte demais...
— Fica aí! Você tá morto! – o empurrei de novo, e comecei a rir da sua reação.
— Sim senhora guerreira e poderosa... – Luchio se estirou no chão, então tratei de olhar para o meu maior inimigo.
Meu pai Lewis, que me encarava com sua ferocidade de guerreiro.
—- A pequena guerreira Ariel acha que está pronta para me enfrentar? -- ele brandiu sua espada, esperando que eu partisse para cima.
Não dessa vez, pai!
—- Pode ter certeza... -- me aproximei lentamente, tentando não ser tomada pela euforia da batalha. O Pai sempre ataca de baixo para cima com o braço direito como apoio, então, precisava desviar direitinho...
Era agora ou nunca. Corri brandindo minha espada na altura do peito, pronta para bloquear seu ataque baixo! Ou, pelo menos é isso que eu quis fazê-lo pensar. quando ele desferiu seu golpe costumeiro, girei meu corpo e o golpeei na barriga, aproveitando sua abertura!
—- Te peguei! -- gritei, pouco antes do meu golpe acertar.
Ele apenas riu, desviando habilmente para trás com um pulo. A inércia do meu corpo me fez desequilibrar, e eu caí sentada.
—- Quase lá, irmãzinha -- Luchio comentou enquanto se levantava.
—- Quase lá não é uma vitória... -- eu resmunguei, com o cabelo vermelho caído no rosto.
—- Mas já está muito melhor que antes – meu pai comentou. O que me deixou realmente muito animada – Sua revelação será em três dias, por enquanto, você ainda não tem nenhum dom, então não se preocupe, é natural que tenha perdido pra gente – ele se aproximou e bagunçou meu cabelo – Eu mal posso esperar pra ver a grande guerreira que você vai se tornar!
—- Eu também, pai! – respondi com um sorriso no rosto.
***
Finalmente estava chegando o momento, depois de vários anos esperando, a minha vez iria chegar. A Revelação, a cerimônia feita para todas as crianças que completaram Doze anos... O aniversário mais esperado de toda minha vida!
Eu andei saltitante pelo jardim de minha casa. Meu pai é um grande herói guerreiro, meus irmãos são excepcionais nas artes da espada; e agora, com o dia da Revelação chegando, todos iriam saber que meu dom, o destino que o Deus da Guerra escolheu para mim, será de uma guerreira lendária como meu pai!
Minha casa era a maior da cidade. Claro, isso porque meu pai era o Lorde que comandava aquelas terras. Tinhamos um lindo jardim onde eu passei a maior parte da infância treinando o manejamento da minha espada de madeira, e o terreno se estendia até as margens de um rio, que desaguava num grande lago não muito longe daqui. Fui até lá querendo limpar meu suor, não que eu ligasse muito para isso, mas minha mãe ficaria realmente irritada se eu não cuidasse da minha aparência de senhorita para me apresentar à Revelação.
O terreno às margens do lago era um pouco difícil de caminhar, mas eu dava conta! Me abaixei e vi meu reflexo na água. O cabelo longo e vermelho me irritava. Não pela cor, da qual eu puxei do meu pai, mas sim por ser longo e bem tratado como o cabelo de uma dama da côrte. Não era isso que eu queria. Um cabelo assim só me atrapalharia em uma batalha, e minha mãe não entendia isso de jeito nenhum!
Por isso, depois da vitória contra Luchio hoje, decidi me livrar disso. Peguei a navalha de meu Pai "emprestada" e a deixei na cintura, escondida.
—- Sei que não vai gostar, mãe... – peguei parte do meu cabelo a partir do ombro e o cortei – Mas, prometo te dar orgulho quando meus dons forem revelados!
Peguei o punhado de cabelo que cortei e o joguei no rio. Eu estava pronta para seguir meu destino!
—- Não posso acreditar, Ariel! – a senhora Leana levou as duas mãos ao rosto, suspirando profundamente – O cabelo que eu penteei tanto, cuidei como o melhor de mim!
Voltar para o casarão foi fácil, caminhei alegre enquanto arrumava o cabelo recém cortado. Estava me sentindo tão bem com o novo corte, um pouco acima dos ombros, não mais caía na frente dos olhos quando eu me mexia bruscamente, é o corte perfeito pra mim!
O problema, foi encarar minha mãe e sua vaidade descontrolada.
—- Mãe, eu sei, me desculpa – eu respondi, tentando amenizar a situação – A senhora sempre foi tão ligada nisso, e eu entendo, mas agora não é hora para cuidar da vaidade.
—- Você é uma dama...
—- Não, eu sou uma guerreira! Como o pai! – respondi rapidamente.
—- Lew! – a senhora Leana chamou seu marido – Qual a punição mais adequada para essa garota?
Meu pai chegou na sala de estar despreocupado, quando olhou para mim, meu coração perdeu uma batida. Não passou pela minha cabeça que ele também poderia brigar comigo severamente.
—- Ah, então foi pra isso que você pegou a minha lâmina, por um momento pensei que tivesse ido acabar com Alain... – ele se aproximou e bagunçou meus cabelos curtos – Você está cada vez mais próxima de se tornar uma guerreira excepcional.
Deu uma leve batida em meus ombros e continuou a caminhar, deixando minha mãe boquiaberta.
—- Devo dizer, pai, você a mima demais – Alain, meu irmão do meio, comentou.
Lhe mostrei a língua. Depois, virei para minha mãe e fiz uma reverência.
—- Desculpe, mãe.
—- Sinceramente... – ela suspirou e me abraçou.
Ela pode ter ficado nervosa, mas no fundo ainda era minha mãe. A abracei de volta, tentando mostrar toda a minha felicidade.
***
Meus dedos deslizavam por aquele instrumento estranho. Apertava uma tecla e um som acontecia. Ele era feito de madeira e era muito extenso, tinha dezenas de teclas brancas enfileiradas, e mais algumas pretas um pouco acima. Minhas mãos se espalhavam por essas teclas, apertando diversas vezes, produzindo sons dos quais eu nunca havia escutado antes.
De repente, ouvi minha voz cantar. Ela era um pouco mais doce, mais límpida do que o usual; e eu cantava em tons de acordo com o som que meus dedos produziam nesse instrumento. Olhei para o lado brevemente e vi uma platéia, varias pessoas com aparências e roupas que eu nunca havia visto. Elas se mexiam conforme minha voz, meu som.
"Isto é dança", disse uma voz suave, que parecia ter saído direto da minha consciência. "Eles dançam pois amam suas músicas".
Dança... eu sabia o que era, nunca havia visto, não era do feitio do meu pai aceitar ter Bardos cantando e Bobos dançando pela cidade, porém eu já havia visto antes em algum outro lugar... esta dança era diferente, uma dança mais bonita, mais alegre... Familiar.
"Por que eu não soube disto antes?", perguntei. "É tão bonito...".
"Porque você não sabia disto", a voz respondeu. "Não a você de agora, mas sim ela".
A platéia sumiu, dando espaço a um lugar totalmente branco, com um grande espelho em pé, sem apoio algum. O espelho me refletia, eu sabia disto. De um lado estava eu, uma garota de quase doze anos, pele branca e cabelos vermelhos cortados no ombro. Do outro, uma mulher mais alta, olhos puxados e cabelos lisos e escuros. Suas roupas eram de uma natureza completamente estranha para mim, mas... De alguma forma, eu tinha certeza absoluta que eu a conhecia.
Me aproximei devagar do reflexo, vendo-o repetir o mesmo movimento que o meu, a mesma expressão de confusão, a mesma leve tremedeira de hesitação.
E no momento que encostamos nossas mãos através do espelho, eu levantei da cama subitamente, com a mão direita ainda erguida, esperando tocar naquela mulher estranha e familiar.
—- Bom dia senhorita! – aia Estrid, a jovem criada, minha amiga e cúmplice, me recebeu com um sorriso – Tão animada pela Revelação de hoje que eu nem precisei te acordar!
Eu a olhei com um olhar misto de confusão e ansiedade. Que sonho estranho...
***
"Não se preocupe!", repeti para mim mesma, enquanto a carruagem levava eu e minha família para a praça central, onde vários anúncios aconteceriam. Onde a revelação de meus dons acontecerá. "Você vai ser uma ótima guerreira, mas precisa se livrar desse seu medo de pessoas! Se esforce, Ariel!".
Eu estava sentada ao lado de Alain, e Luchio estava ao seu lado. Pai e Mãe estavam no banco de frente ao nosso, a carruagem era grande o suficiente para que nenhum dos cinco viessem apertados. Era digna de um lorde guerreiro.
Alain havia mais uma vez espetado seus cabelos vermelhos para cima, do jeito exato que a senhora Leana gostava; ele já tinha 15 anos, mas ainda se comportava como uma criança, me cutucando o tempo todo e me deixando ansiosa. Já Luchio não se importava com a aparência assim como eu, no alto de seus 20 anos, já havia mais que provado seu valor em batalhas, não precisava mais buscar aprovação dos outros. Depois de meu Pai, ele era o alvo de minha admiração. Nunca me destratou, diferente de Alain, Luchio era uma pessoa incrível! Pelo menos comigo, seus inimigos talvez não pudessem dizer o mesmo.
A cidade central do território de meu Pai era só um pouco menor que a capital do reino. Cheia de casas e pequenos prédios, a cidade de Rivermere foi construída inicialmente às margens do rio Aelsnow—O mesmo que eu joguei meus cabelos na correnteza. Porém, ela cresceu várias vezes mais durante a administração de meu Pai nos últimos 13 anos, transformando-a em uma grande cidade mercante. Por isso o admiro tanto! Alem de um lendário guerreiro, herói de Edendália, ele ainda é um inteligente e justo governante.
Que tipos de glória me esperam, depois de ganhar meus dons?
Pouco menos de uma hora depois de entrarmos na carruagem, já estávamos na praça central da cidade. Podiamos ouvir o burburinho dos cidadãos, animados pela cerimônia. Meu pai abriu a porta da carruagem e desceu, sendo reverenciado por todos de diversas maneiras. Descemos logo atrás, minha mãe primeiro, depois eu. Alguns comentários disfarçados sobre meu cabelo, mas eu não liguei realmente... Pelo menos, tentei não ligar. Minhas mãos suavam frio, e nesse momento, Luchio me acalmou, segurando levemente em meu ombro. Ao menos ele estava lá comigo.
***
Depois de dar seus comunicados sobre novas políticas e leis, meu pai anunciou que agora daria o palanque para a representante da igreja na cidade, Freira Rosalyn. Era talvez a mulher mais jovem a ser eleita como representante da igreja em alguma cidade, mas suas habilidades mágicas eram algo que impunha respeito.
A Revelação era comandada pela igreja, sempre. Eu já havia visto outras cerimônias dessa, quando meus irmãos mais velhos haviam feito 12. Iriam preparar o orbe sagrado transparente, e o Deus que guiaria meu destino se manifestaria colorindo a esfera assim que eu a tocasse. O processo não demoraria mais que 30 segundos, mas ali você saberia seu destino. Todas as crianças com 12 anos passavam por isso. Algumas se tornavam artesãos pelo Deus dos trabalhos manuais, outros se tornavam guerreiros pelo Deus da guerra, e outros se tornavam feiticeiros pela Deusa da magia; dentre muitos outros possíveis destinos.
—- Ariel Astório! – Rosalyn me chamou, depois de preparar por poucos minutos o altar – Por favor, minha querida, um passo a frente.
"Está na hora!", caminhei a passos largos pelo improvisado corredor de pessoas. Todas olhando para mim, esperando. Eu estava pronta para mostrar ao mundo quem sou eu!
Respirei fundo e toquei na esfera. Por poucos instantes, nada.
E então um grande clarão iluminou a praça.
"Incrível! Nenhum de meus irmãos tem esse nível de talento! O Deus da Guerra me escolheu pessoalmente!", eu havia fechado o olho pelo susto, mas pensei animada enquanto o abria novamente.
A cor no Orbe era laranja-amarelado.
"Espera".
"Esta cor não é sobre guerreiros...".
Eu gelei. Se fosse o Deus da guerra, a cor teria sido vermelha como o sangue. Ao contrário, uma cor laranja-amarelada desta forma é...
—- O Deus da Música... – Rosalyn constatou, um pouco chocada.
"Não... não!", eu pensei.
—- Espera, deve ter algum engano... – comentei, baixinho. Minhas mãos estavam tremendo forte, eu estava ficando levemente tonta.
Olhei para meu Pai. Seus olhos me olhavam de cima, com a boca retorcida em desprezo. Luchio parecia não acreditar no que estava vendo; eu também não. Dei dois passos para trás.
—- Sinto muito, Ariel, mas...
—- Por favor, senhorita Rosalyn – eu olhei para ela com os olhos marejados – Por favor, me deixa tentar de novo. Deve ter algum engano, eu sou uma guerreira! – Ri, desesperada – Você sabe! Não tem condição de isso ser verdade.
—- Sinto muito... – ela falou novamente, e então eu soube.
Não era um engano, era a realidade. Olhar para meu Pai de novo apenas confirmou isto. Eu havia decepcionado ele, todos eles. Todos da cidade.
Antes das lagrimas invadirem meu rosto agressivamente, eu corri.
Corri e corri mais, e só parei quando cheguei às margens do rio. Era um lugar diferente de antes quando cortei o cabelo, a terra era mais fofa, era melhor para andar. Pra correr, me ajoelhar.
E chorar. Precisava chorar em cima do rio, assim eu não teria problemas em esconder!
Sentei na terra. As lágrimas saíam descontroladamente. Olhei para o lado e vi algo preso às margens do rio.
Era meu cabelo.
Gritei, porque perdi tudo.
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