Canção Vintage (Crânio & Magrí - Os Karas)

8 Uma Canção de Natal e Pães de Mel


Notas iniciais
Olá! Como eu mencionei no conto anterior, esta história é natalina se passa após os eventos de Droga de Americana e uns dois anos após a formatura do Colégio Elite - ou seja, avançamos bastante no tempo rs. Espero que gostem tanto quanto eu c: Música: The Christmas Song - Michael Bublé

A árvore estava viva. Haviam luzes piscando em cada folha, haviam enfeites em cada ramo, haviam bolinhas coloridas em cada pedacinho da árvore. A árvore estava bastante viva, tão viva quanto a própria garotinha que a contemplava, com os grandes olhos brilhando, ao lado da mãe na manhã do agitado parque.

Outras crianças da idade dela brincavam e corriam ao pé da árvore, numa verdadeira algazarra animada. A menina puxou a saia da mãe indicando que queria brincar também e foi com alegria, quase deixando o lanche guardado no bolso do vestido cair no chão, que ela correu e se juntou as outras crianças para brincar de pega-pega.

Haviam muitas crianças, mais crianças do que a menina estava acostumada a ver na escolinha e isso a deixava muito contente, pois depois daquele dia teria mais amigos para brincar.

Uma criança, porém, não se juntou ao grupo. Era um garoto da mesma idade dela, sentado perto do tronco de uma das árvores do parque com um olhar vazio e distante, como se não quisesse estar ali.

A garota, que era muito observadora, ficou com pena daquele menino. Ela se perguntava se ele tinha amigos e porque ele não vinha se juntar as outras crianças — se não tivesse amigos, com certeza teria pelo menos uma, se brincasse com ela.

Com um leve sorriso, ela se aproximou do garoto.

— Olá! Porque você não vem brincar com a gente?

O garoto a encarou franzindo a testa, como se não tivesse entendido o que aquela menina estranha estava falando. Ou como se ela fosse um ser de outro planeta. Provavelmente as duas coisas.

Ele deu de ombros. A menina percebeu que o olhar do garoto era de uma tristeza que ele tentava esconder.

— Estou sem vontade. Mas obrigado...

A expressão da garota murchou.

— Por que não? Melhor do que ficar aí sozinho!

Havia uma leve irritação borbulhando na voz do menino quando respondeu.

— Porque não, oras. Não gosto mais de brincar. Nunca mais vou brincar!

— Nunca mais vai brincar?! Está louco!

Ele não mais respondeu, muito ocupado tirando as asas de uma mariposa irritante que ele tinha matado. Parecia esconder alguma coisa que a menina não ia descansar até descobrir o que era. Não gostar de brincar era coisa impossível para ela.

Sentou-se ao lado dele com um leve suspiro, permanecendo em silêncio. O garoto não parecia se incomodar tanto com a presença irritante dela ao lado dele.

— Eu irritei minha mãe. De novo — disse ele de repente, fazendo a menina levantar a cabeça em surpresa — Estava brincando na sala sozinho ontem à noite e acabei quebrando o vaso favorito dela.

A menina franziu a testa.

— Mas porque você estava brincando à noite? Meu pai diz que a noite é para gente descansar.

Ele deu de ombros.

— Não queria descansar. Estava sem sono e queria ver quantas vezes eu conseguia agarrar a minha bolinha de ping-pong com a mão esquerda e direita. Acho que cheguei em quinhentas jogadas antes de quebrar o vaso...

Ele parecia tão desolado em ter irritado a mãe, que a garota realmente sentiu pena dele. Delicadamente ela tirou dos bolsos do vestido um doce embrulhado em papel de presente natalino, já um pouco amassado pelo tempo que estava guardado.

— Toma, come isso. Vai se sentir melhor.

O garoto pegou o embrulho de forma curiosa, abrindo o doce com um leve sorriso. Havia um Papai Noel sem um olho no plástico.

— O que é?

— Coma. Você vai gostar. Foi minha mãe quem fez.

Ele beliscou um pedaço do doce. Tinha formato de um pequeno bolo macio. Após a primeira dentada, a expressão do garoto se iluminou e foi com entusiasmo que comeu todo o bolinho.

— Não disse que você ia gostar? Esses são os pães de mel natalinos da minha mãe. São os melhores do mundo!

O menino, pela primeira vez, deu um sorriso aberto, cheio de covinhas.

— Você tem mais aí?

Rindo de satisfação, a garota compartilhou todos os pães de mel natalinos que tinha no bolso com o garoto desconhecido. Comeram até lamber os dedos, rindo dos desenhos de papais noéis engraçados na embalagem.

O suave gosto do doce aqueceu seus coraçõezinhos inocentes, como se cada colher do mel fosse uma música para suas almas.

***

Ao longe, muito longe, anos longe, diversas crianças solitárias brincavam em suas solidões num casarão, esquecido pelo tempo e pelo mundo. Não eram as mesmas crianças daquela véspera feliz de Natal. Não. Eram crianças diferentes, diferentes na fisionomia e no olhar.

Todas elas compartilhavam uma única coisa, a tristeza e o frio em seus corações, um frio que não deveria fazer parte nem de crianças, e nem daquele belo verão de fim de ano.

***

As suaves notas de uma canção natalina impregnava o ar da enorme cozinha, misturando-se ao cheiro de açúcar com uma pitada de canela. Magrí olhava impaciente para o liquidificador que batia o mais rápido que sua ansiedade conseguia, até finalmente ainda um pouco insegura, desligar o aparelho.

Olhou a massa misturada e para o caderno de receitas da sua mãe na bancada da cozinha. Franziu a testa. Olhou de novo para a massa e suspirou de frustração. Acrescentou mais um ingrediente numa colher de sopa e voltou a ligar o liquidificador barulhento, abafando a voz suave vinda do rádio.

Passos surgiram do corredor da cozinha, avisando da chegada de Joana com algumas sacolas de compras. Entretanto Magrí nem percebeu a chegada da querida empregada, até parar de novo o liquidificador e ouvir a risada suave da senhora.

— Ainda está brigando com essa massa, querida?

Magrí virou-se o rosto um pouco sujo do açúcar.

— Ai Joana, que bom que você já chegou! Trouxe o que eu te pedi?

Joana abriu uma das sacolas com um leve sorriso.

— Claro, você deu sorte de ainda ter cravo moído no mercado a essa hora. Que fila que estava! Pensei que não conseguiria pagar nunca...

Joana continuou tagarelando sobre a fila do mercado e de como as coisas estavam mais caras naquele ano e do absurdo da inflação, mas Magrí não deu atenção, muito concentrada em que estava para terminar aquela massa que estava lhe dando nos nervos.

Jogou o cravo moído na esperança de melhorar a aparência e o sabor daquele negócio que parecia uma gororoba nojenta. Era frustrante que sabia fazer tantas coisas na cozinha, mas nunca acertava a receita dos pães de mel da sua mãe — que ela fez questão de "expulsar" dali, pois queria tentar fazer sozinha. Mas até o momento não estava tendo sucesso nenhum.

Olhou para o relógio de parede de forma apreensiva. O tempo estava se esgotando e logo seu namorado chegaria para passarem um tempinho juntos antes da ceia de Natal. Estava um dia lindo lá fora, perfeito para um casal de namoradinhos.

A campainha da casa tocou e Magrí gemeu frustrada. Se havia alguma esperança que conseguiria terminar os pães de mel antes dele chegar, ela foi despedaçada junto com os restos de cravo moído no liquidificador.

Joana foi atender a porta e a menina esperava que a empregada o segurasse o máximo na sala antes de o trazer para cozinha, pois a senhora adorava conversar o rapazinho.

Aproveitou os minutos que ainda tinha para jogar a massa do pão de mel nas forminhas e levar ao forno. Faltaria agora somente o recheio, que era mais fácil de fazer, mas não tão rápido quanto gostaria...

— Estou bem, dona Joana, obrigada. Meus pais vão bem também. Mais tarde eles chegam para a ceia...

A voz de Crânio ressoou pelo corredor da cozinha. Joana se despediu do garoto como se mimasse um filho, o que sempre fazia Magrí rir.

Quando ele entrou, a menina só teve tempo de colocar todas as forminhas no forno e tirar o avental. Esperava com todas as forças que o doce ficasse comestível.

Os dois se abraçaram e trocaram alguns beijos, porém a garota já percebeu na hora que o namorado estava quieto demais, mais do que o normal e pouco sorria. Talvez estivesse doente, pois estava muito pálido.

Havia algo mais, no entanto que inquietava Magrí.

— Você está bem? Parece chateado.

O garoto negou levemente com a cabeça, sentando-se na bancada da cozinha, forçando um sorriso. Magrí ia se aprontar para sair com ele, quando percebeu que deixou todos os ingredientes do recheio dos pães de mel, mais a sujeira que fez, espalhada por toda a cozinha. Crânio franziu a testa.

— O que você estava tentando fazer, querida?

Magrí abriu e fechou a boca como um peixe.

— Aãn nada não... Quero dizer, eu estava ajudando Joana com algumas coisinhas para a ceia. Só isso.

Ela se moveu pela cozinha tentando limpar a bagunça e esconder qualquer indício da sua surpresa. Em outro dia qualquer, Crânio naquela altura, já teria descoberto o que a menina tramava. Porém ele estava tão taciturno naquele dia, que as observações aparentemente lhe escapou por completo, para o alívio de Magrí.

— Eu adoro as ceias de Natal que fazemos aqui! — começou ela com animação — Você vai adorar as receitas da família, são uma delícia! E depois vamos abrir os presentes e o champanhe, isso se os meus primos já não tiverem aberto antes... Eles são tão desobedientes, tem hora que nem parece que temos a mesma idade e que eu sou a mais velha, porque eu sempre brigo com eles para esperarem a troca de presentes...

Magrí continuou tagarelando, até perceber que o namorado continuava quieto ainda com a expressão taciturna. Ela parou com um cara de desgosto.

— Você ouviu uma palavra do que eu disse?

Crânio piscou em surpresa, como se acabasse de acordar de um sonho não lá muito agradável.

— Quê? Ah.. Sim, eu acho.

Magrí jogou o pano de prato para a bancada com mais força que o normal.

— O que diabos você tem hoje, hein Crânio? Está no mundo da lua?

— Já disse que eu estou bem — havia um tiquinho de raiva na resposta dele — Como você é insistente!

A menina bufou.

— Até parece que você consegue me enganar! Por que você não diz logo o que aconteceu?

Crânio trincou os dentes e apoiou os pés no chão, de um jeito que parecia que ele iria se levantar e sair dali a qualquer momento.

O olhar do garoto era de uma raiva acobertada por um sentimento mais profundo e dolorido que Magrí, naquele momento, não entenderia. Quando falou, cuspiu as palavras:

— Eu preciso mesmo vir para essa droga de ceia de Natal? Eu não aguento mais ouvir você falando disso a semana inteira!

Magrí abriu a boca de novo como se não acreditasse no que acabara de ouvir. Sentiu o estômago afundar, como se ele tivesse jogado uma bola de tênis bem no meio dos seus rins.

— Então é isso? Você está fazendo esse drama todo só porque eu quero a minha família reunida na ceia de Natal? Essa é a consideração que você tem por mim?!

A garganta se fechou, mas a menina se recusava a chorar na frente de Crânio. Ele desviou o olhar dela com os lábios trêmulos, mas ainda com raiva. Sussurrou quase para si mesmo.

— Eu já te disse que eu detesto o Natal...

Magrí quase gritou com a voz embargada:

— Mas das outras vezes você nunca reclamou de comemorar comigo!

O forno apitou uma vez, indicando que o tempo de assar dos pães de mel havia encerrado. No calor da discussão, nenhum dos dois prestou atenção.

— Magrí, pelo amor de Deus...

— Pelo amor de Deus digo eu! Eu odeio quando você esconde as coisas de mim achando que eu não vou desconfiar. Quando você vai confiar em mim completamente?

— Mas que diabos, quem disse que eu não confio em você? — Crânio ficou em pé, ainda com uma calma aparente — Por que você fica inventando coisa que não existe? Qual é o seu problema, garota?

— Cínico e mentiroso!

Cada palavra de Crânio saiu salgada de sarcasmo, um disfarce pela dor que sentia pelas palavras de Magrí:

— O que eu tenho de cínico e mentiroso, você tem de insuportável, às vezes.

O garoto, porém, logo se arrependeu do que disse, ao ver a dor estampada nos olhos da namorada. Não tiveram tempo de dizerem mais nada, pois grossas fumaças passaram a sufocar o ar da cozinha.

— O forno!

Magrí gritou e correu para desligar o aparelho, tossindo. Crânio foi mais rápido que ela e abriu as janelas para deixar a fumaça sair e a ajudou a tirar as travessas do que seriam a massa dos pães de mel, que não passavam agora de canela e farinha de trigo queimadas.

Ao ver todo o trabalho que havia feito com tanto carinho destruído pelo descuido, Magrí não conseguiu segurar mais as lágrimas. Choramingou silenciosamente, enquanto jogava fora a massa queimada.

Sentiu ser abraçada, e no começo tentou se desvencilhar do namorado. No fim foi vencida por ele.

Choramingou:

— Era uma surpresa para você, seu bobo.

Crânio a abraçou com mais força, beijando os cabelos da garota, sussurrando com tristeza:

— Me perdoa, meu amor. Eu fui um estúpido. Não queria descontar nada em você...

Magrí choramingou mais e o abraçou de volta. Crânio segurou o rosto dela banhado em lágrimas secando-as com os dedos e com alguns beijos cheios de carinho. Quando terminou, ele a encarou com um sorriso tímido.

— Seu rosto está com gosto de açúcar.

O riso de Magrí saiu um pouco abafado e estrangulado ainda pelo choro. Fitou o garoto que tanta amava com o coração ainda pesado.

— Me perdoa, eu não queria gritar com você. Mas... Eu sou mesmo insuportável às vezes?

Crânio suspirou temeroso.

— Esqueça tudo o que eu disse, ok? Eu estava zangado, não pensei o que eu estava dizendo...

Aquilo não a confortou e o rapazinho sabia disso. Magrí sempre preferiu pela verdade, por mais doída que ela fosse. Crânio suspirou de novo em derrota.

— Ok, você é sim de vez quando, insuportável. Principalmente quando está de TPM...

Magrí fechou a cara de novo, mas Crânio riu de verdade pela primeira vez e deu um selinho nos lábios da menina.

— Mas eu sei que eu também tenho os meus momentos de chatice.

— Que bom que você sabe — Magrí levantou a sobrancelha — Quando você fica ranzinza me dá nos nervos.

O garoto a beijou de novo, dessa vez com mais vontade e amor. Toda a raiva que sentiram um do outro há pouco minutos se desvaneceu como a fumaça que tinha tomado conta da cozinha — o beijo sendo o selo de perdão.

Passados alguns instantes, finalmente se separam, os dois um pouco sem ar e as testas ainda coladas.

Crânio murmurou:

— O que você estava tentando fazer para mim quando eu cheguei?

— Os pães de mel natalinos da minha mãe que você tanto gosta — Magrí não conseguiu esconder o beicinho — Mas agora virou carvão...

A culpa tomou conta do coração do garoto com mais força, que ficou estampada em seu rosto. O sentimento que carregava quando chegou à casa da namorada voltou à tona.

O caderno de receitas ainda estava aberto na bancada. Ele espiou rapidamente. Forçou de novo um sorriso.

— Talvez nós podemos tentar de novo. Não parece difícil.

Magrí mordeu os lábios.

— Mas você sabe cozinhar?

Crânio balançou a cabeça, dessa vez com um sorriso mais sincero.

— Não, mas você pode me ensinar.

A menina sorriu largamente, o abraçando mais apertado. Porém com seus grandes e bonitos olhos, ela encarou Crânio entre o seu jeito sério e brincalhão.

— Tudo bem. Mas só se você me contar porque você estava triste e ranzinza quando chegou. E depois me ajudar numa tarefa que devo fazer antes da ceia. Só assim eu te perdoô completamente.

Crânio deu um leve suspiro e um sorriso, beijando logo em seguida os cabelos daquela menina adorável. Não importava o quão inteligente era, pois muitas vezes Magrí conseguia lhe passar a perna e derrotá-lo — seja em alguma missão dos Karas como nos velhos tempos do Colégio Elite, seja durante discussões como aquelas. Não protestou, pois era justo afinal de contas. Qualquer coisa para tirar aquela tristeza dos olhos dela.

Os dois passaram a trabalhar de novo mas massas do pães de mel, seguindo à risca a receita da mãe de Magrí entre risadinhas e provocações.

O garoto não mentiu quando disse que não sabia cozinhar e Magrí não conteve o riso, mas com carinho e paciência, ensinou o que ele deveria fazer. Não foi com menos orgulho quando constatou de novo, como tantas outras vezes, o aluno excelente que era, tanto que ele fez a seguinte observação lendo o livro de receitas:

—Eu acho que eu sei porque que a massa que você fez primeiro estava com uma aparência ruim...

— Por quê?

— Sua mãe anotou bem miúdo no canto, aqui — ele mostrou o livro para a menina que espiou por cima do ombro do rapazinho — Ela escreveu: "bicarbonato de sódio é o último ingrediente a ser acrescentado. Pouca quantidade".

Magrí bateu na própria testa.

— Que tonta que eu fui! Não vi que ela escreveu isso!

—Faz muito sentido o que ela disse — Crânio riu — O bicarbonato de sódio, do jeito que você colocou na primeira vez, deixou a massa com aquela aparência feia por conta da acidez. Por isso ficou com aquele gosto de metal...

Crânio, que era apaixonado por pães de mel desde de criança, tinha tentado comer alguns dos que se salvaram do forno, para o desespero de Magrí.

Ela deu um tapinha no braço dele, rindo.

— Mas agora acertamos, espertinho.

— Graças a mim, claro — O garoto não escondeu a petulância — Fazer bolo é que nem criar misturas no laboratório de química. Fácil, fácil.

Magrí revirou os olhos sem esconder o sorriso. Era bom vê-lo fazer seus típicos comentários, pois significava que ele estava bem de novo.

Enquanto esperavam os pães de mel assarem, ela se aproximou carinhosamente dele e o abraçou com força. O garoto a abraçou de volta, encostando o rosto no ombro dela. A menina com doçura acariciou os cabelos dele.

— Por que você estava triste mais cedo?

O sorriso de Crânio se apagou e uma sombra perpassou suas feições, que tinham se tornando mais alegres na última meia hora. Apertou os braços em volta de Magrí e apoiou o queixo no topo da cabeça da menina — vantagens de ter crescido mais do que ela — e com um suspiro, murmurou para os cabelos dela.

— Lembra que eu te disse em outros anos de como eu tenho más lembranças do Natal?

— Sim... — sussurrou ela com a voz um pouco abafada pelo abraço — Mas você nunca me dizia o porquê.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de prosseguir, com a voz embargada.

— Quando eu era criança eu tive um amigo de infância de quem eu gostava muito... Lembro dele até hoje — Magrí o sentiu sorrir — Nós brincávamos muito na rua fingindo ser Sherlock e o Watson, sabe? Claro que eu era o Sherlock e ele o Watson...

Crânio parou e riu fracamente da lembrança. A garota levantou a cabeça com um sorriso doce, dando um selinho no garoto. Ele prosseguiu, a tristeza voltando a traçar seu rosto.

— Numa véspera de Natal, eu e ele combinamos de brincar na rua depois do almoço. Estava um dia bem agitado... Muita gente pegando o carro para viajar para praia e essas coisas...

Ele parou e respirou fundo. O lábio inferior começou a tremer e Magrí tomou a mão direita dele fazendo leve círculos na pele com o polegar.

— Eu fui para o local onde sempre nós nos encontrávamos, mas ele estava demorando muito para aparecer. Fiquei impaciente e pensei em ir até a casa dele para saber o que aconteceu... Mas encontrei meu pai no meio do caminho. Estava me procurando para me contar que...

Crânio remexeu o pé e piscou os olhos. Magrí apertou a mão dele antes de abraçá-lo de novo. Colada junto dele, ela percebeu que o garoto deixou algumas lágrimas caírem. Aquilo apertou o coração da menina.

— O que houve? — perguntou suavemente.

Quando o garoto falou, quase tropeçou nas próprias palavras:

— Meu melhor amigo foi atropelado e morto por um idiota bêbado em frente à casa dele. Hoje completa dez anos desde de sua morte.

Eles ficaram em silêncio. Era possível ouvir somente o barulho dos empregados arrumando cada canto da casa para a grande ceia da noite, a voz de Joana dando ordens, a canção suave ainda ressoando no rádio, que se juntava ao assobiar do jardineiro da família tosando algumas mudas junto a mãe de Magrí.

Crânio não conseguiu segurar por mais tempo as lágrimas, e deixou-se chorar silenciosamente abraçado a Magrí. A garota comovida também sentiu a garganta fechar-se de novo ao imaginar todos aqueles acontecimentos, tomando para si as dores do amado.

Ela não conseguia imaginar se passando por uma situação horrível como aquela numa véspera de Natal. Agora as coisas faziam sentido. Ela sabia também o qual difícil foi para o namorado contar aquilo, porque o garoto tinha um pouco de dificuldade de falar de sentimentos, preferindo sempre mostrá-los.

Magrí levantou o rosto novamente e com fervor, beijou Crânio como se através de seus lábios pudesse tirar a dor que ele sentia. Era um daqueles beijos que deixa você zonzo e sem ar, tanto que quando finalmente se separaram, os dois pareciam que tinham corrido um maratona.

Não disseram nada, apenas se olharam com ternura, sabendo muito bem o que o outro estava pensando. Aquele tempo de namoro aperfeiçoou a conversa silenciosa que ambos desenvolveram nos anos de aventuras dos Karas. Não era necessário dizer nada, os carinhos que trocaram era a melhor comunicação naquele momento.

O forno apitou lembrando-os que ainda tinham muito o que fazer para terminar os pães de mel. Ainda em silêncio, passaram a trabalhar no recheio.

Quase um quarto de hora se passou até Crânio perguntar, voltando ao seu habitual bom humor:

— Isso tudo é para mim, espero? Esse cheiro está me dando fome...

Magrí riu.

— Mas é claro que não, você vai passar mal se comer tudo isso! Alguns são para você, a outra parte já tem dono.

Crânio parecia realmente uma criança que os pais haviam recusado o doce, quando retrucou:

— Posso saber quem é, então?

Magrí tomou-lhe as mãos com todo o seu jeitinho especial de falar e convencer. Não era à toa que o garoto, na maioria das vezes, sempre se dobrava aos desejos dela, pois era impossível para ele dizer não para aquela carinha tão linda.

— É a tarefa que você vai me ajudar daqui a pouco. Talvez seja uma forma de você passar a ter boas lembranças do Natal...

Crânio sabia que a garota estava deixando a decisão ser dele. Já não hora de superar o passado e transformar aquela data, que para ele sempre era motivo de luto, em algo mais feliz ao lado da menina que amava.

— Claro que sim — sorriu ele — Eu não ia querer perder isso por nada, quem sabe eu não consigo roubar mais pães de mel para mim.

Magrí deu-lhe um leve tapa no braço.

— Eu não deveria ter dado pão de mel naquele parque...

***

O casal de ex Karas desceram do táxi carregando duas grandes e pesadas caixas, toda enfeitada em clima de Natal. Estavam diante de um sobrado que parecia fora do tempo, num canto mais afastado e velho da cidade de São Paulo.

Era uma daquelas construções que deve ter tido sua glória e majestade no período colonial para hospedar barões e nobres da corte, mas que se tornou um lugar esquecido e quase abandonado, se não fosse por uma instituição que comprou e agora administrava o casarão.

Crânio observava o local sem entender quais eram os planos de Magrí. A menina estava à frente esperando ser atendida após tocar a campainha, e o garoto se aproximou tentando espiar pelas frestas do portão.

A menina sabendo das perguntas silenciosas do namorado, apontou para a placa de metal grudada no muro:

LAR PARA CRIANÇAS

ORDEM DAS IRMÃS DA DIVINA MISERICÓRDIA

O caseiro veio e deixou o casal entrar, cumprimentando Magrí com entusiasmo e tirando a caixa das mãos da garota. O senhor também estendeu seus cumprimentos para Crânio com uma alegria que era difícil de entender para o rapazinho. Afinal de contas, aquele lugar parecia tão mórbido para ele, que imaginava que os moradores seguissem o humor do local.

Os dois foram conduzidos para uma ampla sala no centro do casarão, onde era possível ouvir vozes alegres de crianças que brincavam com suas cuidadoras, mais uma vez surpreendendo Crânio. Quando viram Magrí entrando, um bando de meninos e meninas barulhentos cercaram a garota como um enxame de abelhas.

—Quem bom ver você também, pequena Júlia! Estava com saudades! Ah como você cresceu, Natanael! Já é quase um homenzinho! Sim, eu trouxe presentes e doces para todos, mas só depois da hora da leitura...

Ela abraçava e beijava cada rostinho que se aproximava dela como se conhecesse cada um deles por anos. Crânio, observando a cena de longe, sentiu o coração se aquecer no peito. Era possível que estivesse mais apaixonado? Ela parecia tão à vontade, tão feliz cercada por aquelas crianças que ele imaginou rapidamente aquelas crianças como seus filhos com ela...

Magrí o chamou para que se aproximasse e as crianças o conhecessem — quando souberam que se tratava do namorado da sua amiga favorita, as crianças riram e fizeram gracinhas.

— Vocês podem se beijar para eu ver? — disse Júlia mostrando seu sorriso banguela — Eu nunca vi um beijo de verdade!

As outras crianças concordaram com entusiasmo, fazendo uma algazarra.

— Eu não acho que as tias de vocês vão aprovar — disse Crânio beliscando com carinho a bochecha da pequena Júlia.

Uma das irmãs religiosas, que parecia ser a mais velha e líder, sorriu com carinho:

— Realmente não é adequado, mas como é véspera de Natal... Eu não vou olhar!

Ela virou-se de costas escondendo o rosto ao som dos risos de entusiasmo das crianças, que fizeram coro batendo mãos e pés.

— Beija! Beija! Beija!

Crânio e Magrí, rindo e os dois sem graça pelo pedido, acabaram por ceder. Havia um brilho especial nos olhos do garoto, a menina percebeu, quando com ternura, ele segurou o rosto dela entre as mãos e selaram seus lábios.

Não foi um beijo longo, porém foi suave e aquecido como pão de mel, cheio de carinho e suspiros apaixonados das crianças que estavam de platéia. Quando se separaram, vieram os aplausos e vivas de todos os presentes, enquanto os dois coravam.

Na hora em que todos se sentaram para ouvir a irmã ler para eles uma história, Crânio sussurrou no ouvido de Magrí:

— Obrigado por tudo. Te amo.

Deu um beijo rápido na bochecha da menina. Ela murmurou se aconchegando no ombro dele e repetindo o gesto, beijando-lhe a bochecha.

— Também te amo muito. Fico feliz em vê-lo sorrindo...

A voz suave da irmã enquanto lia era um bálsamo para os presentes, que devoravam os pães de mel, que por sinal estavam deliciosos. A história lida já era muito conhecida, mas para Crânio e Magrí, ganhou um significado muito especial daquele Natal em diante. Crânio passou a adorar a data e não mais se entristecer ao se aproximar dela. As visitas àquelas crianças se tornaram frequentes e a memória do seu amigo de infância se tornou menos dolorosa.

Uma lembrança de sua infância veio à tona enquanto prestava atenção na história sendo narrada. Lembrou-se de quando também foi criança numa véspera de Natal e como naquele ano, estava desacreditado e deprimido, se não fosse pela garota especial ao seu lado, seu sorriso doce e seus pães de mel.

De novo ela o resgatou de si mesmo, tal como um anjo enviado pelo Criador. Sorriu com emoção. E as palavras finais da história ficaram gravadas em seu coração:

"... E como dizia o pequeno Tim" — lia a irmã — "Deus abençoe cada um de nós!"

Notas finais
No próximo conto: E se Crânio e Magrí não tivessem se entendido após o final de Droga de Americana? Os dois se encontram numa festa de réveillon de um colega da escola, e uma esperança ressurge. Mas tem gente querendo que o casalzinho não se entenda... Um dos Karas, porém sem querer, toma a missão para si de unir os amigos! Feliz Natal!