Canção da Sereia
28 Buraco do inferno - Rs
Notas iniciais
Lancey
Tanto tempo passou até que ela começou a se mexer. O dia está chegando, a noite diz adeus. O buraco em que estamos fica cada vez mais iluminado, deixando a mostra o cenário de filme de terror em que estamos. Buraco do inferno, é como me lembrarei disso, caso saia daqui.
Nora está fria, não tenho nada com o que cobri-la. Minha camiseta ficou em seu quarto, no banheiro. Sua respiração fica forte, mais rápida. As vozes pararam de gritar no meio da noite, graças a deus. Aquilo era perturbador demais. Agora os gritos que me deixam em agonia são os dela. A grande calda mexe de um lado para o outro quebrando os ossos do chão que estão no caminho. Seus braços se apertam a meu redor e o grito de dor penetra meu corpo. O que eu posso fazer por ela?
A aperto com força contra meu meu peito, suas mãos procuram desesperadamente apoio e suas unhas entram em minha carne, nas costas. Dói, mas não me importo. Dói mais vê-la desse jeito, em agonia profunda.
A escuto dizer algo. Apenas um sussurro.
– Nora... — A chamo.
Ela repete, mas não posso identificar os sons.
– Não entendo. — Digo perto de seu ouvido.
– Me mata...– Finalmente compreendo. — Por … favor.. eu quero... morrer.
Afundo meu rosto em seu pescoço, enquanto as lágrimas malditas fazem meus olhos arderem. Matá-la? Isso é o quão forte ela sente as dores? A esse ponto?
– Prefiro morrer a fazer isso. — Respondo a ela.
Suas unhas se cravam mais em minha pele e seu corpo treme em meus braços.
– Ah, isso dói... eu quero morrer! – Ela diz por várias vezes entre seus gritos. — Lancey... Lancey... me ajuda.
– Estou aqui. Eu tô aqui Nora.
Então os gritos param, são substituídos por soluços.
– Quero sair daqui. Por favor. – Ela fala com mais clareza agora.
Levanto os olhos para olhar para sua cauda. Mas ela está diferente agora. Não mais bela, não mais longa. Gelatinosa. Toco a gosma e ela saí em minha mão. Isso a fere?
– Você sente isso? — Eu pergunto a ela.
Nora pisca várias vezes ao me encarar, então volta a chorar.
– O que faz aqui?– Ela me abraça.
Oitavo abraço? Talvez nono? Mas quem está contando!
– Você está bem? Sabe quem eu sou? — Pergunto com medo da resposta.
– Eu sei quem você é. Oh deus, Lancey. Que aconteceu comigo?
Correspondo o abraço, beijo seu ombro, seu pescoço e por fim o topo de sua cabeça.
– Nora, eu pensei que tinha te perdido, caralho! — Eu xingo quando estou nervoso, irritado, feliz. Triste. Bem, eu xingo a qualquer momento. Ela também. Então não preciso me desculpar ou cuidar das minhas palavras. Não com ela. Nunca com ela.
– Você viu? Você viu aquilo?
– Você quer dizer – Aponto para sua cintura – Isso?
Ela olha para a calda gelatinosa e começa a se debater. A calda estoura quando seus pés saem de dentro da gosma.
– Oh meus deus, oh meus deus! TIRA ISSO DE MIM!
Ela se mexe tanto que eu me questiono por vários minutos se a ajudo a se livras daquela coisa em suas pernas ou se a seguro para evitar que se machuque. Por fim a solto e esfrego as mãos em suas pernas, tirando o máximo dessa coisa que a cobre. Suas pernas estão vermelhas e quentes. Ela está sangrando. Hemorragia talvez?
– Você tá sangrando. — Eu digo a ela que leva as mãos entre as pernas e ergue com sangue. As lágrimas voltam com força total dessa vez. Não sei o que posso fazer por ela nesse momento.
– NORA!
A voz vem de cima. Ela me olha assustada e volta para meus braços. Demoro um instante para reconhecer.
– AQUI! — Grito.
Willian está aqui. Sinto alívio por isso. Mas o que ele vai dizer sobre o que houve com Nora. Até onde toda essa simpatia irá? Ele procura uma sereia. O que vai fazer quando souber que tem uma entre de nós? E como infernos ela foi virar isso?
Solto Nora e pego os ossos do chão, os jogo em cima da gosma para encobri-la. Passo a mão pelo resto que ainda está nas pernas dela e esfrego em mim. Podemos dizer que caímos em algo no caminho. Sei lá. Ele só não precisa pensar que algo está acontecendo com ela. Especialmente com ela.
– Não conte, Nora.- Digo a ela no exato momento que Willian aponta a cabeça para dentro do buraco.
– Santo deus! O que aconteceu? Vocês estão bem?
– Não! — Grito pra ele. — Ela está ferida.
– Caramba! — Kall aponta a cabeça e logo Megan. Nora treme ao ver a mulher.
– Nós vamos tirá-los daí. — Meg diz. Ela joga uma blusa. — Fica com isso, querida. Vamos te tirar daí.
Passo a blusa pelo corpo de Nora.
Não há cordas. Não há nada. Esperamos por mais algumas horas, até que Gideon está de volta com George e Steve. Eles tem uma escada e roupas. Nora não consegue ficar em pé sozinha. Eu a prendo em uma corda e começo a subir com ela segurando em meu pescoço. A sustento pela cintura e os caras puxam de cima. Quando finalmente estamos perto da borda, Gideon a pega e leva pra cima, em segurança.
Fico grato de ninguém perguntar nada nesse momento. Termino de sair do buraco para ver Willian no chão com Nora em seus braços. Ele a beija e ela o corresponde entre lágrimas. Por que ele? Por que um cara que ela nem conhece? Um cara que não sabe nada sobre ela. Por que ele?
Eu olho a escada, a que eu tentava alcançar ontem a noite. Um miado conhecido vem lá de cima. Subo enquanto eles estão reunidos ao redor de Nora e Megan.
O andar de cima é tão podre quanto o de baixo. O miado vem de uma porta no fim de um corredor. Eu posso vê-los lá embaixo pelo buraco que a lua nos iluminava de noite. Quando finalmente alcanço o quarto, acho sardinha dentro de uma caixa. Ele brinca com alguma coisa.
– O que está fazendo aqui, gatinho?
Acaricio a cabeça e depois o pescoço do gato. Noto o pequeno volume que ele está brincando. Parece uma uma caixinha comprida e achatada. O tipo de caixa que você dá a uma mulher com uma joia bonita dentro. Mas, invés de um papel bonito, está enrolado em couro. Eu o pego e enfio no bolso da bermuda. Pego Sardinha e volto para o andar de baixo.
O caminho é difícil. Willian está péssimo. As faixas não estão mais em seu peito. Ele as tirou e exibe grandes contusões em seu corpo. Abaixo das costelas a pele está roxa, quase preta e ele mal pode andar nessa altura do campeonato.
Carrego Nora, mas não estou em meu melhor tempo, então me reveso com Kall e Gideon. Os velhos ajudam Willian e Megan vem atrás. Sardinha escapou assim que desci. Mas não é como se ele estivesse em perigo, é provavelmente o único com chances reais de sobrevivência aqui.
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