Canção da Sereia
46 A mulher da floresta - Parte 2 - RS
Notas iniciais
Willian
Se culpa matasse eu estaria morto e enterrado.
O estagiário de merda não deixa Nora sozinha nem por um minuto, isso me irrita.
George, para ajudar a piorar o problema, esta obcecado por Nora. Mason, numa tentativa de acalmá-lo, dá a ideia de irmos procurar o restante dos ossos na caverna.
– Mas não sabemos onde é e duvido que aqueles dois nos levem! — George diz irritado para Mason.
– Fica de frente pro mar, em um penhasco. — Eu lhes digo. Tenho uma vaga ideia de onde seja, pelas lembranças de Isaac – Podemos usar a caminhonete de Steven e andar na beira da praia, até que eu possa ver algo familiar.
George não está convencido, mas ele acaba por ceder. Ele não disse mais nada sobre a visão que tive, mas não tenho certeza se acredita. No entanto, procurar a caverna é melhor que ficar esperando. Kall se oferece para ir no lugar de Gideon, eu concordo com ele. Gideon é treinado, sabe manusear armas e lutar. É a melhor opção para cuidar das casa e das garotas.
Não sabemos bem onde procurar, então decidimos passear pela praia, rodar a borda toda. Não dá pra fazer isso de caminhonete, chega uma momento em que não dá mais e somos obrigamos a ir a pé. De longe eu vejo o paredão, e eu sei bem no meu intimo que é lá.
As coisas não são mais como antes. Depois daquela visão, sinto como se conhecesse essa ilha. Levo um tempo para me familiarizar com certas partes, mas eu consigo. É como se eu estivesse em casa.
Subo o paredão com uma velocidade incrível. Meu corpo nem mesmo dói mais. Mason consegue me acompanhar, já Steven e George... nós praticamente temos que puxá-los.
A maré ainda estará cheia por mais 3 noites, no entanto, por ser dia, o volume de água não é tão alto, para pouco a cima dos nossos joelhos.
O lugar é exatamente como eu me lembro... parece ter parado no tempo. Foi aqui que Isaac trapaceou. Aqui ele enganou Helena e aqui ele foi amaldiçoado.
George encontra os ossos rapidamente. Ele tenta soltá-los do solo molhado, mas acaba destruindo a grande parte. Geralmente ele seria cuidadoso, mas não aqui, não agora. Ele está desesperado para provar ao mundo que sempre esteve certo. E isso significa muita coisa. Eu mesmo lhe devo desculpas, ele sempre me disse o que havia me salvado... eu nunca acreditei. Sempre fui um dos que duvidou de sua sanidade.
Saímos do penhasco quando está escurecendo. Por incrível que pareça, não sinto dores. Me sinto renovado na verdade. Mason parece preocupado comigo, ele não deixa de fazer perguntas sobre meu estado. Kall, por outro lado, está ansioso, ele quer a todo custo voltar para casa, tem medo que sejamos atacados, ou a casa... No entanto, não acho que Helena ataque a casa ou a nós. Ela só fará isso se achar que somos uma ameaça. Bem, Nora é. Mas já deve ter ficado claro que alguns de nós não pretendem levá-la para o mar. Eu não sou um desses, preciso levá-la para o mar. Isaac vai se livrar de Helena e nos deixar sair, mas pra isso ele precisa de Nora. Ele não fará mal a ela, a deixará livre depois. Tenho certeza disso, ele é bom.
Quando voltamos, não há ninguém na casa. Há um rastro de destruição desde o cômodo de cima até a cozinha. A porta da despensa foi destruída, dentro dela não há nada além de destruição. Subo para os quartos, o de Nora está pior que o dia anterior. Há buracos de tiros por todos os lados e um braço podre, já em estado avançado de decomposição. O problema desse braço, é que ele não pertence as criaturas de Helena. Esse braço pertence a sereia de Isaac.
– Willian! — Kall grita do andar de baixo. Ele e os outros estão na despensa. Kall me mostra atrás de uma prateleira um buraco. Ele leva pra fora. Para trás da casa, onde começa a floresta. O território de Helena. O que tudo isso significa? Talvez Helena tenha atacado a casa e Isaac mandou a criatura para impedir. Odeio não saber o que está acontecendo. Não saber o que ouve com Nora, ou se ela está viva. E ainda tem meus amigos. Tem sangue no fim do buraco. Alguém deve estar gravemente ferido. Se for o caso, espero que seja Lancey. É o único que não me importo se morrer.
– Vou atrás de Megan. — Kall anuncia.
– Eu também vou. — Aviso a ele. — Precisamos de armas. Vamos vasculhar a casa, Gideon deve ter escondido alguma em algum lugar.
– Também vou, mas é melhor George e Steven ficarem. — Mason se intromete. — Só vão nos atrasar.
George, é claro, não concorda com isso. Ele é terrivelmente contra a ideia de ficar sozinho.
– Não vou ficar aqui parado. — Steven anuncia – Fiquei anos esperando algo acontecer, agora não vou ficar para trás. Também tenho perguntas sem respostas.
Aposto que ele tem mesmo. Mas ele não entende, nenhum deles entende. Nora corre perigo, não tenho tempo a perder. Helena não vai deixá-la viva. Nessa altura ela percebeu que Nora se tornou o que Isaac precisa.
Eu concordo com eles, não porque quero a companhia ou ajuda deles, mas porque negar pode atrasar ainda mais as coisas.
Fazemos uma limpa na casa, e como eu imaginei, Gideon tinha uma arma no quarto, em baixo de seu colchão. Nós enchemos as mochilas com comida e algumas roupas. Começaremos indo atrás de Mellow. Depois de tanto tempo Nessa ilha e tantas experiencias vividas, ele deve ter alguma ideia por onde começar.
Infelizmente, a caminhonete de Steven não nos é útil. Ela só serve para andar a beira mar. As florestas nunca foram adaptadas para o carro.
Nós saímos da casa, adentramos a mata escura. Tudo que eu quero é encontrar Nora com vida. Assim que Helena for destruída, nós poderemos sair da ilha. Isaac terá poder suficiente para quebrar o feitiço dela e libertar as almas. Dessa forma, nada mais vai assombrar esse lugar.
Lancey
Marry, a mulher que Steven procura há anos, é a mulher da floresta. Eu sei disso porque Helena nos conta.
Assim que entramos na casa, vemos Helena deixar o corpo da mulher. Ela sorri para nós e nos apresenta.
– Essa é Marry Wible... — Ela diz antes de desaparecer.
Gideon a vê, assim como Nora e eu. Mas, como antes, Megan não a vê. Me pergunto o porquê! Eu sei a resposta, sinto isso, mas não me lembro. Não é como se alguma coisa viesse realmente a minha mente no momento. As informações ainda estão guardadas em algum lugar da minha mente e eu apenas tenho conhecimento delas quando necessito de respostas. É quase como se eu estivesse sendo controlado...
A casa está melhor que na visão que tive. Tem até um quarto e uma cama velha. Não faço a menor ideia de como ela conseguiu isso. Talvez tenha roubado do vilarejo, quando foi abandonado. Ela não fala nada, pega um volume embrulhado em pano. Dentro dele um pão caseiro. Ela corta fatias e entrega a nós. Reparo que tem latas e pacotes de farinha. Acho que aquele buraco na despensa tem servido como mercado para ela. Há velas acessas espalhadas, é o que ilumina o lugar.
Marry nos empurra para o quarto e aponta para a cama. Espero que ela esteja apenas sugerindo que descansemos.
Gideon está ferido. Ele diz que não é nada, mas sua calça está empapada de sangue.
– Aquela coisa ainda está atrás de nós? — Ele pergunta enquanto olha para a janela, para fora da casa.
– Ela não vira aqui, Gideon. Aquela coisa não pode ficar muito tempo fora da água.
Ele passa a mão pelos cabelos raspados e a barba por fazer. Imagino que a minha deva estar parecida com a dele. Foram dias pensando em tudo, menos na minha aparência.
– E se essa bruxa tentar nos matar?– Ele sussurra quando Marry está distraída com o fogão.
– Vamos torcer para que não. De qualquer forma, vamos sempre manter a guarda. Agora, precisamos cuidar dessa sua perna.
Ele me olha em duvida. Sei que está batalhando internamente para tomar uma decisão.
– E se precisarmos fugir?
– Gideon, você não vai longe sangrando desse jeito e sinceramente, se Helena nos quisesse mortos, eu não acho que teria nos trazido aqui.
– Como sabe o nome daquilo? O que era? Um fantasma?
– Algo assim. Me deixa cuidar dessa sua perna e então eu vou te contar. Vou contar tudo pra você.
Ele está indeciso, olha de Marry para as garotas encolhidas num canto e então pra mim.
– Está bem!
Eu levo Gideon e as garotas para o quarto, apenas uma cortina nos separa de onde Marry está. Nora está quieta, em choque, e Megan tenta a todo custo manter-se racional, mas parece mais pirada que minha amiga rabugenta em seu pior estado. Rasgo a calça de Gideon, onde está empapado de sangue. Há uma ferida feia ali. A criatura enfiou sua mão em sua pele. Sabe, tipo, enfiou mesmo. Até deixou um pedaço do dedo podre.
– Oh deus... — Megan fica de costas para nós. Nora recomeça o choro. Ela geralmente é bem forte, menos quando a coisa fica fora de controle, então ela faz o que qualquer garota faria, fica histérica. É nessas horas que eu desejo ter algum calmante. Melhor apagada sendo arrastada do que em pé gritando e atrasando.
A cortina balança e Gideon aponta a arma para lá. Marry aparece com uma garrafa velha na mão e uma maleta. Parece ser de primeiro socorros e parece nova. Talvez ela tenha conseguido na casa, ou na aldeia. Ela deixa perto de mim e sai do quarto. Gideon respira fundo e abaixa a arma.
– Não ia adiantar muito... estou sem balas. – Ele confidência.
Eu imaginei. Foram muitos tiros lá trás...
Cuidar da perna de Gideon não é algo bonito. Primeiro lavo com a água que Marry entregou e quando tenho uma visão mais clara do ferimento, não posso deixar de me perguntar como ele conseguiu correr tanto com a perna assim. Talvez seja a adrenalina, quando está no ápice nos transforma em super-humanos. Mas cara... isso é muito foda. Eu tento enfaixar como dá. No fim até uso uma camiseta imunda que encontro. Durante todo o processo, eu converso com ele. Conto sobre a visão que tive. Ele não parece tão cético quando eu esperava.
Deixo Gideon na cama quando acabo, ele luta para não dormir, mas acaba apagando. Megan fica ao lado dele, está cansada e tem os olhos inchados. Ela não diz nada, mas sei que deve estar preocupada com Kall.
Fico sentado no chão, onde posso ver a cama e ao mesmo tempo Marry no outro cômodo. Ela está sentada numa cadeira, lendo alguma coisa que não posso identificar. Helena voltou faz algumas horas e ocupou seu corpo de novo. Preferi não contar isso aos outros...
Nora se junta a mim no chão. Ela se abaixa e senta no meu colo. Isso é sexy pra caramba, mas eu tenho que me segurar. A situação não é das melhores e as coisas parecem bem complicadas agora. Não quero que ela tenha medo de mim também.
A envolvo em um abraço e ela descansa a cabeça em meu pescoço. Os braços ao redor de mim, me apertando a seu corpo. Ela não imagina o grau de controle que eu preciso para ficar perto dela. Nem mesmo eu sabia disso até pouco tempo. Ou talvez soubesse, mas não queria aceitar, não queria estragar as coisas. E certamente estragarei ao falar algo agora. Ela está em pânico e tem um cara com uma perna toda fodida a poucos metros de nós, um fantasma no outro cômodo e uma criatura a caçando. É melhor, definitivamente, ficar quieto.
Eu me mantenho na minha, numa luta interna e ao mesmo tempo ligado ao meu redor. Gideon está quieto, Megan parece ter caído no sono, está imóvel na cama e Marry nem parece se lembrar que estamos aqui. Imagino que Nora dormiu em meu colo depois de 15 minutos parada. Então toco seu cabelo, faço cafuné. Ela se mexe e eu afasto minha mão imediatamente de seus cabelos.
Nora levanta seu rosto e encosta sua testa na minha. Espero que ela não comece a se transformar aqui. Não faço a menor ideia do que fazer se ela ganhar uma cauda, especialmente em um lugar tão apertado, ela destruiria tudo em segundos.
Seus dedos sobem para meu rosto e ela acaricia minha bochecha, causando formigamento por todo meu corpo.
– Você está bem? — Ela concorda, está contra a luz da vela, não consigo enxergar seu rosto.
Os dedos sobem para meu cabelo e sua boca se aperta contra a minha. Congelo. O que há com ela? Será que é Helena brincando comigo? Sua boca ganha vida, tentando invadir a minha. Eu deixo. Mas, tenho medo que isso não esteja vindo de Nora. Por que ela me beijaria? Tem algo errado.
Algo errado... mas é bom. Esperei muito por um momento desse. Até mesmo quando eu não sabia gostar dela, ou de fato não gostava, eu tinha sonhos com isso. Eu sempre a desejei, isso é inegável.
Seus lábios quentes são desesperados e eu a correspondo com o mesmo frenesi. Sinto meu pau endurecendo abaixo dela. O autocontrole foi completamente pro espaço agora. Ela se separa de mim, encosta a testa na minha de novo. Tentamos controlar nossas respirações ofegantes, para que nossos companheiros de quarto não decidam nos dar atenção agora.
– O que foi isso?– Eu pergunto num sussurro.
– Eu não sei...
Ela volta a me abraçar, esconde o rosto em meu pescoço e fica quieta. Eu também estou quieto, a única coisa que denuncia minha agitação interna é o meu coração que bate tão descompassado quanto o dela.

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