Canção da Sereia

3 Sardinha - RS


Notas iniciais
Boa leitura!!

Nora

– Me deixou pensar que você era ele? — Eu me viro brava pro tal de George e aponto desengonçadamente para o vizinho.

– Você tirou as conclusões sozinha. — O falso chefe sorri ao dizer.

– E essa quem é? — O chefe de verdade pergunta. Mas... ele é idiota? Eu estive aqui ontem!

– Sua vizinha. — Eu o encaro. Ele tem aquele mesmo sorriso de ontem. E como é gostoso...A mesma que você não deixou dormir com aquele batuque dos infernos!

Boca grande, solto tudo sem antes pensar.

Ele arregala os olhos azuis e encosta na porta, como na outra noite. Revivo a cena, onde ele está sem camisa...

– Não te reconheci sem... — Ele passa o dedo na bochecha. — aquela gosma...?

– Creme de abacate. É ótimo pra melhorar a pele. Você tá precisando, urgente. — Minto para provocar. Ele não precisa de nada. É um gostoso, perfeito!

– Você não morava pra lá? — Ele aponto pro outro lado.

Coro com a lembrança de ontem, quando errei o caminho.

– Não... estava... fui visitar uma amiga!

Ficamos em silêncio e ele sorri maliciosamente agora. Que sorriso bonito!

George pigarreia.

– Essa é a senhorita Ryle. Ela é sua nova assistente. Ou talvez não, já que estamos atrasados e ela não está pronta.

Ele me olha de cara feia e começo a procurar a chave na minha bolsa.

– Mas eu tenho um gato, o que vou fazer com meu gato? — Eu acho a chave. Quer dizer, é um molho enorme com todas as chaves da minha vida. As que uso e as que não.. Tenho que procurar a certa – Ninguém me avisou sobre essa expedição, não tenho como arranjar alguém em cinco minutos.

– Então a senhorita fica. — George diz com um sorriso nos lábios.

Homem detestável.

Olho para o meu chefe.

Você não pode me deixar, eu esperei o ano todo pela sua chegada. Me inscrevi para ser sua assistente antes mesmo de ter decidido vir. Isso é uma injustiça.

Ele está sorrindo. Por que esse cara tá sorrindo? E quantos anos ele deve ter? Ele parece tão jovem quanto eu.

Decido apelar.

Tiro meus óculos e estufo o peito.

Por favor...

Ele comprimi os olhos e sorri mais largamente.

– Você tem uma caixa de transporte?

Sim, eu tenho. Levei Sardinha para todas as minhas andanças.

Aceno confirmando.

– Então se apresse que estamos saindo.

Pisco descrente.

– Sério? Posso levá-lo?

– Anda, vizinha. — Isso soa tão provocador vindo de seus lábios.

– Dr. Isso não é uma boa ideia. — George me lança um olhar reprovador. Mas não ligo e tão pouco fico para ouvir suas reclamações. Abro a porta e largo a bolsa no chão.

– Preciso de passaporte? — Eu grito sabendo que a porta está aberta e eles podem me ouvir.

Dr. McLan aponta a cabeça.

– Não.

Sardinha passa pelas minhas pernas enquanto estou indo pegar uma mala na lavanderia.

Tento pegá-lo, mas ele é mais rápido. Ele está indo em direção a sala. Vai tentar fugir pela porta aberta e ai ele só volta quando tiver fome. É um interesseiro.

– SEGURA O GATO! — Eu grito.

Chego a sala a tempo de ver George e o Dr. Gostoso tentando bloquear a porta. Sardinha para antes de saltar e aproveito o momento para pegá-lo pelo rabo.

Ele mia em desagrado. O seguro com as duas mãos e o levo pro quarto.

– Isso é um gato?

Me assusto ao perceber que o meu vizinho me acompanhou até o meu quarto.

– É...Bem, há contradições... — Fico desconfortável. — Segura ele.

Entrego o gato reclamão para ele e me estico pra pegar a caixa de transporte em cima do guarda roupa. Está alto demais.

Me arrepio toda ao sentir calor atrás de mim e ver uma mão grande pegando a caixa.

Quando ele se afasta, me viro. Ele segura Sardinha em uma mão e a caixa em outra.

– Obrigada...

Pego a caixa e coloco em cima da cama. Abro a grade e pego Sardinha.

Ele se contorce e mia alto. Tenta me arranhar. Engraçado, quando ele quer comer é só carinhos e se esfrega aqui, se esfrega ali. Eu o enfio dentro da caixa. Impossível fechar a grade com ele tentando sair desse jeito.

O vizinho senta na cama e bate na grade oposta. O gato olha para o lado da batida e consigo fechar.

– Obrigada. Você não tem que... sei lá... arrumar suas coisas?

Ele está estudando o quarto. Nem me olha ao responder.

– Já está tudo pronto. Se George levar tudo para o carro, sozinho, você tem mais tempo de conseguir arrumar as coisas. Certo?

– É... — Bem, eu precisava pegar itens higiênicos no banheiro, será que ele me roubaria nesse meio tempo? — Ok.

Me levanto e começo a sair do quarto.

– O que eu posso fazer pra te ajudar? — Ele me pergunta.

Me passa mil e uma coisas na cabeça. Sinto até calor em pensar!

– Pega meus cremes no banheiro. — Eu digo e volto pra dentro do quarto. Se ele vai mexer nas minhas coisas, que seja nas menos constrangedoras. Apesar de toda atitude, não ficaria confortável dele mexendo em minhas calcinhas, nem mesmo o conheço. Ele poderia ter uma tara por roubar calcinhas pra cheirar e se masturbar no banheiro depois. Não que ele parecesse precisar disso. Acho que com essa aparência qualquer garota faria isso por ele, sem ele ter que pedir.

Ele sai do quarto.

– Ei – Eu chamo.

– Willian – Ele diz.

– Willian, quantos dias isso vai durar?

Abro meu guarda roupa.

– De duas a quatro semanas, mais o menos.

Paro de respirar. Será que no fundo meu papai amado só queria me livrar de perder as férias?

Não, provavelmente não.

– Mas isso é... as férias de verão inteira?

– Isso aí. — Olho de relance para ele.

– Que inferno.

– Você não precisa ir...

Merda, é meu sonho...

– Para onde vamos?

Ele sorri docemente.

– É aqui na Austrália mesmo, pegue roupas de calor.

Dizendo isso, ele sai do quarto.

Respiro fundo e começo a pegar vestidos, bermudas e regatas. Jogo tudo de qualquer jeito na mala e vou para a gaveta de calcinhas. Pego meus biquínis e calcinhas, jogo tudo lá. Toalhas, lençol. Chinelo, sandália. A mala não fecha.

Sento em cima dela e a forço, conseguindo fechar o zíper. Pego uma mochila e encontro o Dr. no banheiro. Ele está parado dentro do box, olhando meus tantos e variados frascos. Completamente perdido em que pegar.

Eu o empurro e pego os que mais gosto, enfio na mochila.

Ele me ajuda com a mala. Quando estamos saindo, George chega.

– Que bom que desistiram de levar o gato. — ele me diz quando tranco a porta.

Eu encaro o Dr, que sorri. Abro a porta e me amaldiçoo mentalmente por esquecer aquele gato demoníaco. Pego a caixa no quarto e tenho que ouvir os protestos de George até o carro.

A van está mais cheia que antes, pelas coisas de Willian e minha mala. Entro e deixo a caixa de Sardinha no meio. Willian entra e cumprimenta o motorista da van. Alan, é o seu nome. Ele tem a pele escura e cabelo ralo.

Os três conversam animadamente enquanto mantenho uma conversa interna comigo mesma. Meu sonho está prestes a ser realizado. Apesar de alguns empecilhos. Mas sei lá... parece fácil demais. E bem, as coisas nunca vêm fácil para mim.

– Qual seu nome? — Willian, pergunta do nada.

– Pode me chamar de Nora.

– E esse é seu nome?

Ele passa a mão pelo cabelo. Nossa, até isso é sexy.

– Noralys Ryle.

– Noralys... — Ele olha pro teto por um instante, sei que está vasculhando na memória. — Como a flor? — Ele volta a me olha por trás dos óculos.

– É.

– Biologia marinha então? — Ele tenta começar outro assunto.

Ele quem começou a puxar papo. Que não reclame agora...

– Qual sua idade? Você parece novo demais pra ser Doutor.

– Tenho 27. Comecei cedo.

– O que vamos pesquisar?

– Não leu o roteiro da expedição que mandei?

– Não, senhor. Não fui informada de nada em relação a expedição.

– Uma viagem as cegas, para uma ilha – Oh, não sabia que era para uma ilha... — com um bando de desconhecidos.

– Não é um bando de desconhecidos. Conheço Lancey, o outro estagiário.

Ele sorri.

– Sobre o que é a expedição?

Ele mexe na mala que leva nas mãos e tira um maço de papeis.

– Nosso tema. — Ele deposita no meu colo os papeis. — E, não é uma expedição, Nora.

Oh nossa, já está me chamando pelo apelido. Quanta intimidade.

– O que é então?

– É uma caçada.

Começo a rir.

– E vamos caçar o que? Moby dick?

– Não seja boba... — Ele fica sério pela primeira vez – Sereias. Vamos caçar sereias.

O olho cética por um momento. Mas ele não sorri. Está falando sério.

– Puta que pariu! — Digo.

Notas finais
Opiniões? Bj bjs ♥