Canção da Sereia
16 Desobediência
Notas iniciais
Lancey
Se eles não tivessem ficado, seria muito em breve. Era realmente perceptível o olhar de cobiça entre eles. E sinceramente? Torço para que acabem com isso de uma vez. Depois que estiverem juntos, ele será descartado. Eles sempre são.
Nora não quer um relacionamento. Não depois de Andrew.
Ela tem toda essa marra e má atitude, mas eu sei que isso é apenas uma forma de se auto preservar. Nora é uma mulher quebrada. Não aparenta, mas é. Tem um medo mortal de relacionamentos.
Willian, ou qualquer cara que apareça, jamais poderá ser bom para ela. Eles só enxergam o lado de fora. A aparência. Noralys Ryle é muito mais que isso. É uma mulher linda, mas é ainda mais esperta do que qualquer outra coisa. No dia que ela apareceu com aqueles óculos gigantescos na aula eu quase tive um infarte. Então depois foram as roupas compridas, os vestidos de hippie e o coque. Na cabeça dela aquilo a deixava feia, mas a realidade é outra, só instigava os homens a querer descobrir mais. Mas, tenho que admitir, foi algo muito importante. Era como se ela estivesse dando um tapa na cara de todos e dizendo “sou mais que um par de peitos”. E ela definitivamente era. E ainda é.
Nossas brigas vem de longe. Meu pai morreu um ano e meio atrás e eu me aproximei da família Ryle, por causa da amizade do meu velho com Daniel.
Quando Nora voltou para casa, as coisas saíram fora de controle. Éramos tão parecidos que irritávamos um ao outro constantemente pelas mesmas manias. Um sempre queria estar por cima do outro. Mas na nossa longa relação conflituosa sempre teve um momento, um breve mas importante momento, em que tudo era deixado de lado e conseguíamos no conectar. No mar.
Nora estava sempre encantada com tudo que encontrava nos mergulhos. Ela não havia decidido que campo seguir, mas eu apostava que ela iria lidar com algas. Ela as amava. Conhecia todas as espécies e sábia exatamente as que eram venenosas, as que traziam algum beneficio a saúde marinha e humana. Ela é brilhante. Claro que me irrita quando ela consegue me ultrapassar em tudo. Então nós, quando em terra firme, éramos dois completos inimigos. Ela me provocava, eu a provocava, mas no final, acabávamos sempre na mesma sala, sempre com as mesmas pessoas. Sempre no mesmo grupo. Estamos sempre nos atraindo.
Há um ano atrás, quando Daniel Ryle me pediu para ir com ele buscar a filha nos EUA, eu nunca imaginei que a encontraria como encontrei. Pensei que ele havia me pedido para acompanha-lo porque já era velho e não queria viajar sozinho. Mas quando chegamos, ele começou a caçar Andrew. Eu nem imaginava o que estava acontecendo, até que eu a vi no hospital.
Aquele homem é o culpado por todos os medos e traumas que ela esconde atrás da personalidade difícil. Eu o odeio. Nunca o conheci pessoalmente. Mas vi inúmeras fotos, posso reconhece-lo facilmente. Se eu o encontrar algum dia, primeiro vou bater. Depois vou perguntar o porquê.
Eu sei que Daniel não a queria aqui. Ele estava preocupado com a história dos desaparecimentos. Então ele a manteve no escuro. Mas eu me senti culpado por ir sem ela. Todos os domingo nós almoçamos com seus pais e ela não para de falar um minuto sequer sobre ir a campo. Seria crueldade demais deixá-la para trás. Mas agora...
Sinto que cometi o maior erro da minha vida ao avisá-la da expedição. Alguma coisa a está caçando e me sinto impotente quanto a isso.
Willian ficou com ela na noite anterior. Eu tentei estar presente o máximo que pude, mas minha pressa no momento é em descobrir alguma coisa. Qualquer coisa.
Pela manhã eles se juntam a nós na sala. Todos estão assustados. Para ir ao banheiro é sempre em dois. Vivemos em um filme de terror atualmente. Um bicho que assume a forma de outras pessoas... que isso! Estamos praticamente mortos.
Nora vem para perto de mim e senta ao meu lado no sofá. Parece irritada hoje.
– Vamos sair hoje. — George conta quando Willian chega. — Você, Lancey e eu vamos atrás do tal de Mellow. Os outros ficam com as garotas.
– Não vou ficar trancada. — Nora diz.
– Isso não é uma opção, Noralys. — Willian parece tão irritado quanto ela. O que terá acontecido com eles? Será que ficaram? É bem possível que sim e agora ela esteja dando no pé, como sempre faz.
– Você não manda em mim, Dr. McLan. — Ela está de braços cruzados o encara de mal humor.
– Essa expedição é minha e você vai fazer exatamente o que eu mandar. E fim. — Ele anuncia com autoridade.
Péssima ideia provocá-la.
Nora fica em pé, está com aquele olhar que faz a Daniel quando vai desobedecer alguma ordem.
– As coisas mudaram, McLan. Tem alguma coisa atrás de mim e eu não vou ficar sentada esperando que venha me pegar.
William leva a mão aos cabelos. Parece não ter mais paciência para lidar com ela. O que é realmente um problema, já que ele ainda não viu nada.
– Isso não é discutível. — George se intromete, mas é ignorado pelos dois.
– Eu vou ficar com Nora. — Digo a Willian que me olha de cara feia.
– Vocês não vão sair daqui. — Ele está ficando vermelho.
– Não vamos sair. — Digo a ele e recebo o olhar assassino de Nora. — Eu vou ficar aqui e cuidar pra que ela sossegue o faixo.
Ele parece relaxar, mas a garota me olha tão zangada.
– Quem pensa que é, Lancey?
Ela está pronta a me mandar toda sua fúria assassina. Eu apenas a olho e aceno.
– Só quero te ajudar. — Isso significa algo pra ela, eu sei.
Nora relaxa e quase sorri pra mim. Olha para Willian.
– Vou ficar com ele. Mas eu quero saber de qualquer coisa que encontrarem.
– Trato feito.
Será que ele não percebeu como foi fácil demais?
Eles permanecem se olhando tempo demais depois de Willian concordar. George já está de mochila nas costas. Gideon continua olhando pra fora pela parede de vidro. Steve estuda toda a cena.
– Então vocês já estão indo, né? — Eu digo irritado pelas trocas de olhar. Não que eu me importe... droga. É claro que eu me importo. Tudo que envolve Nora é importante. Ela é minha amiga, mesmo que de uma maneira um tanto... peculiar, por causa de nossas brigas.
Por fim Willian, George e Steve saem. Eles não iriam longe. Steve tem uma barriga grande e George já passou da idade de fazer caminhadas.
Megan e Kall estão o tempo todo juntos. Gideon nunca deixa de vigiar e Mason está meio pirado. Ele vai de janela em janela de tempos em tempos. Checa as portas, pega objetos pontudos pela casa e deixa tudo na sala.
Duas vezes na vida eu disse para Nora “Só quero te ajudar”, nas duas vezes nós fomos contra as ordens de Daniel. Então ela já sabia, no momento em que eu disse, que estaríamos fora da casa assim que eles virassem a cara.
Eu a olho e aceno.
– Estou cansada. — Ela fala.
Megan se aproxima dela e faz carinho em seu cabelo.
– Venha deitar. Coloquei um colchão atrás do sofá.
– Não – Ela nega – vou lá pra cima. Me sinto mais a vontade lá com meu gato.
Megan concorda.
– Vamos juntas então.
Nora me lança um olhar.
– Não Megan. — Eu me meto – Você fica com Kall e Nora comigo. É mais seguro assim.
– O quê? — A loira não parece feliz. — Eu estou cheia de ser vigiada.
– Mas agora será assim. — Gideon diz do seu ponto de vigia.
– Vou ficar lá em cima com Nora, vou ler enquanto ela dorme.
Meg concorda. Kall parece distraído a toda situação. Ele está sentado no sofá. Apenas acena para mim, mas duvido que ele tenha prestado atenção em alguma coisa.
– Deixe-me trocar as ataduras antes, Nora. — Mason se aproxima.
Nora segura meu braço com força.
– Não é preciso. Willian já fez isso.
– Mas Willian não é médico.
– Ele já fez. Já lavou, já refez o curativo e agora eu só quero dormir. Passei a noite em claro com medo que algo aparecesse. Estou cansada, irritada e não to afim de sentir mais dor do que já sinto nesse momento. — Grossa como sempre. Mas dessa vez parece um pouco pior.
Mason ergue as mãos.
– A perna é sua, se não quer que sare, o problema não é meu. — Ele está chateado. Volta para janela.
Subo com Nora, ela recusa minha ajuda e anda perfeitamente.
Entramos em seu quarto e trancamos a porta.
– Por que não deixou ele olhar? Se vamos desobedece-los, deveria ao menos fazer isso no seu melhor estado.
Ela senta na cama e começa a tirar as faixas.
– Olha isso. — Ela me diz.
Me aproximo. Quando a faixa do joelho sai eu vejo a pele perfeita, apenas alguns roxos no lugar onde antes havia cortes profundos. Depois ela tira do tornozelo, nada de mordida.
– Estava visível a uma hora atrás. — Ela toca a pele curada — Estou com medo Lancey.
– Puta merda Nora. — Isso definitivamente era anormal.
Seguro sua mão e aperto.
– Você vai ficar bem. – Não estou certo disso e ela menos ainda, mas sorrimos um para o outro e tentamos acreditar nisso — Agora temos que ir, antes que Willian volte.
Ela concorda. Nós saímos do quarto na ponta dos pés. Não podemos ir por baixo. Então achamos um quarto que a janela dá no pier. Sair pelo quarto de Nora seria ruim. Gideon nos veria.
Nora me olha assustada ao ver o pier. Eu abro a janela. Será difícil sair por aqui.
– Espera. — Digo a ela. Abro as gavetas da cômoda e encontro lençóis. Amarro três deles e passo pela minha cintura. — Você primeiro.
Ela faz bico, mas amarra a outra ponta da corda improvisada em sua cintura. Pendura a mochila que preparou em suas costas e passa pro lado de fora da janela. Com muito esforço consigo descê-la. Na minha vez a coisa é quase catastrófica. Não há muito onde me segurar e acabo caindo de bunda.
– Shiii – Nora me repreende quando caio fazendo barulho. — Vamos, antes que eles venham ver o que foi todo esse barulho.
– Estou bem, obrigado por perguntar. — Digo de cara feia.
Estamos de saída, quando outro barulho, atrás de nós, nos chama atenção.
Fale com o autor