Canção da Sereia
4 Canção - RS
Notas iniciais
Nora
Vamos para o porto. Há um barco particular a nossa espera. Não falo mais com Willian.
Esse cara é louco, só pode. Caçar sereias, é sério? O que ele tem de gostoso tem de maluco.
Queria voltar para casa e passar minhas férias de verão de alguma forma agradável, mas expedição é expedição. O fato dele estar buscando sereias não significa que eu não possa fazer minhas próprias pesquisas e buscar minhas próprias descobertas. De preferência as que existem.
Caçar algo assim seria o sonho de qualquer biólogo. Mas, nunca foi achado nada que demonstrasse a existência dessa criatura. Vamos apenas perder tempo. E minhas férias.
Já no barco, George, o encrenqueiro, chama a todos no convés.
– Vamos para as apresentações. — Ele anuncia sorrindo.
– Esses são Megan e Kall. Eles são biólogos há 5 anos e trabalham com animais marinhos.
Kall tem pele negra e olhos azuis. Um contraste lindo. O cabelo ondulado lhe dá um ar de modelo de cuecas. Ele não parece ter uns 26 anos. A mulher, Megan, é loira, olhos claros. Ela parece ser legal. Mas quem sabe, as pessoas enganam... tenho meu chefe louco como exemplo.
– Gideon, nosso braço forte para eventuais necessidades. Incluindo armas de fogo. – Um moço de cabeça raspada e corpo sarado ergue a mão. Ele sorri para mim e pisca, eu correspondo com um sorriso.
– Lancey, meu assistente. — George diz sorrindo. Eca. Péssima escolha.
O estagiário medíocre acena e me olha sorrindo, como se fossemos amigos. O ignoro completamente. Ok, talvez sejamos amigos... mas, amigos que competem e na maioria das vezes se odeiam.
– Dr. Mason, o médico da equipe. — Esse é o mais velho. em torno de 40 anos. O cabelo é grisalho, mas o corpo parece em dia. É possível ver até os gominhos da barriga. Ao contrario de George que tem bem evidenciada sua barriga de chopp.
– Noralys, a filha do reitor. — Ele cospe as palavras, como se o “a filha do reitor” fosse o motivo da minha presença na expedição. Lancey ri, nem disfarça.
– Me chamem apenas de Nora. — Eu digo – Sou assistente do Dr. Mclan. Obrigada, George.
Ele me ignora.
– E Willian Mclan, o líder da expedição. Acredito que, com exceção dos estagiários, todos já estão familiarizados comigo e Willian.
Os demais concordam e Willian dá um passo a frente.
– Bem, começamos uma nova aventura pessoal, espero que tenhamos tanto sucesso como nas anteriores.
Com essa pequena frase idiota. Ele ganha aplausos dos outros tripulantes. Eu apenas o encaro, incrédula. Gostoso e louco. Eu mereço!
Sucesso como nas outras? Será que ele já pegou uma sereia?
O barco deixa o porto e eu vou para perto da grade, não faço questão nenhuma de me socializar. Estou de mau-humor.
Me meti numa enrascada, passaria as férias com pessoas anormais.
– Você é sempre tão difícil de lidar, assim?
Não preciso olhar para saber que quem falava comigo á Willian. Sinto seu braço encostar no meu quando ele fica ao me lado na grade. Me afasto um pouco. Vá que a loucura dele seja contagiosa.
– Difícil? Eu estou sendo bem simpática, na verdade.
– Oh... Bem, se você quiser, pode voltar com esse mesmo barco. Não precisa nos acompanhar, ainda mais com esse olhar tão cético sobre tudo.
Talvez ele esteja certo. Nem os conheço, talvez seja uma expedição exigida por algum órgão do governo, um tipo de pesquisa ou algo assim e eu estou aqui surtando por nada.
– Esperei muito por uma oportunidade assim. — Digo encarando o mar. — Só estou surtando com essa história.
– Você deveria ler os documentos que te dei.
– Aquele monte de papel amassado e descuidado? Aquilo é um documento?
Ele ri. Meu corpo vibra com o som de sua risada. Por algum motivo sinto isso de uma forma mais intensa do que antes. Olho para o mar.
– Eu não tinha uma assistente pra cuidar dessa parte para mim, então tive que improvisar.
Sorrio.
– Me desculpe pela má atitude, embora eu, de fato, esteja sendo bem simpática. — O encaro a tempo de ver sua cara de desgosto. — Imagino que caçar “sereias” não seja uma opção sua também. É cada trabalho esquisito que aparece.
– Nora, leia o documento. De preferência, antes do barco voltar a costa.
– Ok.
Ele se afasta e se junta aos demais.
Me sento no convés, o mais longe que posso deles e tiro os papeis da minha bolsa.
Não são tantas páginas. Tem vários desenhos e a ultima delas têm a assinatura do Mclan.
As primeiras páginas são resumos de lendas espalhadas pelo mundo todo e “relatos” antigos de pescadores e capitães de navios da marinha. Descrições. A maioria é de mulheres bonitas com caudas de peixes.
Noto que nos lugares dos relatos, há grande índice de desaparecimento de pessoas, a maioria são homens de 20 a 30 anos. Mas há um que me chama atenção Esse relato tem quatro páginas, é de uma ilha aqui na Austrália, imagino que para onde vamos. Começo a ler e fico presa em alguns trechos. Mulheres desaparecem sem explicação alguma há mais de 100 anos. Sem corpos encontrados, sem pistas.
Há um homem, um pescador, diz o documento, que viu algumas das mulheres entrarem na água e sumirem. Serem levadas em noites de música. Ele afirma que as sereias cantam para as chamar.
O documento também diz que há mais de dez anos foi proibida a entrada de mulheres na ilha, como medida preventiva.
O que me leva a seguinte pergunta: Que porra estou fazendo indo para esse lugar?
As páginas seguintes confirmam o nosso destino. Estamos indo para a ilha da rainha, nome bem estranho se levar em conta que não tem mulheres...
Aposto que os desaparecimentos devem ser coisa de alguma família louca que sequestra as mulheres, as transforma em escravas ou as comem. Uma tribo de homens canibais.
Descubro que essa pesquisa idiota foi iniciada há dois anos e Willian e sua equipe já estiveram em vários países em busca de fenômenos inexplicáveis, que pescadores juraram ter visto e encontrado sereias e até um dos membros, com nome não citado, teria presenciado o fenômeno. A loucura é geral. Pegou em toda sua equipe. Levanto meu rosto, buscando o único que talvez ainda tenha algum juízo. Ele está me observando. Caminha até onde estou e senta ao meu lado.
– Lancey... Você leu isso aqui? — Pergunto na torcida por não ser a única sensata nesse meio.
– Li. Confesso que fiquei na dúvida se te avisava sobre a expedição, quando te vi na sala. Parece perigoso.
– E você se preocupa? — Eu pergunto debochada.
– Se me preocupasse, não teria te avisado. — Ele faz careta.
Lancey tem a segunda melhor média naquela universidade, perde apenas pra mim. Por isso dessa amizade confusa. Ao fim de cada ano, o melhor aluno ganha alguns prêmios. Lancey, sendo o machista que é, não pode aceitar perder para uma garota. Mas há ocasiões em que conseguimos conversar sem nos matar. Claro que isso é super raro.
– Você acredita nisso? — Pergunto o encarando.
Ele morde o lábio e sorri.
– Você acredita? — Ele me responde com uma pergunta, coisa que ele sabe que odeio.
– Não.
Ele dá de ombros.
– Vou acreditar se encontrarmos alguma coisa.
Não é um sim, mas também não é um não. Pelo menos é algo aceitável.
– Isso me parece mais com um serial killer que passa sua vontade assassina de geração em geração. Se fossem homens desaparecidos, eu poderia até dizer que tem semelhança com as lendas, mas mulheres? Vou voltar pra casa.
– Pensei que era seu sonho sair do laboratório.
– E é. — Eu respondo sem ter de pensar no assunto. — Mas eu posso não voltar dessa expedição. Você leu isso aqui? — Eu aponto freneticamente para as folhas – O serial killer não foi pego e ele pode estar a minha espera logo que desembarcarmos.
– Não acredito nisso, Nora. — Ele me olha de saco cheio – Faz dez anos que não acontece nada. Se fosse perigoso, o Dr. Não traria você e Megan para a ilha.
– Só porque há dez anos mulher alguma entrou na ilha. E ele pode ter nos trazido pra usar de iscas.
– Não acho que ele faria isso, embora seja uma teoria aceitável. — Ele fica pensativo por um momento — Olha, foi proibida a entrada de mulheres, mas você acha mesmo que só há homens lá? Fala sério. Se há homem, há mulher. Nós não vivemos sem a bundinha bonita de vocês.
Aí esta o velho Lancey. O que eu desprezo.
– Aberração!
– Aberração seria se eu não apreciasse uma bundinha feminina. — Ele ri.
– Nojento.
Ele revira os olhos.
– Estarei por perto para te salvar, caso seja preciso. Mas com essa personalidade dos infernos, duvido que qualquer serial killer, ou sereia, queira se aproximar.
– Obrigada. — Respondo amavelmente.
– Isso não foi um elogio!
– Obrigada! — Repito.
– Olha. — Ele levanta e vai para a grade. Me levanto e fico a seu lado. A ilha ganha forma. É grande e me causa arrepios.
Sinto meu corpo todo vibrar e sei que é Willian perto. As coisas parecem mais intensificadas agora. O que é isso?
Ele fica do meu lado, me deixando no meio, entre ele e Lancey. Escuto as vozes fascinadas dos outros com a aproximação. O lugar é realmente lindo. Mas o quanto mais próximos ficamos, mais me sinto incomodada. Meu estomago parece péssimo agora. Minha cabeça está latejando. E a presença de William ao meu lado não ajuda a melhorar. É como se ele enviasse ondas de choque ao meu corpo.
Acho que me deixei realmente impressionar pela história dos desaparecimentos.
Saio de perto da grade e entro na cabine em busca de um banheiro. O acho facilmente e ali desmancho a vomitar. Já andei de barco antes, mas nunca distâncias tão grandes. Não posso estranhar que meu estomago se comporte assim.
Fico por um tempo ajoelhada ao lado do vaso quando começo a sentir o balanço do barco e ficar cada vez pior. Escuto batidas. Como se viessem do chão. Como se alguém batesse a porta. Isso é impossível, é claro. Até mesmo porque logo a baixo deveria estar as maquinas, motor, sei lá. Ou talvez houvesse pedras. As batidas continuam, cada vez mais suaves. Até que ficam fortes, mas não vem mais do chão, vem da porta.
– Tudo bem? — A voz é feminina. É Megan, a outra mulher que integra a equipe.
Estico o braço e destranco a porta. Ela entra e me olha com pena.
– Que droga. Minha primeira viajem também me deixou assim.
Ela se agacha a meu lado. E passa um braço por baixo dos meus, me puxando para cima. Não imaginei que estivesse tão mal, mas quando ela me fez ficar em pé, percebo que mal sinto minhas pernas, elas estão dormentes e no primeiro momento, quase que levo um tombo.
– Nós já chegamos, querida. Só precisamos sair desse barco e ficar em terra firme, então vou te dar um remédio para enjoo.
Concordo com um aceno. Ela me leva para o convés. O pessoal já está fora. Lancey esta saindo do barco, ele me olha e sorri.
– Ta acabada, Nora. Peguei sua mala. — Ele ergue uma mão e mostra Sardinha na caixa de viagem e na outra minha mala. Noto que estamos longe da terra ainda. Tem uma ponte de uns 50 metros que liga a ilha ao barco. Não é larga, mas cabe duas pessoas lado a lado. A ponte é de madeira e a cada passo um ruído se faz audível.
Me sinto melhor no momento em que deixo o barco.
– Você ta bem? — Ele pergunta e eu concordo. Então ele passa por mim e segue pela ponte.
Ando quase dez metros com Megan quando percebo que deixei minha bolsa no barco. Pelo menos não a peguei. E não vi com Lancey.
– Vou voltar, esqueci minha bolsa.
– Tudo bem. — Megan começa a virar em direção ao barco.
– Não precisa, estou melhor. Eu pego.
Ela me estuda, então me solta quando tem certeza que não estou mentindo, ela acena e pega a direção da praia. Caminho para o barco, minha cabeça começa a doer novamente. Alcanço o barco, mas não entro. Willian está na minha frente, bloqueando a passagem.
– Decidiu voltar? — Ele me pergunta com um sorriso nos lábios. Não debochado, apenas o seu habitual, eu acho, sorriso de dia a dia.
– Vou ficar. — Digo sentindo aquela eletricidade de antes. — Só esqueci minha bolsa.
Ele alarga o sorriso, agora sim é o debochado. Ele caminha em direção a praia.
– É uma bolsa bonita, combina comigo, não?
Noto minha bolsa presa em seu ombro e sorrio. Ele continua andando.
– Vamos assistente, temos muito que fazer antes do fim do dia. Quero meu café. – Ele diz sem olhar para trás.
– De jeito nenhum volto a servir café. — Aviso ele.
O barulho do barco me chama atenção. Ele está partindo. Me viro e fico assistindo ele se afastar e pensando se há mais barcos nessa ilha. Ficar presa nesse lugar não me agrada nem um pouco.
– Nora!
É Willian me chamando. Me viro. Ele não olha pra mim, olha pra ponte.
Começo a andar em sua direção, então escuto um barulho semelhante a vidro trincando. Olho em volta e não vejo nada que possa emitir esse ruído. Vejo a água mexendo. Barbatanas. Me aproximo da borda da ponte. São golfinhos. Vários deles, eles estão nadando por baixo da ponte.
– Olha, Willian! — Me viro para chamá-lo, ele solta minha bolsa na ponte e vem correndo em minha direção. Olho para o mar de novo e escuto mais uma vez o ranger. Só que agora está alto e perto. A ponte mexe e com um barulho ensurdecedor ela se parte dos dois lados, me deixando no meio que afunda. Eu grito pelo susto mas logo sou impedida pela água que cobre meu corpo e meu rosto. Sinto algo se prender com firmeza em meu calcanhar. Me puxar para o fundo. É algo que machuca, que perfura minha carne. Que me causa dor.
Não me lembro de segurar a respiração e meus pulmões são invadidos por água, causando ardência. A água está agitada, não consigo identificar nada. Apenas sou puxada para baixo. Tento focar meus olhos e minha mente no que está me puxando. Enxergo olhos. Assustadores olhos que me encaram. Nada mais que isso. Então o que me prende afrouxa e consigo me soltar com um puxão. Estou me afogando. Não consigo lembrar de como nadar, de como voltar a superfície. Meu vestido me atrapalha em bater os braços e pernas. Estou prestes a me entregar quando a eletricidade me acorda. Se cola a mim e me leva para cima.
Meus corpo se desespera ao acalçar a superfície, parece que o ar não é mais suficiente. Que não consigo ter o bastante. Vários pares de mãos me alcançam e puxam para cima da ponte de novo. Me deixo encostar em algo quente. Uma pessoa, mas não sei quem é.
Willian vem pra cima da ponte. Encharcado. Aflito. Ele ergue meu vestido até o joelho e sinto uma dor terrível quando ele toca minha canela.
Levanto minha cabeça e olho para minha perna machucada.
Está ensaguentada. Tem pequenos cortes que a circulam meu calcanhar.
Parecem mordidas, mas de quê? Não parece com nada que eu já tenha visto.
– Tá cheio de tubarão. — É a voz de Lancey – Temos que sair daqui antes que o resto da ponte caia.
Me sinto sendo erguida. Ainda tenho dificuldade em respirar. Estou tonta e as tantas vozes em minha cabeça não se fazem claras. Exceto... a canção. Há uma melodia fraca vindo de algum lugar.
Ignoro as vozes, me concentro na canção e sou guiada para a escuridão sem fim.
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