Canção da Sereia
47 A mulher da floresta - Parte 3
Notas iniciais
Nora...
Enterrei minha família ontem e hoje me despeço de Max e Estefan, os dois únicos que me restam. Eles estão partindo da ilha. Max não parece sentir nada. Talvez ele esteja em choque. Não o culpo. Os vejo entrar no navio e espero que a embarcação saia do porto. Não me restou muito agora. Não me restou nada.
É hora de voltar pra casa velha e solitária, descobrir como viver com toda essa dor. Ou talvez apenas desistir.
Me viro para ir embora e me deparo com a mulher maldita! O espirito que causou toda essa desgraça. Abro a boca para acusá-la, mas ela dá um passo a frente, chocando-se contra mim. Tomando a mim. Posso sentir meu corpo perdendo a própria vontade. Não consigo gritar, ou dizer qualquer outra coisa. Não consigo fazer mais nada. Meu corpo não me pertence mais. Me vejo caminhando para mais perto do pier. Estendendo a mão e desejando mal. Minha boca diz palavras desconhecidas. Um dialeto diferente! Gritos começam, depois fumaça, então finalmente o navio começa a ganhar chamas. Pessoas saltam para o mar. Eu quero pular, quero ajudar, mas estou petrificada, sem o controle do meu próprio corpo.
Meu outro braço se ergue e minha mão fica estendida com a palma para baixo. Há várias e várias pessoas tentando nadar, mas elas não conseguem voltar a superfície, algo as prende na água.
Eu as prendo na água...
Desespero se instala dentro de mim, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser assistir. Vejo a embarcação queimar e então afundar. Não há muitas pessoas na praia. As poucas que consigo ver, pelo canto do olho, não parecem perceber a monstruosidade que ocorre. Como elas podem não ver? Como podem escutar os gritos e nem sequer olhar?
Lágrimas escorrem por meu rosto. Há uma única pessoa que consegue nadar, se afastar de tudo. Max. Estefan não está com ele. Meu sobrinho está morto, eu sei disso.
Vejo Max nadando para as pedras.
Começo a andar, saio do pier. Finalmente as pessoas a minha volta percebem o incêndio na embarcação. Uma aglomeração e gritaria começa. Homens correndo pro mar em seus barcos de pesca, para ajudar.
Caminho para a vila. Quando chegamos, os homens não estão lá, eles foram para a praia, para ajudar. Restam as mulheres e seus filhos. Caminho para casa da minha vizinha. Ela esteve na caverna. Doroty, é o seu nome. Ela abre a porta e me encara assustada.
– Pearl! Você soube do acidente? — Ela me diz triste e desesperada.
Estico minha mão e toco seu rosto, ela fica surpresa, mas não por muito tempo. Sua face vai perdendo a cor, e os lábios se tornando negros. Eu posso até mesmo ver quando seu espirito deixa seu corpo e se fundi ao meu, me dando força. Nunca me senti tão forte. Então, vou para a próxima casa. E faço o mesmo. E na seguinte. Até que eu seja a última daquela caverna que ainda está com vida.
Talvez Serena ainda esteja bem, mas se fosse assim, porque essa coisa está possuindo meu corpo e não o da mulher da floresta?
Depois disso tudo, eu volto para a floresta, deixando corpos e crianças desamparadas pelo caminho.
Vou rapidamente para o rochedo e o escalo. A maré está baixa e a caverna seca. Dentro dela está Max, ferido. Ele tem uma queimadura feia no braço e no rosto. O cabelo loiro está molhado e tem uma mancha negra sobre grande parte dele.
– Pearl. — Ele me vê entrar. Quero gritar a ele que corra. Essa não é mais eu.
– Monstro! — A palavra sai de minha boca. — Onde pisa há destruição, Isaac!
Quem é Isaac?
Max fica ereto.
– Digo o mesmo, Helena!
Quem é Helena? O que está acontecendo?
– Eu te amaldiçoo! — Minha mão é estendida até ele, que da vários passos para trás e estende a própria mão para mim. — Aquilo que você corrompeu, será o seu castigo. Te condeno a mil anos na forma das monstruosidades que você ajudou a gerar! Não vai ocupar corpo algum que não seja da sua mesma espécie. Não poderá usar seus poderes no mar! Por mil anos, você vai ficar no fundo do oceano, pensando em todos os seus crimes, Isaac! — A voz que sai de mim não é mais a minha. É grossa e poderosa. Irritada e decidida.
– Você matou! — Ele acusa.
– Você me obrigou! — Me ouço dizendo — Eu te amaldiçoo Isaac, seus dias serão de extrema agonia. Você irá sofrer tudo que o que essas pessoas sofreram. Vai pagar por cada morte! — Volto a falar o estranho dialeto.
– Não faz isso! — Ele grita — Eu te amo, só queria ficar com você. Não faz isso!
Diante de meus olhos, Max começa a se contorcer de dor e se tornar algo diferente. Seu corpo encurta e sua voz some. Vejo seu rosto ganhar um aspecto deformado e suas roupas rasgarem pela cauda que ganha forma onde antes estavam suas pernas. Ele cai e ali no chão ele sofre em agonia pela sua transformação.
Seu peito se torna menor. Ele se torna um bicho parecido com aquelas mulheres da praia, mas não há beleza em seu corpo, apenas deformação. Ele fica no chão, se contorcendo, morrendo de dor. Eu quero ajudá-lo. Quero salvar pelo menos a ele... Mas não consigo.
Dou as costas e saio da caverna. Vou repetindo palavras naquele dialeto estranho até que eu estou a porta da casa de Serena.
***
Acordo ansiosa. Já é dia. Tive esse sonho estranho, que não parece ser sonho... talvez outra visão. Uma bem assustadora. Lancey continua no chão. Em algum momento da noite Marry reapareceu com algumas colchas e ele forrou para que eu deitasse. Ficou ao meu lado o tempo e pelas olheiras fortes, não dormiu ainda.
Ele segura minha mão e sorri pra mim quando percebe meus olhos abertos.
– Você está bem?
Aceno positivamente. Pensei que seria realmente constrangedor essa manhã, mas tudo parece normal. Ele encosta a cabeça na parede, tem uma manta em volta de seu corpo.
– Como está o Gideon?
Ele desvia o olhar, focando na cama por alguns instantes.
– Mal. A febre vai e volta. Delirou um pouco de madrugada.
E eu não vi isso.
Me sento, percebo Megan sentada no chão, com a cabeça apoiada na cama. Ela parece dormir.
– Ela queria ficar de olho nele. — Lancey me conta. — Mas acabou dormindo.
Meu amigo respira fundo.
– Vamos colocá-la pra dormir, enquanto cuidamos dele, ok?
Concordo com ele.
Lancey fica em pé e me ajuda a levantar. Continuo a sentir algo quando o toco, mas não parece tão intenso agora. Na verdade acho que está igual, mas me sinto tão confortável com isso que nem incomoda mais.
– Não me transformei essa noite... — Comento.
– Eu dei graças... — Ele diz sorrindo – Por mais lindo que seja te ver de cauda, você destruiria esse lugar com aquela coisa possuída. — Por um minuto esqueço de todo perrengue que estamos enfrentando e sorrio desse seu medo bobo. — E também odeio te ver sofrer daquele jeito...
Pronto, agora sim o ar ficou constrangedor.
Sinto calor em minhas bochechas. Eu não sei porque fiz o que fiz ontem. Bem, talvez eu saiba sim. Eu estava com medo, assustada com tudo que aconteceu e que poderia acontecer. Queria minha sanidade de volta. Então, eu o beijei. Beijei a única pessoa que sempre teve o poder de me trazer de volta para a vida. E foi exatamente o que ele fez.
Me afasto dele e vou até Megan. Cutuco seu ombro, ela logo acorda.
– Nora... — Minha amiga fica em pé e me abraça. — Que bom ver pernas! — Ela diz sorrindo.
– Eu que o diga.
Nós nos aproximamos de Gideon. Ele está pálido, não parece nada bem.
– Ele precisa de antibióticos. Está muito mal. — Megan avisa.
Me aproximo de Gideon e toco em seu braço, quero ver sua pulsação, ele parece morto. Mas então, eu sinto algo quando o toco. Ele abre os olhos imediatamente.
– O que foi isso?
– O toque da morte...
A voz fantasmagórica enche o lugar. Me afasto de Gideon e me choco contra Lancey. Megan nos olha assustada. Ela não pode ver o espirito.
Helena está diante de nós.
– Vocês foram tocados pela morte. Por isso podem vê-la... Compartilham um elo.– Ela caminha lentamente, até que está ao lado de Gideon.
Lancey estende a mão para Megan, que parece entender o que se passa. Ela vem para junto de nós e abraça Lancey pela cintura, assim como eu faço.
Helena se debruça sobre o corpo de Gideon, os cabelos prateados, que parecem conter vida caem pelo peito do meu amigo.
– Não o machuque! — Lancey pede.
Ela desvia a cabeça só um pouco para encará-lo, então se volta para Gideon.
– Eu posso matá-lo se quiser. Posso matar todos vocês.– A sua voz causa arrepios. Me lembro de Pearl, no sonho. Do monstro que essa coisa a fez virar.
– Você é uma assassina. Matou toda a família de Pearl. — Eu a acuso.
Ela beija Gideon nos lábios. É repugnante. Tento alcançá-los, mas Lancey me segura firme ao seu lado.
– Matei quem precisava morrer. Não plantei o mal no coração de ninguém, ele apenas se desenvolveu sozinho. E eu apenas cortei pela raiz. Não dê ouvidos aquele espirito. Ela mente. A única coisa que quer é vingança. Acho que pode consertar as coisas seguindo as mentiras daquele demônio.
Ela some.
– Não dê...– Escuto a voz em meu ouvido e me viro, para vê-la ao meu lado. Me assusto e Lancey se afasta, me puxando junto, dando distância desse ser cruel. - ...ouvidos a ela!
– Está mentindo! — A acuso.
– Eu não posso mentir.– Ela diz.
– Ela não pode mentir. — Lancey fala junto com ela.
A mulher sorri.
– Eu prometo te deixar em paz, se ficar comportada.. As duas– Ela olha para Megan agora. — Até mesmo o bonitão pode permanecer.– Ela olha para Lancey. - Mas os outros precisam partir. Se não estiverem fora em dois dias – Ela some outra vez. Reaparece em cima de Gideon — ...eu os matarei. Todos eles.
A mulher vira sua cabeça e nos olha.
– E não tentem fugir... — Ela aponta para nós três. — Vocês são meus...
Ela some de novo, dessa vez não reaparece. Me deixa assustada e com medo.
– Ela ainda está aqui? — Megan pergunta.
– Ela já foi. — Gideon responde por nós. Ele senta na cama. — Temos que sair, ou ela irá nos matar.
– Tudo que eu mais quero é sair dessa casa! — Megan diz.
– Não da casa. Da ilha. Ela quer os homens fora da ilha.
Gideon se levanta, como se nada houvesse acontecido. Ele começa a puxar as bandagens ensanguentadas e deixa a mostra a perna lisinha, sem ferimento algum. Helena o ajudou? Logo depois de nos ameaçar?
– Temos que ir! — Lancey diz e começa a me empurrar para fora.
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